Posts

Jah9, uma das representantes da nova geração do reggae jamaicano. | foto: divulgação Jah9

O lugar da mulher na música jamaicana – parte 2

Atualmente, há na Jamaica uma nova safra de cantores e bandas de reggae lançando um outro olhar sobre o roots reggae. O auge do roots reggae aconteceu nos anos 1970, com grande influência espiritual do movimento rastafári e nomes como Johnny Clarke, Cornell Campbell, Bob Marley, Peter Tosh, Burning Spear e bandas como Black Uhuru, Steel Pulse e Culture.

Respeitar o passado, ter algo a dizer nas letras, tocar ao vivo e trabalhar de forma colaborativa com outros artistas. Essas regras são a base do trabalho da nova geração que, antes de simplesmente reeditar o passado, quer escrever seu presente de forma significativa. Chronixx, Protoje e a banda Raging Fyah são alguns exemplos.

No que se refere à presença feminina, se antes poucas mulheres se destacaram, hoje, Jah9, Etana, Sevana e Xana Romeo são algumas das cantoras que, seguindo essa mesma linha, têm ganho espaço e respeito no contexto do novo roots reggae.

As mulheres que são "a cara" do novo roots reggae jamaicano. | fotos: reprodução internet

As mulheres que são “a cara” do novo roots reggae jamaicano. | fotos: reprodução internet

Jah9 – ou Janine Cunningham – cantava desde criança mas, na universidade, com os amigos rastafári, encontrou lugar para sua poesia e suas ideias. A carreira propriamente dita começou em 2011, quando lançou os singles “Keep Holding On” e “Warning”. Em 2013, após mais alguns singles, lançou o álbum “New Name”. Nele, há canções que falam de temas como a hipocrisia autoritária (Intention e Preacher Man), ou que fazem referência à viagem psicológica provocada pelo uso da “erva sagrada” (Taken Up). A favorita do público, Avocado, é uma canção leve e divertida, sobre uma garota, inspirada em seu dia a dia pelas ideias rastafáris (assista ao clipe abaixo).

Nascida em 1983, assim como Jah9, Etana também gostava de cantar quando menina. Aos nove anos, mudou-se para os EUA com a família e lá chegou a fazer parte de um grupo vocal chamado Gift, no início dos anos 2000. Contudo, ela não se sentia à vontade com as demandas da indústria da música, que incluíam o uso de roupas sexy e letras sem grande profundidade. De volta à Jamaica, em 2005 Etana tornou-se backing vocal do cantor Richie Spice. Seu sucesso era tanto, que foi encorajada a iniciar carreira solo. Primeiro, gravou o single “Wrong Address”, de sua autoria e em 2008, lançou seu álbum de estreia, “The Strong One”. Curiosamente, seu nome verdadeiro é Shauna McKenzie e Etana é um nome em Swahili que significa “the strong one”. Etana lançou, posteriormente, mais três discos: “Free Expressions” (2011), “Better Tomorrow” (2013, gravado no Tuff Gong Studios) e “I Rise” (2014).

Sevana Siren tem 23 anos e é uma das grandes promessas da temporada. Nascida numa zona rural, Sevana diz inspirar-se em todos os lugares, todas as pessoas e todas as coisas. Além de cantar, também compõe e tem um estilo definido como indie-reggae. Ela gravou apenas dois singles, “Chant It” (2013) e “Bit Too Shy” (2014), mas, certamente, vale a pena acompanhar seus próximos passos.

Finalmente, a jovem Xana Romeo, de apenas 21 anos e filha do veterano cantor de reggae Max Romeo. Em 2014, Max lançou um disco chamado “Father & Sons”, juntamente com seus dois filhos adolescentes, Romario e Ronaldo, ou Rominal (grande dupla!). Agora, é a vez da filha, cuja linda voz tem gerado grandes expectativas. Ela já lançou dois singles: em 2014, “No Love” e em 2015, “Righteous Path” (ouça abaixo).

É bom perceber que a nova geração do roots reggae tem mulheres na linha de frente e não apenas nos backing vocals. Melhor ainda, elas têm muito a dizer e a cantar. Essas meninas prometem!

Assista ao clipe “Reggae”, da cantora Etana:

foto: reprodução internet

De café a vestuário: conheça os Marley empreendedores

O DNA de Bob Marley é mesmo muito poderoso! Além de filhos que seguiram sua carreira musical, como Ziggy e Damian, gerou empresários como Rohan e Cedella. Alguém poderá dizer que o sobrenome os alavanca, o que não é de todo incorreto, porém, suas escolhas têm sido muito coerentes com a filosofia de vida de Bob e isso parece ser de fato, o grande diferencial dos negócios.

foto: reprodução website Marley Coffee

Rohan Marley administra a marca Marley Coffee.

Rohan Marley fundou a Marley Coffee, em 2009, sobre a qual já falamos em “Marley family e as ideias que mudam o mundo”. Porém, seu espírito inquieto e empreendedor não se deu por satisfeito. Em parceria com o grupo Splash Beverages, criou, também em 2009, a Marley Beverages, com uma linha de bebidas relaxantes à base de chás, ervas e  frutas.

No ano seguinte, Rohan uniu-se à HoMedics e juntos fundaram The House of Marley. Seguindo, de certa forma, o caminho da música, a empresa desenvolve basicamente fones de ouvido e sistemas de som, além de uma linha de acessórios, como mochilas e relógios.

A empresa nasceu com a missão de desenvolver produtos inovadores, fiéis aos princípios da família Marley e herdados de seu patriarca, Bob: igualdade, autenticidade, caridade e sustentabilidade. Os materiais utilizados nos fones, por exemplo, são alumínio reciclado e  fibras naturais, como o algodão, lona e cânhamo. O plástico, quando necessário, é reciclado e reutilizável.

As mochilas e relógios têm inspiração militar, reflexo do gosto pessoal de Bob Marley, e também são produzidos a partir de matérias-primas amigas do meio ambiente. Como em outras empreitadas da família, parte da renda obtida com a venda dos produtos da House of Marley são revertidos para a 1Love, a fundação familiar que cuida de projetos de caridade.

The House of Marley: produtos inovadores que seguem os princípios da família Marley.| fotos: reprodução website The House of Marley

The House of Marley: produtos inovadores que seguem os princípios da família Marley.| fotos: reprodução website The House of Marley

Cedella Marley, que também já atuou como cantora nos Melody Makers, é escritora de livros infantis, CEO da Tuff Gong International (estúdios, gravadora e distribuidora) e dona da Cedella Marley Design, que desenvolve coleções de vestuário para várias marcas, além de móveis e acessórios para casa. Cedella tem diversas linhas de vestuário, como “Catch a Fire”, “High Tide”, “Nice Time Deconstructed” e “Nice Time Kids”. Na sua visão, as peças que cria são algo como “Grace Jones encontra meu pai – muito inspiradas no universo musical e um pouco retrô.”

Cedella Marley: designer, escritora, administradora e cantora.  |  foto: reprodução internet

Cedella Marley: designer, escritora, administradora e cantora. | foto: reprodução internet

Cedella Marley é, ainda, diretora da Bob Marley Foundation, na qual supervisiona uma gama de programas de assistência financeira e outros recursos, destinados a instituições como hospitais, escolas e lares para idosos, na Jamaica. A fundação também oferece bolsas de estudos e promove seminários em diversas áreas, visando ampliar as oportunidades de trabalho.

Você é capaz de fazer o que quiser, desde que esteja disposto a trabalhar duro. Se você vai fazer alguma coisa, faça direito. Seja verdadeiro com você mesmo e tudo mais fará sentido. Pequenos conselhos dados por Bob Marley a seus filhos e que, pelo jeito, foram bem compreendidos.

foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Kingston, a Hollywood jamaicana

Kingston está para a música jamaicana como Hollywood para o cinema americano. Espécie de Nashville do reggae, a cidade é o berço de artistas mundialmente consagrados como Bob Marley e Peter Tosh e foi retratada em incontáveis músicas, filmes e documentários ao longo dos anos. Famosa por sua rica e diversificada cultura, Kingston é um verdadeiro caldeirão de influências políticas, musicais e religiosas, que impactou o mundo de forma permanente.

Life Yard - Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Life Yard – Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Não há nenhuma outra cidade no mundo, comparável em tamanho e população a Kingston, que tenha produzido tanta música, durante tanto tempo e com tamanho impacto na cultura popular mundial. Em pouco mais de 8 km quadrados, a capital da Jamaica, que em 1960 contava com população de 123 mil habitantes, hoje é o lar de aproximadamente 500 mil pessoas e conhecida por ter sido o epicentro de um movimento que colocou a Jamaica no mapa da música mundial. O local foi ponto de partida de uma série infindável de aventuras sonoras e, para muitos artistas, independente de terem nascido na cidade ou migrado das áreas rurais, era sobretudo uma grande promessa de melhoria de vida, embora exigisse uma boa dose de instinto de sobrevivência. A proximidade dos músicos e a quantidade de estúdios num espaço urbano restrito podem ser alguns dos motivos, mas por si só não explicam tamanho potencial criativo ao longo de décadas. As deploráveis condições econômicas e sociais sob as quais a maioria dos artistas viveram foram os catalisadores para uma espécie de “exorcismo musical“, que em parte podem explicar este fenômeno.

O impacto da colonização afetou a Jamaica de forma contundente, começando com a Espanha, que em 1494 praticamente dizimou os nativos arauaques e depois com a Inglaterra, que tomou o poder em 1655 e iniciou um processo de escravização e importação de africanos para a ilha. Estabelecida em 1692, Kingston tornou-se a capital do país e, em 1892, passou a ser o principal porto comercial, desbancando Spanish Town. As bases para a injustiça social que empobreceram tantos jamaicanos ao longo do século XX, foram estabelecidas em Kingston durante o século XVII quando, sob o domínio britânico, a Jamaica tornou-se líder mundial na exportação de açúcar.

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

A exploração colonial das classes trabalhadoras, que garantiu a prosperidade da indústria do açúcar naquele período, levou a graves distúrbios sociais e fez Kingston entrar em colapso em meados de 1938. Mortes e tumultos deflagrados por circunstâncias políticas e raciais prenunciavam as crises das décadas seguintes. A “economia da sobrevivência”, gerada sobretudo pelo alto índice de desemprego, praticamente obrigou as pessoas a se mudarem para a capital, fazendo com que a população crescesse substancialmente na década de 1960. Como consequência, a cidade, que já sofria com a pobreza, se viu frente às inevitáveis competições por recursos, que por sua vez levaram à violência recorrente, ainda mais evidente durante as eleições gerais na ilha.

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

No início do século XX, o rastafarianismo surgiu como uma fonte poderosa de fé e resistência em Kingston. Embora Marcus Garvey (1887 – 1940), ícone jamaicano da libertação negra, não fosse ele próprio um Rasta, Kingston foi palco de muitos de seus inflamados discursos promovendo o nacionalismo negro e a independência, visão esta que era completamente alinhada aos ideias rastafáris. O rastafarianismo também ganhou adeptos fora da cidade, que foram forçados a mudarem-se para Kingston após uma série de ações policiais em áreas de plantação de maconha nos arredores da cidade. Em um destes ataques, mais de mil pessoas ficaram desabrigadas e muitas delas foram morar nas favelas urbanas da capital. Vários locais voltados à prática do rastafarianismo começaram a surgir por toda a ilha – especialmente nos arredores de Kingston – e a música passou a ser parte essencial deste movimento, cuja expressão artística e filosófica se fez cada vez mais presente e atraiu jovens e promissores músicos como Tommy McCook, que viria a estabelecer um marco na música jamaicana através do lendário grupo The Skatalites.

As raízes da cultura jamaicana, que estavam naturalmente muito sujeitas às influências africanas, com seus tambores e rituais espirituais de dança como a Kumina e Pukkumina, eram temperos evidentes no caldeirão cultural da cidade. Outros ingredientes, incluindo jazz, R&B, folk e até música country foram elementos que, somados, contribuíram para a criação do “algo novo” que estava por vir. Trenchtown tornou-se, ao mesmo tempo, residência de marginais  e inúmeros artistas cujo trabalho foi fortemente influenciado pelo instinto de sobrevivência.

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

A parte ocidental de Kinston era o núcleo da indústria musical jamaicana. Nas décadas de 50 e 60, Kingston era destino obrigatório para qualquer artista que alimentasse alguma esperança de ser gravado na ilha, já que ali estavam concentrados os melhores estúdios, produtores e músicos, que por sua vez sabiam como obter os melhores resultados. Conhecida informalmente como “Beat Street”, por motivos óbvios, a “Orange Street” era uma espécie de quartel general de produtores como Coxsonne Dodd, Prince Buster e Bunny Lee, entre muitos outros. Locais para audições e ensaios, estúdios, selos e até lojas de disco ficavam concentradas em uma relativamente pequena área da cidade, que incluía ainda a King Street (paralela à Orange Street), Beeston Street, Chancery Lane e North Parade (lar do Randy’s Studio, que mais tarde viria a se tornar a VP Records). Joe Gibbs, os irmãoes Hoo-Kim (do renomado Channel One), Clancy Eccles, Derrick Harriott e incontáveis outros produtores e artistas ocupavam o mesmo espaço, competindo entre si e muitas vezes colaborando uns com os outros para criar o próximo hit musical. Embora a indústria não tenha ficado limitada a esta região com o passar do tempo, Kingston continuou a ser vital e manteve sua vocação de núcleo de explosão criativa da música popular jamaicana. Para isso, muito contribuiu a cultura dos sound systems, com seus “dubplates” e sua capacidade de testar a audiência, antecipando tendências musicais ao público.

Por razões que excedem a lógica, era muito comum as músicas situarem o ouvinte, fazendo de Kingston mais que meramente o local onde as obras foram criadas, mas tornando-a parte essencial da narrativa musical. Em “Trenchtown Rock (1971), Bob Marley faz todos terem certeza de que o gueto está no centro da capital, na (graças a ele) mundialmente famosa “Kingston 12”. Mais tarde, em 1975, Marley mapeia a geografia urbana com “Natty Dread”, levando o público a uma viagem pela emblemática cidade. Por outro lado, “Kingston Town”, lançada originalmente por Lord Creator em 1970 e produzida por Clancy Eccles, idealiza a cidade como mágica, ao invés de trágica. A música ganhou outras versões e atingiu o topo das paradas no Reino Unido e na França, quando foi regravada pelos ingleses do UB40, 20 anos mais tarde, no início dos anos 90. Até mesmo em músicas instrumentais as vibrações Rasta vêm à tona, como em “Man From Wareika”(1976), do lendário trombonista Rico Rodriguez. Ele atribui a inspiração à sua ligação com um acampamento Rasta nas colinas dos arredores de Kingston.

Capa do filme "The Harder They Come", estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Capa do filme “The Harder They Come”, estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Outro fato importante é que um dos motivos por trás do sucesso do filme “The Harder They Come” (estrelado por Jimmy Cliff em 1972), segundo a crítica, é justamente o fato de o filme retratar a realidade de Kingston, cuja reputação à época tornava o local ao mesmo tempo perigoso e emblemático. O filme conta a história de Rhyging, um gangster pistoleiro que causava grande tumulto na cidade até ser morto pela polícia, em 1948. O personagem de Cliff retrata de maneira precisa a figura típica do camponês jamaicano, que migra da área rural para Kingston em busca de melhoria de vida e, ao só encontrar mais dificuldades e pobreza, se entrega à criminalidade em um ambiente desumano e nada inspirador.

Kingston também foi palco de terríveis batalhas políticas entre integrantes dos dois principais partidos do país: o PNP (People’s National Party) e o JLP (Jamaica Labour Party). Foram inúmeros os conflitos por território e poder, que culminaram na perda de dezenas de vidas ao longo de um duro processo, já que cada eleição geral na ilha reacendia a tensão política e a violência. Embora tenha sido um fenômeno característico dos anos 70, Kingston voltou às páginas policiais  internacionais recentemente quando, em 2010, um forte esquema policial foi montado para capturar um suposto bandido e traficante de drogas, chamado Cristopher “Dudus” Coke e extraditá-lo para os Estados Unidos. Espécie de “Robin Hood” jamaicano, Dudus era conhecido em Kingston como “The President” e considerado intocável pela população local, a despeito de todas as acusações contra ele. Interdições de estradas, barricadas, destruição e acusações de abuso policial, além de um número expressivo de homicídios de inocentes, provocaram reações furiosas da população e da classe artística contra a operação. “Don’t Touch The President”, de Bunny Wailer, tocou fundo na ferida e é considerada uma das principais músicas sobre o tema. De um modo geral, o evento só fez piorar a perspectiva de melhoria de vida dos habitantes da cidade, dada a repercussão negativa da cidade, que depende fortemente do turismo.

EDB Vinyl Thursday's | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

EDB Vinyl Thursday’s | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Mais que uma cidade turística, Kingston tem na criatividade do seu povo seu maior patrimônio histórico. Passado, presente e futuro se misturam num verdadeiro caldeirão cultural, que nasceu nos guetos locais e ganhou o mundo de forma incrivelmente impactante. Milhões de pessoas ao redor do mundo, sem sequer saber onde fica Trench Town, cantam e dançam músicas sobre o lugar. Não há dúvida de que Kingston está no topo da lista entre as cidades no mundo que mais contribuíram para a música e cultura globais.

foto: Acervo Gege Produções Artísticas | divulgação

Brasil, Jamaica: pro outro lado de lá

Já falamos, aqui, sobre um brasileiro que tem tudo a ver com a Jamaica: René Simões (René Simões, o brasileiro desbravador da Jamaica). Nesse caso, o elo de ligação era o futebol. Porém, há um outro elemento que une profundamente as duas nações: a música.

Ao que parece, a primeira vez que se ouviu falar em reggae no Brasil foi através de Caetano Veloso. Em 1971, ele gravou Nine Out of Ten (está no disco “Transa”, de 1972), na qual cita o som do reggae que ouvia na Portobello Road, na época em que vivia em Londres. Gilberto Gil, que também viveu exilado em Londres no mesmo período, só viria despertar para o ritmo mais tarde.

Em 1979, no LP Realce, Gil gravou a faixa Não Chore Mais, sua versão para No Woman, No Cry, de Bob Marley. Gil não conheceu Bob Marley, mas ficou amigo de Jimmy Cliff. Em 1980, excursionaram juntos pelo Brasil e lotaram todos os estádios por onde passaram.

Um encontro histórico: Gilberto Gil e Jimmy Cliff.  |  foto: Acervo Gege Produções Artísticas | divulgação

Um encontro histórico: Gilberto Gil e Jimmy Cliff. | foto: Acervo Gege Produções Artísticas | divulgação

Muito tempo depois, em 2002, Gilberto Gil lançou “Kaya n’gan daya”, uma homenagem a Bob Marley. O disco, de 16 faixas, foi gravado na Jamaica (13 faixas) e no Rio de Janeiro (as outras 3). Há releituras de clássicos como Three Little Birds e Buffalo Soldier , além de versões para Time Will Tell e Lively Up Yourself. Na Jamaica, Gilberto Gil gravou nos estúdios Tuff Gong , de Bob Marley, e contou com a participação dos vocais femininos das I-Three (Rita Marley [viúva do compositor], Marcia Griffiths e Judy Mowatt), em faixas como One Drop e Rebel Music (ouça abaixo).

Recentemente, o prestigiado jornal jamaicano Jamaica Observer publicou uma matéria em que compara a importância de Gil, para a música, a de Pelé, no futebol. Além disso, nomeia Gil o Marley brasileiro, por suas ideias e comentários, em defesa dos oprimidos.

Rita Lee, Baby Consuelo e Luiz Melodia, esses e outros artistas flertaram com o reggae. Os Paralamas do Sucesso foram muito influenciados pelo reggae e o ska jamaicanos, principalmente a partir do LP “Selvagem” (1986), que mudaria os rumos e a cara da banda (ouça abaixo o disco na íntegra).

Outra banda brasileira importante e fortemente ligada às raízes jamaicanas é o Skank (ouça abaixo Ela Me Deixou, nova música de trabalho da banda). Antes de se tornarem conhecidos, Samuel Rosa e Henrique Portugal tocavam numa banda de reggae mineira, chamada Pouso Alto.

Contudo, a banda brasileira de reggae por excelência é o Cidade Negra (leia matéria especial sobre a banda). Surgida na Baixada Fluminense, há 28 anos, a banda tem 13 LPs gravados, sendo que o mais recente, “Hei, Afro!”, foi mixado na Jamaica. Segundo Toni Garrido, a Jamaica está para a música, assim como o Japão está para a tecnologia. Em sua opinião, o que vai ser novidade daqui a 5, 6 anos é o que está acontecendo agora por lá.

Em 2011, um disco selou ainda mais a relação Brasil-Jamaica: “Bambas Dois” (assista acima ao clipe Only Jah Love, com participação do astro jamaicano Sizzla), produzido por Eduardo BiD e Gustah Echosound. Com 14 faixas, “Bamba Dois” reúne músicos brasileiros e jamaicanos em encontros primorosos, como em Little Johnny, com Chico César e Jah Marcus ou no xote Brasil (Little Sunday), com Ky-mani Marley e Dominguinhos. Misturando gerações e ritmos dos dois países, “Bambas Dois” resume um pouco da relação musical entre duas culturas tão diferentes e tão semelhantes, ao mesmo tempo. Uma relação que não se esgota, que sempre se renova e se atualiza.

“Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui…
Pro outro lado de lá
Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui…
Brasil, Jamaica”

Ouça o disco “Selvagem?”, do Paralamas do Sucesso: