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Alpha Blondy & The Solar System | foto: Alan Alves

Brasil e África numa noite de celebração à música da Jamaica!

Em pouco menos de um ano de projeto, já virou rotina: se é um grande show, o Jamaica Experience marca presença! E assim foi mais uma vez, com a recente passagem de Alpha Blondy pelo Brasil. Acompanhado de sua espetacular banda The Solar System, este ícone africano do reggae conquistou a plateia que lotou a Audio Club, em São Paulo, com um repertório cheio de grandes hits e seu carisma habitual.

A OBMJ botou todo mundo pra dançar ao som de vários clássicos brasileiros, tocados em ritmo jamaicano! | foto: Alan Alves

A OBMJ botou todo mundo pra dançar ao som de vários clássicos brasileiros, tocados em ritmo jamaicano!

Para quem já conhecia o show, uma ótima oportunidade de relembrar os clássicos e conhecer as músicas de seu novo álbum, “Positive Energy”. Para os que ainda não conheciam, a alegria de estar pela primeira vez à frente daquele grande artista e de músicos impecáveis, que transbordaram vibrações positivas e transformaram aquela noite em uma grande e inesquecível festa. Um show para ver, rever e deixar registrado para sempre na memória! Clique aqui e confira um álbum de fotos do show em nossa fanpage no Facebook!

A festa também contou com os cariocas do Dub Ataque, com o folk do britânico Marky Kelly e com aquela que, para os verdadeiros amantes da música jamaicana de raiz, era a grande sensação da noite: a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana. Um timaço de músicos instrumentistas, liderados por Felippe Pipeta e Sergio Soffiatti, que botam todo mundo pra dançar num baile ao mesmo tempo “divertido e educativo”, nas palavras dos próprios idealizadores.

E o Jamaica Experience aproveitou o momento para saber mais sobre esse projeto incrível! Nesta entrevista exclusiva para a nossa apresentadora Magá Moura, Felippe Pipeta e Sergio Soffiatti, os criadores da OBMJ, contam como surgiu a banda, falam das suas principais referências sonoras e traçam paralelos bem interessantes entre a música brasileira e a jamaicana, com suas similaridades de raiz e de ritmos. Uma pequena aula, à qual todo apreciador de música jamaicana deveria assistir.

Este é mais um conteúdo inédito e com o selo de qualidade Jamaica Experience. Assista, comente, compartilhe com seus amigos e nos ajude a fortalecer esta rede em prol da legítima cultura jamaicana em nosso país.

Por aqui, seguimos na missão! Mais novidades em breve…

Assista à cobertura do show + entrevista exclusiva para o Jamaica Experience:

Julian Marley no palco do Espaço das Américas | foto: Fabiano Oliveira

The Wailers & Julian Marley: mágico!

2015 começou muito bem para os amantes de reggae no Brasil. Isso porque o The Wailers, banda ícone do reggae mundial – conhecida, entre outras coisas, por ter sido a banda do rei do reggae, Bob Marley – esteve de passagem por aqui em turnê que percorreu quase todo o país.

O grupo, que já esteve no Brasil em muitas outras oportunidades, desta vez resolveu presentear os fãs com uma apresentação histórica e subiu ao palco pela primeira vez acompanhando o filho do rei, Julian Marley. Mais: reuniu vários integrantes de uma formação clássica, que excursionaram ao lado de Bob Marley entre 1974 e 1981.

Capitaneados pelo lendário baixista Aston “Familyman” Barrett, integrante da formação original, o “The Wailers Band Reunion”, como ficou conhecida esta formação especial, percorreu 15 cidades brasileiras e desembarcou em São Paulo no final de janeiro para um show que ficará marcado para sempre como uma das performances mais emblemáticas do grupo jamaicano em terras tupiniquins.

Músicos como Earl “Chinna” Smith (guitarra), Tyrone Downie (teclados) e Glen DaCosta (sax), além do próprio baixista Aston Barrett, acompanhado de seu filho Aston Barrett Jr. na bateria, garantiram a sonoridade clássica dos Wailers. Julian Marley, com sua presença de palco e energia, representou muito bem o pai e levou o público à loucura com um repertório nada convencional.

É claro que o Jamaica Experience estava lá para conferir tudo isso! Veja no álbum acima como foi esta noite mágica e confira ainda uma entrevista exclusiva que fizemos com Julian Marley e Aston “Familyman” Barret para o nosso canal no Youtube. Pra ficar tudo melhor ainda, cobertura e entrevista “by” Magá Moura. Não dá pra perder, certo?

E só pra não perder o costume: fiquem ligados, vem muito mais por aí!

Assista a seguir à cobertura exclusiva do show para o Jamaica Experience:

Lloyd "King Jammy" James é um dos mais aclamados produtores jamaicanos | foto: divulgação

A Jamaica e seus “templos” musicais

Studio One, Tuff Gong, Black Ark, Channel One. Se você é apreciador de reggae e música Jamaicana em geral, já deve ter ouvido falar destes estúdios, famosos por terem dado vida a alguns dos maiores clássicos musicais produzidos na ilha. De fato, na Jamaica, engenheiros de som, técnicas e equipamentos utilizados nas gravações são considerados elementos tão importantes quanto a própria obra musical a ser trabalhada. E por vezes mais importantes até que o próprio artista!

Os produtores Syrix e Professa com Dean Fraser, um dos mais aclamados músicos e produtores da Jamaica, ao centro. | Foto: reprodução Internet

Os produtores Syrix e Professa com Dean Fraser, um dos mais aclamados músicos e produtores da Jamaica, ao centro.

A relação dos músicos na Jamaica com os estúdios é tão visceral que é quase impossível dissociar a imagem de alguns artistas dos locais que ajudaram a eternizar suas obras. Como bons exemplos disso temos o Tuff Gong, estúdio que pertenceu a Bob Marley e hoje continua sob a administração de sua família, e o lendário Black Ark, do genial produtor Lee “Scratch” Perry.

A explicação para isto está na maneira como músicos e produtores locais sempre entenderam a música e seus processos de construção, reconstrução e desconstrução. E isso é a própria essência da música jamaicana, especialmente em gêneros como o dub e o dancehall, que usam e abusam dos recursos digitais para criarem atmosferas sonoras que ao mesmo tempo intrigam e seduzem, especialmente os jovens.

No início da década de 70, Lee Perry e King Tubby definiram as bases sobre as quais a indústria da música pop viria a se apoiar mais tarde ao criarem o dub, com suas formas de agenciamento de sons. Na metade dos anos 80, foi a vez de Lloyd “King Jammy” James e Wayne Smith darem vida àquela que viria a ser a primeira música totalmente computadorizada da história da música jamaicana, Under Mi Sleng Teng (ouça abaixo).

Ao longo das últimas 5 décadas, a ilha que respira música 24 horas por dia foi ficando cada vez mais conhecida por sua capacidade de (re)criar estilos e antecipar tendências musicais ao mundo, influenciando gerações de jovens como os produtores Syrix & Professa, da Dreama Studios e Irievibrations Entertainment, da Alemanha. Juntos, eles decidiram criar uma websérie sobre a história e cultura da indústria musical. E resolveram começar pela Jamaica!

“Studio Chronicles” traz curiosidades dos bastidores, entrevistas com produtores e engenheiros responsáveis pelas gravações, além é claro dos artistas. O resultado é uma saborosíssima viagem pela história da música jamaicana através de alguns dos seus mais emblemáticos estúdios. E por que não dizer “templos”?

Assista a seguir à playlist com a websérie completa em 5 episódios!

Assista à websérie “Studio Chronicles”, com trailer + 5 episódios:

O grupo No-Maddz | foto: reprodução Internet

Great times are coming. Ou: Big Things A Gwaan!

A menção ao famoso slogan publicitário de uma certa marca de cerveja guarda forte semelhança com um termo comumente usado na Jamaica, ambos com a mesma intenção e significado: anunciar um evento excepcional, algo de proporções significativas e que promete causar impacto.

Chronixx é considerado uma das maiores revelações do reggae jamaicano na atualidade | Foto: reprodução Internet

Chronixx é considerado uma das maiores revelações do reggae jamaicano na atualidade

Não sabemos se a tal marca de cerveja entrega ou entregará o que promete, mas temos razões de sobra para acreditar que a Jamaica vai entregar o que vem prometendo nos últimos anos. Já ensinamos aqui que devemos esquecer o termo “terceiro mundo” quando falamos de música jamaicana, já que há motivos de sobra para entender que a ilha deve ser reconhecida como uma das grandes potências mundiais nesta área (leia Música jamaicana: muito além de Bob Marley).

Se é verdade que o reggae viveu sua “golden era” nos anos 70 e 80, também é verdade que o gênero teve o seu merecido “revival” nos anos 90, quando novos artistas surgiram e antigos nomes retornaram à cena. No Brasil, o fenômeno teve papel decisivo e contribuiu para o surgimento de inúmeras bandas, que por sua vez contribuíram não apenas para a formação e renovação do público, mas sobretudo para a consolidação do gênero no país.

Protoje: legítimo representante da nova escola do reggae jamaicano | foto: reprodução Internet

Protoje: legítimo representante da nova escola do reggae jamaicano

Duas décadas depois, um movimento muito parecido àquele já dá sinais de força suficiente para que artistas e produtores jamaicanos afirmem que vem aí um segundo “reggae revival”. É bom deixar claro que a música jamaicana nunca saiu de cena. Basta lembrar dos midiáticos Shabba Ranks, Shaggy, Sean Paul e outros representantes do dancehall, que ganharam lá os seus Grammys, emplacaram seus hits nas rádios pelo mundo e venderam muito disco nas últimas duas décadas.

Mas aqui nos referimos ao reggae mais clássico, aquele que remete mais à fundação do reggae jamaicano, nas letras engajadas e no ritmo hipnotizante que (desculpem) eles sabem fazer como ninguém. O “reggae roots”, como gostamos de dizer por aqui. Que também nunca saiu de cena, mas que viu seu protagonismo na indústria musical jamaicana perder espaço para a nova onda do dancehall, com seus sintetizadores e sua temática em grande parte voltada à violência e sexualidade. Qualquer semelhança com o mundo (e o Brasil) não é mera coincidência.

Curioso notar como o período que compreende as últimas duas décadas coincide com as profundas mudanças por que passou a indústria da música em escala global. O surgimento da Internet, o avanço da pirataria, as disputas jurídicas entre os grandes conglomerados da indústria musical contra gênios prodígios, capazes de criar sistemas e algoritmos que revolucionaram a maneira como acessamos e consumimos informação, inclusive e principalmente música.

Na “era da informação”, foi a vez das grandes gravadoras verem o seu protagonismo e poder de influência cederem espaço às novas e surpreendentes plataformas de distribuição de conteúdo, através das quais artistas poderiam encurtar as distâncias e intensificar o diálogo com seu público. Uma mudança de rumo sem precedentes, que abriu espaço para toda uma geração de novos e talentosos artistas mundo afora – que sabem muito bem usar a Internet a seu favor, obrigado.

Não seria diferente na Jamaica. Chronixx, Protoje, Jah Cure, No-Maddz, Jah-9, Tarrus Riley, Etana, Iba Mahr, Jesse Royal… são muitos os nomes que despontam como os legítimos novos representantes da escola jamaicana de fazer reggae. Não é mais do mesmo. É o “new roots”. Ou “conscious music”, como eles gostam de dizer por lá.

Ouça a playlist acima e assista às playlists exclusivas que montamos em nosso canal no Youtube (abaixo) para conhecer os jovens jamaicanos que estão fazendo a cabeça do público mundo afora. Desta vez, não tem mais volta: a Internet está aí a nosso favor.

Assista à playlist “New Reggae – part 2”, de Jamaica Experience:

 

m Kingston, homem mostra, orgulhoso, uma de suas obras: uma potente caixa de som. - Foto: Kadu Pinheiro

Música jamaicana: muito além de Bob Marley

Esqueça o termo “terceiro mundo”. Quando se trata de música, a Jamaica é uma das grandes potências mundiais. Terra de outros grandes nomes da música que atingiram o estrelato internacional, como Peter Tosh e Jimmy Cliff, a ilha é conhecida também por ter exercido grande influência na música e cultura pop mundiais ao longo das décadas.

Músicos jamaicanos durante sessão de estúdio, em Trenchtown, Kingston.  |  foto: Kadu Pinheiro

Músicos jamaicanos durante sessão de estúdio, em Trenchtown, Kingston. | foto: Kadu Pinheiro

Da invenção do mento e do ska à explosão do reggae, passando pela revolução tecnológica do dub até a febre dançante do dancehall, são muitas as razões que fazem desta pequena ilha do Caribe um lugar fascinante do ponto de vista musical. Há quem diga que a Jamaica está para a música como o Japão para a tecnologia, considerando sua pequena extensão territorial, inversamente proporcional à sua capacidade criativa e de antecipação de tendências para o mundo.

O mento (ouça abaixo o grupo The Jolly Boys) é considerado o primeiro gênero genuinamente jamaicano, e surgiu no início dos anos 50 a partir das influências que os músicos, residentes principalmente no interior da ilha, absorveram do calypso (ritmo caribenho originário de Trinidad e Tobago). Utilizando instrumentos como o banjo, chocalhos e a “rhumba box” (espécie de caixa acústica que conferia o aspecto grave às canções), o mento teve papel fundamental na música jamaicana por ter influenciado diretamente o ska e o reggae.

A partir do desenvolvimento do ska e do rocksteady, a música jamaicana ganhou importância e notoriedade na indústria musical fora da Jamaica, primeiro no Reino Unido e depois nos mercados americano e mundial. Combinando elementos caribenhos como o mento e calypso e estadunidenses como o jazz, jump blues e rhythm and blues, os músicos jamaicanos criaram o ska, um ritmo alegre, dançante e cheio de harmonia. O The Skatalites (ouça abaixo um de seus hits) foi a primeira banda a gravar este gênero em estúdio, tendo acompanhado grandes nomes da música jamaicana em seu início de carreira.

O rocksteady, por sua vez, diferenciava-se do ska por seu ritmo mais lento e suas letras voltadas a temas sociais e políticos. Por este motivo, teve grande penetração entre os chamados rudeboys à época (leia mais em O estilo e a truculência dos rude boys) e pode ser considerado um elemento de ligação entre o ska e o reggae. Desmond Dekker (ouça abaixo), primeiro artista jamaicano a chegar ao topo das paradas britânicas, é uma das maiores referências entre os músicos adeptos deste gênero musical.

Foto: reprodução internet

Ilustração em capa de disco com Lee Perry e King Tubby: figuras fundamentais.

Ainda no final dos anos 50 e início dos 60, os operadores dos sistemas de som, que futuramente seriam chamados de Disc-Jockeys, ou DJs, foram os responsáveis pelo início de uma revolução que colocou a Jamaica definitivamente no mapa da música mundial. Eles percorriam a ilha com suas “discotecas móveis”, antecipavam tendências musicais ao público e, sem perceber, criavam uma cultura que sobrevive até hoje em festivais por todo o planeta: a cultura Sound System.

Lee “Scratch” Perry, que está na lista dos 100 artistas mais importantes de todos os tempos da revista Rolling Stone, ao lado de King Tubby, foram os gênios responsáveis por levar a música jamaicana num caminho sem volta rumo à inovação sonora quando, ao inventarem o Dub, definiram as bases sobre as quais a indústria da música pop viria a se apoiar mais tarde. Suas técnicas de mixagem e “agenciamento de sons” estão hoje na base da totalidade da produção musical em todo o mundo (ouça abaixo uma das muitas produções da dupla Perry e Tubby). “Sem dub não haveria hip-hop, techno, drum’n’bass, ou mesmo o mais recente sucesso da Britney Spears ou do Zeca Pagodinho”, afirmou certa vez o antropólogo Hermano Vianna em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo.

Foto: Kadu PinheiroQuadro pintado à mão por artista jamaicano com o lendário Peter Tosh.  |  foto: Kadu Pinheiro

Quadro pintado à mão por artista jamaicano com o lendário Peter Tosh. foto: Kadu Pinheiro

O reggae, gênero jamaicano mais famoso mundialmente, tem no ska e no rocksteady seus precursores imediatos e em Bob Marley seu maior expoente. No período que compreende as décadas de 1970 a 2000, o estilo viveu sua “golden era” e revelou para o mundo talentos musicais do porte de Jimmy Cliff, Gregory Isaacs, Dennis Brown, Yellowman, Shabba Ranks, Shaggy e tantos outros.

Bob Marley transcendeu qualquer rótulo, e tornou-se um dos músicos e personagens mais importantes de toda a história da música. “Legend” (1984) sua coletânea mais conhecida (ouça abaixo, na íntegra), vendeu mais de 20 milhões de cópias e é o disco de reggae mais vendido de todos os tempos.

Ir à Jamaica significa adentrar naturalmente em um universo de energia musical. A ilha inspira à música, com seus estúdios – alguns deles mundialmente consagrados e até hoje muito procurados por artistas e produtores musicais de todo o mundo – e o inequívoco talento do seu povo para esta arte. A música está em toda a parte, das festas de dub, reggae ou dancehall (este último a febre do momento por lá) espalhadas pela capital Kingston, à quase onipresença de Bob Marley, Peter Tosh e outras lendas do reggae pelos quatro cantos da ilha. A cantora jamaicana Tessane Chin (leia Tessane Chin, uma das (grandes) vozes da Jamaica), vencedora da última edição do The Voice USA, parece confirmar a vocação. Como se diz por lá, “once you go, you know”. Em bom português: se você for, você entende.

Ouça a coletânea “Legend”, de Bob Marley & The Wailers, na íntegra:

O cantor e compositor jamaicano John Holt (11/07/1947 - 19/10/2014) | Foto: reprodução internet

John Holt e a Jamaica das grandes vozes

No último mês de outubro, a música perdeu uma de suas belas vozes, o jamaicano John Holt. Integrante da “old school” jamaicana, que deu de presente ao mundo tantas outras vozes, Holt iniciou a carreira muito cedo e aos 16 anos já gravava seu primeiro single, Forever I’ll Stay/I Cried a Tear. Ficou conhecido na Jamaica e fora dela quando, em 1965, passou a integrar o grupo de rocksteady The Paragons, com quem emplacou sucessos que influenciaram outros grupos, como o britânico Blondie, que em 1980 gravou sua versão para The Tide Is High, de autoria do jamaicano.

Em 1970, John Holt deixou os Paragons para seguir carreira solo. Vieram outros grandes feitos na carreira do cantor e compositor, considerado um precursor do lovers rock, subgênero do reggae cuja temática é mais leve e a melodia mais suave, aproximando-se da soul music.

O cantor jamaicano Toots Hibbert, do grupo Toots & The Maytals: uma das vozes mais potentes da Jamaica. | Foto: reprodução internet

O cantor jamaicano Toots Hibbert, do grupo Toots & The Maytals: uma das vozes mais potentes da Jamaica. | Foto: reprodução internet

Se você é apreciador de música jamaicana e costuma frequentar o nosso site, sabe que os parágrafos acima não são suficientes para descrever a carreira deste grande artista. Deve saber, ainda, que sua trajetória guarda semelhanças com a de vários outros artistas jamaicanos, igualmente talentosos, que conquistaram notoriedade internacional e construíram carreiras brilhantes na música, a despeito das condições desfavoráveis a que foram submetidos, considerando a realidade da indústria musical jamaicana nas décadas que coincidem com o período do surgimento de todos eles.

A proposta da seção “Reggae Legends” em nosso site é contar em detalhes a trajetória destes ícones jamaicanos e cada um deles será devidamente retratado ali. Mas a matéria que você lê agora tem outra proposta e surgiu de uma reflexão (por ocasião do falecimento de John Holt) sobre o universo musical jamaicano e sua riqueza artística, com suas belas melodias e principalmente suas grandes vozes, por vezes potentes e cheias de vigor, por outras suaves e carregadas de sentimento. Ou tudo isso ao mesmo tempo.

Nosso objetivo com este post é tão somente dividir com o leitor o prazer de ouvir a autêntica música jamaicana (em suas diferentes nuances) e alguns de seus grandes intérpretes, bastante celebrados mundo afora, mas infelizmente pouco conhecidos do público brasileiro. Deixando claro que não há qualquer pretensão de esgotar o tema, já que seria tarefa ingênua e certamente fadada ao fracasso.

Fizemos uma pequena lista (haverá outras), com alguns clássicos jamaicanos interpretados por artistas como John Holt, Owen Gray, Jackie Edwards, Delroy Wilson, Freddie McGregor, Beres Hammond e Toots Hibbert (há muitos, muitos outros). Do estilo suave e romântico ao mais dançante, o que importa aqui é deixar-se levar pelas melodias e saborear algumas das mais deliciosas vozes da Jamaica. Que tal?

Seja bem-vindo à Jamaica das grandes vozes! Apenas aperte o play e aumente o volume. O resto acontece.

Ouça o playlist especial “Singer’s Selectah Vol. 1” (by Jamaica Experience):

foto: divulgação Easy Star All-Stars

Discos-tributo: tudo pode virar reggae!

Já é mais do que sabido que o reggae, nascido na Jamaica, espalhou-se pelo mundo e influenciou diversos artistas e bandas. Porém, outro fenômeno que vem acontecendo ao longo dos últimos 10 anos, são as versões reggae de canções que originalmente fizeram sucesso em ritmos que vão do rock ao country. Assim como o Sambô faz no Brasil, transformando tudo em samba, alguns grupos são praticamente especialistas em transformar tudo em reggae.

foto: divulgação Easy Star All-Stars

A banda Easy Star All-Stars

Talvez o mais famoso de todos, a banda jamaicana/americana Easy Star All-Stars, lançou, em 2003, sua interpretação para o clássico “The Dark Side of the Moon”, de Pink Floyd. Com o título de “Dub Side of the Moon”, o álbum traz as faixas na mesma ordem do original, todas retrabalhadas e, de fato, muito interessantes. A partir do sucesso desse projeto, a banda lançou, em 2006, “Radiodread”, com covers do álbum “OK Computer”, do Radiohead. Três anos mais tarde, lançou um tributo ao disco dos Beatles, “Sgt.Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, chamado “Easy Star’s Lonely Hearts Dub Band” e, em 2012, foi a vez de homenagear “Thriller”, de Michael Jackson, com “Easy Star’s Thrillah” (ouça abaixo). Os fãs dos originais, como esperado, ficaram apreensivos, temendo que os tributos ficassem parecendo paródias. Felizmente, não foi que aconteceu: músicos competentes e vozes bem escolhidas para cada faixa, arranjos harmoniosos e participações especiais de peso, fizeram com que os 4 discos fossem respeitados e ganhassem seu próprio público.

foto: divulgação Radio Riddler

O duo Radio Riddler

Outra banda que tem feito um belo trabalho, na mesma linha, é Radio Riddler. Na verdade, trata-se de um duo, Brian Fast Leiser e Frank Benbini, integrantes da banda americana FLC (Fun Lovin’ Criminals). Começaram com um EP, fazendo versões reggae de 5 canções de  Marvin Gaye, nas quais utilizaram sua voz à capela. Depois, lançaram seus remixes favoritos no álbum “Dubplate’s Volume 1” e, recentemente, comemorando os 30 anos do lançamento de “Purple Rain”, de Prince, produziram “Purple Reggae” (ouça abaixo). Com participações especiais como as de Ali Campbell, do UB40, cantando Purple Rain, e Sinead O’Connor, em I Would Die 4 U, o resultado realmente surpreende e explica os longos 5 anos de execução do projeto, assim como os mais de 20 milhões de cópias vendidas.

Dois outros exemplos de discos-tributo são o “80’s Go Reggae” (ouça abaixo) e o “Reggae’s Gone Country”. No primeiro, grandes sucessos dos anos 80, como Holding Back the Years, do Simply Red e Nothing Compares 2U, de Prince (mas que estourou na voz de Sinead O’Connor), muitas vezes até melhoraram os originais, um pouco melosos ou muito datados daquela década. Um álbum para morar no seu tocador de música e ouvir sempre que der vontade.

Já o “Reggae’s Gone Country” (ouça abaixo) é mais irregular. Nem todas as canções combinam muito com o novo ritmo, o que faz com que o produto final pareça mais um reggae de Nashville, bastante profissional, mas sem o calor e o jingado de Kingston. Vale conferir a pegada jazz em Don’t It Make My Brown Eyes Blue, com a jamaicana ganhadora do The Voice USA, Tessanne Chin, e a versão bem animada de Freddie McGregor para The King of the Road.

foto: reprodução internet | Jamaica Experience

A onda jamaicana que invadiu o Reino Unido

Os primeiros imigrantes jamaicanos desembarcando no Reino Unido. | foto: reprodução internet

Os primeiros imigrantes jamaicanos desembarcando no Reino Unido.

Nos anos 1950, o Reino Unido ainda sofria as consequências do pós-guerra, a economia estava enfraquecida e havia falta de mão de obra. O governo britânico, então, encorajou a imigração a partir de suas colônias, oferecendo oportunidades de emprego. Entre esses imigrantes estava um grande número de jamaicanos, que se estabeleceram principalmente em Londres.

Diferentemente do que acontecia nos EUA, onde já havia comunidades negras, os jamaicanos em Londres viviam isolados. Faziam festas familiares, reuniam os amigos e ouviam rock e rythm and blues americanos. No início dos anos 1960, o ska começou a tomar conta da Jamaica e a situação mudou, pois os dois maiores distribuidores de discos de ska na época, Emil Shalit e Mrs King, estavam em Londres.

A música era uma forma de identificação muito forte e significativa para os imigrantes jamaicanos. Quando recebiam seus salários, corriam para as lojas de discos. Em pouco tempo, os sound systems, já tradicionais na Jamaica, começaram a aparecer em Londres.

O primeiro sucesso a alcançar o topo das paradas inglesas foi My Boy Lollipop, com Millie Small, em 1964. Porém, o grande impulso à música jamaicana viria em 1968, com a Trojan Records. A empresa, fundada pelo jamaicano Lee Gopthal, tornou-se a maior distribuidora de rocksteady e posteriormente de reggae, no Reino Unido. Seus maiores clientes eram os produtores jamaicanos Clement ‘Coxson’ Dodd, Arthur ‘Duke’ Reid, Leslie Kong e Prince Buster.

No final dos anos 1960, com o surgimento do reggae, na Jamaica, o papel da música tornou-se ainda mais importante. As letras tinham rebeldia, eram antigoverno, antiestado e iam ao encontro dos pensamentos da juventude negra, consciente e politizada de Londres.

Em 1972, Bob Marley assinou com a CBS Records, em Londres, e saiu em tour com o americano Johnny Nash. O reggae, definitivamente, explodia no Reino Unido. Em 1973, os Rolling Stones gravaram Cherry Oh Baby, do jamaicano Eric Donaldson e um ano depois, Eric Clapton gravou I Shot the Sheriff, de Bob Marley & The Wailers.

Começaram a surgir bandas de reggae inglesas, como Steel Pulse, UB40 e Aswad. Paralelamente, nascia, também, o Lovers Rock, uma espécie de subgênero do reggae, com temas românticos. No caso das bandas, foi difícil para elas serem aceitas pela juventude negra, que não as considerava autênticas. No entanto, acabaram encontrando seu público: os punks. Foram eles os responsáveis pelo sucesso do reggae. Em 1977, The Clash gravou Police and Thieves, de Junior Murvin e bandas pop como The Police, Culture Club e Madness, eram claramente influenciadas pelo estilo nascido na Jamaica.

Já o Lovers Rock começou como uma sacada de produtores, como Dennis Bovell. Eles achavam o reggae um estilo machista, que colocava as garotas apenas como backing vocals. Então, resolveram colocá-las na frente, cantando baladas românticas, incluindo hits da Motown, no ritmo do reggae. Uma das primeiras foi Janet Kay, que teve grande sucesso com Silly Games. Count Shelly, que gravou Ginger Williams’s Tenderness, em 1974, e Louisa Mark, com Caught You in a Lie, foram outros nomes desse gênero, que se firmou com a criação de uma gravadora de mesmo nome.

"Lovers Rock", álbum de Sade.  |  foto: reprodução internet

“Lovers Rock”, álbum de Sade.

O Lovers Rock, diferente do reggae tradicional, era apolítico, mais suave e foi, aos poucos, invadindo as cidades britânicas e levando uma mensagem de união racial. O estilo assumiu a condição de genuína música negra britânica. Nos anos 1980, o estilo se consolidou e ganhou novos adeptos, como Sade e Sugar Minott. Já os jamaicanos Dennis Brown, Gregory Isaacs e Johnny Osbourne, que passaram muito tempo em Londres, levaram o estilo de volta para suas origens.

Em 2011, a BBC Four apresentou um documentário em quatro programas, chamado Reggae Britannia. Para aqueles que quiserem se aprofundar a respeito da importância do reggae e sua influência no Reino Unido, vale a pena assistir.

Ouça “Greatest Hits”, coletânea do The Police:

foto: reprodução internet

Jamaica: um pedaço da África no Caribe

O sorriso e a alegria são marcas registradas do povo jamaicano desde a infância. | foto: reprodução internet

O sorriso e a alegria são marcas registradas do povo jamaicano desde a infância. | foto: reprodução internet

Todos nós aprendemos, um dia, que os negros africanos trouxeram diversas contribuições à cultura brasileira. Lembra-se quais eram as principais? No vocabulário, palavras como babá, cachaça e fofoca. Na comida, pratos como o vatapá e o acarajé, ingredientes como o azeite de dendê e o leite de coco e, é claro a feijoada. Na música e na dança, o samba e a capoeira, misto de luta e dança. Na religião, o candomblé, e no folclore, lendas como a do Negrinho do Pastoreio. Em resumo, a cultura popular, o dia a dia do brasileiro está repleto de influências africanas.

Como em tantos outros aspectos, o mesmo acontece na Jamaica. Enquanto os europeus influenciaram a arquitetura, as formas de gestão e até os esportes, os africanos deixaram na ilha heranças semelhantes às deixadas no Brasil. Contudo, a supremacia negra na Jamaica é muito maior, chegando a 90% de ascendência africana e, desta forma, as raízes africanas parecem ainda mais evidentes, na cor da pele, no jingado, na alegria.

Uma banda tradicional de mento, o primeiro gênero musical jamaicano. | foto: reprodução internet

Uma banda tradicional de mento, o primeiro gênero musical jamaicano. | foto: reprodução internet

Tanto o inglês falado na Jamaica, quanto o patois, o dialeto local, são amplamente influenciados pelas línguas africanas. A linguagem, na Jamaica, é um assunto relacionado a classes sociais. As classes mais favorecidas, aqueles que tiveram maior acesso à educação formal, preferem se comunicar através do inglês standard; os habitantes das áreas rurais, das periferias e, especialmente os mais jovens, comunicam-se em Jamaican, ou seja, uma mistura de inglês e outras línguas que é única e característica da ilha.

Unu walk good, seen? Ya done know seh, a dem time deh … (All of you take care. As you know, we ‘ll meet again sometime …)  Isso é Jamaican! A sonoridade e a entonação das palavras, mesmo quando de raízes inglesas, são próximas das línguas africanas, assim como muitas estruturas gramaticais.

Da palavra, para a música. A primeira forma de música popular jamaicana foi o mento. Ele se utiliza basicamente de instrumentos acústicos, como o violão, o banjo, a hand drum (espécie de tambor) e a rhumba box (ou marímbula, espécie de caixote, usado com instrumento de percussão). As letras falavam do cotidiano e até da pobreza, mas com humor e pitadas de conotações sexuais. O auge do mento deu-se entre os anos 1940 e 1950, com nomes como Count Lasher, Alerth Bedassee, The Ticklers e Lord Flea. O mento influenciou ritmos mais contemporâneos, como o ska, o rockstead e o reggae.

Apresentação de kumina, dança típica jamaicana e derivada do Congo.  |  foto: reprodução internet

Apresentação de kumina, dança típica jamaicana e derivada do Congo. | foto: reprodução internet

A música leva à dança e também aos cultos religiosos. A Kumina, por exemplo, é uma expressão religiosa tipicamente jamaicana, derivada das crenças dos negros vindos do Congo. A dança é parte muito importante dos cultos que, como outras religiões africanas, envolvem a comunicação com espíritos. O Junkanoo é uma festa folclórica, com músicas e danças que lembram o carnaval brasileiro.

foto: reprodução internet

Anansi é uma personagem do folclore jamaicano.

Um exemplo do folclore jamaicano são as Anansi Stories. Originadas na África, foram levadas à Jamaica pelos escravos ashanti e transmitidas oralmente, por gerações. Nas histórias,  Anansi existe como uma aranha, um homem ou uma combinação de ambos. Anansi é uma heroína diferente, é preguiçosa, inventiva e extremamente esperta. Um pouco como o nosso saci-pererê!

E para terminar de uma forma bem saborosa, vale lembrar que o ackee com saltfish, um dos pratos mais tradicionais da Jamaica, tem origens africanas. O próprio conceito de jerk tem raízes africanas, pois povos primitivos daquele país já assavam carne de porco em fogueiras feitas em buracos no chão, de forma muito similar aos primeiros jerks jamaicanos. Um continente, uma ilha e um país continental. Distantes geograficamente, mas conectados por inúmeras tradições e costumes. Como dizem os próprios jamaicanos, “Out of many, one people”.

Assista ao videoclipe de Rehab, com The Jolly Boys:

foto: reprodução internet

Reggae Legends: Lee “Scratch” Perry

Lee “Scratch” Perry é, sem dúvida alguma, a figura mais excêntrica de toda a história do reggae. Ao longo dos anos, seu comportamento incomum e errático foi largamente compensado por um notável instinto artístico, que deu novas dimensões à sonoridade do reggae, especialmente o dub. Sua carreira produtiva, cujo auge se deu entre o final da década de 1960 e final de 1970, ultrapassou a marca dos sessenta álbuns e chegou a quase quatrocentos singles, considerando suas atuações como artista e produtor. Muitas destas canções figuram até hoje em álbuns por todo o mundo.

foto: reprodução internet

Perry: talento para produção musical que o levou a um caminho sem volta em direção à inovação sonora.

Lee “Scratch” Perry nasceu em Hanover, uma paróquia ao noroeste da Jamaica, em 1936, sob o nome Rainford Hugh Perry. Aos vinte anos ele operava uma escavadeira em um canteiro de obras, experiência através da qual descobriu, segundo ele, o poder do som. Sua introdução na indústria da música se deu  pelas mãos do produtor Duke Reid que, ainda segundo Perry, não o deixava gravar mas roubou algumas de suas composições e as deu para outro cantor, chamado Stranger Cole. A Lee Perry, nem os créditos e nem tampouco a compensação financeira. Nós poderíamos até especular sobre qual rumo sua carreira teria tomado a partir de então, se suas experimetações como produtor, mais tarde, não tivessem ganhado destaque inversamente proporcional à sua iniciação artística como cantor. Embora empregasse suas características vocais com personalidade e convicção, sua voz era muito frágil e faltava nela a textura típica de cantores convencionais como John Holt (ex-vocalista do Paragons), cuja influência de R&B continha muito mais apelo comercial. Perry, então, resolveu dedicar-se à produção de peças instrumentais, que por sua vez o levaram por um caminho sem volta em direção à inovação sonora.

Perry viria a estabelecer, mais tarde, uma conexão com o produtor do Studio One, Coxsone Dodd, trabalhando primeiro como “selector” no sound system Downbeat para, logo em seguida, assumir um importante papel criativo no selo Studio One, um dos mais emblemáticos da época. Lee Perry acumulava várias funções por lá, ainda que não recebesse os devidos créditos por suas múltiplas atividades como cantor, compositor e produtor musical. Foi ele o responsável por apresentar a Coxsone Dodd uma grande quantidade de artistas que viriam a se tornar referências para a gravadora e para a própria música jamaicana, além de ter gravado inúmeros singles como artista solo, às vezes sob o nome King Perry. Os singles “Rub & Squeese” e “Doctor Dick”, ambos de 1966, mostraram pela primeira vez o estilo lascivo das letras de Perry ao reino da música popular jamaicana, ainda sob o gênero dominante na ilha naquele período: o calypso. Naquela época, poucos poderiam imaginar que Perry já havia sido um “homem de família”, casado por um breve período no final da década de 1950 e aparentemente a caminho de uma vida serena e uma existência modesta e até apática. Há quem diga que foi justamente a desilusão com este relacionamento que motivou sua nova visão de mundo, sobretudo em relação às mulheres, o que acabou norteando o comportamento controverso que ele demonstrou ao longo de sua trajetória.

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Lee Perry: começo difícil e parcerias com diversos outros produtores para, em seguida, lançar-se como produtor independente.

Sem ter um salário para chamar de seu e muito menos qualquer participação em “royalties” sobre as músicas que produzia – prática muito comum na indústria musical jamaicana naquela época, Perry deixou o Studio One entre 1966 e 1968 para trabalhar com inúmeros outros produtores, incluindo Prince Buster e Joe Gibbs. Em 1968, uma nova mudança de rumos seguida de outra decepção: após decidir trabalhar como produtor independente para o selo West Indies Records, foi demitido por não conseguir produzir grandes hits. Uma de suas gravações mais conhecidas nesta fase foi “Set Them Free” (ouça abaixo), de 1969, gravada sob o nome Lee Perry & The Defenders. A música era uma resposta um tanto provocativa a um personagem criado por Prince Buster, chamado Judge Dread, que costumava condenar os chamados rude boys a 400 anos de prisão na música de mesmo nome. Perry criou, então, o personagem Lord Defender, que saía em defesa dos rude boys e tentava os livrar da sentença que considerava injusta, dadas as condições sociais e econômicas às quais estavam submetidos.

Lee Perry, aliás, tomou quase como um hábito direcionar ataques incisivos aos seus ex-empregadores em várias de suas gravações, incluindo os notáveis Prince Buster, Coxsonne Dodd, Joe Gibbs e Bunny Lee. O single “I Am The Upsetter” – termo que logo tornou-se mais um de seus famosos apelidos – foi pensado para ser um ataque direto a Coxsone Dodd, a quem atribui a culpa por ter prejudicado e alienado diversos artistas e produtores com os quais havia trabalhado valendo-se de acordos e negociações obscuras. O primeiro hit produzido por Perry, “People Funny Boy”, de 1968, tratava especificamente de Joe Gibbs, embora pudesse descrever muitas outras situações insatisfatórias, nas quais sua contribuição artística fora subvalorizada. Perry trabalhou com Gibbs como produtor e arranjador, até que as intrigas em virtude de disputas financeiras – que viria a se tornar uma marca registrada da indústria jamaicana – os levassem à separação. Segundo estimativas, “People Funny Boy” vendeu mais de 30 mil cópias, um número bastante razoável para os padrões da indústria à época. É irônico que Lee Perry tenha investido tanta energia em criticar modelos de negócios alheios, considerando que ele mesmo futuramente viesse a se envolver em transações duvidosas enquanto trabalhava com o The Wailers, a banda dos futuros “superstars” do reggae Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer. Alegando necessidade financeira, ele licenciou material da banda, supostamente sem autorização, para diversos selos internacionais.

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O genial Lee Perry à época do The Upsetters: talento musical inquestionável.

Antes dos conflitos com o The Wailers, porém, Lee Perry alcançou sucesso internacional com aquela que foi sua mais conhecida banda de estúdio, o The Upsetters (antes conhecida como Hippy Boys) provando que sua excentricidade tinha valor comercial global. O instrumental “Return Of Django”, inspirado nos filmes de velho-oeste italianos que faziam a cabeça dos jamaicanos naqueles tempos, foi um desses hits e invadiu as paradas de sucesso britânicas, alcançando a quinta posição no ranking das mais tocadas, em 1969. O sucesso da música se deve em parte à sua aceitação pelos “skinheads”, jovens britânicos da classe trabalhadora, brancos, que raspavam suas cabeças e rejeitavam o estilo de vida tradicional. Perry ainda daria outra grande contribuição à música jamaicana, ao produzir as primeiras gravações de U-Roy, o pioneiro DJ jamaicano que, mais tarde, viria a conquistar seu próprio espaço.

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Os irmãos Aston (à esquerda) e Carlton Barret, à direita de Bob Marley. Sob a direção de Lee Perry, eles gravaram juntos pela primeira vez.

Foi sob a direção de Perry que os vocalistas do The Wailers gravaram pela primeira em companhia dos irmãos Carlton e Aston Barret, que viriam a se tornar uma das sessões rítmicas de baixo e bateria mais importantes de toda a história da música jamaicana. Eles já haviam integrado o grupo The Upsetters em sua formação original, mas passaram a dedicar-se em tempo integral ao The Wailers após Lee Perry abrir seu estúdio, o Black Ark, em 1973. “Duppy Conqueror”, de 1970, foi uma dos primeiros hits resultantes da promissora parceria entre Lee Perry e The Wailers. Outras inúmeras sessões, gravadas anteriormente no Studio One, produziram algumas peças-chave para o futuro repertório  do grupo, incluindo “Sun Is Shinning”, “Small Axe” e “Kaya”, todas elas gravadas no período entre 1970 e 1971. É bem verdade que algumas destas sessões resultaram em vários álbuns lançados na Inglaterra (com material não autorizado) pela Trojan Records, como é o caso de “Soul Rebels” (1970), Soul Revolution (1971) e African Herbsman (1974), sendo que este é apenas um exemplo da complexa e conturbada relação entre os Wailers e Perry, a quem acusam de frequentemente não lhes pagar devidamente pelas obras.

O primeiro álbum de Perry com experimentações de dub foi “Cloak & Dagger”, lançado entre 1972 e 1974, não se sabe ao certo. O disco trazia bases de algumas faixas produzidas anteriormente com sua banda, o The Upsetters, e possuía diferentes versões para os mercados inglês e jamaicano. Embora não fosse propriamente um disco de dub, aquele foi certamente um dos primeiros passos nesta direção e poderia até ser considerado inovador para a época, já que as faixas dub foram cortadas da versão original jamaicana para o lançamento na Inglaterra, resultando em fracasso comercial. O próximo disco, “Rhythm Shower” (1973), foi lançado apenas na Jamaica e até hoje é considerado item raro.

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King Tubby, engenheiro de som jamaicano e parceiro fundamental de Lee Perry em algumas das primeiras produções de dub.

Perry logo passou a integrar um seleto grupo de produtores, a exemplo de Bunny Lee, investiu em equipamento de estúdio e incorporou técnicas de mixagem dub com o então renomado engenheiro de som King Tubby, considerado até hoje um dos pais do gênero. “Blackboard Jungle Dub”(1973) é o primeiro resultado de uma bem-sucedida parceria entre eles (que apesar da relação de proximidade desenvolveram técnicas e estilos bastantes diferentes ao longo dos anos). Uma raridade em termos conceituais para o reggae e considerado por muitos um clássico do “early dub”, o disco foi lançado em edição limitada e a um preço acima da média do mercado. Embora não tivesse perfil para integrar o “mainstream” britânico, o disco garantiu a Perry margem de lucro muito acima da média para artistas de qualquer gênero à época.

Perry costumava gravar suas faixas em alguns dos mais conhecidos estúdios da Jamaica, como o Randy’s e o Dynamic Sounds. No final de 1973, decidiu montar seu próprio estúdio, o Black Ark, no quintal de sua casa, em Kingston. Um dos principais motivos que o levaram à empreitada foi justamente a insatisfação em relação aos outros estúdios, que não investiam em “upgrades” de seus equipamentos, o que acabava por limitar as suas criações. Ter seu próprio estúdio significava ter poder para moldar sua criatividade musical e seu próprio destino na indústria da música. Segundo alguns relatos, o primeiro equipamento de Perry, um engenhoso sistema de gravação em quarto canais, foi construído por King Tubby, que além de excelente engenheiro de som era também um exímio conhecedor de eletrônica. Perry ainda contou com a colaboração de Errol E. T. Thompson, engenheiro de som que já havia realizado diversos trabalhos no Randy’s Studio e cujas obras continham grande valor e influência.

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Lee “Scratch” Perry em ação no seu lendário estúdio Black Ark, em 1973.

Muito além de simples vitrine para o seu trabalho, o Black Ark era em si mesmo uma espécie de “teia de ideias” para a criatividade de Perry. Suas paredes eram repletas de fotos, figuras e símbolos escritos à mão que não pareciam fazer sentido algum, o que deu margem a especulações sobre sua saúde mental. Mais que um estúdio, o local tornou-se um museu audiovisual para Lee Perry, cujo senso empresarial permaneceu intacto: ele passou a vender inúmeras produções exclusivas em forma de “dubplates” para importantes “soundsystems” de Londres, e costumava trocar algumas obras por roupas e outros suprimentos.

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O disco Super Ape (1976), primeiro álbum de Lee Perry lançado pela Island Records.

Além dos avanços com o estúdio, um acordo de licenciamento com a Island Records, em 1976, conferiu grande exposição à sua música, que agora contava com uma audiência sensivelmente maior. Em meados de 1970, a Island Records já havia se posicionado na vanguarda do reggae. Antes disso, porém, Lee Perry era o responsável por quase a totalidade das produções, gravações, prensagens, vendas e distribuição dos discos produzidos em seu estúdio. O influente “Super Ape”, de 1976, foi um dos primeiros lançamentos a serem beneficiados pelo acordo de produção e distribuição com o selo britânico. Graças à parceria com a Island Records, Lee Perry podia finalmente contar com uma audiência global e mostrar toda sua excentricidade ao mundo, apesar de vários (bons) discos produzidos no lendário Black Ark terem ficado em relativa obscuridade.

A aliança com a Island ainda possibilitou que Perry fizesse os devidos “upgrades” em seu equipamento de estúdio, podendo fazer ainda mais experimentações que, por sua vez, nem sempre resultaram em sucesso comercial. Houve quem dissesse que a inconsistência da vida pessoal de Perry começava a ficar evidente em sua obra, e que aquilo era um prenúncio de uma inequívoca e preocupante perda de foco.

Contrariando mais uma vez as expectativas, ele manteve-se engajado e logo veio a produzir outros grandes feitos. O single “Police & Thieves”, do cantor jamaicano Junior Murvin, uma das produções mais memoráveis de Lee Perry naquele período, alcançou boas posições nas paradas britânicas, e o mesmo se pode dizer de “Hurt So Good”, da cantora britânica Susan Cadogan (ouça abaixo), que emplacou o top 5 e vendeu em torno de 250 mil cópias.

Ele continuava acumulando hits, como já era o caso de “Curly Locks”(1973) com Junior Byles e “War Inna Babylon”, de Max Romeo, lançado pela Island em 1976. Poderia ter ficado limitado ao universo do reggae e não chegar ao mercado pop “mainstream”, se não tivesse produzido material para o ábum de estreia da banda de punk rock britânica The Clash, em 1977. Naquele mesmo ano, juntou-se a Bob Marley nos estúdios da Island, em Londres, para produzir a faixa “Punky Reggae Party”, uma declaração simbólica de alinhamento dos ideais “anti-establishment” dos punk rockers britânicos e dos dreads jamaicanos. Ainda em 1977, Perry reforçou sua vocação para a indústria pop ao produzir material para o album “Wide Prairie”, da então esposa de Paul McCartney, Linda McCartney (registro que só foi lançado em 1998, após sua morte).

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O disco de estreia do grupo de punk rock britânico The Clash (1977), contou com Lee Perry na produção e abriu novos horizontes de mercado para o produtor.

Seguiram-se outros projetos de grande valor artístico, porém, em razão de uma opção da Island em não lançá-los, Lee Perry viu o alcance de sua obra diminuir drasticamente. Sua relação com a gravadora britânica ruiu, assim como sua capacidade de quebrar padrões musicais gozando de reconhecimento comercial. O som produzido no Black Ark tornava-se cada vez mais estranho aos ouvidos, sua música era considerada cada vez mais inacessível, parecendo refletir suas batalhas psicológicas. A despeito de seus acordos comerciais com a Island, o selo acabou por marginalizar o seu trabalho, e várias de suas gravações solo – nas quais havia investido muito financeira e criativamente – não foram lançadas internacionalmente. O selo Trojan Records, no qual havia concentrado grande parte de seu material, também passava por grandes dificuldades e isso só ajudou a piorar a situação. Vários outros fatores contribuíram para um comportamento cada vez mais turbulento, e sua produtividade declinou no final da década de 70, à medida que o Black Ark guadualmente se desintegrava.

No início de 1983, o Black Ark foi consumido por um incêndio deflagrado por seu próprio criador, pondo fim a um dos maiores templos do dub jamaicano da história. Para alguns, Perry era apenas um personagem, inventado por ele próprio, que se fazia de louco para desviar a atenção dos criminosos num período de efervescência sociopolítica que dominava a Jamaica. Para outros, ele era em si mesmo uma personificação de suas criações musicais, um cérebro em constante estado de implosão psíquica. Ele alega que os motivos para o incêndio ao Black Ark estão relacionados às substâncias que usava enquanto produzia seus dubs. Ele cita os cigarros, carne, álcool (especificamente rum) e ganja (maconha) como sendo os agentes químicos fundamentais para o incidente. Certa vez, afirmou que não mais se identificava com o lugar onde as músicas foram criadas, já que não fazia mais uso das substâncias que alteravam seu estado de consciência. Em vez disso, agora voltaria a produzir o que chamou de “simple clean music”, músicas não afetadas pelo que passou a considerar como estimulantes negativos para a mente e o corpo. Mas muito embora ele tenha acenado com a possibilidade de um equilíbrio mental, suas falas nas entrevistas ainda permaneciam enigmáticas e misteriosas, desafiando a um entendimento real de seu significado.

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Black Ark: local repleto de fotos, figuras e símbolos escritos à mão, por onde passaram grandes nomes da música jamaicana e mundial.

Seu trabalho após o fim da era Black Ark mostrou-se inconsistente, tanto em termos de qualidade quanto de direção, e parecia refletir seu sentimento de inquietação e deslocamento após deixar a Jamaica, em 1984. De lá pra cá, ele viveu entre Londres e Nova Iorque até se estabelecer na Suíça por volta de 1989. Uma vida familiar, muito distante do ambiente que deu origem à sua carreira e lhe mostrou o caminho rumo ao estrelato internacional.

Ouça abaixo alguns hits produzidos por Lee “Scratch” Perry: