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Vamos celebrar o reggae!

O primeiro ministro Michael Manley recebe Nelson Mandela e Winnie na Jamaica | foto: reprodução internet

O primeiro ministro Michael Manley recebe Nelson Mandela e Winnie na Jamaica

O reggae nasceu na Jamaica, no final dos anos 1960 e influenciou a música mundial. Porém, a consciência a respeito da força e da real importância desse ritmo é algo relativamente recente na ilha. Cada vez mais, os jamaicanos têm se orgulhado de sua cultura e de como ela é admirada mundo afora. Por conta disso, surgiram eventos que enaltecem o ritmo que ajudou a tornar a Jamaica conhecida internacionalmente.

Um deles, o International Reggae Day (IRD), acontece desde 1994 e tem uma história interessante. Em 1991, Nelson Mandela e sua mulher à época, Winnie, visitaram a Jamaica. Mandela havia saído da prisão no ano anterior e ambos foram calorosamente recebidos. Num discurso feito durante a visita, Winnie  disse que o reggae havia sido uma fonte de inspiração para o povo sul-africano, em sua luta contra o apartheid.

Ao ouvir essas palavras, Andrea Davis, uma administradora musical jamaicana, teve a ideia de criar um evento que celebrasse a importância do reggae na Jamaica e em todo o mundo. Assim, em 1 de julho de 1994 o IRD foi lançado e, a partir de 2000 – quando foi proclamado pelo Governador Geral – tornou-se um evento anual. Acontece sempre em 1 de julho, em Kingston, e são 24 horas de reggae em shows, exposições e workshops, com transmissão pela TV, rádio e internet.

Beenie Man, Mya & Deejay Spice, Vybz Kartel & Gaza Slim, Mavado e Chronixx são artistas que já se apresentaram no Reggae Sumfest.  |  fotos: reprodução internet

Beenie Man, Mya & Deejay Spice, Vybz Kartel & Gaza Slim, Mavado e Chronixx são artistas que já se apresentaram no Reggae Sumfest.

O Reggae Sumfest é o maior festival de música da Jamaica e acontece desde 1993, em Montego Bay, sempre na terceira semana de julho. Além de reggae, o festival também tem dancehall, R&B e hip hop, chegando a atrair mais de 30.000 pessoas.

Com o lema “Promoting Music, the Universal Force”, o Sumfest começa com uma grande festa na praia, animada por DJs e, nos dias seguintes, traz atrações como Shaggy, Sean Paul, Rihanna e Lionel Richie. Em 2014, Chronixx, Tessanne Chin e Freddie McGregor foram apenas alguns dos artistas a se apresentarem. A organização do festival ainda não divulgou a programação para este ano, mas as datas estão confirmadas: de 12 a 18 de julho.

No ano de 2015, Bob Marley completaria 70 anos e uma série de eventos foram programados dentro e fora da Jamaica para celebrar a data. No dia 6 de fevereiro, data do nascimento de Bob, no Museu Bob Marley, em Kingston – o mesmo visitado recentemente pelo presidente americano Barack Obama (leia Barack Obama na Jamaica: Yes, they can!) – houve jam sessions e performances dos chamados “Marley 70 ambassadors”, Chronixx, Kabaka Pyramid e No-Maddz, além de simpósios sobre reggae. Já no dia seguinte, a Bob Marley Foundation promoveu um show gratuito na orla de Kingston.

Batizado de Redemption Live, o show trouxe, além dos filhos de Marley, Tarrus Riley, Cocoa Tea, Freddie McGregor, Marcia Griffiths (uma das I Three, trio de backing vocals que acompanhava Bob Marley), I-Octane, Capleton, Judy Mowatt (também das I Three), Jermaine Edwards entre outros (assista ao trecho do show abaixo).

Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Canadá e Romênia são exemplos de países onde houve eventos para comemorar o nascimento do grande astro do reggae. Parece incrível que, mais de 30 anos após sua morte, Bob Marley continue a ter uma enorme legião de fãs. Em plena era digital, é a celebridade póstuma com o segundo maior número de seguidores (mais de 73 milhões) no Facebook. Perde apenas para Michael Jackson, morto há menos de 6 anos.

Assista ao clipe israelense em homenagem aos 70 anos de Bob Marley:

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Bob Marley e alguns de seus bons encontros

Quando pensamos em grandes astros da música, às vezes nos perguntamos se eles se encontraram com outros grandes astros e imaginamos como teriam sido esses encontros. O mundo nem sempre foi globalizado como hoje e muitos artistas, apesar de contemporâneos, nunca se cruzaram.

Ao longo da vida, Bob Marley teve alguns encontros bem interessantes e resolvemos contar, aqui, as história de alguns deles. Dois aconteceram em 1975, o primeiro em março, na Jamaica.

Um grupo já famoso na época chamado The Jackson Five foi convidado para abrir o show de Bob and The Wailers, no National Heroes Stadium. Michael Jackson era um adolescente de 16 anos e, embora muito talentoso, não era ainda nem sombra do ídolo pop que viria a ser.

Foto histórica: Bob Marley e Michael Jackson, os reis do reggae e do pop juntos!  |  foto: reprodução internet

Foto histórica: Bob Marley e Michael Jackson, os reis do reggae e do pop juntos!

O grupo vivia uma transição. Estavam deixando a gravadora Motown, responsável pelo sucesso de um grande número de artistas negros, nos anos 1960 e 1970. Bob Marley, por outro lado, alcançava sucesso internacional com No Woman No Cry, canção do álbum “The Natty Dread”.

Antes do show, os Jackson Five visitaram Marley em sua casa, em Kingston. Resultado de um mundo menos tecnológico e mais poético, não há registro do show em áudio ou vídeo, apenas fotos.

George Harrison e Bob Marley, respeito mútuo.  |  foto: reprodução internet

George Harrison e Marley, respeito mútuo.

O segundo encontro deu-se meses depois, na Califórnia. Na época, Bob Marley já pertencia à gravadora Island Records e excursionava pelos EUA. O presidente da Island, Charley Nuccio, ficou sabendo que George Harrison era fã de Marley e convidou-o para visitá-lo no camarim.

Ao saber da notícia, Marley ficou surpreso e disse: “Ras Beatle!” (algo como o príncipe Beatle). Foi uma visita rápida, cerca de 5 minutos, em que ambos demonstraram respeito e admiração mútuos. Apesar de nunca terem tocado juntos, após uma montagem feita com foto da época, circulou durante muito tempo um cartaz de show que teriam feito quando do encontro. Show esse que, infelizmente, nunca ocorreu!

Em 1980, Bob Marley fez sua única visita ao Brasil. A Island Records tinha se tornado um selo da gravadora alemã Ariola, que estava iniciando suas atividades no país. Marley, juntamente com Junior Marvin (guitarrista dos Wailers), Jacob Miller (vocalista do Inner Circle), Chris Blackwell (diretor da Island Records) e sua esposa vieram para a festa de inauguração.

Um time de estrelas comandado por Bob Marley, Chico Buarque, Toquinho e Paulo César Caju.  |  foto: reprodução internet

Um time de estrelas comandado por Bob Marley, Chico Buarque, Toquinho e Paulo César Caju.

Além de circular pela cidade e visitar a favela da Rocinha, o grupo seguiu para um importante compromisso: uma pelada de futebol. De um lado, Bob Marley, Junior Marvin, Paulo César Caju, Toquinho, Chico Buarque e Jacob Miller e do outro, Alceu Valença, Chicão (músico da banda de Jorge Ben) e mais quatro funcionários da gravadora. Os músicos brasileiros eram contratados da Ariola e Caju, ídolo da Copa de 1970, tinha em Bob Marley um fã.

Bob Marley disse a Paulo César: “Rivelino, Jairzinho, Pelé… o Brasil é o meu time. A Jamaica gosta de futebol por causa do Brasil”. Segundo Caju, Bob, além de canhoto, era habilidoso e bom de bola. Tanto que fez um dos 3 gols da vitória, os outros foram de Chico e Paulo César. A visita foi curta, mais o encontro foi marcante!

Inspirado no samba, que segundo ele era como o reggae (partilhando dos mesmos sentimentos das raízes africanas), Marley compôs na volta para casa a música Could You Be Loved (ouça a faixa abaixo). Repare na introdução da música e vai ouvir, de leve, o som da cuíca. Não é lenda, é verdade!

Stevie Wonder e Bob Marley encontraram-se algumas vezes. A primeira delas foi em 1975, no Wonder Dream Concert, em Kingston, num show beneficente para um instituto para cegos. Esse show ficou também conhecido como Wailers Reunion Show, pois foi a primeira e última vez que os integrantes originais (Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer) tocaram juntos, desde 1974. Durante o bis de Stevie, ele chamou Bob Marley ao palco e cantaram juntos I Shot The Sheriff e Superstition.

Bob Marley e Stevie Wonder, sintonia musical e positive vibes.  | foto: reprodução internet

Bob Marley e Stevie Wonder, sintonia musical e positive vibes.

Quatro anos depois, encontraram-se na Filadélfia, nos EUA. Era a convenção nacional da Black Music Association. Por ser um evento privado e num passado em que as pessoas não portavam celulares com câmera, não há registros gravados. Porém, há quem diga ter sido essa uma das melhores performances de Bob Marley, convidado como embaixador jamaicano do reggae.

O público, composto pela elite da indústria da música, ficou fascinado com seu carisma e sua energia no palco. Quando cantou Get Up Stand Up, na companhia de Stevie Wonder, muitas pessoas atenderam literalmente ao apelo, subindo e dançando sobre mesas e cadeiras. Esse encontro inspirou Stevie a compor Master Blaster (Jammin, do álbum “Hotter Than July”), em homenagem a Marley.

Durante um concerto, em Washington, em 1980, ambos encontraram-se no palco pela última vez. Enquanto Stevie cantava Master Blaster, Marley surgiu do nada e não cantou, apenas falou com o público. Havia amizade e sinergia entre os dois astros. Cogitaram fazer uma turnê juntos, mas isso não chegou a se concretizar.

Em 1980, Bob Marley and The Wailers estavam excursionando pelos EUA, divulgando o disco “Uprising”. O último show seria na Pensilvânia, porém, acabaram encaixando na programação dois shows em Nova Iorque. Na verdade, fariam a abertura de um show do The Commodores (cujo vocalista era Lionel Ritchie).

Bob Marley e The Commodores, mistura de soul e reggae para conquistar novos públicos.  |  foto: reprodução internet

Bob Marley e The Commodores, mistura de soul e reggae para conquistar novos públicos.

A carreira internacional de Bob Marley já estava consolidada. Era conhecido em todos os cantos do planeta. Porém, nos EUA, seu público era limitado a jovens brancos e I Shot The Sheriff, por exemplo, era mais identificada com a versão de Eric Clapton. Assim, Marley entendeu que participar de um show de um grupo negro de soul e funk seria uma forma de se aproximar do público afro-americano.

Os organizadores nem se preocuparam em colocar nos tickets o nome da banda de abertura. No Madison Square Garden, a apresentação dos jamaicanos foi diferente do usual. Usaram roupas mais urbanas, evitaram coreografias e levaram sua mensagem, repleta de conotações políticas e religiosas. Muitas pessoas deixaram o local depois da abertura, sinal de que já tinham cumprido seu propósito. Para os que ficaram, a apresentação de um Commodores já numa linha mais comercial e distante de seu projeto inicial foi um tanto decepcionante.

Antes de ir para a Pensilvânia, ainda em Nova Iorque, Bob Marley sentiu-se mal e caiu no Central Park, enquanto corria. Era o primeiro sinal do câncer que daria fim à sua vida, meses depois.

foto: divulgação Easy Star All-Stars

Discos-tributo: tudo pode virar reggae!

Já é mais do que sabido que o reggae, nascido na Jamaica, espalhou-se pelo mundo e influenciou diversos artistas e bandas. Porém, outro fenômeno que vem acontecendo ao longo dos últimos 10 anos, são as versões reggae de canções que originalmente fizeram sucesso em ritmos que vão do rock ao country. Assim como o Sambô faz no Brasil, transformando tudo em samba, alguns grupos são praticamente especialistas em transformar tudo em reggae.

foto: divulgação Easy Star All-Stars

A banda Easy Star All-Stars

Talvez o mais famoso de todos, a banda jamaicana/americana Easy Star All-Stars, lançou, em 2003, sua interpretação para o clássico “The Dark Side of the Moon”, de Pink Floyd. Com o título de “Dub Side of the Moon”, o álbum traz as faixas na mesma ordem do original, todas retrabalhadas e, de fato, muito interessantes. A partir do sucesso desse projeto, a banda lançou, em 2006, “Radiodread”, com covers do álbum “OK Computer”, do Radiohead. Três anos mais tarde, lançou um tributo ao disco dos Beatles, “Sgt.Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, chamado “Easy Star’s Lonely Hearts Dub Band” e, em 2012, foi a vez de homenagear “Thriller”, de Michael Jackson, com “Easy Star’s Thrillah” (ouça abaixo). Os fãs dos originais, como esperado, ficaram apreensivos, temendo que os tributos ficassem parecendo paródias. Felizmente, não foi que aconteceu: músicos competentes e vozes bem escolhidas para cada faixa, arranjos harmoniosos e participações especiais de peso, fizeram com que os 4 discos fossem respeitados e ganhassem seu próprio público.

foto: divulgação Radio Riddler

O duo Radio Riddler

Outra banda que tem feito um belo trabalho, na mesma linha, é Radio Riddler. Na verdade, trata-se de um duo, Brian Fast Leiser e Frank Benbini, integrantes da banda americana FLC (Fun Lovin’ Criminals). Começaram com um EP, fazendo versões reggae de 5 canções de  Marvin Gaye, nas quais utilizaram sua voz à capela. Depois, lançaram seus remixes favoritos no álbum “Dubplate’s Volume 1” e, recentemente, comemorando os 30 anos do lançamento de “Purple Rain”, de Prince, produziram “Purple Reggae” (ouça abaixo). Com participações especiais como as de Ali Campbell, do UB40, cantando Purple Rain, e Sinead O’Connor, em I Would Die 4 U, o resultado realmente surpreende e explica os longos 5 anos de execução do projeto, assim como os mais de 20 milhões de cópias vendidas.

Dois outros exemplos de discos-tributo são o “80’s Go Reggae” (ouça abaixo) e o “Reggae’s Gone Country”. No primeiro, grandes sucessos dos anos 80, como Holding Back the Years, do Simply Red e Nothing Compares 2U, de Prince (mas que estourou na voz de Sinead O’Connor), muitas vezes até melhoraram os originais, um pouco melosos ou muito datados daquela década. Um álbum para morar no seu tocador de música e ouvir sempre que der vontade.

Já o “Reggae’s Gone Country” (ouça abaixo) é mais irregular. Nem todas as canções combinam muito com o novo ritmo, o que faz com que o produto final pareça mais um reggae de Nashville, bastante profissional, mas sem o calor e o jingado de Kingston. Vale conferir a pegada jazz em Don’t It Make My Brown Eyes Blue, com a jamaicana ganhadora do The Voice USA, Tessanne Chin, e a versão bem animada de Freddie McGregor para The King of the Road.