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Cidade Negra: reggae brasileiro tipo exportação

Precursores do reggae no país e primeiro grupo brasileiro do gênero a atingir projeção nacional e internacional, o Cidade Negra trouxe inegáveis contribuições no sentido de uma afirmação da cultura reggae no Brasil e em outros países do mundo. Ao longo de 28 anos de carreira, o grupo acumulou hits, conquistou uma legião de fãs e investiu como nenhum outro na interlocução Brasil-Jamaica.

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Cidade Negra em sua formação atual: Bino, Toni Garrido e Lazão.

Baixada Fluminense. Rio de Janeiro. 1986. Subia ao palco, pela primeira vez, a banda Lumiar. O grupo, formado por quatro admiradores do reggae (Bernardo Rangel – Ras Bernardo, Da Gama, Bino Farias e Lazão), logo viria a ter de mudar o nome da banda (em função do nome Lumiar já ter sido registrado, à época, por outra banda). Bino Farias (baixista) recebeu em sonho o nome Cidade Negra, referência ao fato de o Brasil ser a nação com a segunda maior população negra do mundo. O nome foi imediatamente aceito e, no decorrer da segunda metade dos anos 80, a banda já se apresentava como Cidade Negra, a primeira representante do reggae no Brasil que atingiu projeção nacional e internacional.

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Capa de “Lute Para Viver” (1991)

Ainda no final da década de 1980, um documentário da BBC de Londres sobre a cultura local na Baixada Fluminense viria a jogar holofote na arte do quarteto de Belford Roxo e tal destaque resultaria num contrato com uma grande gravadora e no lançamento do primeiro disco (“Lute Para Viver”, 1991). O disco pode e deve ser reconhecido na qualidade de primeiro álbum de uma banda brasileira de reggae – trouxe o primeiro grande hit da banda (Falar a Verdade) e o luxo de uma participação especial do ídolo jamaicano Jimmy Cliff, na faixa Mensagem. “Lute Para Viver” trazia ainda uma versão digna de respeito para o clássico Jah Jah Made Us For A Purpose (Winston Foster – mais conhecido como Yellowman). Na versão do Cidade Negra, a música, cantada pelo baterista Lazão, foi chamada Nada Mudou (ouça abaixo).

Em 1992, a banda lança “Negro no Poder”, um álbum de inegável potência política progressista e de uma sonoridade facilmente comparável à fase de maior prestígio da banda jamaicana Black Uhuru (a título de exemplos, ouça a faixa Conciliação, abaixo, além de Sai-Lário e Na Frente da TV). “Negro no Poder” viria a ser o último disco com Ras Bernardo na posição de vocalista do Cidade.

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“Sobre Todas as Forças” (1994), já com Toni Garrido nos vocais: o disco é considerado uma coletânea de sucessos da banda.

O terceiro álbum, “Sobre Todas As Forças” (1994), situa a entrada de Toni Garrido para a banda, trazendo o tempero soul com o qual o Cidade já flertava desde o início de sua formação. No entanto, esse álbum – que pode ser tomado como uma coletânea de sucessos da banda –, seguiria marcando compromisso com a “música que bate sem machucar”. Querem Meu Sangue, versão de Nando Reis para a clássica The Harder They Come (eternizada por Jimmy Cliff) é uma das faixas que se destacam no disco que ainda presenteia o público (de reggae, mas não só) com Casa (mais um ponto de referência  à banda Black Uhuru), Minha Irmã, Doutor, Mucama, Luta de Classes e os grandes sucessos radiofônicos A Sombra da Maldade, Pensamento (composição do período de Ras Bernardo), Onde Você Mora? (composta por Nando Reis e Marisa Monte) e a emblemática Downtown, que conta com a participação de Shabba Ranks, gigante do dancehall jamaicano. A música é a narrativa das viagens de uma banda de reggae que tem o privilégio de encontrar-se com ídolos do tamanho de Ziggy Marley e Jimmy Cliff. Uma banda credenciada a apresentar-se no Reggae Sunsplash Festival (Montego Bay, Jamaica) na qualidade de primeira representante latino-americana a tocar nesse importantíssimo festival. Downtown alude, portanto, à ambição maior de toda banda de reggae: expor sua música na Jamaica de Shabba Ranks, Burning Spear, Wailing Souls, Big Youth e Cocotea.

A carreira do Cidade Negra se consolida definitivamente com o disco “O Erê” (1996). Nele, os fãs da banda puderam constatar a maturidade do ofício artístico dos cariocas em canções como O Erê [faixa-título que presta homenagem, em yorubá, à criança (em geral) e, particularmente, às crianças que passam a compor as famílias de integrantes da banda]. É um disco, aliás, marcado pelo sentimento de família, como se pode perceber no videoclipe de Firmamento, o grande hit do disco, que é, por sua vez, mais uma versão da banda para uma música de Mr. Yellowman, o rei do dancehall: Wrong Girl To Play With (ouça as duas versões abaixo). Por falar em versão, há mais uma ótima versão neste álbum. Trata-se de Simples Viagem – a original é intitulada Sitting And Watching (canção de Dennis Brown, “príncipe do reggae”). E, por falar em dancehall, ainda há de se destacar Realidade Virtual, mais um grande sucesso que, à época da gravação, contou com a participação da cantora jamaicana Patra e rendeu um belo videoclipe, indicado a diversos prêmios. “O Erê” traria outras pérolas, como Jah Vai Providenciar e a participação de Inner Circle em Free.


A história vitoriosa do Cidade Negra seguiu com “Quanto Mais Curtido Melhor” (1998), disco que explora a MPB sem perder a tônica do reggae (como pode ser facilmente constatado em faixas como Rio Pro Mar, O Vacilão e a versão para Nos Barracos da Cidade, de Gilberto Gil). Grandes acertos como Já Foi, Sábado à Noite, A Estrada e A Cor do Sol também fazem parte da tracklist deste que é um dos trabalhos mais bem produzidos do quarteto. No ano seguinte, os fãs foram surpreendidos (leia-se presenteados) com um álbum duplo. “Hits” é uma compilação de grandes sucessos (com a inclusão de Eu Também Quero Beijar, de Pepeu Gomes) e o álbum de “Dubs”, que merece um parágrafo à parte por se tratar de um dos trabalhos que talvez mais explicitem o potencial e prestígio da banda junto a nomes consagrados do reggae mundial.

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O Cidade Negra foi considerado pela crítica dos anos 90 como sendo uma “fábrica de hits” e passou a arrastar multidões para seus shows.

Reggae em seu estado mais lisérgico e mais psicodélico possível. Eis uma boa definição do dub. Num momento em que, no Brasil, pouco se falava em dub, o Cidade Negra lança um disco com versões dub para catorze músicas de seu repertório e, para tanto, conta com a participação de doutores em reggae e dub, como Augustus Pablo, Steel Pulse, Sly & Robbie, Aswad, Lee Perry e Mad Professor; além de ótimos dubs produzidos por Paul Ralphes, Nelson Meirelles, Liminha e uma faixa trabalhada pela “cozinha” da casa, Lazão e Bino. Um disco obrigatório para qualquer fã de música jamaicana. Ouça abaixo a versão dub para a faixa Realidade Virtual.

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O álbum “Direto” (2006), com participação de Toni Garrido e Da Gama, que sairiam do grupo em seguida.

Marcando a passagem para o novo milênio, “Enquanto O Mundo Gira” (2000) vem com guitarras e destaques como Na Moral, Cidade Partida e A Flecha e o Vulcão (esta última teve videoclipe filmado na Jamaica, em lugares emblemáticos para os amantes do reggae, como o Trenchtown Culture Yard, por exemplo). Em 2002, um álbum “Acústico” com versões desplugadas de grandes clássicos, os lançamentos de Berlim e Girassol, a presença (mais que especial) de Gilberto Gil e mais uma excelente versão – dessa vez, para a canção de Chuck Berry na consagrada leitura de Peter Tosh – Johnny B. Good. Em 2004, “Perto de Deus”, disco mixado na Jamaica, viria a retomar um reggae clássico, recheado de dub, com participação do jamaicano Anthony B na faixa-título e uma versão para Concrete Jungle (Bob Marley & The Wailers), além dos sopros que aludem a Burning Spear na música Dia Livre. Na sequência, dois álbuns Ao Vivo: “Direto” (2006) e “Diversão” (2008), este último com grandes acertos da música brasileira gravados em releitura jamaicana.

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Alexandre Massau, entre Bino Farias (à esquerda) e Lazão, esteve à frente dos vocais para o lançamento do disco “Que Assim Seja” (2010).

Com a saída de Toni Garrido (voz) e Da Gama (guitarra), Bino e Lazão lançam, em 2010, o disco “Que Assim Seja”, com novo vocalista, o mineiro Alexandre Massau. O disco traria a participação do DJ/toaster jamaicano Ranking Joe em Na Onda Do Jornal / Espera Amor (citação da parceria dos bambas Agepê e Canário). Toni Garrido volta ao microfone do Cidade Negra em janeiro de 2011 para uma série de shows e o trio (Toni, Bino e Lazão) encaram, mais uma vez, o estúdio e mais uma ida à Jamaica para a mixagem, entre 2012 e 2013, do mais recente álbum de inéditas da banda. Intitulado “Hei, Afro!” numa alusão à diáspora africana, o disco é um passeio nos mais diversos tipos de reggae: da sonoridade tradicional de Diamantes ao dancehall em Don’t Wait.

Atualmente, o grupo está em turnê pelo país em comemoração aos 20 anos de lançamento do álbum “Sobre Todas as Forças” (1994). Seja pelo disco, seja pela longa e vitoriosa carreira até aqui, há motivos de sobra para comemorar.

Ouça a coletânea “Hits”, com os maiores sucessos do Cidade Negra:

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Reggae Legends: Lee “Scratch” Perry

Lee “Scratch” Perry é, sem dúvida alguma, a figura mais excêntrica de toda a história do reggae. Ao longo dos anos, seu comportamento incomum e errático foi largamente compensado por um notável instinto artístico, que deu novas dimensões à sonoridade do reggae, especialmente o dub. Sua carreira produtiva, cujo auge se deu entre o final da década de 1960 e final de 1970, ultrapassou a marca dos sessenta álbuns e chegou a quase quatrocentos singles, considerando suas atuações como artista e produtor. Muitas destas canções figuram até hoje em álbuns por todo o mundo.

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Perry: talento para produção musical que o levou a um caminho sem volta em direção à inovação sonora.

Lee “Scratch” Perry nasceu em Hanover, uma paróquia ao noroeste da Jamaica, em 1936, sob o nome Rainford Hugh Perry. Aos vinte anos ele operava uma escavadeira em um canteiro de obras, experiência através da qual descobriu, segundo ele, o poder do som. Sua introdução na indústria da música se deu  pelas mãos do produtor Duke Reid que, ainda segundo Perry, não o deixava gravar mas roubou algumas de suas composições e as deu para outro cantor, chamado Stranger Cole. A Lee Perry, nem os créditos e nem tampouco a compensação financeira. Nós poderíamos até especular sobre qual rumo sua carreira teria tomado a partir de então, se suas experimetações como produtor, mais tarde, não tivessem ganhado destaque inversamente proporcional à sua iniciação artística como cantor. Embora empregasse suas características vocais com personalidade e convicção, sua voz era muito frágil e faltava nela a textura típica de cantores convencionais como John Holt (ex-vocalista do Paragons), cuja influência de R&B continha muito mais apelo comercial. Perry, então, resolveu dedicar-se à produção de peças instrumentais, que por sua vez o levaram por um caminho sem volta em direção à inovação sonora.

Perry viria a estabelecer, mais tarde, uma conexão com o produtor do Studio One, Coxsone Dodd, trabalhando primeiro como “selector” no sound system Downbeat para, logo em seguida, assumir um importante papel criativo no selo Studio One, um dos mais emblemáticos da época. Lee Perry acumulava várias funções por lá, ainda que não recebesse os devidos créditos por suas múltiplas atividades como cantor, compositor e produtor musical. Foi ele o responsável por apresentar a Coxsone Dodd uma grande quantidade de artistas que viriam a se tornar referências para a gravadora e para a própria música jamaicana, além de ter gravado inúmeros singles como artista solo, às vezes sob o nome King Perry. Os singles “Rub & Squeese” e “Doctor Dick”, ambos de 1966, mostraram pela primeira vez o estilo lascivo das letras de Perry ao reino da música popular jamaicana, ainda sob o gênero dominante na ilha naquele período: o calypso. Naquela época, poucos poderiam imaginar que Perry já havia sido um “homem de família”, casado por um breve período no final da década de 1950 e aparentemente a caminho de uma vida serena e uma existência modesta e até apática. Há quem diga que foi justamente a desilusão com este relacionamento que motivou sua nova visão de mundo, sobretudo em relação às mulheres, o que acabou norteando o comportamento controverso que ele demonstrou ao longo de sua trajetória.

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Lee Perry: começo difícil e parcerias com diversos outros produtores para, em seguida, lançar-se como produtor independente.

Sem ter um salário para chamar de seu e muito menos qualquer participação em “royalties” sobre as músicas que produzia – prática muito comum na indústria musical jamaicana naquela época, Perry deixou o Studio One entre 1966 e 1968 para trabalhar com inúmeros outros produtores, incluindo Prince Buster e Joe Gibbs. Em 1968, uma nova mudança de rumos seguida de outra decepção: após decidir trabalhar como produtor independente para o selo West Indies Records, foi demitido por não conseguir produzir grandes hits. Uma de suas gravações mais conhecidas nesta fase foi “Set Them Free” (ouça abaixo), de 1969, gravada sob o nome Lee Perry & The Defenders. A música era uma resposta um tanto provocativa a um personagem criado por Prince Buster, chamado Judge Dread, que costumava condenar os chamados rude boys a 400 anos de prisão na música de mesmo nome. Perry criou, então, o personagem Lord Defender, que saía em defesa dos rude boys e tentava os livrar da sentença que considerava injusta, dadas as condições sociais e econômicas às quais estavam submetidos.

Lee Perry, aliás, tomou quase como um hábito direcionar ataques incisivos aos seus ex-empregadores em várias de suas gravações, incluindo os notáveis Prince Buster, Coxsonne Dodd, Joe Gibbs e Bunny Lee. O single “I Am The Upsetter” – termo que logo tornou-se mais um de seus famosos apelidos – foi pensado para ser um ataque direto a Coxsone Dodd, a quem atribui a culpa por ter prejudicado e alienado diversos artistas e produtores com os quais havia trabalhado valendo-se de acordos e negociações obscuras. O primeiro hit produzido por Perry, “People Funny Boy”, de 1968, tratava especificamente de Joe Gibbs, embora pudesse descrever muitas outras situações insatisfatórias, nas quais sua contribuição artística fora subvalorizada. Perry trabalhou com Gibbs como produtor e arranjador, até que as intrigas em virtude de disputas financeiras – que viria a se tornar uma marca registrada da indústria jamaicana – os levassem à separação. Segundo estimativas, “People Funny Boy” vendeu mais de 30 mil cópias, um número bastante razoável para os padrões da indústria à época. É irônico que Lee Perry tenha investido tanta energia em criticar modelos de negócios alheios, considerando que ele mesmo futuramente viesse a se envolver em transações duvidosas enquanto trabalhava com o The Wailers, a banda dos futuros “superstars” do reggae Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer. Alegando necessidade financeira, ele licenciou material da banda, supostamente sem autorização, para diversos selos internacionais.

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O genial Lee Perry à época do The Upsetters: talento musical inquestionável.

Antes dos conflitos com o The Wailers, porém, Lee Perry alcançou sucesso internacional com aquela que foi sua mais conhecida banda de estúdio, o The Upsetters (antes conhecida como Hippy Boys) provando que sua excentricidade tinha valor comercial global. O instrumental “Return Of Django”, inspirado nos filmes de velho-oeste italianos que faziam a cabeça dos jamaicanos naqueles tempos, foi um desses hits e invadiu as paradas de sucesso britânicas, alcançando a quinta posição no ranking das mais tocadas, em 1969. O sucesso da música se deve em parte à sua aceitação pelos “skinheads”, jovens britânicos da classe trabalhadora, brancos, que raspavam suas cabeças e rejeitavam o estilo de vida tradicional. Perry ainda daria outra grande contribuição à música jamaicana, ao produzir as primeiras gravações de U-Roy, o pioneiro DJ jamaicano que, mais tarde, viria a conquistar seu próprio espaço.

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Os irmãos Aston (à esquerda) e Carlton Barret, à direita de Bob Marley. Sob a direção de Lee Perry, eles gravaram juntos pela primeira vez.

Foi sob a direção de Perry que os vocalistas do The Wailers gravaram pela primeira em companhia dos irmãos Carlton e Aston Barret, que viriam a se tornar uma das sessões rítmicas de baixo e bateria mais importantes de toda a história da música jamaicana. Eles já haviam integrado o grupo The Upsetters em sua formação original, mas passaram a dedicar-se em tempo integral ao The Wailers após Lee Perry abrir seu estúdio, o Black Ark, em 1973. “Duppy Conqueror”, de 1970, foi uma dos primeiros hits resultantes da promissora parceria entre Lee Perry e The Wailers. Outras inúmeras sessões, gravadas anteriormente no Studio One, produziram algumas peças-chave para o futuro repertório  do grupo, incluindo “Sun Is Shinning”, “Small Axe” e “Kaya”, todas elas gravadas no período entre 1970 e 1971. É bem verdade que algumas destas sessões resultaram em vários álbuns lançados na Inglaterra (com material não autorizado) pela Trojan Records, como é o caso de “Soul Rebels” (1970), Soul Revolution (1971) e African Herbsman (1974), sendo que este é apenas um exemplo da complexa e conturbada relação entre os Wailers e Perry, a quem acusam de frequentemente não lhes pagar devidamente pelas obras.

O primeiro álbum de Perry com experimentações de dub foi “Cloak & Dagger”, lançado entre 1972 e 1974, não se sabe ao certo. O disco trazia bases de algumas faixas produzidas anteriormente com sua banda, o The Upsetters, e possuía diferentes versões para os mercados inglês e jamaicano. Embora não fosse propriamente um disco de dub, aquele foi certamente um dos primeiros passos nesta direção e poderia até ser considerado inovador para a época, já que as faixas dub foram cortadas da versão original jamaicana para o lançamento na Inglaterra, resultando em fracasso comercial. O próximo disco, “Rhythm Shower” (1973), foi lançado apenas na Jamaica e até hoje é considerado item raro.

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King Tubby, engenheiro de som jamaicano e parceiro fundamental de Lee Perry em algumas das primeiras produções de dub.

Perry logo passou a integrar um seleto grupo de produtores, a exemplo de Bunny Lee, investiu em equipamento de estúdio e incorporou técnicas de mixagem dub com o então renomado engenheiro de som King Tubby, considerado até hoje um dos pais do gênero. “Blackboard Jungle Dub”(1973) é o primeiro resultado de uma bem-sucedida parceria entre eles (que apesar da relação de proximidade desenvolveram técnicas e estilos bastantes diferentes ao longo dos anos). Uma raridade em termos conceituais para o reggae e considerado por muitos um clássico do “early dub”, o disco foi lançado em edição limitada e a um preço acima da média do mercado. Embora não tivesse perfil para integrar o “mainstream” britânico, o disco garantiu a Perry margem de lucro muito acima da média para artistas de qualquer gênero à época.

Perry costumava gravar suas faixas em alguns dos mais conhecidos estúdios da Jamaica, como o Randy’s e o Dynamic Sounds. No final de 1973, decidiu montar seu próprio estúdio, o Black Ark, no quintal de sua casa, em Kingston. Um dos principais motivos que o levaram à empreitada foi justamente a insatisfação em relação aos outros estúdios, que não investiam em “upgrades” de seus equipamentos, o que acabava por limitar as suas criações. Ter seu próprio estúdio significava ter poder para moldar sua criatividade musical e seu próprio destino na indústria da música. Segundo alguns relatos, o primeiro equipamento de Perry, um engenhoso sistema de gravação em quarto canais, foi construído por King Tubby, que além de excelente engenheiro de som era também um exímio conhecedor de eletrônica. Perry ainda contou com a colaboração de Errol E. T. Thompson, engenheiro de som que já havia realizado diversos trabalhos no Randy’s Studio e cujas obras continham grande valor e influência.

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Lee “Scratch” Perry em ação no seu lendário estúdio Black Ark, em 1973.

Muito além de simples vitrine para o seu trabalho, o Black Ark era em si mesmo uma espécie de “teia de ideias” para a criatividade de Perry. Suas paredes eram repletas de fotos, figuras e símbolos escritos à mão que não pareciam fazer sentido algum, o que deu margem a especulações sobre sua saúde mental. Mais que um estúdio, o local tornou-se um museu audiovisual para Lee Perry, cujo senso empresarial permaneceu intacto: ele passou a vender inúmeras produções exclusivas em forma de “dubplates” para importantes “soundsystems” de Londres, e costumava trocar algumas obras por roupas e outros suprimentos.

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O disco Super Ape (1976), primeiro álbum de Lee Perry lançado pela Island Records.

Além dos avanços com o estúdio, um acordo de licenciamento com a Island Records, em 1976, conferiu grande exposição à sua música, que agora contava com uma audiência sensivelmente maior. Em meados de 1970, a Island Records já havia se posicionado na vanguarda do reggae. Antes disso, porém, Lee Perry era o responsável por quase a totalidade das produções, gravações, prensagens, vendas e distribuição dos discos produzidos em seu estúdio. O influente “Super Ape”, de 1976, foi um dos primeiros lançamentos a serem beneficiados pelo acordo de produção e distribuição com o selo britânico. Graças à parceria com a Island Records, Lee Perry podia finalmente contar com uma audiência global e mostrar toda sua excentricidade ao mundo, apesar de vários (bons) discos produzidos no lendário Black Ark terem ficado em relativa obscuridade.

A aliança com a Island ainda possibilitou que Perry fizesse os devidos “upgrades” em seu equipamento de estúdio, podendo fazer ainda mais experimentações que, por sua vez, nem sempre resultaram em sucesso comercial. Houve quem dissesse que a inconsistência da vida pessoal de Perry começava a ficar evidente em sua obra, e que aquilo era um prenúncio de uma inequívoca e preocupante perda de foco.

Contrariando mais uma vez as expectativas, ele manteve-se engajado e logo veio a produzir outros grandes feitos. O single “Police & Thieves”, do cantor jamaicano Junior Murvin, uma das produções mais memoráveis de Lee Perry naquele período, alcançou boas posições nas paradas britânicas, e o mesmo se pode dizer de “Hurt So Good”, da cantora britânica Susan Cadogan (ouça abaixo), que emplacou o top 5 e vendeu em torno de 250 mil cópias.

Ele continuava acumulando hits, como já era o caso de “Curly Locks”(1973) com Junior Byles e “War Inna Babylon”, de Max Romeo, lançado pela Island em 1976. Poderia ter ficado limitado ao universo do reggae e não chegar ao mercado pop “mainstream”, se não tivesse produzido material para o ábum de estreia da banda de punk rock britânica The Clash, em 1977. Naquele mesmo ano, juntou-se a Bob Marley nos estúdios da Island, em Londres, para produzir a faixa “Punky Reggae Party”, uma declaração simbólica de alinhamento dos ideais “anti-establishment” dos punk rockers britânicos e dos dreads jamaicanos. Ainda em 1977, Perry reforçou sua vocação para a indústria pop ao produzir material para o album “Wide Prairie”, da então esposa de Paul McCartney, Linda McCartney (registro que só foi lançado em 1998, após sua morte).

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O disco de estreia do grupo de punk rock britânico The Clash (1977), contou com Lee Perry na produção e abriu novos horizontes de mercado para o produtor.

Seguiram-se outros projetos de grande valor artístico, porém, em razão de uma opção da Island em não lançá-los, Lee Perry viu o alcance de sua obra diminuir drasticamente. Sua relação com a gravadora britânica ruiu, assim como sua capacidade de quebrar padrões musicais gozando de reconhecimento comercial. O som produzido no Black Ark tornava-se cada vez mais estranho aos ouvidos, sua música era considerada cada vez mais inacessível, parecendo refletir suas batalhas psicológicas. A despeito de seus acordos comerciais com a Island, o selo acabou por marginalizar o seu trabalho, e várias de suas gravações solo – nas quais havia investido muito financeira e criativamente – não foram lançadas internacionalmente. O selo Trojan Records, no qual havia concentrado grande parte de seu material, também passava por grandes dificuldades e isso só ajudou a piorar a situação. Vários outros fatores contribuíram para um comportamento cada vez mais turbulento, e sua produtividade declinou no final da década de 70, à medida que o Black Ark guadualmente se desintegrava.

No início de 1983, o Black Ark foi consumido por um incêndio deflagrado por seu próprio criador, pondo fim a um dos maiores templos do dub jamaicano da história. Para alguns, Perry era apenas um personagem, inventado por ele próprio, que se fazia de louco para desviar a atenção dos criminosos num período de efervescência sociopolítica que dominava a Jamaica. Para outros, ele era em si mesmo uma personificação de suas criações musicais, um cérebro em constante estado de implosão psíquica. Ele alega que os motivos para o incêndio ao Black Ark estão relacionados às substâncias que usava enquanto produzia seus dubs. Ele cita os cigarros, carne, álcool (especificamente rum) e ganja (maconha) como sendo os agentes químicos fundamentais para o incidente. Certa vez, afirmou que não mais se identificava com o lugar onde as músicas foram criadas, já que não fazia mais uso das substâncias que alteravam seu estado de consciência. Em vez disso, agora voltaria a produzir o que chamou de “simple clean music”, músicas não afetadas pelo que passou a considerar como estimulantes negativos para a mente e o corpo. Mas muito embora ele tenha acenado com a possibilidade de um equilíbrio mental, suas falas nas entrevistas ainda permaneciam enigmáticas e misteriosas, desafiando a um entendimento real de seu significado.

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Black Ark: local repleto de fotos, figuras e símbolos escritos à mão, por onde passaram grandes nomes da música jamaicana e mundial.

Seu trabalho após o fim da era Black Ark mostrou-se inconsistente, tanto em termos de qualidade quanto de direção, e parecia refletir seu sentimento de inquietação e deslocamento após deixar a Jamaica, em 1984. De lá pra cá, ele viveu entre Londres e Nova Iorque até se estabelecer na Suíça por volta de 1989. Uma vida familiar, muito distante do ambiente que deu origem à sua carreira e lhe mostrou o caminho rumo ao estrelato internacional.

Ouça abaixo alguns hits produzidos por Lee “Scratch” Perry:

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Reggae Legends: Alton Ellis

Referindo-se à indústria musical jamaicana, Alton Ellis disse uma vez: “você tem que ser abençoado para conseguir algum ‘royalty’… mas não havia mesmo muito dinheiro ali”. Sua música, que era claramente caracterizada pelas mensagens de amor e unidade que carregava em suas letras, foi subestimada pela indústria musical à época.

Na era pré-reggae, as capas dos discos na Jamaica eram fortemente influenciadas pelo R&B americano.  |  foto: reprodução internet

Na era pré-reggae, as capas dos discos na Jamaica eram fortemente influenciadas pelo R&B americano. | foto: reprodução internet

Nascido em Kingston, Jamaica, entre o final da década de 1930 e o início de 1940, Ellis notabilizou-se por sua diferenciada e expressiva característica vocal. Sua carreira teve início em 1959, quando formou o duo de R&B “Alton e Eddy” em parceria com o cantor Eddy Perkins, logo após desistir de seu plano inicial de tornar-se dançarino. Não demoraria para que assinassem contrato com o renomado produtor  Coxsone Dodd, à época também em início de carreira, numa bem-sucedida parceria que logo lhes rendeu o primeiro hit: “Muriel” (1960). Ellis lembrava que, à época da gravação, em 1959, havia apenas um microfone no estúdio, de modo que os músicos e instrumentos eram estrategicamente posicionados e as gravações “ao vivo”, em única tomada, eram uma regra.

Alton & Eddy se separaram logo após Perkins se mudar para os Estados Unidos, e ambos seguiram em carreiras solo. O single “Rock Steady”, de 1966, citado por Alton Ellis como sendo a música que batizou o gênero de mesmo nome, em 1965, foi o primeiro hit do artista nesta nova etapa de sua carreira. Assim como algumas estrelas do rocksteady na época, Ellis frequentemente era convidado para diversos duetos e chegou a emplacar hits sob o título “Alton Ellis & The Flames”. Em 1966, sobretudo por questões financeiras, juntou-se à equipe de Duke Reid no selo Treasure Isle Records, onde gravou a música “Cry Tough”, um clássico da “rude-boy era”. Neste período, cantava músicas com críticas à violência praticada pelas gangues urbanas, deflagradas pela extrema pobreza enfrentada pelos jovens de Kingston. Entretanto, ele logo retomou o foco nas canções de amor, devido às seguidas ameaças sofridas por parte dos rude-boys, incomodados com as críticas de suas letras.

Em meados de 1960, Alton Ellis gravou o que viria a ser um dos maiores patrimônios musicais de toda a sua trajetória artística. A música “I’m Still In Love With You” foi a base para o hit “Uptown Top Ranking” (ouça a faixa acima), do duo de pop-reggae Althea & Donna, que em 1977 alcançou o primeiro lugar no ranking das mais tocadas no Reino Unido.

Embora nunca tenha alcançado reconhecimento artístico e retorno financeiro compatível com a riqueza de sua música, Alton Ellis marcou presença definitiva na indústria da música indiretamente, através dos hits adaptados a partir de suas obras. Outro exemplo recente, nos anos 2000, foi quando “I’m Still In Love With You” ganhou sua versão dancehall com Sean Paul (ouça abaixo) e fez enorme sucesso no mundo, inclusive no Brasil.

Após um período pouco produtivo, Alton Ellis mudou-se para Londres em meados de 1973, local que adotou como sua residência a partir de então. Ele continuou realizando turnês, a despeito de problemas de saúde que o fizeram passar mal em pleno palco, durante um show 2 meses antes de sua morte, em 2008.

Veja Alton Ellis cantando alguns de seus maiores sucessos ao vivo:

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Reggae Legends: Desmond Dekker

Embora muitas pessoas pensem que Bob Marley tenha sido o primeiro artista de reggae a alcançar um grande público branco, foi Desmond Dekker quem teve os singles de maior sucesso nos mercados inglês e norte-americano, além de ter sido o primeiro cantor de reggae a alcançar o topo das paradas britânicas. Nascido Desmond Dacres em Kingston, Jamaica, em 16 de julho de 1941, foi ele quem possibilitou o primeiro contato de muitos ouvintes com o reggae fora da Jamaica. Seu acentuado sotaque jamaicano era um som extremamente improvável e causou estranhamento nos tradicionais mercados britânico e norte-americano na década de 1960.

Os primeiros singles de Dekker foram lançados pela Beverley's Records  |  foto: reprodução

Os primeiros singles de Dekker foram lançados pela Beverley’s Records | foto: reprodução

Dekker iniciou sua carreira de cantor na Jamaica, como o homem de frente do Aces, uma banda de estúdio montada pelos produtores Duke Reid e Lloyd Daley. Sob a orientação de Leslie Kong, um empresário “jamaicano-chinês” que dirigia a Beverley’s Records em Kingston, ele conseguiu relativa exposição e status. Em 1963, emplacou a música “Honour Your Mother and Your Father”, feito que lhe rendeu o lançamento do single na Inglaterra pela Island Records, de Chris Blackwell, no ano seguinte.

Mas o início do sucesso internacional de Dekker viria com o lançamento de “007 (Shanty Town)”, em 1967, que conquistou o Reino Unido e alcançou o top 20 das paradas, durante um período conhecido como a “rude-boy era”, em que artistas jamaicanos costumavam cantar sobre sua condição social e econômica, que por sua vez os colocavam numa perspectiva de marginalidade em seu próprio país. Neste mesmo ano, Dekker fez sua primeira visita à Grã-Bretanha e ficou surpreso ao saber que sua música havia se tornado um hit por lá, já que para ele as pessoas não entendiam suas letras, cantadas em patois jamaicano, com um sotaque muito particular.

Sua maior conquista, no entanto, viria em 1969 com o lançamento do single “Israelites”, que chegou ao topo das paradas britânicas em março e emplacou o nono lugar nas paradas americanas em junho daquele mesmo ano. A canção vendeu mais de 5 milhões de cópias e também atingiu o topo das paradas em países como Canadá, Holanda, Bélgica e Alemanha, estabelecendo novos patamares globais para o gênero jamaicano até então. A música foi um sucesso até mesmo na era do Apartheid na África do Sul – em que pese a ironia da situação, já que a a letra tratava de temas como pobreza e opressão. Dekker fazia questão de lembrar que “Israelites” era, essencialmente, um comentário sobre os problemas econômicos e sociais da Jamaica: “Eu simplesmente escrevi sobre o que via acontecer, mas as pessoas no Reino Unido gostaram da melodia, ainda que não entendessem exatamente o que a música queria dizer”.

Embora o público tivesse abraçado o sucesso do single, o seu caminho para integrar o “mainstream” musical não foi nada fácil. A BBC, principal transmissora britânica, inicialmente recusou a gravação alegando baixa qualidade de produção, mas foi forçada a tocá-lo mais tarde devido à crescente demanda de público. “Israelites” ainda retornaria às paradas inglesas, em uma regravação de 1975, quando alcançou a posição de número 10 no ranking das mais tocadas.

O que é especialmente intrigante, particularmente nos Estados Unidos, é a forma como a música alcançou tamanho sucesso valendo-se de intonação vocal, sotaque e sincopagem rítmica completamente estranhas aos ouvidos do público branco e “mainstream” da época.

A música título do LP "Israelites" foi um dos maiores sucessos de Desmond Dekker  |  fotos: reprodução internet

A música título do LP “Israelites” foi um dos maiores sucessos de Desmond Dekker | fotos: reprodução internet

Mas apesar do sucesso do single, o reggae ainda estava longe de representar uma força em termos de vendagem de disco como estilo musical nestes mercados. O LP de “Israelites”, por exemplo, alcançou apenas a 153ª posição nos Estados Unidos durante suas breves 3 semanas na lista. No entanto, a faixa-título foi a primeira gravação de reggae a ter impacto comercial real  nos Estados Unidos, precedendo em 6 meses o primeiro hit de Jimmy Cliff por lá (“Wonderful World, Beautiful People”) e em quatro anos o primeiro ábum de sucesso de Cliff naquele país. Para se ter uma ideia do que isso representa, Bob Marley jamais teve uma música nas paradas de sucesso americanas, e não havia alcançado o ranking de vendagem de discos no mercado americano até o ano de 1975.

Desmond Dekker ainda lançou dois singles em seguida: “It Mek” (1969) e “You Can Get It If You Really Want” (1970) – esta última, composição de Jimmy Cliff. Ambas estiveram na lista britânica dos top 10, mas não gozaram do mesmo impacto nos Estados Unidos. Dekker mudou-se para a Inglaterra em 1969, com o objetivo de fazer crescer sua carreira, que viu declinar quando, em 1971, perdeu seu mentor e parceiro musical, Leslie Kong, que ainda produzia suas faixas na Jamaica. A partir daí, Dekker nunca mais se recuperou, embora suas músicas tenham voltado à tona no final dos anos 70 e início dos 80, durante o “revival” britânico dos movimentos ska e rocksteady.

Ele ainda gravaria, sem sucesso, dois álbuns para o selo de “New Wave Punk” Stiff Records, falido em 1984.

Desmond Dekker morreu em decorrência de um ataque cardíaco em 2006, aos 64 anos, mas seu lugar está permanentemente garantido na história da música.

Desmond Dekker foi o primeiro artista jamaicano a ser considerado uma lenda do reggae | foto: reprodução internet

Desmond Dekker foi o primeiro artista jamaicano a ser considerado uma lenda do reggae | foto: reprodução internet

Ouça a coletânea “Israelites: The Best of Desmond Dekker”

Bob Marley & The Wailers, em registro de 1973 para o tradicional programa de TV da BBC, em Londres. | foto: reprodução internet

One good thing about music: reggae at BBC

“Pois o reggae quando bate você nunca sente dor”, cantou a banda Cidade Negra na música “Downtown” – hit do grupo nos anos 90 – em uma bem-sucedida adaptação da frase de Bob Marley em “Trenchtown Rock”, por sua vez, hit do rei do reggae nos anos 70.

Embora seja utilizado para descrever a música jamaicana de um modo geral, o termo reggae indica mais especificamente um tipo de música em particular, nascido na Jamaica no final dos anos 60 e que tem como precursores imediatos o rocksteady e o ska.

Foi a partir dos anos 70, no entanto, que o gênero finalmente saiu dos guetos jamaicanos para alçar voos mais altos, primeiramente pela Europa e logo depois conquistando os mercados americano e mundial.

De lá pra cá, o reggae não só ganhou adeptos mundo afora como influenciou de forma contundente e definitiva a música e cultura globais.

Neste precioso registro da BBC, cujo formato já se tornou uma tradição para amantes do reggae e de música jamaicana, é possível conferir uma boa mostra do que foi o período considerado pela crítica mundial como a “golden era” do gênero.

São 90 minutos de um delicioso passeio musical pela essência do reggae em suas mais diversas vertentes, pra curtir sem moderação do início ao fim. Afinal, “uma coisa boa sobre música é que, quando ela bate, você não sente dor”!

Ilustração sobre foto conhecida do cantor e compositor jamaicano | foto: reprodução internet

Wanted, Dread & Alive: a saga de Peter Tosh

Winston Hubert McIntosh, o lendário Peter Tosh, nasceu no dia 19 de outubro de 1944, em Westmoreland, interior da Jamaica. Filho de Alvera Coke e James McIntosh, desde cedo o garoto já demonstrava profundo interesse pela música, embora suas únicas aulas de música tenham sido algumas lições de piano na 5ª série. Segundo Marlene Brown, sua esposa, Peter teria sido abandonado aos três meses de idade pelos pais, sendo criado pela tia-avó nos primeiros anos de vida. Seu pai tinha muitos filhos com várias mulheres, e Peter só veio a conhecê-lo aos 10 anos. Quando lhe perguntavam algo sobre o pai, ele dizia: “meu pai é um moleque. É só isso o que ele sabe fazer da vida: filhos! Eu nem faço ideia de quantos irmãos eu tenho”.

Em 1956, ele e sua tia mudaram-se para Denham Town, em Kingston, capital da Jamaica. Quando Peter completou 15 anos de idade, sua tia faleceu. Ele então se mudou com um tio para West Road, em Trenchtown, onde conheceu Robert “Nesta” Marley (Bob Marley) e Neville O’Reilly Livingston (Bunny Wailer), parceiros com os quais formaria o Wailin’ Wailers, cujo primeiro sucesso, intitulado “Simmer Down”, veio em 1964.

Da esquerda para a direita: Bob Marley, Bunny Wailer e Peter Tosh à época dos Wailing Wailers, em 1964.  |  foto reprodução internet

Da esquerda para a direita: Bob Marley, Bunny Wailer e Peter Tosh à época dos Wailing Wailers, em 1964. | foto reprodução internet

Depois de trabalharem com Joe Higgs, Clement “Coxsone” Dodd e Lee “Scratch” Perry, os então conhecidos como The Wailers foram apadrinhados por Chris Blackwell, produtor da Island Records, o que viria a resultar em diversas oportunidades, exposições e dois discos clássicos: “Catch a Fire” e “Burnin’”. Até então, o Reggae era exclusivamente jamaicano. O quadro viria a mudar quando os Wailers atingiram prestígio internacional e atravessaram as fronteiras da Jamaica. Mas algumas divergências com a Island fizeram com que a formação original se desintegrasse em 1974. Peter Tosh e Bunny Wailer saíram do grupo, abrindo espaço para Bob Marley, agora líder da banda.

Peter Tosh seguiu seu caminho com a mesma militância de sempre. Militância essa que os políticos viam como uma ameaça ao regime corrupto e que o povo enxergava como a rebeldia de um herói que lutava pelos direitos humanos, pela dignidade e libertação dos africanos. Sua missão era, acima de tudo, despertar a mentalidade de resistência do negro. A mensagem, porém, foi muito além desse ideal e vem, até hoje, ajudando as pessoas a pensar, conquistando admiradores em todo o mundo. Apesar de sua arte não ter atingido as mesmas proporções da música de Bob Marley, ela é indiscutivelmente importante aos apreciadores do Reggae e continua viva e atual.

Peter Tosh (ao lado de Bob Marley, à esquerda), ainda integrante do "The Wailers", em matéria de 1973.  | foto: reprodução internet

Peter Tosh (ao lado de Bob Marley, à esquerda), ainda integrante do “The Wailers”, em matéria de 1973. | foto: reprodução internet

A carreira de Tosh foi marcada por fases distintas. Ele atingiu o estrelato internacional no final da década de 70, emplacando sucessos nos quatro cantos do mundo. Algumas publicações internacionais estampavam em suas manchetes frases do tipo: “Peter Tosh: o próximo gigante do Reggae?”. Peter veio ao Brasil para encerrar o primeiro festival internacional de Jazz de São Paulo e aproveitou a passagem para gravar uma cena para a novela “Água Viva” nos estúdios da Rede Globo, no Rio de Janeiro. Peter também viveu fases conturbadas, geralmente relacionadas a conflitos com as autoridades jamaicanas e amigos barra-pesadas que frequentemente o procuravam em busca de ajuda financeira.

“Legalize It” (1976), seu primeiro álbum solo, trazia a temática que ele levou até sua morte: a legalização da maconha. Logo depois, montou sua própria banda, a Word, Sound & Power, que contava com músicos de primeira linha, como a dupla Sly Dunbar (bateria) e Robbie Shakespeare (baixo), considerados, à época, a grande revelação do cenário musical jamaicano. Foi com eles que Peter gravou o clássico álbum “Equal Rights” (1977), tido pela crítica como o disco mais bem produzidos de toda a sua carreira.

A música rebelde de Tosh continuava a todo vapor, espalhando-se e conquistando multidões. Um dos que se renderam ao talento do músico jamaicano foi Mick Jagger, o vocalista dos Rolling Stones, que surpreendeu-se com a performance de Peter no One Love Peace Concert e o convidou para gravar pelo selo Rolling Stones Records, de onde saíram dois álbuns: “Bush Doctor” (1978) e “Mystic Man” (1979).

Peter Tosh: atitude e rebeldia que renderam a fama de artista polêmico e provocador.  foto: reprodução internet

Peter Tosh: atitude e rebeldia que renderam a fama de artista polêmico e provocador. foto: reprodução internet

Durante aquele período, Peter contou com a colaboração de Mick Jagger e Keith Richards. Jagger, compartilhando os vocais em “Don’t Look Back” e Richards tocando guitarra em várias músicas. Hits como “Buckingham Palace”, “I’m The Toughest” (uma adaptação para o antigo sucesso de James and Bobby Purify, “I’m Your Puppet”) e o hino “Jah Seh No” também tiveram a colaboração da dupla. Mas nem tudo foram flores na parceria Tosh/Stones. Peter reclamou que seus discos pelo selo foram mal distribuídos e mal divulgados, os piores de sua carreira.

No ano de 1983, a formação da banda Word, Sound & Power sofreu alterações significativas. Músicos como George Fullwood (baixo) e Santa Davis (bateria), entre outros, passariam a integrar o time. Foi com essa formação, e já pela EMI, que Tosh gravou os álbuns “Mama Africa” (1983, disco que trazia sua versão para o clássico “Johnny B. Good”, de Chuck Berry, que viria a tornar-se seu maior sucesso), “Captured Live” (1984) e “No Nuclear War” (1987), o último de sua carreira.

Peter Tosh foi assassinado em 11 de Setembro de 1987. Três pistoleiros, entre eles, Dennis “Leppo” Lobban, um “rudeboy” conhecido de Peter, invadiram a casa de Tosh em busca de dinheiro. Tudo planejado por Leppo. Tosh, que conhecia técnicas de artes marciais, tentou reagir, o que resultou nos primeiros tiros. Peter, a esposa Marlene Brown, o baterista Santa Davis e alguns amigos estavam entre as vítimas do atentado. Nada foi levado da casa e a polícia chegou ao local após o tiroteio.

Peter chegou ao hospital ainda vivo, porém não resistiu aos ferimentos por muito tempo e morreu logo em seguida. Hoje, após quase três décadas de sua morte, vemos que sua música continua sendo lembrada e reverenciada no mundo inteiro. Sua imagem e sua originalidade permanecem intactas. Sua maneira de usar a arte como uma verdadeira arma na luta contra as injustiças e as desigualdades sociais e raciais continua sendo a marca registrada de Peter Tosh. Para os amantes da boa música, resta a convicção de que o talento prodígio de Peter Tosh merece muito mais do que já alcançou.

Ouça a versão remasterizada do clássico “Equal Rights”, de Peter Tosh:

foto: reprodução internet

Origem e tradição do Ska

O Ska originou-se na Jamaica, no final da década de 50. Combinando elementos caribenhos como o mento e o calipso e estadunidenses como o jazz, jump blues e rhythm and blues, os músicos jamaicanos criaram um novo ritmo, alegre, dançante e cheio de harmonia. É considerado o precursor do reggae, e suas letras abordam temas como marginalidade e discriminação, mas sem deixar de lado a diversão que caracteriza o gênero. Os “Skatalites” foram a primeira banda a gravar este gênero em estúdio, tendo acompanhado grandes nomes da música jamaicana em seu início de carreira como Bob Marley, Jimmy Cliff, Toots & The Maytals e muitos outros.

A banda jamaicana “The Skatalites” foi a primeira a gravar este gênero em estúdio, no final da década de 50. | foto: reprodução internet

Bob Marley, o rei do reggae | foto: reprodução internet

Is this love that I’m feeling? 34 anos sem Bob Marley

Um dos músicos mais importantes do século 20, Bob Marley foi mais que um artista genial. Nascido na Jamaica, filho de um capitão da marinha inglesa com uma negra camponesa, foi o inventor de um estilo e principal responsável por sua popularização em todo o mundo. 34 anos depois de sua morte, ocorrida em 11 de maio de 1981, não há como falar em reggae sem lembrar de Bob Marley.

Robert Nesta Marley, o Bob Marley que todo mundo conhece, foi um artista completo. Da música às atitudes, a imagem que se tem dele é a de um músico talentosíssimo e de um líder extremamente preocupado com o destino da humanidade.

Bob nasceu em St. Ann, um vilarejo de Nine Miles, zona rural jamaicana. Sua mãe, uma negra camponesa chamada Cedella Booker, engravidou de um capitão da marinha inglesa, Norval Sinclair Marley, que desapareceu logo em seguida. Bob passou a maior parte da infância com o avô, Omeriah Malcolm, um feiticeiro-curandeiro jamaicano cujas palavras de sabedoria o acompanharam em toda sua trajetória.

Ainda criança, no ano de 1955, Bob mudou-se para Kingston, capital jamaicana, onde teve de deixar as brincadeiras de criança do campo para enfrentar a dura realidade de um gueto miserável. Podertia ter se transformado em mais um delinquente condenado à morte prematura ou a longas temporadas na cadeia mas, pare ele, a música falou mais alto.

Sob influência do rhythm’n blues Americano – Fats Domino, The Moonglows e Curtis Mayfield eram os grandes nomes do gênero à época – era cada vez maior a admiração do garoto Robert Nesta pela música.

Sua primeira experiência em estúdio aconteceu em 1962, quando Jimmy Cliff – na ocasião um ilustre desconhecido – apresentou-lhe a Leslie Kong, um chinês que topou arcar com as despesas com músicos e aluguel de estúdio. Bob então gravou duas composições: Judge Not e Do You Still Love Me?, apenas mais um fracasso entre tantos cometidos por diversos jovens daquela pequena – e até então desconhecida – ilha do Caribe.

À época, a mãe de Bob estava casada com um tal de Toddy Livingston – cujo filho, Bunny Livingston (hoje conhecido como Bunny Wailer), passou a compor com Bob algumas músicas. Mais tarde, Winston Hubert Macintosh (Peter Tosh) juntou-se à dupla. Estava formado o grupo “Wailing Wailers”.

Em 1964, o trio emplacou a música Simmer Down, o primeiro de tantos outros sucessos que viriam em seguida. O ritmo ainda era o Ska. As letras eram fortes, engajadas e expunham as dificuldades enfrentadas pelos Wailing Wailers no dia a dia dos subúrbios de Kingston, a mesma realidade enfrentada por toda uma geração de jovens daquele lugar, sobre os quais Bob, Bunny e Peter exerciam grande influência.

Foi em meados de 1968 que o reggae começou a tomar a forma e o conteúdo tal qual conhecemos atualmente. O Rock Steady – considerado o avanço do Ska, com o baixo mais forte e a batida mais acelerada – serviu como elo de ligação com o reggae, que agora trazia com ele a fé rastafári. Entre outras tantas coisas, o rastafarianismo pregava a volta dos negros e seus descendentes à África e atribuía poder de cura à maconha. Haile Selassie, ex-imperador da Etiópia, era tido como um novo “Messias”. Seu nome de batismo era Ras Tafari Makonnen, daí a origem do termo Rastafari.

Agora, mais do que letras de protesto, o reggae engajava-se numa causa mais espiritual. A crença rastafári uniu-se aos ideais revolucionários de Bob Marley e seus comparsas e não demorou muito para que os rastas misturassem o som de seus tambores às guitarras e outros instrumentos nos estúdios. A música popular caracterizou-se então com um aspecto “gordo”, muito mais pesado do que antes. Baixo e bateria estavam à frente e as melodias eram, no mínimo, intrigantes.

Em 1966 Bob casou-se com Rita Anderson. No dia seguinte ao casamento, viajou para os EUA, chegando a Delaware, na Filadélfia, para tentar a sorte nas linhas de montagem das fábricas de automóveis. Há quem diga que era uma maneira de Bob tentar trilhar outros caminhos, haja vista a dificuldade que encontrara em se manter como músico na Jamaica. Para outros, era apenas uma forma de conseguir um dinheiro extra para tentar levar sua música mais longe, frequentar os melhores estúdios e, quem sabe, gravar um bom disco. Não deu outra: a música mais uma vez falou mais alto e Bob Marley voltou para a Jamaica, onde sua carreira de cantor e compositor finalmente decolou.

De volta à ilha, Bob reencontrou os amigos Peter Tosh e Bunny Wailer. Juntos, passaram a frequentar os melhores estúdios da Jamaica e em 1969 conheceram o produtor Lee “Scratch” Perry, que os presenteou com or irmãos Carlton (bateria) e Aston Barret (contrabaixo). A partir daí, o grupo passa a se chamar “The Wailers”. Segundo Rita Marley, Lee Perry despertava um lado irreverente e alegre da personalidade de Bob, o que ninguém havia conseguido até então. E isso rendeu bons frutos para ambos. Mas nem tudo foram flores na parceria de Bob Marley & The Wailers com o produtor. Com algumas belas composições inéditas nas mãos, Perry achou que elas lhe pertenciam por direito e as vendeu para a Europa. Isso explica a enorme quantidade de discos “não oficiais” de Bob Marley & The Wailers em todo o mundo, com fotos de capa diferentes para o mesmo conteúdo.

O melhor momento da carreira de Bob Marley & The Wailers, entretanto, viria mais tarde, com a proposta de Chris Blackwell, dono da gravadora Island Records, de lançá-los no mercado internacional. De fato, a música estava redonda, o ritmo jamaicano estava pronto para explorar novos mercados. O reggae já havia dado as suas caras pelo mundo com o lançamento do filme “The Harder They Come” (1971), de Perry Henzel, com Jimmy Cliff no papel principal e através das músicas Ob-La-Di, Ob-La-Da (Beatles, 1968, com acompanhamento de uma banda jamaicana) e I Can See Clearly Now (Johnny Nash, 1972). Porém, nada que chamasse a atenção do mundo para o novo ritmo.

Com o lançamento do álbum “Catch a Fire”, em 1972, não demorou para que a Inglaterra desse ouvidos ao som dos Wailers. O disco era uma produção esmerada, uma mistura do som original dos Wailers gravado na Jamaica com algumas sessões gravadas em Londres – um time competente de técnicos e engenheiros de som especialmente contratados pela Island para este trabalho participou da gravação. Apesar de as vendas iniciais não ultrapassarem as 14.000 cópias, o disco recebeu elogios da crítica e o reggae estava definitivamente inserido no cenário musical internacional. O segundo disco, “Burnin’”, lançado em 1973, acabou por conquistar não só o público, mas também alguns dos grandes nomes do showbizz mundial na época. Eric Clapton regravou I Shot The Sheriff, fato que por si só já dava credibilidade suficiente para Bob Marley e sua trupe seguir em frente com sua música.

Porém, dois dos integrantes originais dos Wailers, Peter Tosh e Bunny Wailer saíram, abrindo espaço para Bob, agora líder da banda. Em 1974 veio o álbum “Natty Dread” (o nome estampado nas capas dos discos agora era Bob Marley & The Wailers). Com uma liberdade maior e mais autonomia sobre a banda, a carreira de Bob Marley decolou de vez. Os Wailers contavam agora com um poderoso trio de backing vocals, as I-Threes. Rita Marley, Marcia Griffiths e Juddy Mowat acompanharam Bob Marley & The Wailers numa curta temporada no Lyceum de Londres, que deu origem ao álbum “Live”, de 1975. Essa foi a formação mais consagrada da banda, aquela que todo mundo já deve ter visto, seja em clipes ou nos inúmeros documentários e fotos sobre Bob Marley, na TV ou na web. É também a mais produtiva, já que deu origem a mais de meia dúzia de discos, todos contendo grandes sucessos na voz de Marley.

Sessão de fotos que deu origem à capa de "Natty Dread", de 1974: a banda agora passaria a se chamar "Bob Marley & The Wailers".  |  foto: reprodução internet

Sessão de fotos que deu origem à capa de “Natty Dread”, de 1974: a banda agora passaria a se chamar “Bob Marley & The Wailers”. | foto: reprodução internet

As coisas mudaram bastante na vida do rei do reggae. Ele ainda passava a maior parte do seu tempo na Jamaica, porém, vivendo numa mansão na área chique de Kingston, onde não só recebia amigos e parentes, como lhes dava toda a assistência necessária. A bondade de Marley o impedia de negar favores às pessoas, o que acabou por fazê-lo perder o controle das coisas. Ele era popular mundialmente, rodava o mundo fazendo shows e seu tempo era cada vez mais escasso. Esteve no Brasil em 1980, onde entre outras coisas, jogou bola no campo de Chico Buarque.

Um ano antes lançou “Survival”, o disco que calou a boca dos críticos que diziam que ele tinha se vendido ao sistema. No disco, que traz na capa bandeiras de países africanos, Bob cantava a volta dos negros à África, um dos principais pilares da cultura rastafári. Na festa de independência do Zimbabwe, Marley experimentou glórias de chefe de estado e foi absurdamente aclamado pelo público, que via em sua figura a de um revolucionário, um libertador.

Ele havia passado por uma experiência parecida em 1976, quando foi convidado a tocar em uma festa apoiada pelo governo jamaicano. Após aceitar o convite, teve sua casa invadida por um grupo de pistoleiros que abriram fogo contra ele, sua esposa, Rita, e seu empresário, Don Taylor. Rita Marley foi atingida na cabeça, Taylor quase morreu e Bob levou um tiro no braço. O atentado não impediu a realização do show, dois dias depois, na Arena Nacional dos Heróis. No estádio, 70 mil pessoas louvavam Marley, cantando em coro suas músicas.

Após machucar o dedo do pé durante uma partida de futebol na França, Bob deveria ser exposto a uma cirurgia de amputação do dedo, o que não aconteceu em virtude do fato contrariar sua crença rastafári, que o impedia de cortar qualquer membro do seu corpo. O câncer manifestou-se primeiro na perna, na forma de uma simples contusão, mas Bob manteve-se fiel àquilo que acreditava até o fim. Após algumas frustradas tentativas de recuperação, Bob sucumbiu à doença no dia 11 de maio de 1981, deixando para trás um legado que só aumenta com o passar dos anos.

Sua herança financeira, estimada em U$ 100 milhões à época de sua morte, foi motivo de inúmeras e incansáveis disputas nos tribunais envolvendo parentes, empresários, amigos e inimigos. Confusões à parte, Marley foi e ainda é o primeiro e único superstar do “terceiro mundo”, e 34 anos depois de sua morte, seu público cresce a cada dia nos quarto cantos do planeta. Sua mensagem, sempre carregada de paz, amor e liberdade, contagiou negros, brancos, ricos e pobres, e levou o ritmo jamaicano ao conhecimento de todos. Graças a ele, o reggae não cabe no rótulo de World Music.

Duas coletâneas lançadas muito tempo depois de sua morte, “Legend” e “Natural Mystic” (também conhecido como Legend 2) são seus discos de maior sucesso. O primeiro figura até hoje na lista dos três discos mais vendidos do mundo em todos os tempos. O álbum “Exodus”, de 1977, foi eleito o melhor disco do século XX pela revista Time, mais um de seus feitos históricos.

Mais que um músico ou artista, Bob Marley foi um revolucionário que fez da sua música a voz dos excluídos, um líder extremamente preocupado com o destino da humanidade. Um poeta negro num país pobre onde só os brancos tinham voz e um religioso que manteve-se fiel àquilo que acreditava até a morte. Tornou-se um mito, figurinha fácil em camisetas, adesivos e bandeiras ao redor do globo. É por essas e outras que Bob Marley faz valer a máxima “Quem foi Rei nunca perde a Majestade”.

Ouça a coletânea “Songs Of Freedom”, de Bob Marley & The Wailers:

Um autêntico Sound System jamaicano  |  foto: reprodução internet

História e magia do Dub

A história do dub jamaicano é fascinante, e serve para nos lembrar das influências da tecnologia e da indústria na evolução da música popular moderna. A música popular jamaicana sempre teve um relacionamento forte com a indústria de produção de discos. Nos anos 50, eram os operadores de sistemas de som (que futuramente seriam chamados de “Disk-Jockeys”, ou DJ´s) que dominavam as pistas de dança na ilha, com suas “discotecas móveis”.

Tirando proveito do recém-lançado sistema de gravação em quatro pistas e de efeitos de estúdio como reverberação e eco, eles criaram paisagens sonoras onde, com base no baixo e bateria, podia-se brincar à vontade com os efeitos de voz e outros instrumentos de apoio. Essa técnica foi batizada de “Dub” com base no termo “dubbing”, que significa tirar cópias de fitas.

Fábrica de vinil desativada, no lendário Tuff Gong Studios, em Kingston  |  foto: Laerte Brasil

Fábrica de vinil desativada, no lendário Tuff Gong Studios, em Kingston | foto: Laerte Brasil

O Dub foi muito influente na Jamaica e fora dela. Nos Estados Unidos, se disseminou nas comunidades negras de Miami e New York, onde ajudou no nascimento do Rap. Na Inglaterra, onde a música jamaicana sempre teve grande penetração desde a época do ska, fez surgir a dub poetry, que consistia em sofisticados poemas ingleses lidos sobre uma base instrumental Dub. Lee “Scratch” Perry, King Tubby e Sly & Robbie são alguns de seus principais expoentes.