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Alpha Blondy & The Solar System | foto: Alan Alves

Brasil e África numa noite de celebração à música da Jamaica!

Em pouco menos de um ano de projeto, já virou rotina: se é um grande show, o Jamaica Experience marca presença! E assim foi mais uma vez, com a recente passagem de Alpha Blondy pelo Brasil. Acompanhado de sua espetacular banda The Solar System, este ícone africano do reggae conquistou a plateia que lotou a Audio Club, em São Paulo, com um repertório cheio de grandes hits e seu carisma habitual.

A OBMJ botou todo mundo pra dançar ao som de vários clássicos brasileiros, tocados em ritmo jamaicano! | foto: Alan Alves

A OBMJ botou todo mundo pra dançar ao som de vários clássicos brasileiros, tocados em ritmo jamaicano!

Para quem já conhecia o show, uma ótima oportunidade de relembrar os clássicos e conhecer as músicas de seu novo álbum, “Positive Energy”. Para os que ainda não conheciam, a alegria de estar pela primeira vez à frente daquele grande artista e de músicos impecáveis, que transbordaram vibrações positivas e transformaram aquela noite em uma grande e inesquecível festa. Um show para ver, rever e deixar registrado para sempre na memória! Clique aqui e confira um álbum de fotos do show em nossa fanpage no Facebook!

A festa também contou com os cariocas do Dub Ataque, com o folk do britânico Marky Kelly e com aquela que, para os verdadeiros amantes da música jamaicana de raiz, era a grande sensação da noite: a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana. Um timaço de músicos instrumentistas, liderados por Felippe Pipeta e Sergio Soffiatti, que botam todo mundo pra dançar num baile ao mesmo tempo “divertido e educativo”, nas palavras dos próprios idealizadores.

E o Jamaica Experience aproveitou o momento para saber mais sobre esse projeto incrível! Nesta entrevista exclusiva para a nossa apresentadora Magá Moura, Felippe Pipeta e Sergio Soffiatti, os criadores da OBMJ, contam como surgiu a banda, falam das suas principais referências sonoras e traçam paralelos bem interessantes entre a música brasileira e a jamaicana, com suas similaridades de raiz e de ritmos. Uma pequena aula, à qual todo apreciador de música jamaicana deveria assistir.

Este é mais um conteúdo inédito e com o selo de qualidade Jamaica Experience. Assista, comente, compartilhe com seus amigos e nos ajude a fortalecer esta rede em prol da legítima cultura jamaicana em nosso país.

Por aqui, seguimos na missão! Mais novidades em breve…

Assista à cobertura do show + entrevista exclusiva para o Jamaica Experience:

O cantor e compositor jamaicano John Holt (11/07/1947 - 19/10/2014) | Foto: reprodução internet

John Holt e a Jamaica das grandes vozes

No último mês de outubro, a música perdeu uma de suas belas vozes, o jamaicano John Holt. Integrante da “old school” jamaicana, que deu de presente ao mundo tantas outras vozes, Holt iniciou a carreira muito cedo e aos 16 anos já gravava seu primeiro single, Forever I’ll Stay/I Cried a Tear. Ficou conhecido na Jamaica e fora dela quando, em 1965, passou a integrar o grupo de rocksteady The Paragons, com quem emplacou sucessos que influenciaram outros grupos, como o britânico Blondie, que em 1980 gravou sua versão para The Tide Is High, de autoria do jamaicano.

Em 1970, John Holt deixou os Paragons para seguir carreira solo. Vieram outros grandes feitos na carreira do cantor e compositor, considerado um precursor do lovers rock, subgênero do reggae cuja temática é mais leve e a melodia mais suave, aproximando-se da soul music.

O cantor jamaicano Toots Hibbert, do grupo Toots & The Maytals: uma das vozes mais potentes da Jamaica. | Foto: reprodução internet

O cantor jamaicano Toots Hibbert, do grupo Toots & The Maytals: uma das vozes mais potentes da Jamaica. | Foto: reprodução internet

Se você é apreciador de música jamaicana e costuma frequentar o nosso site, sabe que os parágrafos acima não são suficientes para descrever a carreira deste grande artista. Deve saber, ainda, que sua trajetória guarda semelhanças com a de vários outros artistas jamaicanos, igualmente talentosos, que conquistaram notoriedade internacional e construíram carreiras brilhantes na música, a despeito das condições desfavoráveis a que foram submetidos, considerando a realidade da indústria musical jamaicana nas décadas que coincidem com o período do surgimento de todos eles.

A proposta da seção “Reggae Legends” em nosso site é contar em detalhes a trajetória destes ícones jamaicanos e cada um deles será devidamente retratado ali. Mas a matéria que você lê agora tem outra proposta e surgiu de uma reflexão (por ocasião do falecimento de John Holt) sobre o universo musical jamaicano e sua riqueza artística, com suas belas melodias e principalmente suas grandes vozes, por vezes potentes e cheias de vigor, por outras suaves e carregadas de sentimento. Ou tudo isso ao mesmo tempo.

Nosso objetivo com este post é tão somente dividir com o leitor o prazer de ouvir a autêntica música jamaicana (em suas diferentes nuances) e alguns de seus grandes intérpretes, bastante celebrados mundo afora, mas infelizmente pouco conhecidos do público brasileiro. Deixando claro que não há qualquer pretensão de esgotar o tema, já que seria tarefa ingênua e certamente fadada ao fracasso.

Fizemos uma pequena lista (haverá outras), com alguns clássicos jamaicanos interpretados por artistas como John Holt, Owen Gray, Jackie Edwards, Delroy Wilson, Freddie McGregor, Beres Hammond e Toots Hibbert (há muitos, muitos outros). Do estilo suave e romântico ao mais dançante, o que importa aqui é deixar-se levar pelas melodias e saborear algumas das mais deliciosas vozes da Jamaica. Que tal?

Seja bem-vindo à Jamaica das grandes vozes! Apenas aperte o play e aumente o volume. O resto acontece.

Ouça o playlist especial “Singer’s Selectah Vol. 1” (by Jamaica Experience):

foto: reprodução internet

Reggae Legends: Alton Ellis

Referindo-se à indústria musical jamaicana, Alton Ellis disse uma vez: “você tem que ser abençoado para conseguir algum ‘royalty’… mas não havia mesmo muito dinheiro ali”. Sua música, que era claramente caracterizada pelas mensagens de amor e unidade que carregava em suas letras, foi subestimada pela indústria musical à época.

Na era pré-reggae, as capas dos discos na Jamaica eram fortemente influenciadas pelo R&B americano.  |  foto: reprodução internet

Na era pré-reggae, as capas dos discos na Jamaica eram fortemente influenciadas pelo R&B americano. | foto: reprodução internet

Nascido em Kingston, Jamaica, entre o final da década de 1930 e o início de 1940, Ellis notabilizou-se por sua diferenciada e expressiva característica vocal. Sua carreira teve início em 1959, quando formou o duo de R&B “Alton e Eddy” em parceria com o cantor Eddy Perkins, logo após desistir de seu plano inicial de tornar-se dançarino. Não demoraria para que assinassem contrato com o renomado produtor  Coxsone Dodd, à época também em início de carreira, numa bem-sucedida parceria que logo lhes rendeu o primeiro hit: “Muriel” (1960). Ellis lembrava que, à época da gravação, em 1959, havia apenas um microfone no estúdio, de modo que os músicos e instrumentos eram estrategicamente posicionados e as gravações “ao vivo”, em única tomada, eram uma regra.

Alton & Eddy se separaram logo após Perkins se mudar para os Estados Unidos, e ambos seguiram em carreiras solo. O single “Rock Steady”, de 1966, citado por Alton Ellis como sendo a música que batizou o gênero de mesmo nome, em 1965, foi o primeiro hit do artista nesta nova etapa de sua carreira. Assim como algumas estrelas do rocksteady na época, Ellis frequentemente era convidado para diversos duetos e chegou a emplacar hits sob o título “Alton Ellis & The Flames”. Em 1966, sobretudo por questões financeiras, juntou-se à equipe de Duke Reid no selo Treasure Isle Records, onde gravou a música “Cry Tough”, um clássico da “rude-boy era”. Neste período, cantava músicas com críticas à violência praticada pelas gangues urbanas, deflagradas pela extrema pobreza enfrentada pelos jovens de Kingston. Entretanto, ele logo retomou o foco nas canções de amor, devido às seguidas ameaças sofridas por parte dos rude-boys, incomodados com as críticas de suas letras.

Em meados de 1960, Alton Ellis gravou o que viria a ser um dos maiores patrimônios musicais de toda a sua trajetória artística. A música “I’m Still In Love With You” foi a base para o hit “Uptown Top Ranking” (ouça a faixa acima), do duo de pop-reggae Althea & Donna, que em 1977 alcançou o primeiro lugar no ranking das mais tocadas no Reino Unido.

Embora nunca tenha alcançado reconhecimento artístico e retorno financeiro compatível com a riqueza de sua música, Alton Ellis marcou presença definitiva na indústria da música indiretamente, através dos hits adaptados a partir de suas obras. Outro exemplo recente, nos anos 2000, foi quando “I’m Still In Love With You” ganhou sua versão dancehall com Sean Paul (ouça abaixo) e fez enorme sucesso no mundo, inclusive no Brasil.

Após um período pouco produtivo, Alton Ellis mudou-se para Londres em meados de 1973, local que adotou como sua residência a partir de então. Ele continuou realizando turnês, a despeito de problemas de saúde que o fizeram passar mal em pleno palco, durante um show 2 meses antes de sua morte, em 2008.

Veja Alton Ellis cantando alguns de seus maiores sucessos ao vivo:

foto: reprodução internet

Reggae Legends: Desmond Dekker

Embora muitas pessoas pensem que Bob Marley tenha sido o primeiro artista de reggae a alcançar um grande público branco, foi Desmond Dekker quem teve os singles de maior sucesso nos mercados inglês e norte-americano, além de ter sido o primeiro cantor de reggae a alcançar o topo das paradas britânicas. Nascido Desmond Dacres em Kingston, Jamaica, em 16 de julho de 1941, foi ele quem possibilitou o primeiro contato de muitos ouvintes com o reggae fora da Jamaica. Seu acentuado sotaque jamaicano era um som extremamente improvável e causou estranhamento nos tradicionais mercados britânico e norte-americano na década de 1960.

Os primeiros singles de Dekker foram lançados pela Beverley's Records  |  foto: reprodução

Os primeiros singles de Dekker foram lançados pela Beverley’s Records | foto: reprodução

Dekker iniciou sua carreira de cantor na Jamaica, como o homem de frente do Aces, uma banda de estúdio montada pelos produtores Duke Reid e Lloyd Daley. Sob a orientação de Leslie Kong, um empresário “jamaicano-chinês” que dirigia a Beverley’s Records em Kingston, ele conseguiu relativa exposição e status. Em 1963, emplacou a música “Honour Your Mother and Your Father”, feito que lhe rendeu o lançamento do single na Inglaterra pela Island Records, de Chris Blackwell, no ano seguinte.

Mas o início do sucesso internacional de Dekker viria com o lançamento de “007 (Shanty Town)”, em 1967, que conquistou o Reino Unido e alcançou o top 20 das paradas, durante um período conhecido como a “rude-boy era”, em que artistas jamaicanos costumavam cantar sobre sua condição social e econômica, que por sua vez os colocavam numa perspectiva de marginalidade em seu próprio país. Neste mesmo ano, Dekker fez sua primeira visita à Grã-Bretanha e ficou surpreso ao saber que sua música havia se tornado um hit por lá, já que para ele as pessoas não entendiam suas letras, cantadas em patois jamaicano, com um sotaque muito particular.

Sua maior conquista, no entanto, viria em 1969 com o lançamento do single “Israelites”, que chegou ao topo das paradas britânicas em março e emplacou o nono lugar nas paradas americanas em junho daquele mesmo ano. A canção vendeu mais de 5 milhões de cópias e também atingiu o topo das paradas em países como Canadá, Holanda, Bélgica e Alemanha, estabelecendo novos patamares globais para o gênero jamaicano até então. A música foi um sucesso até mesmo na era do Apartheid na África do Sul – em que pese a ironia da situação, já que a a letra tratava de temas como pobreza e opressão. Dekker fazia questão de lembrar que “Israelites” era, essencialmente, um comentário sobre os problemas econômicos e sociais da Jamaica: “Eu simplesmente escrevi sobre o que via acontecer, mas as pessoas no Reino Unido gostaram da melodia, ainda que não entendessem exatamente o que a música queria dizer”.

Embora o público tivesse abraçado o sucesso do single, o seu caminho para integrar o “mainstream” musical não foi nada fácil. A BBC, principal transmissora britânica, inicialmente recusou a gravação alegando baixa qualidade de produção, mas foi forçada a tocá-lo mais tarde devido à crescente demanda de público. “Israelites” ainda retornaria às paradas inglesas, em uma regravação de 1975, quando alcançou a posição de número 10 no ranking das mais tocadas.

O que é especialmente intrigante, particularmente nos Estados Unidos, é a forma como a música alcançou tamanho sucesso valendo-se de intonação vocal, sotaque e sincopagem rítmica completamente estranhas aos ouvidos do público branco e “mainstream” da época.

A música título do LP "Israelites" foi um dos maiores sucessos de Desmond Dekker  |  fotos: reprodução internet

A música título do LP “Israelites” foi um dos maiores sucessos de Desmond Dekker | fotos: reprodução internet

Mas apesar do sucesso do single, o reggae ainda estava longe de representar uma força em termos de vendagem de disco como estilo musical nestes mercados. O LP de “Israelites”, por exemplo, alcançou apenas a 153ª posição nos Estados Unidos durante suas breves 3 semanas na lista. No entanto, a faixa-título foi a primeira gravação de reggae a ter impacto comercial real  nos Estados Unidos, precedendo em 6 meses o primeiro hit de Jimmy Cliff por lá (“Wonderful World, Beautiful People”) e em quatro anos o primeiro ábum de sucesso de Cliff naquele país. Para se ter uma ideia do que isso representa, Bob Marley jamais teve uma música nas paradas de sucesso americanas, e não havia alcançado o ranking de vendagem de discos no mercado americano até o ano de 1975.

Desmond Dekker ainda lançou dois singles em seguida: “It Mek” (1969) e “You Can Get It If You Really Want” (1970) – esta última, composição de Jimmy Cliff. Ambas estiveram na lista britânica dos top 10, mas não gozaram do mesmo impacto nos Estados Unidos. Dekker mudou-se para a Inglaterra em 1969, com o objetivo de fazer crescer sua carreira, que viu declinar quando, em 1971, perdeu seu mentor e parceiro musical, Leslie Kong, que ainda produzia suas faixas na Jamaica. A partir daí, Dekker nunca mais se recuperou, embora suas músicas tenham voltado à tona no final dos anos 70 e início dos 80, durante o “revival” britânico dos movimentos ska e rocksteady.

Ele ainda gravaria, sem sucesso, dois álbuns para o selo de “New Wave Punk” Stiff Records, falido em 1984.

Desmond Dekker morreu em decorrência de um ataque cardíaco em 2006, aos 64 anos, mas seu lugar está permanentemente garantido na história da música.

Desmond Dekker foi o primeiro artista jamaicano a ser considerado uma lenda do reggae | foto: reprodução internet

Desmond Dekker foi o primeiro artista jamaicano a ser considerado uma lenda do reggae | foto: reprodução internet

Ouça a coletânea “Israelites: The Best of Desmond Dekker”

foto: reprodução internet

Origem e tradição do Ska

O Ska originou-se na Jamaica, no final da década de 50. Combinando elementos caribenhos como o mento e o calipso e estadunidenses como o jazz, jump blues e rhythm and blues, os músicos jamaicanos criaram um novo ritmo, alegre, dançante e cheio de harmonia. É considerado o precursor do reggae, e suas letras abordam temas como marginalidade e discriminação, mas sem deixar de lado a diversão que caracteriza o gênero. Os “Skatalites” foram a primeira banda a gravar este gênero em estúdio, tendo acompanhado grandes nomes da música jamaicana em seu início de carreira como Bob Marley, Jimmy Cliff, Toots & The Maytals e muitos outros.

A banda jamaicana “The Skatalites” foi a primeira a gravar este gênero em estúdio, no final da década de 50. | foto: reprodução internet