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A Capa de "Chant Down Babylon", tributo hip-hop ao rei do reggae. | Foto: reprodução internet

Covers, tributos, versões: para manter vivos grandes ídolos

Foto: reprodução internet

Bob Marley está entre os artistas que mais possuem covers de suas músicas em todo o mundo.

No início da era das gravadoras, a distribuição dos discos era bastante regional. Quando uma música começava a tornar-se muito popular numa região, era comum que gravadoras concorrentes, de outras regiões, gravassem a mesma música com outro intérprete e a distribuísse em sua área. A cobertura de uma nova área deu origem às primeiras covers (cover=cobertura, em inglês).

Muitos artistas e bandas iniciaram suas carreiras fazendo covers. Afinal, é uma maneira segura de mostrar seu talento vocal e/ou instrumental, sem a preocupação de apresentar um repertório desconhecido. Alguns fazem do cover sua carreira, apresentam-se com frequência em bares, festas ou casamentos e conseguem um bom salário.

Elvis Presley, Michael Jackson, Beatles, U2… Para cada um desses, há inúmeros artistas mundo afora, cantando suas músicas, trazendo seu repertório às novas gerações. Assim acontece com Bob Marley, ícone da música jamaicana, que ajudou a divulgar o reggae. O número de covers de Marley é tão expressivo que, em seu site oficial, há uma área exclusiva para divulgá-los.

Há versões famosíssimas, nas vozes de cantores igualmente famosos, como I Shot The Sheriff, com Eric Clapton e Could You Be Loved, com Joe Cocker. Outras, mais contemporâneas, mas também interpretadas por cantores famosos, como Jack Johnson e Ben Harper (High Tide or Low Tide) e Rihanna (Is This Love). Mas há, também, versões maravilhosas e emocionantes, nas vozes de aspirantes, de quase anônimos, de artistas de rua. Só para ter se uma ideia, colocamos aqui dois vídeos (assista abaixo), um da França, com Tamara Nivillac e outro da Inglaterra, com AHI e sua filha, uma graça!

Um projeto extremamente interessante e que tem muita afinidade com o mundo dos covers é o Playing For Change, idealizado por dois americanos, Mark Johnson e Whitney Kroenke. O projeto viaja o mundo todo, filmando e gravando a interpretação de vários artistas, para uma mesma música. Depois, tudo é editado e agrupado numa só versão, com os diferentes intérpretes cantando juntos (apesar de fisicamente separados!). Canções dos Beatles, Rolling Stones e, é claro, Bob Marley, são uma constante nos 3 álbuns. O projeto gerou a ONG Playing For Change Foundation, bem alinhada com os princípios que Marley defendia, dedicada a construir escolas de artes e música pelo mundo.

Uma linda versão da música War/No More Trouble, de Bob Marley, está no álbum “Songs Around the World”, lançado em 2009 pelo Playing For Change (assista abaixo). War é derivada de um discurso feito por Haile Selassie (imperador etíope, considerado Deus pelos rastafáris), que Marley adaptou e musicou.

Outro tipo de cover é aquele que dá nova roupagem às canções. Nesse estilo, em 1999, foi lançado um CD chamado “Chant Down Babylon”, no qual canções de Bob Marley foram remodeladas no estilo hip-hop e interpretadas por gente como Erykah Badu, Lauryn Hill e Steven Tyler (ouça abaixo, na íntegra). No mesmo ano, o DVD “One Love All-Star Marley Tribute”, documentou o concerto em homenagem ao CD (“Chant Down Babylon”). Além da presença de parte dos artistas que trabalharam no CD, outros, como Jimmy Cliff e Tracy Chapman, também participam. De quebra, faixas bônus, com canções interpretadas pela família Marley. Um grande show e um DVD de qualidade excepcional!

Para finalizar, duas dicas de interpretações que também valem a pena ser vistas, ambas no programa The Voice. A primeira, Mitchell Brunings, cantando Redemption Song, na versão holandesa de 2013 e a segunda, Anita Antoinette (jamaicana), na versão americana que está atualmente no ar, com Turn Your Lights Down Low.

Ouça o disco “Chant Down Babylon” na íntegra:

foto: reprodução internet | Jamaica Experience

A onda jamaicana que invadiu o Reino Unido

Os primeiros imigrantes jamaicanos desembarcando no Reino Unido. | foto: reprodução internet

Os primeiros imigrantes jamaicanos desembarcando no Reino Unido.

Nos anos 1950, o Reino Unido ainda sofria as consequências do pós-guerra, a economia estava enfraquecida e havia falta de mão de obra. O governo britânico, então, encorajou a imigração a partir de suas colônias, oferecendo oportunidades de emprego. Entre esses imigrantes estava um grande número de jamaicanos, que se estabeleceram principalmente em Londres.

Diferentemente do que acontecia nos EUA, onde já havia comunidades negras, os jamaicanos em Londres viviam isolados. Faziam festas familiares, reuniam os amigos e ouviam rock e rythm and blues americanos. No início dos anos 1960, o ska começou a tomar conta da Jamaica e a situação mudou, pois os dois maiores distribuidores de discos de ska na época, Emil Shalit e Mrs King, estavam em Londres.

A música era uma forma de identificação muito forte e significativa para os imigrantes jamaicanos. Quando recebiam seus salários, corriam para as lojas de discos. Em pouco tempo, os sound systems, já tradicionais na Jamaica, começaram a aparecer em Londres.

O primeiro sucesso a alcançar o topo das paradas inglesas foi My Boy Lollipop, com Millie Small, em 1964. Porém, o grande impulso à música jamaicana viria em 1968, com a Trojan Records. A empresa, fundada pelo jamaicano Lee Gopthal, tornou-se a maior distribuidora de rocksteady e posteriormente de reggae, no Reino Unido. Seus maiores clientes eram os produtores jamaicanos Clement ‘Coxson’ Dodd, Arthur ‘Duke’ Reid, Leslie Kong e Prince Buster.

No final dos anos 1960, com o surgimento do reggae, na Jamaica, o papel da música tornou-se ainda mais importante. As letras tinham rebeldia, eram antigoverno, antiestado e iam ao encontro dos pensamentos da juventude negra, consciente e politizada de Londres.

Em 1972, Bob Marley assinou com a CBS Records, em Londres, e saiu em tour com o americano Johnny Nash. O reggae, definitivamente, explodia no Reino Unido. Em 1973, os Rolling Stones gravaram Cherry Oh Baby, do jamaicano Eric Donaldson e um ano depois, Eric Clapton gravou I Shot the Sheriff, de Bob Marley & The Wailers.

Começaram a surgir bandas de reggae inglesas, como Steel Pulse, UB40 e Aswad. Paralelamente, nascia, também, o Lovers Rock, uma espécie de subgênero do reggae, com temas românticos. No caso das bandas, foi difícil para elas serem aceitas pela juventude negra, que não as considerava autênticas. No entanto, acabaram encontrando seu público: os punks. Foram eles os responsáveis pelo sucesso do reggae. Em 1977, The Clash gravou Police and Thieves, de Junior Murvin e bandas pop como The Police, Culture Club e Madness, eram claramente influenciadas pelo estilo nascido na Jamaica.

Já o Lovers Rock começou como uma sacada de produtores, como Dennis Bovell. Eles achavam o reggae um estilo machista, que colocava as garotas apenas como backing vocals. Então, resolveram colocá-las na frente, cantando baladas românticas, incluindo hits da Motown, no ritmo do reggae. Uma das primeiras foi Janet Kay, que teve grande sucesso com Silly Games. Count Shelly, que gravou Ginger Williams’s Tenderness, em 1974, e Louisa Mark, com Caught You in a Lie, foram outros nomes desse gênero, que se firmou com a criação de uma gravadora de mesmo nome.

"Lovers Rock", álbum de Sade.  |  foto: reprodução internet

“Lovers Rock”, álbum de Sade.

O Lovers Rock, diferente do reggae tradicional, era apolítico, mais suave e foi, aos poucos, invadindo as cidades britânicas e levando uma mensagem de união racial. O estilo assumiu a condição de genuína música negra britânica. Nos anos 1980, o estilo se consolidou e ganhou novos adeptos, como Sade e Sugar Minott. Já os jamaicanos Dennis Brown, Gregory Isaacs e Johnny Osbourne, que passaram muito tempo em Londres, levaram o estilo de volta para suas origens.

Em 2011, a BBC Four apresentou um documentário em quatro programas, chamado Reggae Britannia. Para aqueles que quiserem se aprofundar a respeito da importância do reggae e sua influência no Reino Unido, vale a pena assistir.

Ouça “Greatest Hits”, coletânea do The Police: