A Capa de "Chant Down Babylon", tributo hip-hop ao rei do reggae. | Foto: reprodução internet

Covers, tributos, versões: para manter vivos grandes ídolos

Foto: reprodução internet

Bob Marley está entre os artistas que mais possuem covers de suas músicas em todo o mundo.

No início da era das gravadoras, a distribuição dos discos era bastante regional. Quando uma música começava a tornar-se muito popular numa região, era comum que gravadoras concorrentes, de outras regiões, gravassem a mesma música com outro intérprete e a distribuísse em sua área. A cobertura de uma nova área deu origem às primeiras covers (cover=cobertura, em inglês).

Muitos artistas e bandas iniciaram suas carreiras fazendo covers. Afinal, é uma maneira segura de mostrar seu talento vocal e/ou instrumental, sem a preocupação de apresentar um repertório desconhecido. Alguns fazem do cover sua carreira, apresentam-se com frequência em bares, festas ou casamentos e conseguem um bom salário.

Elvis Presley, Michael Jackson, Beatles, U2… Para cada um desses, há inúmeros artistas mundo afora, cantando suas músicas, trazendo seu repertório às novas gerações. Assim acontece com Bob Marley, ícone da música jamaicana, que ajudou a divulgar o reggae. O número de covers de Marley é tão expressivo que, em seu site oficial, há uma área exclusiva para divulgá-los.

Há versões famosíssimas, nas vozes de cantores igualmente famosos, como I Shot The Sheriff, com Eric Clapton e Could You Be Loved, com Joe Cocker. Outras, mais contemporâneas, mas também interpretadas por cantores famosos, como Jack Johnson e Ben Harper (High Tide or Low Tide) e Rihanna (Is This Love). Mas há, também, versões maravilhosas e emocionantes, nas vozes de aspirantes, de quase anônimos, de artistas de rua. Só para ter se uma ideia, colocamos aqui dois vídeos (assista abaixo), um da França, com Tamara Nivillac e outro da Inglaterra, com AHI e sua filha, uma graça!

Um projeto extremamente interessante e que tem muita afinidade com o mundo dos covers é o Playing For Change, idealizado por dois americanos, Mark Johnson e Whitney Kroenke. O projeto viaja o mundo todo, filmando e gravando a interpretação de vários artistas, para uma mesma música. Depois, tudo é editado e agrupado numa só versão, com os diferentes intérpretes cantando juntos (apesar de fisicamente separados!). Canções dos Beatles, Rolling Stones e, é claro, Bob Marley, são uma constante nos 3 álbuns. O projeto gerou a ONG Playing For Change Foundation, bem alinhada com os princípios que Marley defendia, dedicada a construir escolas de artes e música pelo mundo.

Uma linda versão da música War/No More Trouble, de Bob Marley, está no álbum “Songs Around the World”, lançado em 2009 pelo Playing For Change (assista abaixo). War é derivada de um discurso feito por Haile Selassie (imperador etíope, considerado Deus pelos rastafáris), que Marley adaptou e musicou.

Outro tipo de cover é aquele que dá nova roupagem às canções. Nesse estilo, em 1999, foi lançado um CD chamado “Chant Down Babylon”, no qual canções de Bob Marley foram remodeladas no estilo hip-hop e interpretadas por gente como Erykah Badu, Lauryn Hill e Steven Tyler (ouça abaixo, na íntegra). No mesmo ano, o DVD “One Love All-Star Marley Tribute”, documentou o concerto em homenagem ao CD (“Chant Down Babylon”). Além da presença de parte dos artistas que trabalharam no CD, outros, como Jimmy Cliff e Tracy Chapman, também participam. De quebra, faixas bônus, com canções interpretadas pela família Marley. Um grande show e um DVD de qualidade excepcional!

Para finalizar, duas dicas de interpretações que também valem a pena ser vistas, ambas no programa The Voice. A primeira, Mitchell Brunings, cantando Redemption Song, na versão holandesa de 2013 e a segunda, Anita Antoinette (jamaicana), na versão americana que está atualmente no ar, com Turn Your Lights Down Low.

Ouça o disco “Chant Down Babylon” na íntegra:

O cantor e compositor jamaicano John Holt (11/07/1947 - 19/10/2014) | Foto: reprodução internet

John Holt e a Jamaica das grandes vozes

No último mês de outubro, a música perdeu uma de suas belas vozes, o jamaicano John Holt. Integrante da “old school” jamaicana, que deu de presente ao mundo tantas outras vozes, Holt iniciou a carreira muito cedo e aos 16 anos já gravava seu primeiro single, Forever I’ll Stay/I Cried a Tear. Ficou conhecido na Jamaica e fora dela quando, em 1965, passou a integrar o grupo de rocksteady The Paragons, com quem emplacou sucessos que influenciaram outros grupos, como o britânico Blondie, que em 1980 gravou sua versão para The Tide Is High, de autoria do jamaicano.

Em 1970, John Holt deixou os Paragons para seguir carreira solo. Vieram outros grandes feitos na carreira do cantor e compositor, considerado um precursor do lovers rock, subgênero do reggae cuja temática é mais leve e a melodia mais suave, aproximando-se da soul music.

O cantor jamaicano Toots Hibbert, do grupo Toots & The Maytals: uma das vozes mais potentes da Jamaica. | Foto: reprodução internet

O cantor jamaicano Toots Hibbert, do grupo Toots & The Maytals: uma das vozes mais potentes da Jamaica. | Foto: reprodução internet

Se você é apreciador de música jamaicana e costuma frequentar o nosso site, sabe que os parágrafos acima não são suficientes para descrever a carreira deste grande artista. Deve saber, ainda, que sua trajetória guarda semelhanças com a de vários outros artistas jamaicanos, igualmente talentosos, que conquistaram notoriedade internacional e construíram carreiras brilhantes na música, a despeito das condições desfavoráveis a que foram submetidos, considerando a realidade da indústria musical jamaicana nas décadas que coincidem com o período do surgimento de todos eles.

A proposta da seção “Reggae Legends” em nosso site é contar em detalhes a trajetória destes ícones jamaicanos e cada um deles será devidamente retratado ali. Mas a matéria que você lê agora tem outra proposta e surgiu de uma reflexão (por ocasião do falecimento de John Holt) sobre o universo musical jamaicano e sua riqueza artística, com suas belas melodias e principalmente suas grandes vozes, por vezes potentes e cheias de vigor, por outras suaves e carregadas de sentimento. Ou tudo isso ao mesmo tempo.

Nosso objetivo com este post é tão somente dividir com o leitor o prazer de ouvir a autêntica música jamaicana (em suas diferentes nuances) e alguns de seus grandes intérpretes, bastante celebrados mundo afora, mas infelizmente pouco conhecidos do público brasileiro. Deixando claro que não há qualquer pretensão de esgotar o tema, já que seria tarefa ingênua e certamente fadada ao fracasso.

Fizemos uma pequena lista (haverá outras), com alguns clássicos jamaicanos interpretados por artistas como John Holt, Owen Gray, Jackie Edwards, Delroy Wilson, Freddie McGregor, Beres Hammond e Toots Hibbert (há muitos, muitos outros). Do estilo suave e romântico ao mais dançante, o que importa aqui é deixar-se levar pelas melodias e saborear algumas das mais deliciosas vozes da Jamaica. Que tal?

Seja bem-vindo à Jamaica das grandes vozes! Apenas aperte o play e aumente o volume. O resto acontece.

Ouça o playlist especial “Singer’s Selectah Vol. 1” (by Jamaica Experience):

foto: divulgação Easy Star All-Stars

Discos-tributo: tudo pode virar reggae!

Já é mais do que sabido que o reggae, nascido na Jamaica, espalhou-se pelo mundo e influenciou diversos artistas e bandas. Porém, outro fenômeno que vem acontecendo ao longo dos últimos 10 anos, são as versões reggae de canções que originalmente fizeram sucesso em ritmos que vão do rock ao country. Assim como o Sambô faz no Brasil, transformando tudo em samba, alguns grupos são praticamente especialistas em transformar tudo em reggae.

foto: divulgação Easy Star All-Stars

A banda Easy Star All-Stars

Talvez o mais famoso de todos, a banda jamaicana/americana Easy Star All-Stars, lançou, em 2003, sua interpretação para o clássico “The Dark Side of the Moon”, de Pink Floyd. Com o título de “Dub Side of the Moon”, o álbum traz as faixas na mesma ordem do original, todas retrabalhadas e, de fato, muito interessantes. A partir do sucesso desse projeto, a banda lançou, em 2006, “Radiodread”, com covers do álbum “OK Computer”, do Radiohead. Três anos mais tarde, lançou um tributo ao disco dos Beatles, “Sgt.Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, chamado “Easy Star’s Lonely Hearts Dub Band” e, em 2012, foi a vez de homenagear “Thriller”, de Michael Jackson, com “Easy Star’s Thrillah” (ouça abaixo). Os fãs dos originais, como esperado, ficaram apreensivos, temendo que os tributos ficassem parecendo paródias. Felizmente, não foi que aconteceu: músicos competentes e vozes bem escolhidas para cada faixa, arranjos harmoniosos e participações especiais de peso, fizeram com que os 4 discos fossem respeitados e ganhassem seu próprio público.

foto: divulgação Radio Riddler

O duo Radio Riddler

Outra banda que tem feito um belo trabalho, na mesma linha, é Radio Riddler. Na verdade, trata-se de um duo, Brian Fast Leiser e Frank Benbini, integrantes da banda americana FLC (Fun Lovin’ Criminals). Começaram com um EP, fazendo versões reggae de 5 canções de  Marvin Gaye, nas quais utilizaram sua voz à capela. Depois, lançaram seus remixes favoritos no álbum “Dubplate’s Volume 1” e, recentemente, comemorando os 30 anos do lançamento de “Purple Rain”, de Prince, produziram “Purple Reggae” (ouça abaixo). Com participações especiais como as de Ali Campbell, do UB40, cantando Purple Rain, e Sinead O’Connor, em I Would Die 4 U, o resultado realmente surpreende e explica os longos 5 anos de execução do projeto, assim como os mais de 20 milhões de cópias vendidas.

Dois outros exemplos de discos-tributo são o “80’s Go Reggae” (ouça abaixo) e o “Reggae’s Gone Country”. No primeiro, grandes sucessos dos anos 80, como Holding Back the Years, do Simply Red e Nothing Compares 2U, de Prince (mas que estourou na voz de Sinead O’Connor), muitas vezes até melhoraram os originais, um pouco melosos ou muito datados daquela década. Um álbum para morar no seu tocador de música e ouvir sempre que der vontade.

Já o “Reggae’s Gone Country” (ouça abaixo) é mais irregular. Nem todas as canções combinam muito com o novo ritmo, o que faz com que o produto final pareça mais um reggae de Nashville, bastante profissional, mas sem o calor e o jingado de Kingston. Vale conferir a pegada jazz em Don’t It Make My Brown Eyes Blue, com a jamaicana ganhadora do The Voice USA, Tessanne Chin, e a versão bem animada de Freddie McGregor para The King of the Road.

foto: reprodução internet | Jamaica Experience

A onda jamaicana que invadiu o Reino Unido

Os primeiros imigrantes jamaicanos desembarcando no Reino Unido. | foto: reprodução internet

Os primeiros imigrantes jamaicanos desembarcando no Reino Unido.

Nos anos 1950, o Reino Unido ainda sofria as consequências do pós-guerra, a economia estava enfraquecida e havia falta de mão de obra. O governo britânico, então, encorajou a imigração a partir de suas colônias, oferecendo oportunidades de emprego. Entre esses imigrantes estava um grande número de jamaicanos, que se estabeleceram principalmente em Londres.

Diferentemente do que acontecia nos EUA, onde já havia comunidades negras, os jamaicanos em Londres viviam isolados. Faziam festas familiares, reuniam os amigos e ouviam rock e rythm and blues americanos. No início dos anos 1960, o ska começou a tomar conta da Jamaica e a situação mudou, pois os dois maiores distribuidores de discos de ska na época, Emil Shalit e Mrs King, estavam em Londres.

A música era uma forma de identificação muito forte e significativa para os imigrantes jamaicanos. Quando recebiam seus salários, corriam para as lojas de discos. Em pouco tempo, os sound systems, já tradicionais na Jamaica, começaram a aparecer em Londres.

O primeiro sucesso a alcançar o topo das paradas inglesas foi My Boy Lollipop, com Millie Small, em 1964. Porém, o grande impulso à música jamaicana viria em 1968, com a Trojan Records. A empresa, fundada pelo jamaicano Lee Gopthal, tornou-se a maior distribuidora de rocksteady e posteriormente de reggae, no Reino Unido. Seus maiores clientes eram os produtores jamaicanos Clement ‘Coxson’ Dodd, Arthur ‘Duke’ Reid, Leslie Kong e Prince Buster.

No final dos anos 1960, com o surgimento do reggae, na Jamaica, o papel da música tornou-se ainda mais importante. As letras tinham rebeldia, eram antigoverno, antiestado e iam ao encontro dos pensamentos da juventude negra, consciente e politizada de Londres.

Em 1972, Bob Marley assinou com a CBS Records, em Londres, e saiu em tour com o americano Johnny Nash. O reggae, definitivamente, explodia no Reino Unido. Em 1973, os Rolling Stones gravaram Cherry Oh Baby, do jamaicano Eric Donaldson e um ano depois, Eric Clapton gravou I Shot the Sheriff, de Bob Marley & The Wailers.

Começaram a surgir bandas de reggae inglesas, como Steel Pulse, UB40 e Aswad. Paralelamente, nascia, também, o Lovers Rock, uma espécie de subgênero do reggae, com temas românticos. No caso das bandas, foi difícil para elas serem aceitas pela juventude negra, que não as considerava autênticas. No entanto, acabaram encontrando seu público: os punks. Foram eles os responsáveis pelo sucesso do reggae. Em 1977, The Clash gravou Police and Thieves, de Junior Murvin e bandas pop como The Police, Culture Club e Madness, eram claramente influenciadas pelo estilo nascido na Jamaica.

Já o Lovers Rock começou como uma sacada de produtores, como Dennis Bovell. Eles achavam o reggae um estilo machista, que colocava as garotas apenas como backing vocals. Então, resolveram colocá-las na frente, cantando baladas românticas, incluindo hits da Motown, no ritmo do reggae. Uma das primeiras foi Janet Kay, que teve grande sucesso com Silly Games. Count Shelly, que gravou Ginger Williams’s Tenderness, em 1974, e Louisa Mark, com Caught You in a Lie, foram outros nomes desse gênero, que se firmou com a criação de uma gravadora de mesmo nome.

"Lovers Rock", álbum de Sade.  |  foto: reprodução internet

“Lovers Rock”, álbum de Sade.

O Lovers Rock, diferente do reggae tradicional, era apolítico, mais suave e foi, aos poucos, invadindo as cidades britânicas e levando uma mensagem de união racial. O estilo assumiu a condição de genuína música negra britânica. Nos anos 1980, o estilo se consolidou e ganhou novos adeptos, como Sade e Sugar Minott. Já os jamaicanos Dennis Brown, Gregory Isaacs e Johnny Osbourne, que passaram muito tempo em Londres, levaram o estilo de volta para suas origens.

Em 2011, a BBC Four apresentou um documentário em quatro programas, chamado Reggae Britannia. Para aqueles que quiserem se aprofundar a respeito da importância do reggae e sua influência no Reino Unido, vale a pena assistir.

Ouça “Greatest Hits”, coletânea do The Police:

foto: reprodução internet

Jamaicanos famosos, parte dois: difícil escolher…

Há pouco falamos a respeito de alguns jamaicanos ilustres, que fizeram sucesso em áreas que não o esporte e a música. A lista é tão extensa, surpreendente e interessante, que não pudemos resistir e  resolvemos trazer mais algumas histórias.

Grace Jones, por exemplo, nasceu na Jamaica e morou lá, com os avós, até os 13 anos de idade. Foi quando ela e seus familiares mudaram para Nova Iorque, onde seus pais trabalhavam. Muito tímida e magra, sofria bulling na escola, porém, compensava saindo-se muito bem nos esportes. Aos 18 anos, iniciou a carreira de modelo, nos EUA, e em 1970, aos 22, mudou-se para Paris. Sua aparência andrógina fez grande sucesso na cena parisiense e Jones desfilou para Yves St. Laurent e Kenzo e foi capa de revistas como Elle e Vogue. Em Paris, Grace Jones dividia apartamento com Jerry Hall (ex-mulher de Mick Jagger) e Jessica Lange (atriz de King Kong, 1977).

O visual andrógino de Grace Jones foi uma grande influência no movimento "power dressing" dos anos 80 | fotos: reprodução internet

O visual andrógino de Grace Jones foi uma grande influência no movimento “power dressing” dos anos 80 | fotos: reprodução internet

Em 1977, Grace Jones assinou contrato com a Island Records e fez grande sucesso com músicas disco. Após lançar 3 álbuns nesse estilo (“Portfolio”, “Fame” e “Muse”), Jones embarcou no New Wave, lançando os álbuns “Warm Leatherette” (1980) e “Nightclubbing” (1981). Por essa época, adotou o visual com o qual ficou mais conhecida, o corte de cabelo em formato quadrado e roupas acolchoadas.

Grace Jones ao lado de Arnold Schwarzenneger em "Conan, o Destruidor" | foto: divulgação

Grace Jones ao lado de Arnold Schwarzenneger em “Conan, o Destruidor” | foto: divulgação

Em 1984, novos rumos: Grace Jones atuou no filme “Conan, o Destruidor”, com Arnold Schwarzenneger e, no ano seguinte, em “007, A View to a Kill”. Em ambos os casos, foi indicada como melhor atriz coadjuvante.

Grace Jones retomou sua carreira musical e lançou diversos outros discos, sendo o mais recente “Hurricane”, de 2008.

Harry Belafonte, hoje um senhor de 87 anos, não é jamaicano de nascimento, mas americano. Após a separação de seus pais, Harry foi enviado para a Jamaica, terra natal de sua mãe, para viver com parentes. Viveu na ilha durante sua infância e viu de perto a opressão que as autoridades inglesas exerciam sobre o povo negro. Isso o marcou profundamente.

No início da adolescência, voltou a viver com a mãe, no Harlem. Alistou-se na Marinha e lutou na 2ª Guerra Mundial. Após desligar-se da vida militar, ficou um tanto sem rumo e teve vários empregos até achar inspiração ao assistir uma apresentação no American Negro Theater.

Passou a estudar teatro e teve como colegas Marlon Brando e Walter Matthau. Para financiar seu curso de teatro, Belafonte começou a se apresentar como cantor. Primeiro, canções mais pop, depois, passou a se interessar por música folk e, mais adiante, o calipso. É dessa fase o seu maior sucesso, Banana Boat Song (Day-O), do álbum “Calypso”. Além de introduzir na América um novo gênero musical, o álbum “Calypso” foi o primeiro a vender mais de um milhão de cópias.

Harry Belafonte foi apelidado de "Rei do Calypso" | foto: reprodução internet

Harry Belafonte foi apelidado de “Rei do Calypso” | foto: reprodução internet

Belafonte foi um dos organizadores do grupo que gravou We Are The World  |  foto: reprodução internet

Belafonte foi um dos organizadores do grupo que gravou We Are The World | foto: reprodução internet

Paralelamente à carreira musical, Harry Belafonte atuou no cinema e na televisão. Contudo, outra faceta muito importante foi a de ativista político. Ele apoiou o Movimento dos Direitos Civis nos EUA, nos anos 1950, e foi amigo de Martin Luther King. Muitos anos depois, nos anos 1980, teve a ideia de ajudar as crianças da Etiópia, lançando uma canção interpretada por ele e outras celebridades. We Are The World, de Michael Jackson e Lionel Ritchie foi gravada em 1985 e, com enorme sucesso, levantou milhões de dólares para a causa.

Ao longo dos anos, Belafonte apoiou diversas outras causas humanitárias. Além de Embaixador da Boa Vontade, pela UNICEF, lutou para o fim do apartheid, na África do Sul, e foi contra as ações militares americanas no Iraque.

Motivos de orgulho para a Jamaica, por seu talento e seus ideais, Grace Jones e Harry Belafonte são exemplos da diversidade de tipos interessantes que a pequena ilha do Caribe tem sido capaz de produzir.

Ouça “Slave To The Rhythm”, da coletânea “Island Life”, de Grace Jones:

foto: reprodução internet

Reggae: boa música (também) para crianças

Outubro é o mês da criança e criança adora música! Se for reggae, então, nem se fala… Com ritmo bem marcado e dançante, a música da Jamaica contagia os pequenos. Porém, nem todas as letras e temas são interessantes para eles. Assim, fizemos aqui uma pequena seleção de títulos que vão agradar os filhos, sem complicar a vida dos pais.

O primeiro é  “The Disney Reggae Club”, no qual canções de clássicos como Mogli, A Pequena Sereia e Rei Leão, entre outros, foram transformadas em versões reggae, cantadas por artistas como Ziggy e Cedella Marley, Yellowman e Gregory Isaacs e bandas como UB40 e Steel Pulse. As músicas ficaram tão gostosas de ouvir que a gente chega a pensar que deveriam ter sido lançadas como reggae, desde sempre! Alguns destaques são Bare Necesseties (Mogli), com Steel Pulse, e Under the Sea (A Pequena Sereia), com Gregory Isaacs.

O segundo é “B Is For Bob”. Produzido pelo filho mais velho de Bob Marley, Ziggy, o disco traz remixes de músicas consagradas como Three Little Birds, Redemption Song e Stir It Up. No total, são 12 faixas, sendo 8 remixes, mais 4 que foram mantidas originais (Could You Be Loved, One Love/People Get Ready, Lively Up Yourself e Wake Up and Live, Part 1). Para tornar as músicas mais atraentes às crianças, alguns instrumentos foram subtraídos, outros, adicionados. A transformação mais marcante talvez seja a de Jamming, que ficou meio africana, com sons de tambores e tudo mais.

Finalmente, “Family Time”: alegre, cativante, delicioso de ouvir! Lançado em 2009, por Ziggy Marley, foi considerado um dos melhores álbuns para crianças daquele ano. Dando continuidade ao seu trabalho voltado às crianças (ele é fundador da U.R.G.E., uma ONG que apoia causas de caridade voltadas a crianças da Jamaica, Etiopia e outras partes do mundo), Ziggy reuniu canções próprias e algumas tradicionais da Jamaica, como This Train e Wings of an Eagle. Além de Ziggy Marley, participam do disco sua mãe, Rita Marley, sua irmã, Cedella Marley e convidados como Willie Nelson, Jack Johnson e Paul Simon. Além de onze canções, o disco termina com 2 historinhas narradas por Jamie Lee Curtis, atriz de filmes como “True Lies” e “Sexta-feira Muito Louca”.

É muito importante apresentar boa música para as crianças e esses, certamente, são ótimas opções. Além do mais, aguçam os sentidos e abrem as portas para o mundo do reggae. Vale ouvir em casa, ou manter no carro, para cantar junto com as crianças, durante uma gostosa viagem.

Ziggy em dois momentos de sua vida: quando criança, cantando com o pai, Bob Marley, e adulto, com sua família.  |  fotos: reprodução internet

Ziggy em dois momentos de sua vida: quando criança, cantando com o pai, Bob Marley, e adulto, com sua família.

foto: reprodução internet

Tessanne Chin, uma das (grandes) vozes da Jamaica

A Jamaica tem uma extensão territorial de aproximadamente 11.000 km². Sergipe, o menor estado brasileiro, tem cerca de 22.ooo km². Essa comparação serve apenas para ilustrar a pequena dimensão territorial da Jamaica no planeta, porém, ajuda a tornar ainda mais surpreendente a importância dessa pequena ilha no universo da música.

Jimmy Cliff, o padrinho musical de Tessane Chin.  |  foto: reprodução internet

Jimmy Cliff, o padrinho musical de Tessane Chin.

Até os anos 1940, na Jamaica, havia pouco acesso à musica que se ouvia pelo mundo. Uma única emissora de rádio transmitia basicamente notícias e tocava umas poucas canções americanas. Entre os anos 1940 e 1950, no entanto, esse panorama mudou drasticamente. Começaram a aparecer os sound systems, que trouxeram música às ruas e às festas; a invenção do transistor popularizou os rádios e os espalhou pelas casas, lojas e escritórios; com tantos aparelhos, a ilha ganhou duas emissoras de rádio realmente estruturadas e capazes de entreter o público.

O país que em sua alma, na alma de seu povo majoritariamente negro, era musical somente através do folclore e das músicas religiosas, começaria a tornar-se um grande produtor de gêneros musicais e grandes cantores. Em 1961, foram gravadas as primeiras músicas realmente jamaicanas: Easy Snapping, de Theophilus Beckford e Boogie in My Bones, de Laurel Aitken.

Tessane Chin e Adam Levine, do Maroon 5, seu treinador no The Voice.  |  foto: reprodução internet

Tessane Chin e Adam Levine, do Maroon 5, seu treinador no The Voice. | foto: reprodução internet

Em 1968, surgiu o reggae. Desmond Dekker, que teve sucessivos hits nesse novo período, atingiu um feito histórico com a música Israelites, que foi número um nas paradas inglesas e ficou entre as dez mais pedidas da Billboard americana. Feito ainda maior se considerarmos que esta foi a primeira década em que se produziu música genuinamente jamaicana.

Jimmy Cliff, um dos expoentes do reggae jamaicano, teve como backing vocal uma adolescente nascida na Jamaica, filha de pai descendente de chineses e mãe descendente de ingleses e africanos, Tessanne Chin. Seus pais faziam parte da banda The Carnations. Sua irmã mais velha, Tami Chynn, também é cantora.

Depois da experiência com Cliff, Tessanne começou a compor e iniciou carreira solo. Messenger e Hideaway foram dois de seus primeiros singles. Foram bem avaliados pela crítica, mas a carreira não decolava. Então, Shaggy, com quem ela também já havia trabalhado, insistiu para que Tessanne participasse do programa The Voice, em 2013.

Dona de um formidável controle vocal, ela foi capaz de interpretar canções de gêneros muito distintos durante o programa e saiu-se muito bem em todos eles. De Unconditionally (Katy Perry) a Bridge Over Troubled Water (Simon e Garfunkel), passando por Redemption Song (Bob Marley) e I Have Nothing (Whitney Houston).

Vencedora do concurso, Tessanne firmou um contrato com a Universal Music Group e lançou, no último mês de julho, seu novo álbum, “Count on My Love”. O estilo é soul/pop, com toques de reggae, é claro! A faixa Tumbling Down, uma balada, tem sido a principal faixa de trabalho. Além de uma extensa agenda de shows, Tessane também passou a ser requisitada em importantes eventos, como é o caso da apresentação na Casa Branca, para o presidente dos EUA, Barack Obama, e uma plateia seleta de convidados (assista ao vídeo acima).

E a Jamaica não para de produzir talentos. Na edição atual do The Voice americano (7ª temporada), há mais uma jamaicana participando. Anita Antoinette, nascida em Kingston, foi para os EUA aos 8 anos de idade e é estudante de música. Turn Your Lights Down Low, de Bob Marley, foi a canção que a fez conquistar os jurados. E desta vez, será que mais uma das belas vozes da Jamaica será a vencedora novamente?

Tessane Chin leva o público ao delírio com sua performance vocal.  |  foto: reprodução internet

Tessane Chin leva o público ao delírio com sua performance vocal. | foto: reprodução internet

Ouça na íntegra o disco “Count on My Love”, de Tessane Chin:

foto: reprodução internet

The Harder They Come: o filme que mostrou a Jamaica ao mundo

Jimmy Cliff é o protagonista de "The Harder They Come" | foto: reprodução internet

Jimmy Cliff é o protagonista de “The Harder They Come” | foto: reprodução internet

Apenas 10 anos após a Jamaica tornar-se independente, em 1972, foi produzido no país o filme que é até hoje considerado o mais importante. “The Harder They Come” (no Brasil, “Balada Sangrenta”), protagonizado pelo cantor de reggae Jimmy Cliff, foi o primeiro longa-metragem a ser totalmente filmado na Jamaica, com elenco e diretor jamaicanos. Mais do que isso, mostrava a realidade de exploração e crimes que aconteciam na capital, Kingston. A trilha sonora, com músicas de Desmond Dekker, Toots and the Maytals, além do próprio Cliff, ajudou a popularizar o reggae pelo mundo.

A história do filme é inspirada na vida de um criminoso que ganhou fama na ilha, nos anos 1940. Seu nome era Vincent “Ivanhoe” Martin, mais conhecido como Rhyging. Por seus sucessivos crimes de roubo e assassinatos, além de várias fugas da prisão, Rhyging tornou-se um fora da lei lendário na Jamaica. Sua vida foi glamurizada e ele virou uma espécie de herói popular.

fotos: reprodução internet

“The Harder They Come” foi totalmente filmado na Jamaica.

Em “The Harder They Come”, dirigido por Perry Henzel, Cliff faz o papel principal e se chama Ivanhoe (ou apenas Ivan) Martin. A história se passa nos anos 1970; Ivan é um garoto do interior que vai para Kingston, a fim de tentar a carreira de cantor. Em meio às dificuldades e tensões sociais da época, ele acaba cometendo um furto e sendo convidado a trabalhar no tráfico de drogas. Ivan/Cliff escreve a canção que dá nome ao filme e a mostra a um produtor que, apesar de se interessar por ela, lhe paga uma miséria.

Ivan envolve-se  numa sucessão de crimes ligados ao tráfico, mata várias pessoas, incluindo policiais, e foge diversas vezes. Paralelamente, o tal produtor musical lança a música composta por Ivan/Cliff, que se torna um sucesso instantâneo. No final… não, é melhor assistir para saber!

“The Harder They Come” fez de Perry Henzel o mais importante diretor jamaicano, promoveu o reggae na Europa e nos EUA e levou a carreira musical de Jimmy Cliff ao estrelato. Ele, que na época já era conhecido e admirado por músicos como Bob Dylan, tornou-se um dos grandes astros do reggae.

Em 2005, o filme foi adaptado para o teatro, no Reino Unido, e apresentado também em Miami e Toronto. O próprio Henzel cogitava fazer um remake ou uma continuação do filme, mas não concluiu o projeto e faleceu, em 2006. Sua filha, Justine Henzell, em parceria com uma companhia britânica e outra canadense, tem trabalhado há algum tempo no remake, mas as filmagens ainda não começaram.

Os grandes méritos do filme (além da trilha sonora incrível, e que o mantém tão significativo até os dias de hoje) são ter mudado a maneira de representar a Jamaica internacionalmente e ter espalhado sua música e cultura vibrantes pelo mundo.

Ouça a trilha sonora do filme “The Harder They Come”:

foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Kingston, a Hollywood jamaicana

Kingston está para a música jamaicana como Hollywood para o cinema americano. Espécie de Nashville do reggae, a cidade é o berço de artistas mundialmente consagrados como Bob Marley e Peter Tosh e foi retratada em incontáveis músicas, filmes e documentários ao longo dos anos. Famosa por sua rica e diversificada cultura, Kingston é um verdadeiro caldeirão de influências políticas, musicais e religiosas, que impactou o mundo de forma permanente.

Life Yard - Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Life Yard – Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Não há nenhuma outra cidade no mundo, comparável em tamanho e população a Kingston, que tenha produzido tanta música, durante tanto tempo e com tamanho impacto na cultura popular mundial. Em pouco mais de 8 km quadrados, a capital da Jamaica, que em 1960 contava com população de 123 mil habitantes, hoje é o lar de aproximadamente 500 mil pessoas e conhecida por ter sido o epicentro de um movimento que colocou a Jamaica no mapa da música mundial. O local foi ponto de partida de uma série infindável de aventuras sonoras e, para muitos artistas, independente de terem nascido na cidade ou migrado das áreas rurais, era sobretudo uma grande promessa de melhoria de vida, embora exigisse uma boa dose de instinto de sobrevivência. A proximidade dos músicos e a quantidade de estúdios num espaço urbano restrito podem ser alguns dos motivos, mas por si só não explicam tamanho potencial criativo ao longo de décadas. As deploráveis condições econômicas e sociais sob as quais a maioria dos artistas viveram foram os catalisadores para uma espécie de “exorcismo musical“, que em parte podem explicar este fenômeno.

O impacto da colonização afetou a Jamaica de forma contundente, começando com a Espanha, que em 1494 praticamente dizimou os nativos arauaques e depois com a Inglaterra, que tomou o poder em 1655 e iniciou um processo de escravização e importação de africanos para a ilha. Estabelecida em 1692, Kingston tornou-se a capital do país e, em 1892, passou a ser o principal porto comercial, desbancando Spanish Town. As bases para a injustiça social que empobreceram tantos jamaicanos ao longo do século XX, foram estabelecidas em Kingston durante o século XVII quando, sob o domínio britânico, a Jamaica tornou-se líder mundial na exportação de açúcar.

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

A exploração colonial das classes trabalhadoras, que garantiu a prosperidade da indústria do açúcar naquele período, levou a graves distúrbios sociais e fez Kingston entrar em colapso em meados de 1938. Mortes e tumultos deflagrados por circunstâncias políticas e raciais prenunciavam as crises das décadas seguintes. A “economia da sobrevivência”, gerada sobretudo pelo alto índice de desemprego, praticamente obrigou as pessoas a se mudarem para a capital, fazendo com que a população crescesse substancialmente na década de 1960. Como consequência, a cidade, que já sofria com a pobreza, se viu frente às inevitáveis competições por recursos, que por sua vez levaram à violência recorrente, ainda mais evidente durante as eleições gerais na ilha.

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

No início do século XX, o rastafarianismo surgiu como uma fonte poderosa de fé e resistência em Kingston. Embora Marcus Garvey (1887 – 1940), ícone jamaicano da libertação negra, não fosse ele próprio um Rasta, Kingston foi palco de muitos de seus inflamados discursos promovendo o nacionalismo negro e a independência, visão esta que era completamente alinhada aos ideias rastafáris. O rastafarianismo também ganhou adeptos fora da cidade, que foram forçados a mudarem-se para Kingston após uma série de ações policiais em áreas de plantação de maconha nos arredores da cidade. Em um destes ataques, mais de mil pessoas ficaram desabrigadas e muitas delas foram morar nas favelas urbanas da capital. Vários locais voltados à prática do rastafarianismo começaram a surgir por toda a ilha – especialmente nos arredores de Kingston – e a música passou a ser parte essencial deste movimento, cuja expressão artística e filosófica se fez cada vez mais presente e atraiu jovens e promissores músicos como Tommy McCook, que viria a estabelecer um marco na música jamaicana através do lendário grupo The Skatalites.

As raízes da cultura jamaicana, que estavam naturalmente muito sujeitas às influências africanas, com seus tambores e rituais espirituais de dança como a Kumina e Pukkumina, eram temperos evidentes no caldeirão cultural da cidade. Outros ingredientes, incluindo jazz, R&B, folk e até música country foram elementos que, somados, contribuíram para a criação do “algo novo” que estava por vir. Trenchtown tornou-se, ao mesmo tempo, residência de marginais  e inúmeros artistas cujo trabalho foi fortemente influenciado pelo instinto de sobrevivência.

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

A parte ocidental de Kinston era o núcleo da indústria musical jamaicana. Nas décadas de 50 e 60, Kingston era destino obrigatório para qualquer artista que alimentasse alguma esperança de ser gravado na ilha, já que ali estavam concentrados os melhores estúdios, produtores e músicos, que por sua vez sabiam como obter os melhores resultados. Conhecida informalmente como “Beat Street”, por motivos óbvios, a “Orange Street” era uma espécie de quartel general de produtores como Coxsonne Dodd, Prince Buster e Bunny Lee, entre muitos outros. Locais para audições e ensaios, estúdios, selos e até lojas de disco ficavam concentradas em uma relativamente pequena área da cidade, que incluía ainda a King Street (paralela à Orange Street), Beeston Street, Chancery Lane e North Parade (lar do Randy’s Studio, que mais tarde viria a se tornar a VP Records). Joe Gibbs, os irmãoes Hoo-Kim (do renomado Channel One), Clancy Eccles, Derrick Harriott e incontáveis outros produtores e artistas ocupavam o mesmo espaço, competindo entre si e muitas vezes colaborando uns com os outros para criar o próximo hit musical. Embora a indústria não tenha ficado limitada a esta região com o passar do tempo, Kingston continuou a ser vital e manteve sua vocação de núcleo de explosão criativa da música popular jamaicana. Para isso, muito contribuiu a cultura dos sound systems, com seus “dubplates” e sua capacidade de testar a audiência, antecipando tendências musicais ao público.

Por razões que excedem a lógica, era muito comum as músicas situarem o ouvinte, fazendo de Kingston mais que meramente o local onde as obras foram criadas, mas tornando-a parte essencial da narrativa musical. Em “Trenchtown Rock (1971), Bob Marley faz todos terem certeza de que o gueto está no centro da capital, na (graças a ele) mundialmente famosa “Kingston 12”. Mais tarde, em 1975, Marley mapeia a geografia urbana com “Natty Dread”, levando o público a uma viagem pela emblemática cidade. Por outro lado, “Kingston Town”, lançada originalmente por Lord Creator em 1970 e produzida por Clancy Eccles, idealiza a cidade como mágica, ao invés de trágica. A música ganhou outras versões e atingiu o topo das paradas no Reino Unido e na França, quando foi regravada pelos ingleses do UB40, 20 anos mais tarde, no início dos anos 90. Até mesmo em músicas instrumentais as vibrações Rasta vêm à tona, como em “Man From Wareika”(1976), do lendário trombonista Rico Rodriguez. Ele atribui a inspiração à sua ligação com um acampamento Rasta nas colinas dos arredores de Kingston.

Capa do filme "The Harder They Come", estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Capa do filme “The Harder They Come”, estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Outro fato importante é que um dos motivos por trás do sucesso do filme “The Harder They Come” (estrelado por Jimmy Cliff em 1972), segundo a crítica, é justamente o fato de o filme retratar a realidade de Kingston, cuja reputação à época tornava o local ao mesmo tempo perigoso e emblemático. O filme conta a história de Rhyging, um gangster pistoleiro que causava grande tumulto na cidade até ser morto pela polícia, em 1948. O personagem de Cliff retrata de maneira precisa a figura típica do camponês jamaicano, que migra da área rural para Kingston em busca de melhoria de vida e, ao só encontrar mais dificuldades e pobreza, se entrega à criminalidade em um ambiente desumano e nada inspirador.

Kingston também foi palco de terríveis batalhas políticas entre integrantes dos dois principais partidos do país: o PNP (People’s National Party) e o JLP (Jamaica Labour Party). Foram inúmeros os conflitos por território e poder, que culminaram na perda de dezenas de vidas ao longo de um duro processo, já que cada eleição geral na ilha reacendia a tensão política e a violência. Embora tenha sido um fenômeno característico dos anos 70, Kingston voltou às páginas policiais  internacionais recentemente quando, em 2010, um forte esquema policial foi montado para capturar um suposto bandido e traficante de drogas, chamado Cristopher “Dudus” Coke e extraditá-lo para os Estados Unidos. Espécie de “Robin Hood” jamaicano, Dudus era conhecido em Kingston como “The President” e considerado intocável pela população local, a despeito de todas as acusações contra ele. Interdições de estradas, barricadas, destruição e acusações de abuso policial, além de um número expressivo de homicídios de inocentes, provocaram reações furiosas da população e da classe artística contra a operação. “Don’t Touch The President”, de Bunny Wailer, tocou fundo na ferida e é considerada uma das principais músicas sobre o tema. De um modo geral, o evento só fez piorar a perspectiva de melhoria de vida dos habitantes da cidade, dada a repercussão negativa da cidade, que depende fortemente do turismo.

EDB Vinyl Thursday's | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

EDB Vinyl Thursday’s | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Mais que uma cidade turística, Kingston tem na criatividade do seu povo seu maior patrimônio histórico. Passado, presente e futuro se misturam num verdadeiro caldeirão cultural, que nasceu nos guetos locais e ganhou o mundo de forma incrivelmente impactante. Milhões de pessoas ao redor do mundo, sem sequer saber onde fica Trench Town, cantam e dançam músicas sobre o lugar. Não há dúvida de que Kingston está no topo da lista entre as cidades no mundo que mais contribuíram para a música e cultura globais.

foto: Acervo Gege Produções Artísticas | divulgação

Brasil, Jamaica: pro outro lado de lá

Já falamos, aqui, sobre um brasileiro que tem tudo a ver com a Jamaica: René Simões (René Simões, o brasileiro desbravador da Jamaica). Nesse caso, o elo de ligação era o futebol. Porém, há um outro elemento que une profundamente as duas nações: a música.

Ao que parece, a primeira vez que se ouviu falar em reggae no Brasil foi através de Caetano Veloso. Em 1971, ele gravou Nine Out of Ten (está no disco “Transa”, de 1972), na qual cita o som do reggae que ouvia na Portobello Road, na época em que vivia em Londres. Gilberto Gil, que também viveu exilado em Londres no mesmo período, só viria despertar para o ritmo mais tarde.

Em 1979, no LP Realce, Gil gravou a faixa Não Chore Mais, sua versão para No Woman, No Cry, de Bob Marley. Gil não conheceu Bob Marley, mas ficou amigo de Jimmy Cliff. Em 1980, excursionaram juntos pelo Brasil e lotaram todos os estádios por onde passaram.

Um encontro histórico: Gilberto Gil e Jimmy Cliff.  |  foto: Acervo Gege Produções Artísticas | divulgação

Um encontro histórico: Gilberto Gil e Jimmy Cliff. | foto: Acervo Gege Produções Artísticas | divulgação

Muito tempo depois, em 2002, Gilberto Gil lançou “Kaya n’gan daya”, uma homenagem a Bob Marley. O disco, de 16 faixas, foi gravado na Jamaica (13 faixas) e no Rio de Janeiro (as outras 3). Há releituras de clássicos como Three Little Birds e Buffalo Soldier , além de versões para Time Will Tell e Lively Up Yourself. Na Jamaica, Gilberto Gil gravou nos estúdios Tuff Gong , de Bob Marley, e contou com a participação dos vocais femininos das I-Three (Rita Marley [viúva do compositor], Marcia Griffiths e Judy Mowatt), em faixas como One Drop e Rebel Music (ouça abaixo).

Recentemente, o prestigiado jornal jamaicano Jamaica Observer publicou uma matéria em que compara a importância de Gil, para a música, a de Pelé, no futebol. Além disso, nomeia Gil o Marley brasileiro, por suas ideias e comentários, em defesa dos oprimidos.

Rita Lee, Baby Consuelo e Luiz Melodia, esses e outros artistas flertaram com o reggae. Os Paralamas do Sucesso foram muito influenciados pelo reggae e o ska jamaicanos, principalmente a partir do LP “Selvagem” (1986), que mudaria os rumos e a cara da banda (ouça abaixo o disco na íntegra).

Outra banda brasileira importante e fortemente ligada às raízes jamaicanas é o Skank (ouça abaixo Ela Me Deixou, nova música de trabalho da banda). Antes de se tornarem conhecidos, Samuel Rosa e Henrique Portugal tocavam numa banda de reggae mineira, chamada Pouso Alto.

Contudo, a banda brasileira de reggae por excelência é o Cidade Negra (leia matéria especial sobre a banda). Surgida na Baixada Fluminense, há 28 anos, a banda tem 13 LPs gravados, sendo que o mais recente, “Hei, Afro!”, foi mixado na Jamaica. Segundo Toni Garrido, a Jamaica está para a música, assim como o Japão está para a tecnologia. Em sua opinião, o que vai ser novidade daqui a 5, 6 anos é o que está acontecendo agora por lá.

Em 2011, um disco selou ainda mais a relação Brasil-Jamaica: “Bambas Dois” (assista acima ao clipe Only Jah Love, com participação do astro jamaicano Sizzla), produzido por Eduardo BiD e Gustah Echosound. Com 14 faixas, “Bamba Dois” reúne músicos brasileiros e jamaicanos em encontros primorosos, como em Little Johnny, com Chico César e Jah Marcus ou no xote Brasil (Little Sunday), com Ky-mani Marley e Dominguinhos. Misturando gerações e ritmos dos dois países, “Bambas Dois” resume um pouco da relação musical entre duas culturas tão diferentes e tão semelhantes, ao mesmo tempo. Uma relação que não se esgota, que sempre se renova e se atualiza.

“Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui…
Pro outro lado de lá
Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui…
Brasil, Jamaica”

Ouça o disco “Selvagem?”, do Paralamas do Sucesso: