O grupo No-Maddz | foto: reprodução Internet

Great times are coming. Ou: Big Things A Gwaan!

A menção ao famoso slogan publicitário de uma certa marca de cerveja guarda forte semelhança com um termo comumente usado na Jamaica, ambos com a mesma intenção e significado: anunciar um evento excepcional, algo de proporções significativas e que promete causar impacto.

Chronixx é considerado uma das maiores revelações do reggae jamaicano na atualidade | Foto: reprodução Internet

Chronixx é considerado uma das maiores revelações do reggae jamaicano na atualidade

Não sabemos se a tal marca de cerveja entrega ou entregará o que promete, mas temos razões de sobra para acreditar que a Jamaica vai entregar o que vem prometendo nos últimos anos. Já ensinamos aqui que devemos esquecer o termo “terceiro mundo” quando falamos de música jamaicana, já que há motivos de sobra para entender que a ilha deve ser reconhecida como uma das grandes potências mundiais nesta área (leia Música jamaicana: muito além de Bob Marley).

Se é verdade que o reggae viveu sua “golden era” nos anos 70 e 80, também é verdade que o gênero teve o seu merecido “revival” nos anos 90, quando novos artistas surgiram e antigos nomes retornaram à cena. No Brasil, o fenômeno teve papel decisivo e contribuiu para o surgimento de inúmeras bandas, que por sua vez contribuíram não apenas para a formação e renovação do público, mas sobretudo para a consolidação do gênero no país.

Protoje: legítimo representante da nova escola do reggae jamaicano | foto: reprodução Internet

Protoje: legítimo representante da nova escola do reggae jamaicano

Duas décadas depois, um movimento muito parecido àquele já dá sinais de força suficiente para que artistas e produtores jamaicanos afirmem que vem aí um segundo “reggae revival”. É bom deixar claro que a música jamaicana nunca saiu de cena. Basta lembrar dos midiáticos Shabba Ranks, Shaggy, Sean Paul e outros representantes do dancehall, que ganharam lá os seus Grammys, emplacaram seus hits nas rádios pelo mundo e venderam muito disco nas últimas duas décadas.

Mas aqui nos referimos ao reggae mais clássico, aquele que remete mais à fundação do reggae jamaicano, nas letras engajadas e no ritmo hipnotizante que (desculpem) eles sabem fazer como ninguém. O “reggae roots”, como gostamos de dizer por aqui. Que também nunca saiu de cena, mas que viu seu protagonismo na indústria musical jamaicana perder espaço para a nova onda do dancehall, com seus sintetizadores e sua temática em grande parte voltada à violência e sexualidade. Qualquer semelhança com o mundo (e o Brasil) não é mera coincidência.

Curioso notar como o período que compreende as últimas duas décadas coincide com as profundas mudanças por que passou a indústria da música em escala global. O surgimento da Internet, o avanço da pirataria, as disputas jurídicas entre os grandes conglomerados da indústria musical contra gênios prodígios, capazes de criar sistemas e algoritmos que revolucionaram a maneira como acessamos e consumimos informação, inclusive e principalmente música.

Na “era da informação”, foi a vez das grandes gravadoras verem o seu protagonismo e poder de influência cederem espaço às novas e surpreendentes plataformas de distribuição de conteúdo, através das quais artistas poderiam encurtar as distâncias e intensificar o diálogo com seu público. Uma mudança de rumo sem precedentes, que abriu espaço para toda uma geração de novos e talentosos artistas mundo afora – que sabem muito bem usar a Internet a seu favor, obrigado.

Não seria diferente na Jamaica. Chronixx, Protoje, Jah Cure, No-Maddz, Jah-9, Tarrus Riley, Etana, Iba Mahr, Jesse Royal… são muitos os nomes que despontam como os legítimos novos representantes da escola jamaicana de fazer reggae. Não é mais do mesmo. É o “new roots”. Ou “conscious music”, como eles gostam de dizer por lá.

Ouça a playlist acima e assista às playlists exclusivas que montamos em nosso canal no Youtube (abaixo) para conhecer os jovens jamaicanos que estão fazendo a cabeça do público mundo afora. Desta vez, não tem mais volta: a Internet está aí a nosso favor.

Assista à playlist “New Reggae – part 2”, de Jamaica Experience:

 

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“Legalize it”: quando a profecia de uma canção torna-se realidade

Peter Tosh: militância a favor da descriminalização da maconha sempre foi uma marca do cantor.  |  foto: reprodução internet

Peter Tosh: militância a favor da descriminalização da maconha sempre foi uma marca do cantor.

Eram os anos 1970. Numa pequena ilha do Caribe, uma certa erva era cultuada por muitos, utilizada por muitos, desejada por outros tantos, mas era ilegal. Um de seus grandes talentos musicais, Peter Tosh, cantava que “era preciso legalizá-la e não criticá-la”, naquela que ficou conhecida como uma de suas principais canções: Legalize It (ouça a faixa abaixo).

Tão distante da Jamaica, lá na Europa, nos mesmos anos 1970, um pequeno país liberava o uso da erva para maiores de 18 anos, em certos coffee shops. E essa foi a história, por muitos e muitos anos. Peter Tosh continuou tentando, compôs outra canção, falando mais especificamente sobre os benefícios da erva para a saúde, mas de nada adiantou. A Jamaica ainda  conviveria com esse dilema por mais 40 anos.

Muito depois da Holanda, somente nos anos 1990, outros países começaram a mudar de opinião sobre a maconha. Num primeiro momento, passaram a tratá-la como questão de saúde pública. Ou seja, ao ser pego consumindo a erva, o indivíduo era encaminhado para tratamento médico e não mais preso. “Sem mais humilhação ilegal ou interrogatório policial”, como pedia o cantor, desta vez em Bush Doctor .

Lá pelos anos 2000, o assunto evoluiu ainda mais e a posse e o consumo pessoal de maconha passaram a ser aceitos em muitos países. Hoje, Espanha, Portugal, Grã-Bretanha, Itália e Alemanha, além da Austrália, têm leis mais modernas e, em certos casos, estabelecem quantidades e locais onde se pode consumir. “Não é mais necessário fumar e se esconder, quando você sabe que está fazendo um passeio ilegal”, continuava a letra de Bush Doctor.

Bob Marley: família do cantor anunciou a primeira marca global de Cannabis.  |  foto: reprodução internet

Bob Marley: família do cantor anunciou a primeira marca global de Cannabis.

Na América Latina, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Venezuela também enxergam a maconha de maneira semelhante ao que acontece na Europa. O grande salto foi dado mesmo pelo Uruguai, onde a legislação é ainda mais abrangente. Lá, o cultivo para consumo próprio é permitido e a venda – apenas para usuários cadastrados – é controlada pelo governo, através de uma rede de farmácias.

Em Israel e no Canadá, a maconha é permitida apenas para fins medicinais, sendo que neste último é permitido o cultivo aos usuários que possuam receita médica. Já nos Estados Unidos, a legislação difere entre os estados, sendo que muitos permitem apenas o uso medicinal e outros aprovaram, também, o uso recreativo.

Uma tendência que deve seguir pelos Estados Unidos e pelo mundo e que recentemente fez com que a família do maior ícone jamaicano, Bob Marley (outro grande entusiasta e defensor do consumo de maconha, ou ganja, como é chamada na ilha), lançasse a Marley Natural, primeira marca global de Cannabis e produtos derivados da erva (leia mais em Família Marley anuncia a primeira marca global de Cannabis). Aqui no Brasil, a maconha continua sendo ilegal, porém, o canabidiol, derivado dela, foi recentemente liberado para uso medicinal e de forma controlada.

Finalmente, chegamos à Jamaica. Depois de anos de longas discussões, foi aprovada no último dia 14 de fevereiro uma lei para descriminalizar a posse de até 57 g de maconha. Além disso, os adeptos do movimento rastafári, para o qual a erva é considerada sagrada, poderão utilizá-la em seus rituais. O uso medicinal também será regulamentado e será permitido o cultivo de até 5 plantas.

Possivelmente, esse seja apenas o começo de uma abertura na maneira como a Jamaica passará a lidar com a maconha no futuro. Sábio ou visionário, Peter Tosh defendeu essa mudança com base em argumentos que, de fato, vêm se provando verdadeiros. Quem sabe ele estivesse certo também em relação ao aspecto econômico e então, daqui a alguns anos, veremos a pequena ilha onde a erva se desenvolveu tão bem, tornar-se um grande exportador e lucrar de forma legal com sua comercialização. Afinal, em se tratando de Jamaica, ela de fato “pode fortalecer a sua combalida economia e eliminar sua mentalidade servil”, já avisava o músico, novamente em Bush Doctor.

Lady Saw, cantora jamaicana conhecida como a "rainha do dancehall" | foto: reprodução internet

Qual é o lugar da mulher na música jamaicana?

A Jamaica foi colonizada primeiramente por espanhóis, que trouxeram os primeiros escravos africanos e, posteriormente por ingleses. Às culturas latinas e africanas, que têm em comum uma alta dose de machismo, somou-se, no caso da Jamaica, a questão dos princípios seguidos pelos rastafáris, os quais acabam por colocar a mulher em posição secundária, de submissão.

Foto de família jamaicana no início do século XX |  foto: reprodução internet

Foto de família jamaicana no início do século XX

Os reflexos disso na sociedade jamaicana são muitos e bastante cruéis, em alguns casos. As mulheres resistem ao planejamento familiar, especialmente por conhecerem a posição contrária de seus pares. Elas costumam ter muitos filhos, de diferentes parceiros e a razão é, sobretudo, econômica: se um pai não reconhecer suas responsabilidades, quem sabe outro o faça.

Mulheres criando filhos sem a ajuda ou presença do pai são uma instituição na Jamaica. Estima-se que oito em cada dez crianças nasçam fora de um casamento. Esse desajuste familiar tem consequências prejudiciais, tanto para as mulheres quanto para as crianças.

Atualmente, as mulheres representam cerca de 46% da força de trabalho na ilha, a maior taxa per capita do mundo. Submetem-se a todo tipo de trabalho, especialmente àqueles rejeitados pelos homens, em confecções ou como empregadas domésticas. Desempenham funções cujos salários são baixos e recebem menos que homens exercendo a mesma função. A participação das mulheres jamaicanas em posições de alta gerência não chega nem a 10% do total.

"Dancehall party": ritmo envolvente e performances sensuais  |  foto: reprodução internet

“Dancehall party”: ritmo envolvente e performances sensuais

As manifestações culturais de um povo refletem suas características, seu modo de pensar, seus problemas. Assim é na música. Enquanto as letras dos roots reggae eram mais filosóficas e às vezes até messiânicas, o dancehall e o ragga (dancehall digital) são mais explícitos na crítica social, ou quando tratam de violência ou sexo. Nesse sentido, aproximam-se do funk carioca, inclusive nas performances e nas danças extremamente sexualizadas.

De um lado, cantores como Shabba Ranks – que fez grande sucesso nos anos 1990 sendo, inclusive, considerado símbolo sexual –  com letras onde o sexo é quase uma obsessão e a mulher, um mero objeto. Atualmente, na mesma linha, Elephant Man canta pérolas como Whine Up.

Como resposta, há mulheres que resolveram combater o machismo através da música, como Lady Saw. Em Not In Love (ouça a faixa acima) e Rich Girl, por exemplo, ela coloca a mulher no poder, dona de seus sentimentos ou de seu dinheiro. Já Tanya Stephens vai da reclamação pelo tratamento recebido, como em Lying Lips e It’s A Pitty (ouça abaixo), até a dominação através do sexo, como em UnapologeticPon Di Side.

Há quem defenda que a posição da mulheres na Jamaica não é tão crítica, pois segundo esse raciocínio, elas conseguem manipular os homens através da sexualidade, fazendo-os sentir donos da situação. Sinceramente, prefiro acreditar numa outra linha, que demonstra que a escolarização está crescendo junto às mulheres jamaicanas. Como as brasileiras, elas são dedicadas e acabam tendo mais anos de estudo, e isso, a médio prazo, as levará a uma independência social e financeira que lhes permitirá tratar de seus relacionamentos de igual para igual.

Assista o clipe “Unapologetic”, de Tanya Stephens:

Ziggy Marley desbancou concorrentes "de peso" e mais uma vez levou o Grammy de melhor disco de reggae do ano.

And the Grammy goes to… Ziggy Marley.

Na noite do último domingo, 8 de fevereiro, o mundo conheceu os vencedores do Grammy Awards 2015, edição do tradicional evento que elege os melhores da indústria musical na opinião da Academia norte-americana, durante o ano anterior à premiação.

O excêntrico DJ e produtor jamaicano, Lee "Scratch" Perry.

O excêntrico Lee “Scratch” Perry.

Sob os holofotes da imprensa mundial e os olhos (e ouvidos) atentos do público, celebridades do mundo da música desfilaram seus estilos, figurinos e frases de efeito para milhões de telespectadores, numa noite que ficará marcada como uma das mais inusitadas da história do evento, ao menos no que se refere à escolha dos principais vencedores, que muitas vezes contrariou as expectativas e apostas da crítica especializada.

Na categoria reggae, no entanto, nenhuma surpresa. Com 6 gramofones na bagagem, Ziggy Marley abocanhou o sétimo, desbancando concorrentes de (muito) peso, como é o caso dos jamaicanos Shaggy, Sly & Robbie, Sean Paul e Lee “Scratch” Perry. Este último, figura lendária da música jamaicana, conhecido entre outras coisas por ter sido o principal mentor de Bob Marley e um dos inventores do dub, técnica de mixagem que revolucionou a indústria da música pop (leia matéria especial sobre o renomado DJ e produtor).

Além de “Fly Rasta”, de Ziggy Marley, concorriam ao prêmio de melhor álbum de reggae do ano “Out Of Many, One Music”, de Shaggy, produzido pela “dupla dinâmica” do baixo e bateria da Jamaica, Sly & Robbie – que por sua vez também emplacou na disputa o disco “The Reggae Power”, produzido em parceria com o DJ e produtor japonês Spicy Chocolate – “Full Frequency”, de Sean Paul, “Back On The Controls”, de Lee “Scratch” Perry e “Amid the Noise and Haste”, do grupo americano de pop reggae SOJA.

Reggae, Dub, Ragga, Dancehall… tinha de (quase) tudo à escolha dos jurados. Como gosto não se discute e tratam-se todos de excelentes opções para amantes de música jamaicana, disponibilizamos abaixo os discos (com exceção de “The Reggae Power”, disponível apenas no iTunes) para que você mesmo ouça e faça a sua escolha.

Ah, veja também ao final desta página o videoclipe oficial de I Don’t Wanna Live On Mars, principal música de trabalho até aqui do álbum “Fly Rasta”, de Ziggy Marley. =)

Ouça abaixo “Fly Rasta”, de Ziggy Marley, na íntegra:

Ouça abaixo “Full Frequency”, de Sean Paul, na íntegra:

Ouça abaixo “Back On The Controls”, de Lee “Scratch” Perry, na íntegra:

Ouça abaixo “Out Of Many, One Music”, de Shaggy, na íntegra:

Ouça abaixo “Amid The Noise And Haste”, do grupo SOJA, na íntegra:

Assista ao clipe de “I Don’t Wanna Live On Mars”, de Ziggy Marley:

Inner Circle e Chronixx durante gravação do videoclipe de "Tenament Yard (News Carryin' Dread)"

Feliz reggae novo!

Passadas as comemorações de fim de ano, um novo ciclo começa. Como sempre, fazemos planos, nos enchemos de esperança e buscamos razões para acreditar que este será melhor que o anterior. Afinal, serão mais 365 dias (oportunidades) de realizar projetos, corrigir eventuais erros, encarar novos desafios.

Chronixx está entre as maiores revelações do reggae na Jamaica.

Chronixx: jovem cantor está entre as maiores revelações do reggae na Jamaica.

Por aqui não é diferente. Quem nos acompanha sabe que, embora muito novo, o projeto Jamaica Experience tem como missão fomentar o acesso à cultura jamaicana no Brasil através de informação de qualidade, eventos exclusivos e ações inovadoras. Tarefa pretensiosa, mas que tem encontrado grande receptividade do público, seja durante os shows, seja através da leitura das matérias em nosso site, seja nas interações em nossas redes sociais.

Aproveitamos para agradecer aos nossos leitores, seguidores, colaboradores e parceiros por todo o apoio recebido em 2014. E dizer que em 2015 continuaremos firmes na busca das melhores experiências para nosso público. Aguardem, em breve anunciaremos aqui as novidades deste ano que promete muito!

E, para justificar ainda mais o título deste post, anunciamos como a primeira novidade do ano o lançamento de uma parceria que ainda vai dar muito o que falar: Inner Circle e Chronixx. A banda, legendária, convidou o jovem cantor para fazer um “remake” de um de seus maiores clássicos: Tenament Yard.

Gravada originalmente por Jacob “Killer” Miller na segunda metade dos anos 70 (ouça a faixa acima), a música conta uma história bastante comum entre os “dreadlocks” jamaicanos à época, que não conseguiam viver em paz nos chamados “Tenament Yards”, espécie de cortiços nos quais muitos deles moravam. Segundo a letra, os vizinhos costumavam incomodá-los com fofocas e críticas sobre seu estilo de vida.

A escolha de Chronixx para a empreitada não foi por acaso. Além do estilo parecido com o de Jacob Miller, ele é tido como a maior revelação da música jamaicana na atualidade, destacando-se entre inúmeros outros artistas que integram um movimento que os jamaicanos estão chamando de “reggae revival”. Falaremos em breve sobre isto aqui no JamEx, mas você já pode conferir muitos destes nomes em nossas playlists no Youtube.

Ouçam acima o belíssimo resultado deste encontro, batizado de “Tenament Yard (News Carryin’ Dread)”, e vejam abaixo o Making Off do videoclipe que será lançado em breve.

E um ótimo ano novo! De preferência, com muito reggae =)

Assista ao vídeo oficial de “Tenament Yard (News Carryin’ Dread):

A apresentadora e embaixadora do Jamaica Experience, Magá Moura, na festa de lançamento do projeto.

Jamaica Experience TV: a novidade que faltava!

Se você já conhece o nosso site, sabe que a nossa proposta é trazer o melhor da Jamaica ao Brasil, através de informação de qualidade e várias outras ações que visam fomentar o acesso à cultura jamaicana em suas mais diversas vertentes.

Em pouco mais de 4 meses, o site Jamaica Experience já disse a que veio e mostrou ao público uma Jamaica até então pouco conhecida de muitos brasileiros.

Na música, fomos além do óbvio para mostrar o tamanho da influência da música jamaicana em nível mundial. No turismo, procuramos ir além do lugar-comum e desvendamos algumas das maiores preciosidades da ilha. Da mesma forma, a cultura jamaicana de um modo geral, do estilo de vida à culinária, foi devidamente retratada por aqui.

E como estamos sempre em busca de novidades, à procura da melhor maneira de levar tudo isso a vocês, anunciamos uma novidade: a estreia oficial do nosso canal no Youtube!

E o Jamaica Experience TV já começa em grande estilo, trazendo a cobertura exclusiva da festa de lançamento do projeto (assista ao vídeo acima). O evento rolou em Sampa, na Audio Club, contou com um show especial da banda Cidade Negra, celebrando os 20 anos do clássico álbum “Sobre Todas As Forças”, a estreia de Magá Moura como apresentadora e a presença de ilustres convidados e parceiros.

A banda brasileira que mais investiu na interlocução Brasil-Jamaica também falou com exclusividade à nossa apresentadora Magá Moura. Curiosidades sobre o disco, a Jamaica (e os jamaicanos) estão na pauta da entrevista, que ocorreu momentos antes do show do grupo carioca. Confira abaixo o bate-papo na íntegra.

E isso é só o começo! Inscreva-se em nosso canal para ficar por dentro de todas as novidades previstas para o próximo ano, acesse sempre para assistir às melhores playlists (só com o melhor da música jamaicana em seleções exclusivas feitas pela nossa equipe) e muito, muito mais.

Então tá combinado. A Jamaica vai desembarcar no Brasil para o mais ousado e inovador projeto já realizado envolvendo o tema, e você é nosso convidado especial para esta grande festa. 2015 promete!

Assista à entrevista exclusiva do Cidade Negra para o Jamaica Experience TV:

foto: reprodução internet

The Jolly Boys: espalhando toda a alegria da Jamaica

Se você não é tão novinho, já deve ter pelo menos ouvido falar de Jackson do Pandeiro e Moreira da Silva. Ambos já faleceram há algum tempo, mas deixaram seus estilos marcados na história da música brasileira. O primeiro compunha e cantava forrós, sambas e seus derivados (xaxado, baião, frevo), era, sobretudo, um grande ritmista. Já Moreira da Silva era um sambista que personificava o estereótipo do malandro carioca. Pensei nisso tudo quando recebi a tarefa de escrever sobre os Jolly Boys, um grupo de mento jamaicano.

The Jolly Boys foi um dos primeiros grupos a mostrar a música jamaicana ao mundo.  |  foto: reprodução internet

The Jolly Boys foi um dos primeiros grupos a mostrar a música jamaicana ao mundo. | foto: reprodução internet

Bem, para começar, o mento é um tipo de música popular, tradicional da Jamaica. Nasceu da mistura das tradições musicais dos escravos africanos com elementos da música europeia. Além de ter muito ritmo, o mento utiliza instrumentos acústicos (como violão, banjo e tambor) e tem letras que falam do dia-a-dia de forma bem humorada e leve. Referências sexuais veladas e insinuações também são comuns. E isso me fez lembrar de outra figura do nosso forró: Genival Lacerda (aquele do “ele tá de olho é na butique dela”).

Uma das formações dos Jolly Boys  |  foto: reprodução internet

Uma das formações dos Jolly Boys

A história dos Jolly Boys é antiga, já que a banda existe desde 1955! Na verdade, houve um grupo antes, os Navy Island Swamp Boys, formado em 1945. Durante um bom tempo, eles tocaram nas festas (verdadeiros bacanais, segundo consta) oferecidas pelo ator Errol Flynn, então proprietário da pequena Navy Island. Quando o grupo se desfez, em 1955, dois de seus integrantes, Moses Deans e “Papa” Brown, formaram os Jolly Boys, que contava ainda com Derrick “Johnny” Henry, Martell Brown e David “Sonny” Martin. A banda ganhou fama e passou a ser considerada a melhor de sua região, Port Antonio.

Nos anos 1960, os Jolly Boys tocavam em festas e hotéis e até ganharam um concurso nacional de bandas de mento, na Jamaica. Nas festas, muitas vezes eram acompanhados por grupos de dança; o líder de um deles, Albert Minott, acabaria, futuramente, tornando-se também um dos Jolly Boys.

Na década seguinte,  gravaram seu primeiro single com as canções Take Me Back To Jamaica e Thousand Of Children. Passaram por mudanças em sua formação – já houve pelo menos 18 participantes – e até na divisão do grupo em dois, que coexistiram por algum tempo, tocando em áreas diferentes da ilha e mantendo contato regular entre si.

Entre os anos 1980 e 1990, os Jolly Boys gravaram vários álbuns e alcançaram reconhecimento internacional como nenhum outro grupo de mento. Fizeram turnês pelo mundo, dos EUA ao Japão. A partir de 1998, passaram a se apresentar regularmente no Geejam Studios, uma espécie de estúdio de gravação residencial, por onde passaram artistas como No Doubt, Amy Winehouse e the Gorillaz.

Em 2008, o Geejam abriu também um hotel, em Port Antonio, que passou a ser a casa da banda. Jon Baker, coproprietário do local, resolveu, então, produzir um disco que documentasse a importância da banda para as futuras gerações. O resultado foi o brilhante álbum “Great Expectations”, lançado em 2010.

Nada tradicionalistas e sempre dispostos em transformar em mento uma boa música, os Jolly Boys reuniram doze sucessos de feras como os Rolling Stones, The Doors, David Bowie e Amy Winehouse. É incrível como as versões são alegres e conseguem unir a vibração do mento a sucessos já tão consagrados.

Neste ano, os Jolly Boys perderam um de seus membros mais antigos, Joseph “Powda” Bennet, falecido em agosto, aos 76 anos. Ele era um dos remanescentes da formação”original”, ao lado de Derrick ‘Johnny’ Henry, Albert Minott, Allan Swymmer e Egbert Watson. Há ainda o sangue novo de Donald Waugh, Lenford “Brutus” Richards e Dale Virgo. O grupo continua firme, na ativa, em busca de novos desafios que possam ser enfrentados com alegria e irreverência. Como, aliás, bem faziam os saudosos Jackson do Pandeiro e Moreira da Silva.

Ouça na íntegra o álbum “Great Expectations”:

A banda No Doubt, da vocalista Gwen Stefani: Influências da música jamaicana e discos produzidos na ilha. | Foto: reprodução internet

World a Reggae – No Doubt: reggae music “underneath it all”

A influência da música jamaicana é assunto do qual já tratamos anteriormente (ver “A onda jamaicana que invadiu o Reino Unido“). Isso aconteceu não apenas no Reino Unido, mas também nos EUA, onde um dos bons exemplos é a banda No Doubt, da vocalista Gwen Stefani.

Gwen Stefani fez homenagens à Jamaica e ao reggae ao batizar dois de seus três filhos | foto: reprodução internet

Gwen Stefani fez homenagens à Jamaica e ao reggae ao batizar dois de seus três filhos

Inspirada na banda inglesa Madness – uma das primeiras responsáveis pelo revival do ska nos anos 1970 – a americana No Doubt foi criada em 1987. No início, era uma mistura de  new wave e ska. Começaram a fazer sucesso na Califórnia, onde a banda nasceu, e gravaram seu primeiro disco (“No Doubt”) em 1992. Então, sofreram o impacto da invasão do movimento grunge, também conhecido como som de Seattle (Nirvana, Pearl Jam e companhia). Mantiveram seu estilo e com alguma influência do punk rock, lançaram o segundo álbum (“The Beacon Street Collection”), em 1995.

Ainda em 1995, lançaram um novo álbum (“Tragic Kingdom”) que marcava o fim do relacionamento entre a vocalista Gwen e o baixista Tony Kanal. A temática, aliada à vocação pop de Gwen, sempre presente na mídia, ajudaram a promover o disco, que chegou ao primeiro lugar nas paradas. O álbum seguinte, “Return of Saturn”, saiu apenas em 2000 e teve boa aceitação de crítica e público, com sucessos como Simple Kind of Life e Ex-Girlfriend.

Contudo, a influência jamaicana está mais evidente no quinto álbum, chamado “Rock Steady” (ouça abaixo, na íntegra). Lançado em 2001, o álbum começou a ser gravado em Los Angeles e San Francisco. Posteriormente, a banda seguiu para Londres e Jamaica e trabalhou em conjunto com diversos intérpretes, autores e produtores. Entre eles, os jamaicanos Sly Dunbar & Robbie Shakespeare – que já foram produtores de artistas como Peter Tosh, Bob Dylan e os Rolling Stones – os americanos do The Neptunes (duo de Pharrel Williams) e o inglês William Orbit, produtor de Madonna.

Com tantas estrelas, o resultado só poderia ser excepcional. Dub jamaicano, pop eletrônico e dance são alguns dos estilos que dão forma ao disco, que vendeu cerca de 3 milhões de cópias. Dois destaques são as faixas Hey Baby e Underneath It All. A primeira, com a participação do DJ jamaicano Bounty Killer, gerou o single que rendeu ao No Doubt o quinto lugar na Billboard Hot 100.

Underneath It All,  escrita por Gwen Stefani e Dave Stewart, do Eurythmics, tem suas curiosidades. A banda foi visitar Dave, a quem não conheciam, em seu apartamento. Em quinze minutos, sentados na cozinha, Gwen e Dave tinham a música pronta. Para o álbum, a canção foi gravada com a participação da cantora de reggae jamaicana Lady Saw (assista ao videoclipe acima).

Depois de um hiato de mais de dez anos, nos quais Gwen teve sua carreira solo, além de três filhos, a banda lançou, em 2012, o disco “Push and Shove”, cuja finalização foi feita em um estúdio na Jamaica (ouça abaixo a faixa que dá nome ao disco, com participação especial do jamaicano Busy Signal). A produção, dessa vez, ficou a cargo do DJ americano Diplo, do Major Lazer.

Gwen, aliás, foi bastante criativa ao dar nomes a seus filhos e, em dois deles, expressou sua forte relação com a Jamaica. O mais velho é Kingston James McGregor Rossdale, sim, Kingston, como a capital da Jamaica. O do meio chama-se Zuma Nesta Rock Rossdale, sendo que Nesta é o segundo nome de Robert (ou Bob) Marley. O mais novinho, nascido em fevereiro deste ano, é Apollo Bowie Flynn Rossdale, mas Bowie and Flynn são nomes de solteira da mamãe. Além de extensos, os nomes trazem inúmeras homenagens e referências a pessoas e locais importantes para Gwen e seu marido, Gavin Rossdale. Pelo bem das crianças que estão por vir, esperamos que essa moda não pegue!

Ouça o disco “Rock Steady”, do No Doubt, na íntegra:

foto: reprodução internet

Bob Marley e alguns de seus bons encontros

Quando pensamos em grandes astros da música, às vezes nos perguntamos se eles se encontraram com outros grandes astros e imaginamos como teriam sido esses encontros. O mundo nem sempre foi globalizado como hoje e muitos artistas, apesar de contemporâneos, nunca se cruzaram.

Ao longo da vida, Bob Marley teve alguns encontros bem interessantes e resolvemos contar, aqui, as história de alguns deles. Dois aconteceram em 1975, o primeiro em março, na Jamaica.

Um grupo já famoso na época chamado The Jackson Five foi convidado para abrir o show de Bob and The Wailers, no National Heroes Stadium. Michael Jackson era um adolescente de 16 anos e, embora muito talentoso, não era ainda nem sombra do ídolo pop que viria a ser.

Foto histórica: Bob Marley e Michael Jackson, os reis do reggae e do pop juntos!  |  foto: reprodução internet

Foto histórica: Bob Marley e Michael Jackson, os reis do reggae e do pop juntos!

O grupo vivia uma transição. Estavam deixando a gravadora Motown, responsável pelo sucesso de um grande número de artistas negros, nos anos 1960 e 1970. Bob Marley, por outro lado, alcançava sucesso internacional com No Woman No Cry, canção do álbum “The Natty Dread”.

Antes do show, os Jackson Five visitaram Marley em sua casa, em Kingston. Resultado de um mundo menos tecnológico e mais poético, não há registro do show em áudio ou vídeo, apenas fotos.

George Harrison e Bob Marley, respeito mútuo.  |  foto: reprodução internet

George Harrison e Marley, respeito mútuo.

O segundo encontro deu-se meses depois, na Califórnia. Na época, Bob Marley já pertencia à gravadora Island Records e excursionava pelos EUA. O presidente da Island, Charley Nuccio, ficou sabendo que George Harrison era fã de Marley e convidou-o para visitá-lo no camarim.

Ao saber da notícia, Marley ficou surpreso e disse: “Ras Beatle!” (algo como o príncipe Beatle). Foi uma visita rápida, cerca de 5 minutos, em que ambos demonstraram respeito e admiração mútuos. Apesar de nunca terem tocado juntos, após uma montagem feita com foto da época, circulou durante muito tempo um cartaz de show que teriam feito quando do encontro. Show esse que, infelizmente, nunca ocorreu!

Em 1980, Bob Marley fez sua única visita ao Brasil. A Island Records tinha se tornado um selo da gravadora alemã Ariola, que estava iniciando suas atividades no país. Marley, juntamente com Junior Marvin (guitarrista dos Wailers), Jacob Miller (vocalista do Inner Circle), Chris Blackwell (diretor da Island Records) e sua esposa vieram para a festa de inauguração.

Um time de estrelas comandado por Bob Marley, Chico Buarque, Toquinho e Paulo César Caju.  |  foto: reprodução internet

Um time de estrelas comandado por Bob Marley, Chico Buarque, Toquinho e Paulo César Caju.

Além de circular pela cidade e visitar a favela da Rocinha, o grupo seguiu para um importante compromisso: uma pelada de futebol. De um lado, Bob Marley, Junior Marvin, Paulo César Caju, Toquinho, Chico Buarque e Jacob Miller e do outro, Alceu Valença, Chicão (músico da banda de Jorge Ben) e mais quatro funcionários da gravadora. Os músicos brasileiros eram contratados da Ariola e Caju, ídolo da Copa de 1970, tinha em Bob Marley um fã.

Bob Marley disse a Paulo César: “Rivelino, Jairzinho, Pelé… o Brasil é o meu time. A Jamaica gosta de futebol por causa do Brasil”. Segundo Caju, Bob, além de canhoto, era habilidoso e bom de bola. Tanto que fez um dos 3 gols da vitória, os outros foram de Chico e Paulo César. A visita foi curta, mais o encontro foi marcante!

Inspirado no samba, que segundo ele era como o reggae (partilhando dos mesmos sentimentos das raízes africanas), Marley compôs na volta para casa a música Could You Be Loved (ouça a faixa abaixo). Repare na introdução da música e vai ouvir, de leve, o som da cuíca. Não é lenda, é verdade!

Stevie Wonder e Bob Marley encontraram-se algumas vezes. A primeira delas foi em 1975, no Wonder Dream Concert, em Kingston, num show beneficente para um instituto para cegos. Esse show ficou também conhecido como Wailers Reunion Show, pois foi a primeira e última vez que os integrantes originais (Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer) tocaram juntos, desde 1974. Durante o bis de Stevie, ele chamou Bob Marley ao palco e cantaram juntos I Shot The Sheriff e Superstition.

Bob Marley e Stevie Wonder, sintonia musical e positive vibes.  | foto: reprodução internet

Bob Marley e Stevie Wonder, sintonia musical e positive vibes.

Quatro anos depois, encontraram-se na Filadélfia, nos EUA. Era a convenção nacional da Black Music Association. Por ser um evento privado e num passado em que as pessoas não portavam celulares com câmera, não há registros gravados. Porém, há quem diga ter sido essa uma das melhores performances de Bob Marley, convidado como embaixador jamaicano do reggae.

O público, composto pela elite da indústria da música, ficou fascinado com seu carisma e sua energia no palco. Quando cantou Get Up Stand Up, na companhia de Stevie Wonder, muitas pessoas atenderam literalmente ao apelo, subindo e dançando sobre mesas e cadeiras. Esse encontro inspirou Stevie a compor Master Blaster (Jammin, do álbum “Hotter Than July”), em homenagem a Marley.

Durante um concerto, em Washington, em 1980, ambos encontraram-se no palco pela última vez. Enquanto Stevie cantava Master Blaster, Marley surgiu do nada e não cantou, apenas falou com o público. Havia amizade e sinergia entre os dois astros. Cogitaram fazer uma turnê juntos, mas isso não chegou a se concretizar.

Em 1980, Bob Marley and The Wailers estavam excursionando pelos EUA, divulgando o disco “Uprising”. O último show seria na Pensilvânia, porém, acabaram encaixando na programação dois shows em Nova Iorque. Na verdade, fariam a abertura de um show do The Commodores (cujo vocalista era Lionel Ritchie).

Bob Marley e The Commodores, mistura de soul e reggae para conquistar novos públicos.  |  foto: reprodução internet

Bob Marley e The Commodores, mistura de soul e reggae para conquistar novos públicos.

A carreira internacional de Bob Marley já estava consolidada. Era conhecido em todos os cantos do planeta. Porém, nos EUA, seu público era limitado a jovens brancos e I Shot The Sheriff, por exemplo, era mais identificada com a versão de Eric Clapton. Assim, Marley entendeu que participar de um show de um grupo negro de soul e funk seria uma forma de se aproximar do público afro-americano.

Os organizadores nem se preocuparam em colocar nos tickets o nome da banda de abertura. No Madison Square Garden, a apresentação dos jamaicanos foi diferente do usual. Usaram roupas mais urbanas, evitaram coreografias e levaram sua mensagem, repleta de conotações políticas e religiosas. Muitas pessoas deixaram o local depois da abertura, sinal de que já tinham cumprido seu propósito. Para os que ficaram, a apresentação de um Commodores já numa linha mais comercial e distante de seu projeto inicial foi um tanto decepcionante.

Antes de ir para a Pensilvânia, ainda em Nova Iorque, Bob Marley sentiu-se mal e caiu no Central Park, enquanto corria. Era o primeiro sinal do câncer que daria fim à sua vida, meses depois.

m Kingston, homem mostra, orgulhoso, uma de suas obras: uma potente caixa de som. - Foto: Kadu Pinheiro

Música jamaicana: muito além de Bob Marley

Esqueça o termo “terceiro mundo”. Quando se trata de música, a Jamaica é uma das grandes potências mundiais. Terra de outros grandes nomes da música que atingiram o estrelato internacional, como Peter Tosh e Jimmy Cliff, a ilha é conhecida também por ter exercido grande influência na música e cultura pop mundiais ao longo das décadas.

Músicos jamaicanos durante sessão de estúdio, em Trenchtown, Kingston.  |  foto: Kadu Pinheiro

Músicos jamaicanos durante sessão de estúdio, em Trenchtown, Kingston. | foto: Kadu Pinheiro

Da invenção do mento e do ska à explosão do reggae, passando pela revolução tecnológica do dub até a febre dançante do dancehall, são muitas as razões que fazem desta pequena ilha do Caribe um lugar fascinante do ponto de vista musical. Há quem diga que a Jamaica está para a música como o Japão para a tecnologia, considerando sua pequena extensão territorial, inversamente proporcional à sua capacidade criativa e de antecipação de tendências para o mundo.

O mento (ouça abaixo o grupo The Jolly Boys) é considerado o primeiro gênero genuinamente jamaicano, e surgiu no início dos anos 50 a partir das influências que os músicos, residentes principalmente no interior da ilha, absorveram do calypso (ritmo caribenho originário de Trinidad e Tobago). Utilizando instrumentos como o banjo, chocalhos e a “rhumba box” (espécie de caixa acústica que conferia o aspecto grave às canções), o mento teve papel fundamental na música jamaicana por ter influenciado diretamente o ska e o reggae.

A partir do desenvolvimento do ska e do rocksteady, a música jamaicana ganhou importância e notoriedade na indústria musical fora da Jamaica, primeiro no Reino Unido e depois nos mercados americano e mundial. Combinando elementos caribenhos como o mento e calypso e estadunidenses como o jazz, jump blues e rhythm and blues, os músicos jamaicanos criaram o ska, um ritmo alegre, dançante e cheio de harmonia. O The Skatalites (ouça abaixo um de seus hits) foi a primeira banda a gravar este gênero em estúdio, tendo acompanhado grandes nomes da música jamaicana em seu início de carreira.

O rocksteady, por sua vez, diferenciava-se do ska por seu ritmo mais lento e suas letras voltadas a temas sociais e políticos. Por este motivo, teve grande penetração entre os chamados rudeboys à época (leia mais em O estilo e a truculência dos rude boys) e pode ser considerado um elemento de ligação entre o ska e o reggae. Desmond Dekker (ouça abaixo), primeiro artista jamaicano a chegar ao topo das paradas britânicas, é uma das maiores referências entre os músicos adeptos deste gênero musical.

Foto: reprodução internet

Ilustração em capa de disco com Lee Perry e King Tubby: figuras fundamentais.

Ainda no final dos anos 50 e início dos 60, os operadores dos sistemas de som, que futuramente seriam chamados de Disc-Jockeys, ou DJs, foram os responsáveis pelo início de uma revolução que colocou a Jamaica definitivamente no mapa da música mundial. Eles percorriam a ilha com suas “discotecas móveis”, antecipavam tendências musicais ao público e, sem perceber, criavam uma cultura que sobrevive até hoje em festivais por todo o planeta: a cultura Sound System.

Lee “Scratch” Perry, que está na lista dos 100 artistas mais importantes de todos os tempos da revista Rolling Stone, ao lado de King Tubby, foram os gênios responsáveis por levar a música jamaicana num caminho sem volta rumo à inovação sonora quando, ao inventarem o Dub, definiram as bases sobre as quais a indústria da música pop viria a se apoiar mais tarde. Suas técnicas de mixagem e “agenciamento de sons” estão hoje na base da totalidade da produção musical em todo o mundo (ouça abaixo uma das muitas produções da dupla Perry e Tubby). “Sem dub não haveria hip-hop, techno, drum’n’bass, ou mesmo o mais recente sucesso da Britney Spears ou do Zeca Pagodinho”, afirmou certa vez o antropólogo Hermano Vianna em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo.

Foto: Kadu PinheiroQuadro pintado à mão por artista jamaicano com o lendário Peter Tosh.  |  foto: Kadu Pinheiro

Quadro pintado à mão por artista jamaicano com o lendário Peter Tosh. foto: Kadu Pinheiro

O reggae, gênero jamaicano mais famoso mundialmente, tem no ska e no rocksteady seus precursores imediatos e em Bob Marley seu maior expoente. No período que compreende as décadas de 1970 a 2000, o estilo viveu sua “golden era” e revelou para o mundo talentos musicais do porte de Jimmy Cliff, Gregory Isaacs, Dennis Brown, Yellowman, Shabba Ranks, Shaggy e tantos outros.

Bob Marley transcendeu qualquer rótulo, e tornou-se um dos músicos e personagens mais importantes de toda a história da música. “Legend” (1984) sua coletânea mais conhecida (ouça abaixo, na íntegra), vendeu mais de 20 milhões de cópias e é o disco de reggae mais vendido de todos os tempos.

Ir à Jamaica significa adentrar naturalmente em um universo de energia musical. A ilha inspira à música, com seus estúdios – alguns deles mundialmente consagrados e até hoje muito procurados por artistas e produtores musicais de todo o mundo – e o inequívoco talento do seu povo para esta arte. A música está em toda a parte, das festas de dub, reggae ou dancehall (este último a febre do momento por lá) espalhadas pela capital Kingston, à quase onipresença de Bob Marley, Peter Tosh e outras lendas do reggae pelos quatro cantos da ilha. A cantora jamaicana Tessane Chin (leia Tessane Chin, uma das (grandes) vozes da Jamaica), vencedora da última edição do The Voice USA, parece confirmar a vocação. Como se diz por lá, “once you go, you know”. Em bom português: se você for, você entende.

Ouça a coletânea “Legend”, de Bob Marley & The Wailers, na íntegra: