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O cineasta, DJ e músico Don Letts. | foto: reprodução internet

Don Letts: do reggae ao punk, passando pelo cinema

Cineasta, DJ, músico. Se ainda parece pouco, vamos ao início da história, quando o rapaz de vinte anos era balconista de uma loja de roupas vintage. Don Letts, com seus longos dreadlocks, nasceu na Inglaterra. Filho de jamaicanos que deixaram a ilha em busca de uma vida melhor, gostava de reggae e dub, influência de seu pai, que trouxera consigo seu sound system.

O estilo de Don Letts: em 78 e nos dias de hoje.  |  fotos: reprodução internet

O estilo de Don Letts: em 78 e nos dias de hoje.

Era 1975 e o contador da loja Acme, na qual Don trabalhava, estava prestes a abrir – juntamente com outros sócios – aquele que viria a ser o principal ponto de encontro da cena punk que começava a nascer: The Roxy. Além de atender aos clientes da loja, Don Letts cuidava também da música do local – basicamente reggae – e era essa toda sua experiência como DJ. Mesmo assim, Andrew Czezowski, o tal contador, achou que ele levava jeito para a coisa e o convidou para ser DJ residente.

Eram poucos os discos de punk rock disponíveis no mercado nessa época, assim, Don tocava aquilo que mais gostava e conhecia, ou seja, dub e reggae. O público da casa também gostou e além das apresentações ao vivo de punk, The Roxy passou a ser também um lugar para ouvir música jamaicana.

Uma coisa leva a outra e Letts começou a registrar em super-8 o que via nas noites da Roxy. Tanto material acabou  gerando o documentário “Punk Rock Movie”, lançado em 1978. Além de outros documentários e inúmeros videoclipes de bandas, a carreira cinematográfica de Don Letts teve seu ponto alto em 1997, quando dirigiu, na Jamaica, “Dancehall Queen“.

Como DJ, Don aproximou-se de músicos como Johnny Rotten, do Sex Pistols e Mick Jones, do The Clash. Ambos tiveram grande importância na trajetória de Letts, por razões diferentes. Através de Rotten, foi para a  Jamaica pela primeira vez, como enviado da Virgin Records na busca de novos talentos (veja a história completa em “Johnny Rotten: caçador de talentos na Jamaica“). A viagem marcou sua vida, pois o colocou em contato com ídolos como Bob Marley, Burning Spear, Bunny Wailer e Peter Tosh.

Letts foi um dos vocalistas do BAD - Big Audio Dynamite.  |  foto: reprodução internet

Letts foi um dos vocalistas do Big Audio Dynamite.

Com Mick Jones, a história foi outra. Em 1984, pouco depois de sair do The Clash – com a qual Letts havia trabalhado em vários clipes – Mick formou uma nova banda, chamada Big Audio Dynamite (ou BAD) e convidou Don Letts para dividir os vocais e cuidar dos efeitos sonoros. A banda misturava gêneros como o punk, o reggae, a dance music, o hip hop e o funk. Sucessos como E=MC2, Contact e James Brown marcaram a carreira da banda.

Don Letts sempre foi muito ligado à musica jamaicana, especialmente com o reggae dos anos 1970, mais crítico e voltado às questões sociais. Atualmente, Don continua ativo no mundo musical através de seu programa semanal  de rádio na BBC6, tocando desde músicas mais antigas até lançamentos, de diversos estilos.

O pai de Don Letts, Duke Letts, foi DJ aos fins de semana, quando emigrou da Jamaica. Ele usava seu sound system para tocar rocksteady e bluebeat. Nesses momentos, após a igreja, a comunidade jamaicana podia se reunir e discutir seus problemas na nova terra. A conexão com a música continuou com Jet Letts, filho de Don, representante da terceira geração de DJs na família e produtor de dubstep, um estilo de música eletrônica que surgiu na Inglaterra.

Fiel à atitude do punk e, ao mesmo tempo, aos ideais do reggae, Don Letts é, sobretudo, alguém que acredita na cultura como forma de unir as pessoas. Mesmo que por acaso, deixou a vida de balconista para trás e dedicou-se a trabalhar com cultura, seja na música ou no cinema.

Assista ao documentário Superstonic Sound sobre Don Letts:

Wickie Wackie Music Festival | foto: reprodução internet | Jamaica Experience

Wickie Wackie Music Festival transformando o mundo

Em sua sexta edição, o Wickie Wackie Music Festival já faz parte do extenso calendário de eventos musicais da Jamaica. Este ano, o festival acontecerá nos dias 5 e 6 de dezembro. O local, é claro, será a praia de Wickie Wackie, em Bull Bay, que fica no sudeste da ilha, a cerca de 16 quilômetros da capital, Kingston.

Kumar Bent, vocalista do RagingFyah, banda que idealizou o WWMF.  |  foto: divulgação | On The Roots Photography

Kumar Bent, vocalista do RagingFyah, banda que idealizou o WWMF.

O WWMF, como é conhecido, foi idealizado por uma banda de roots reggae chamada Raging Fyah. Formada em 2006, a banda traz influências que vão de Bob Marley e Peter Tosh, passando por Inner Circle e Maroon 5. Além de excelentes intérpretes, escrevem suas próprias canções, baseadas em suas experiências, sonhos, objetivos e nas mudanças que pretendem para o mundo. O grupo, de fato, encara a música como uma missão, entendem que estão ligados espiritualmente, com o objetivo de fazerem música juntos e, através dela, mudar o mundo.

Para esta edição, o WWMF contará com toda a experiência e expertise da Touch The Road, agência local de turismo urbano e entretenimento. A ideia é transformar a área num enorme camping para abrigar o público do festival, além de proporcionar aos amantes do reggae opções de passeios por Kingston, St. Andrew e St. Thomas.

O WWMF não é apenas mais um festival musical. É um evento completo: além dos shows ao vivo, sessões de sound systems, instalações artísticas, atividades na praia e até um amanhecer acústico, ao som de tambores. Porém, a música é o elemento fundamental e alguns dos artistas confirmados são feras como Morgan Heritage, Mystic Revealers, Raging Fyah e Jesse Royal. Para as sessões de sound system e dub, nomes locais como Gabre Selassie e Yaadcore e internacionais, como Roots Revival Sound, da Polônia e Damalistik Roots Survival, da França (ouça abaixo).

Como já disse, a ideia do Raging Fyah é mudar o mundo através da música e eles não estão sozinhos. A banda é uma das representantes de um movimento que se iniciou na Jamaica e hoje já tomou proporções mundiais: o Reggae Revival.

O termo surgiu em 2011, pelo autor Dutty Bookman. Na época, ele identificava o início de uma conscientização a respeito do valor de aspectos culturais jamaicanos, tendo a música na linha de frente. De um modo mais simples, Bookman percebeu que estava acontecendo uma espécie de retorno às origens, como se as pessoas tivessem se dado conta de que certas tendências e modismos estavam colocando de lado a verdadeira qualidade artística na música e em outras artes.

O que começou como uma referência para discussão nacional ganhou atenção pelo mundo. Prova disso é a recente e extensa matéria publicada na revista americana Vogue (clique aqui e veja a matéria). O Reggae Revival é uma verdadeira revolução cultural em curso. Além de Raging Fyah, Protoje, Chronixx, Jah9 e Addis Pablo fazem parte desse movimento.

O WWMF está chegando, mas ainda dá tempo de ir. A Touch The Road oferece um pacote de uma semana chamado Wickie Wackie Wanderers, com opção de hospedagem/acampamento e passe para fim de semana a partir de US$949. Os preços dos ingressos são os seguintes: US$18 para uma noite, antecipado, ou US$23, na bilheteria e US$38 para o fim de semana. Uma oportunidade de conhecer a Jamaica e assistir a shows incríveis, que farão parte de um novo capítulo da história da música jamaicana.

Assista à playlist de vídeos com alguns artistas presentes no WWWF 2015:

Julian Marley no palco do Espaço das Américas | foto: Fabiano Oliveira

The Wailers & Julian Marley: mágico!

2015 começou muito bem para os amantes de reggae no Brasil. Isso porque o The Wailers, banda ícone do reggae mundial – conhecida, entre outras coisas, por ter sido a banda do rei do reggae, Bob Marley – esteve de passagem por aqui em turnê que percorreu quase todo o país.

O grupo, que já esteve no Brasil em muitas outras oportunidades, desta vez resolveu presentear os fãs com uma apresentação histórica e subiu ao palco pela primeira vez acompanhando o filho do rei, Julian Marley. Mais: reuniu vários integrantes de uma formação clássica, que excursionaram ao lado de Bob Marley entre 1974 e 1981.

Capitaneados pelo lendário baixista Aston “Familyman” Barrett, integrante da formação original, o “The Wailers Band Reunion”, como ficou conhecida esta formação especial, percorreu 15 cidades brasileiras e desembarcou em São Paulo no final de janeiro para um show que ficará marcado para sempre como uma das performances mais emblemáticas do grupo jamaicano em terras tupiniquins.

Músicos como Earl “Chinna” Smith (guitarra), Tyrone Downie (teclados) e Glen DaCosta (sax), além do próprio baixista Aston Barrett, acompanhado de seu filho Aston Barrett Jr. na bateria, garantiram a sonoridade clássica dos Wailers. Julian Marley, com sua presença de palco e energia, representou muito bem o pai e levou o público à loucura com um repertório nada convencional.

É claro que o Jamaica Experience estava lá para conferir tudo isso! Veja no álbum acima como foi esta noite mágica e confira ainda uma entrevista exclusiva que fizemos com Julian Marley e Aston “Familyman” Barret para o nosso canal no Youtube. Pra ficar tudo melhor ainda, cobertura e entrevista “by” Magá Moura. Não dá pra perder, certo?

E só pra não perder o costume: fiquem ligados, vem muito mais por aí!

Assista a seguir à cobertura exclusiva do show para o Jamaica Experience:

Foto: reprodução internet

World A Reggae – Lucky Dube: sensibilidade, militância e voz

Passados sete anos e cinco meses do assassinato do maior expoente do reggae africano (comparável apenas a Alpha Blondy em termos de representatividade), ainda elabora-se o luto da perda trágica de um dos mais importantes críticos do apartheid, da voz grave e de falsetes poderosos, dos teclados característicos de sua banda (The Slaves) e da presença de palco que costumava hipnotizar grandes plateias. É tempo de lembrar e de prestar homenagem a ele, Lucky Philip Dube – ou simplesmente Lucky Dube, um grande artista

Nascido na pequena cidade de Ermelo (África do Sul) no dia 03 de Agosto de 1964, Lucky Dube foi abandonado pela mãe ainda muito novo e foi filho de pais separados antes mesmo de nascer. Porém, não lhe faltaria uma figura materna. O exercício da maternagem veio a ser realizado por Sarah Khanyi, sua avó materna e responsável pelo registro do nome Lucky (literalmente a ideia de um garoto de sorte, muito provavelmente em função de não ter perdido aquilo que a psicanálise considera como a condição sine qua non para a constituição do indivíduo, isto é, um primeiro vínculo fundante e que garante segurança estrutural à criança) – ou seja, devemos parte da grandeza de Lucky Dube a esta senhora que o acolheu, juntamente com seus irmãos (Thandi e Patrick), e de quem o astro se aproxima com carinho no vídeo extraído do documentário “Lucky Dube – The Man & The Music” (assista abaixo).

Dramas familiares carregados de emotividade sempre inspiraram as letras de Lucky Dube. Seria possível destacar o caso da belíssima canção do vídeo acima – Oh, My Son (I’m Sorry) – ou ainda a tocante Hold On, do álbum House Of Exile (ouça a faixa abaixo). Ainda criança, Lucky Dube foi jardineiro e ajudou a garantir a renda mínima da família sem, no entanto, abrir mão do direito à escolarização. Foi na escola que nasceu seu interesse por literatura e onde pôde exercer o trabalho de assistente de biblioteca (à época, o garoto tinha apenas nove anos de idade). O acesso aos livros também o aproximou, um pouco mais tarde, dos princípios do rastafarianismo, a partir dos quais viria a extrair inspiração para suas lutas e ideais a partir da música.

O primeiro disco solo | foto: reprodução internet

O primeiro disco solo

No entanto, antes de aprofundar-se nos códigos do rastafarianismo, Lucky Dube viveria, no auge da adolescência, suas primeiras experiências com música a partir da relação com colegas de escola, com os quais viria a formar a Skyway Band. Lucky Dube viria a dedicar-se ao mbaqanga, estilo tipicamente sul-africano, de raízes rurais zulu, nascido no início da década de 1960. Formou com o primo (Richard Siluma) e outros colegas o grupo The Love Brothers (entre o final da década de 70 e o início da década de 80). Após esse período, gravou um disco solo de grande sucesso, intitulado Lengane Ngeyethu. Mais tarde, assumiria a frente do nome Lucky Dube And The Supersoul, mas foi incentivado por Dave Segal (que posteriormente tornou-se seu engenheiro de som) a investir em carreira solo.

Ainda na primeira metade da década de 1980, Dube abraça definitivamente o reggae, marcado pelas influências de Peter Tosh (evidente inclusive no timbre de voz), Jimmy Cliff e Bob Marley. Acompanhado pela banda The Slaves, Dube identificou no reggae o grande instrumento para a transmissão de suas mensagens de combate ao racismo, de união e integração da África do Sul dominada pelo regime do apartheid (separação / segregação racial) no período que se estende de 1948 a 1994, com a intervenção de Nelson Mandela – a quem Dube viria a homenagear com a música House Of Exile (do álbum homônimo, lançado no início dos anos 90). Mas antes desse disco emblemático, Dube trabalhou muito no intuito do que Bob Marley pedia em Africa Unite.

Lucky Dube: reggae como instrumento para a transmissão de mensagens contra o racismo e o sistema de apartheid na África do Sul | foto: reprodução internet

Lucky Dube: reggae como instrumento para a transmissão de mensagens contra o racismo e o sistema de apartheid na África do Sul

O primeiro álbum reggae de Lucky Dube (curiosamente o primeiro álbum de reggae gravado na África do Sul, em 1984), intitulado Rastas Never Dies, não foi sucesso comercial (pouco mais de 4.000 discos vendidos; portanto um número pouco expressivo, principalmente em se tratando de um artista promissor que estava começando a projetar-se no cenário musical africano e que tinha suas pretensões de levar seu trabalho para além da África. Lucky Dube já havia atingido a marca dos 30.000 discos vendidos com um álbum de seu período mbaqanga). Mesmo com um boicote ao Rastas Never Dies (em função de seu conteúdo notadamente político e de crítica ao racismo / algo semelhante ocorreu no Brasil, em 1992, com o álbum Negro no Poder, da banda Cidade Negra), Lucky Dube insistia no reggae e em seu potencial crítico-emancipatório.

Lançou em 1985 o álbum Think About The Children (destaques para a faixa-título, I Wanna Take You To Jamaica e I’ve Got Jah), em 1986 o álbum Slave (destaques para a faixa-título, que obviamente não se reduz à escravidão do alcoolismo, tal como o vídeo-clipe pode sugerir – trata-se, é claro, de uma estratégia para driblar a censura -, Let Jah Be Praised, que não chega a ser a adaptação para a clássica de Peter Tosh (apesar de seu título), I’ve Got You Babe e Back To My Roots, esta última, diga-se de passagem, bastante apropriada para se considerar o atual cenário do reggae na própria Jamaica (leia Great Times Are Coming. Ou: Big Tings a Gwaan).

Prisoner ultrapassou a marca de 1 milhão de cópias vendidas| foto: reprodução internet

Prisoner ultrapassou a marca de 1 milhão de cópias vendidas

Quando a carreira de Lucky Dube se constitui como a carreira de um artista de reggae (ou seja, na segunda metade da década de 1980), o álbum Rastas Never Dies é relançado pela demanda do público que começa a expandir-se consideravelmente para além da África do Sul, é seguido do lançamento de Together As One (1988 – destaques para a faixa-título e Truth In The World) e, em 1989, é lançado o álbum mais bem-sucedido da história de DubePrisoner. Com apenas cinco dias de lançamento, o disco já era platina duplo, trazia na tracklist grandes acertos como Remember Me e Reggae Strong. Prisoner ultrapassa a marca de 1.000.000 de discos vendidos e consolida a carreira de Lucky Dube como astro do reggae internacional. No início da década de 1990, o cantor lança Captured Live (platina novamente) e toca no Reggae Sunsplash (Jamaica).

Ainda no início dos 90, Dube lança o belíssimo House Of Exile (destaques para Crazy World, It’s Not Easy, Hold On, Mickey Mouse Freedom, Group Areas Act, Running Falling e a faixa-título); o cantor segue tocando questões da opressão e da desigualdade, mas também abre um espaço a dramas pessoais, relacionais e familiares. Victims (1993) também integra a lista de discos bem-sucedidos de Lucky Dube. Músicas como Different Colours/One People – com uma introdução a la Super Mario Bros. – e a faixa-título, Victims (ouça abaixo), não deixam sombra de dúvida sobre a habilidade vocal surpreendente do sul-africano que assina contrato com a Motown Record Company para o lançamento do disco Trinity (1995), que, por sua vez, traz pérolas tais como Feel Irie, Big Boys Don’t Cry, God Bless The Women e Rastaman Prayer.

Após a morte trágica, parentes, amigos e fãs prestam uma última homenagem ao artista | foto: reprodução internet

Após a morte trágica, parentes, amigos e fãs prestam uma última homenagem ao artista

Em 1996, a primeira coletânea; intitulado Serious Reggae Business (ouça abaixo, na íntegra), o disco reuniria os maiores sucessos do cantor sem qualquer anúncio de término da carreira, já que ainda seriam lançados Taxman, de 1997 (destaques para Guns & Roses, Release Me, Is This The Way e a regravação de I Want To Know What Love Is, clássico de Michael Jones) e The Way It Is, de 1999 (destaques para a faixa-título, Crying Games, You Stand Alone e Till You Lose It All – com violinos na introdução).

Em 2001, mais uma coletânea de hits – The Rough Guide To Lucky Dube – e o sucesso seguiria os três últimos álbuns: Soul Taker (2001), The Other Side (2003 / destaque para Ding Ding Licky Licky Bong, com guitarras que remetem a Alagados, d’Os Paralamas do Sucesso) e Respect, de 2007 (destaques para a faixa-título e para a belíssima Celebrate Life. Mas (infelizmente) Dube não pôde celebrar a vida por muito tempo.

No momento de sua carreira em que dividia palcos com artistas do calibre de Sinéad O’Connor, Peter Gabriel e Sting e em que acabava de apresentar-se no festival Live 8 (em Joanesburgo), o cantor deparou-se com a violência de um assalto que lhe custou a vida. A cena brutal acontece na frente de dois dos filhos do cantor, em 18 de Outubro de 2007. Três tiros matam um grande homem e artista de 43 anos de idade. Os assassinos de Lucky Dube foram condenados à prisão perpétua. O astro do reggae sul-africano deixou a esposa Zanele, sete filhos (dentre os filhos, a cantora Nkulee Dube), um acervo de lindas canções e uma legião de admiradores pelo mundo.

Ouça a coletânea “Serious Reggae Business”, com o melhor de Lucky Dube:

 

foto: reprodução internet

“Legalize it”: quando a profecia de uma canção torna-se realidade

Peter Tosh: militância a favor da descriminalização da maconha sempre foi uma marca do cantor.  |  foto: reprodução internet

Peter Tosh: militância a favor da descriminalização da maconha sempre foi uma marca do cantor.

Eram os anos 1970. Numa pequena ilha do Caribe, uma certa erva era cultuada por muitos, utilizada por muitos, desejada por outros tantos, mas era ilegal. Um de seus grandes talentos musicais, Peter Tosh, cantava que “era preciso legalizá-la e não criticá-la”, naquela que ficou conhecida como uma de suas principais canções: Legalize It (ouça a faixa abaixo).

Tão distante da Jamaica, lá na Europa, nos mesmos anos 1970, um pequeno país liberava o uso da erva para maiores de 18 anos, em certos coffee shops. E essa foi a história, por muitos e muitos anos. Peter Tosh continuou tentando, compôs outra canção, falando mais especificamente sobre os benefícios da erva para a saúde, mas de nada adiantou. A Jamaica ainda  conviveria com esse dilema por mais 40 anos.

Muito depois da Holanda, somente nos anos 1990, outros países começaram a mudar de opinião sobre a maconha. Num primeiro momento, passaram a tratá-la como questão de saúde pública. Ou seja, ao ser pego consumindo a erva, o indivíduo era encaminhado para tratamento médico e não mais preso. “Sem mais humilhação ilegal ou interrogatório policial”, como pedia o cantor, desta vez em Bush Doctor .

Lá pelos anos 2000, o assunto evoluiu ainda mais e a posse e o consumo pessoal de maconha passaram a ser aceitos em muitos países. Hoje, Espanha, Portugal, Grã-Bretanha, Itália e Alemanha, além da Austrália, têm leis mais modernas e, em certos casos, estabelecem quantidades e locais onde se pode consumir. “Não é mais necessário fumar e se esconder, quando você sabe que está fazendo um passeio ilegal”, continuava a letra de Bush Doctor.

Bob Marley: família do cantor anunciou a primeira marca global de Cannabis.  |  foto: reprodução internet

Bob Marley: família do cantor anunciou a primeira marca global de Cannabis.

Na América Latina, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Venezuela também enxergam a maconha de maneira semelhante ao que acontece na Europa. O grande salto foi dado mesmo pelo Uruguai, onde a legislação é ainda mais abrangente. Lá, o cultivo para consumo próprio é permitido e a venda – apenas para usuários cadastrados – é controlada pelo governo, através de uma rede de farmácias.

Em Israel e no Canadá, a maconha é permitida apenas para fins medicinais, sendo que neste último é permitido o cultivo aos usuários que possuam receita médica. Já nos Estados Unidos, a legislação difere entre os estados, sendo que muitos permitem apenas o uso medicinal e outros aprovaram, também, o uso recreativo.

Uma tendência que deve seguir pelos Estados Unidos e pelo mundo e que recentemente fez com que a família do maior ícone jamaicano, Bob Marley (outro grande entusiasta e defensor do consumo de maconha, ou ganja, como é chamada na ilha), lançasse a Marley Natural, primeira marca global de Cannabis e produtos derivados da erva (leia mais em Família Marley anuncia a primeira marca global de Cannabis). Aqui no Brasil, a maconha continua sendo ilegal, porém, o canabidiol, derivado dela, foi recentemente liberado para uso medicinal e de forma controlada.

Finalmente, chegamos à Jamaica. Depois de anos de longas discussões, foi aprovada no último dia 14 de fevereiro uma lei para descriminalizar a posse de até 57 g de maconha. Além disso, os adeptos do movimento rastafári, para o qual a erva é considerada sagrada, poderão utilizá-la em seus rituais. O uso medicinal também será regulamentado e será permitido o cultivo de até 5 plantas.

Possivelmente, esse seja apenas o começo de uma abertura na maneira como a Jamaica passará a lidar com a maconha no futuro. Sábio ou visionário, Peter Tosh defendeu essa mudança com base em argumentos que, de fato, vêm se provando verdadeiros. Quem sabe ele estivesse certo também em relação ao aspecto econômico e então, daqui a alguns anos, veremos a pequena ilha onde a erva se desenvolveu tão bem, tornar-se um grande exportador e lucrar de forma legal com sua comercialização. Afinal, em se tratando de Jamaica, ela de fato “pode fortalecer a sua combalida economia e eliminar sua mentalidade servil”, já avisava o músico, novamente em Bush Doctor.

foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Kingston, a Hollywood jamaicana

Kingston está para a música jamaicana como Hollywood para o cinema americano. Espécie de Nashville do reggae, a cidade é o berço de artistas mundialmente consagrados como Bob Marley e Peter Tosh e foi retratada em incontáveis músicas, filmes e documentários ao longo dos anos. Famosa por sua rica e diversificada cultura, Kingston é um verdadeiro caldeirão de influências políticas, musicais e religiosas, que impactou o mundo de forma permanente.

Life Yard - Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Life Yard – Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Não há nenhuma outra cidade no mundo, comparável em tamanho e população a Kingston, que tenha produzido tanta música, durante tanto tempo e com tamanho impacto na cultura popular mundial. Em pouco mais de 8 km quadrados, a capital da Jamaica, que em 1960 contava com população de 123 mil habitantes, hoje é o lar de aproximadamente 500 mil pessoas e conhecida por ter sido o epicentro de um movimento que colocou a Jamaica no mapa da música mundial. O local foi ponto de partida de uma série infindável de aventuras sonoras e, para muitos artistas, independente de terem nascido na cidade ou migrado das áreas rurais, era sobretudo uma grande promessa de melhoria de vida, embora exigisse uma boa dose de instinto de sobrevivência. A proximidade dos músicos e a quantidade de estúdios num espaço urbano restrito podem ser alguns dos motivos, mas por si só não explicam tamanho potencial criativo ao longo de décadas. As deploráveis condições econômicas e sociais sob as quais a maioria dos artistas viveram foram os catalisadores para uma espécie de “exorcismo musical“, que em parte podem explicar este fenômeno.

O impacto da colonização afetou a Jamaica de forma contundente, começando com a Espanha, que em 1494 praticamente dizimou os nativos arauaques e depois com a Inglaterra, que tomou o poder em 1655 e iniciou um processo de escravização e importação de africanos para a ilha. Estabelecida em 1692, Kingston tornou-se a capital do país e, em 1892, passou a ser o principal porto comercial, desbancando Spanish Town. As bases para a injustiça social que empobreceram tantos jamaicanos ao longo do século XX, foram estabelecidas em Kingston durante o século XVII quando, sob o domínio britânico, a Jamaica tornou-se líder mundial na exportação de açúcar.

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

A exploração colonial das classes trabalhadoras, que garantiu a prosperidade da indústria do açúcar naquele período, levou a graves distúrbios sociais e fez Kingston entrar em colapso em meados de 1938. Mortes e tumultos deflagrados por circunstâncias políticas e raciais prenunciavam as crises das décadas seguintes. A “economia da sobrevivência”, gerada sobretudo pelo alto índice de desemprego, praticamente obrigou as pessoas a se mudarem para a capital, fazendo com que a população crescesse substancialmente na década de 1960. Como consequência, a cidade, que já sofria com a pobreza, se viu frente às inevitáveis competições por recursos, que por sua vez levaram à violência recorrente, ainda mais evidente durante as eleições gerais na ilha.

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

No início do século XX, o rastafarianismo surgiu como uma fonte poderosa de fé e resistência em Kingston. Embora Marcus Garvey (1887 – 1940), ícone jamaicano da libertação negra, não fosse ele próprio um Rasta, Kingston foi palco de muitos de seus inflamados discursos promovendo o nacionalismo negro e a independência, visão esta que era completamente alinhada aos ideias rastafáris. O rastafarianismo também ganhou adeptos fora da cidade, que foram forçados a mudarem-se para Kingston após uma série de ações policiais em áreas de plantação de maconha nos arredores da cidade. Em um destes ataques, mais de mil pessoas ficaram desabrigadas e muitas delas foram morar nas favelas urbanas da capital. Vários locais voltados à prática do rastafarianismo começaram a surgir por toda a ilha – especialmente nos arredores de Kingston – e a música passou a ser parte essencial deste movimento, cuja expressão artística e filosófica se fez cada vez mais presente e atraiu jovens e promissores músicos como Tommy McCook, que viria a estabelecer um marco na música jamaicana através do lendário grupo The Skatalites.

As raízes da cultura jamaicana, que estavam naturalmente muito sujeitas às influências africanas, com seus tambores e rituais espirituais de dança como a Kumina e Pukkumina, eram temperos evidentes no caldeirão cultural da cidade. Outros ingredientes, incluindo jazz, R&B, folk e até música country foram elementos que, somados, contribuíram para a criação do “algo novo” que estava por vir. Trenchtown tornou-se, ao mesmo tempo, residência de marginais  e inúmeros artistas cujo trabalho foi fortemente influenciado pelo instinto de sobrevivência.

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

A parte ocidental de Kinston era o núcleo da indústria musical jamaicana. Nas décadas de 50 e 60, Kingston era destino obrigatório para qualquer artista que alimentasse alguma esperança de ser gravado na ilha, já que ali estavam concentrados os melhores estúdios, produtores e músicos, que por sua vez sabiam como obter os melhores resultados. Conhecida informalmente como “Beat Street”, por motivos óbvios, a “Orange Street” era uma espécie de quartel general de produtores como Coxsonne Dodd, Prince Buster e Bunny Lee, entre muitos outros. Locais para audições e ensaios, estúdios, selos e até lojas de disco ficavam concentradas em uma relativamente pequena área da cidade, que incluía ainda a King Street (paralela à Orange Street), Beeston Street, Chancery Lane e North Parade (lar do Randy’s Studio, que mais tarde viria a se tornar a VP Records). Joe Gibbs, os irmãoes Hoo-Kim (do renomado Channel One), Clancy Eccles, Derrick Harriott e incontáveis outros produtores e artistas ocupavam o mesmo espaço, competindo entre si e muitas vezes colaborando uns com os outros para criar o próximo hit musical. Embora a indústria não tenha ficado limitada a esta região com o passar do tempo, Kingston continuou a ser vital e manteve sua vocação de núcleo de explosão criativa da música popular jamaicana. Para isso, muito contribuiu a cultura dos sound systems, com seus “dubplates” e sua capacidade de testar a audiência, antecipando tendências musicais ao público.

Por razões que excedem a lógica, era muito comum as músicas situarem o ouvinte, fazendo de Kingston mais que meramente o local onde as obras foram criadas, mas tornando-a parte essencial da narrativa musical. Em “Trenchtown Rock (1971), Bob Marley faz todos terem certeza de que o gueto está no centro da capital, na (graças a ele) mundialmente famosa “Kingston 12”. Mais tarde, em 1975, Marley mapeia a geografia urbana com “Natty Dread”, levando o público a uma viagem pela emblemática cidade. Por outro lado, “Kingston Town”, lançada originalmente por Lord Creator em 1970 e produzida por Clancy Eccles, idealiza a cidade como mágica, ao invés de trágica. A música ganhou outras versões e atingiu o topo das paradas no Reino Unido e na França, quando foi regravada pelos ingleses do UB40, 20 anos mais tarde, no início dos anos 90. Até mesmo em músicas instrumentais as vibrações Rasta vêm à tona, como em “Man From Wareika”(1976), do lendário trombonista Rico Rodriguez. Ele atribui a inspiração à sua ligação com um acampamento Rasta nas colinas dos arredores de Kingston.

Capa do filme "The Harder They Come", estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Capa do filme “The Harder They Come”, estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Outro fato importante é que um dos motivos por trás do sucesso do filme “The Harder They Come” (estrelado por Jimmy Cliff em 1972), segundo a crítica, é justamente o fato de o filme retratar a realidade de Kingston, cuja reputação à época tornava o local ao mesmo tempo perigoso e emblemático. O filme conta a história de Rhyging, um gangster pistoleiro que causava grande tumulto na cidade até ser morto pela polícia, em 1948. O personagem de Cliff retrata de maneira precisa a figura típica do camponês jamaicano, que migra da área rural para Kingston em busca de melhoria de vida e, ao só encontrar mais dificuldades e pobreza, se entrega à criminalidade em um ambiente desumano e nada inspirador.

Kingston também foi palco de terríveis batalhas políticas entre integrantes dos dois principais partidos do país: o PNP (People’s National Party) e o JLP (Jamaica Labour Party). Foram inúmeros os conflitos por território e poder, que culminaram na perda de dezenas de vidas ao longo de um duro processo, já que cada eleição geral na ilha reacendia a tensão política e a violência. Embora tenha sido um fenômeno característico dos anos 70, Kingston voltou às páginas policiais  internacionais recentemente quando, em 2010, um forte esquema policial foi montado para capturar um suposto bandido e traficante de drogas, chamado Cristopher “Dudus” Coke e extraditá-lo para os Estados Unidos. Espécie de “Robin Hood” jamaicano, Dudus era conhecido em Kingston como “The President” e considerado intocável pela população local, a despeito de todas as acusações contra ele. Interdições de estradas, barricadas, destruição e acusações de abuso policial, além de um número expressivo de homicídios de inocentes, provocaram reações furiosas da população e da classe artística contra a operação. “Don’t Touch The President”, de Bunny Wailer, tocou fundo na ferida e é considerada uma das principais músicas sobre o tema. De um modo geral, o evento só fez piorar a perspectiva de melhoria de vida dos habitantes da cidade, dada a repercussão negativa da cidade, que depende fortemente do turismo.

EDB Vinyl Thursday's | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

EDB Vinyl Thursday’s | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Mais que uma cidade turística, Kingston tem na criatividade do seu povo seu maior patrimônio histórico. Passado, presente e futuro se misturam num verdadeiro caldeirão cultural, que nasceu nos guetos locais e ganhou o mundo de forma incrivelmente impactante. Milhões de pessoas ao redor do mundo, sem sequer saber onde fica Trench Town, cantam e dançam músicas sobre o lugar. Não há dúvida de que Kingston está no topo da lista entre as cidades no mundo que mais contribuíram para a música e cultura globais.

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Cidade Negra: reggae brasileiro tipo exportação

Precursores do reggae no país e primeiro grupo brasileiro do gênero a atingir projeção nacional e internacional, o Cidade Negra trouxe inegáveis contribuições no sentido de uma afirmação da cultura reggae no Brasil e em outros países do mundo. Ao longo de 28 anos de carreira, o grupo acumulou hits, conquistou uma legião de fãs e investiu como nenhum outro na interlocução Brasil-Jamaica.

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Cidade Negra em sua formação atual: Bino, Toni Garrido e Lazão.

Baixada Fluminense. Rio de Janeiro. 1986. Subia ao palco, pela primeira vez, a banda Lumiar. O grupo, formado por quatro admiradores do reggae (Bernardo Rangel – Ras Bernardo, Da Gama, Bino Farias e Lazão), logo viria a ter de mudar o nome da banda (em função do nome Lumiar já ter sido registrado, à época, por outra banda). Bino Farias (baixista) recebeu em sonho o nome Cidade Negra, referência ao fato de o Brasil ser a nação com a segunda maior população negra do mundo. O nome foi imediatamente aceito e, no decorrer da segunda metade dos anos 80, a banda já se apresentava como Cidade Negra, a primeira representante do reggae no Brasil que atingiu projeção nacional e internacional.

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Capa de “Lute Para Viver” (1991)

Ainda no final da década de 1980, um documentário da BBC de Londres sobre a cultura local na Baixada Fluminense viria a jogar holofote na arte do quarteto de Belford Roxo e tal destaque resultaria num contrato com uma grande gravadora e no lançamento do primeiro disco (“Lute Para Viver”, 1991). O disco pode e deve ser reconhecido na qualidade de primeiro álbum de uma banda brasileira de reggae – trouxe o primeiro grande hit da banda (Falar a Verdade) e o luxo de uma participação especial do ídolo jamaicano Jimmy Cliff, na faixa Mensagem. “Lute Para Viver” trazia ainda uma versão digna de respeito para o clássico Jah Jah Made Us For A Purpose (Winston Foster – mais conhecido como Yellowman). Na versão do Cidade Negra, a música, cantada pelo baterista Lazão, foi chamada Nada Mudou (ouça abaixo).

Em 1992, a banda lança “Negro no Poder”, um álbum de inegável potência política progressista e de uma sonoridade facilmente comparável à fase de maior prestígio da banda jamaicana Black Uhuru (a título de exemplos, ouça a faixa Conciliação, abaixo, além de Sai-Lário e Na Frente da TV). “Negro no Poder” viria a ser o último disco com Ras Bernardo na posição de vocalista do Cidade.

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“Sobre Todas as Forças” (1994), já com Toni Garrido nos vocais: o disco é considerado uma coletânea de sucessos da banda.

O terceiro álbum, “Sobre Todas As Forças” (1994), situa a entrada de Toni Garrido para a banda, trazendo o tempero soul com o qual o Cidade já flertava desde o início de sua formação. No entanto, esse álbum – que pode ser tomado como uma coletânea de sucessos da banda –, seguiria marcando compromisso com a “música que bate sem machucar”. Querem Meu Sangue, versão de Nando Reis para a clássica The Harder They Come (eternizada por Jimmy Cliff) é uma das faixas que se destacam no disco que ainda presenteia o público (de reggae, mas não só) com Casa (mais um ponto de referência  à banda Black Uhuru), Minha Irmã, Doutor, Mucama, Luta de Classes e os grandes sucessos radiofônicos A Sombra da Maldade, Pensamento (composição do período de Ras Bernardo), Onde Você Mora? (composta por Nando Reis e Marisa Monte) e a emblemática Downtown, que conta com a participação de Shabba Ranks, gigante do dancehall jamaicano. A música é a narrativa das viagens de uma banda de reggae que tem o privilégio de encontrar-se com ídolos do tamanho de Ziggy Marley e Jimmy Cliff. Uma banda credenciada a apresentar-se no Reggae Sunsplash Festival (Montego Bay, Jamaica) na qualidade de primeira representante latino-americana a tocar nesse importantíssimo festival. Downtown alude, portanto, à ambição maior de toda banda de reggae: expor sua música na Jamaica de Shabba Ranks, Burning Spear, Wailing Souls, Big Youth e Cocotea.

A carreira do Cidade Negra se consolida definitivamente com o disco “O Erê” (1996). Nele, os fãs da banda puderam constatar a maturidade do ofício artístico dos cariocas em canções como O Erê [faixa-título que presta homenagem, em yorubá, à criança (em geral) e, particularmente, às crianças que passam a compor as famílias de integrantes da banda]. É um disco, aliás, marcado pelo sentimento de família, como se pode perceber no videoclipe de Firmamento, o grande hit do disco, que é, por sua vez, mais uma versão da banda para uma música de Mr. Yellowman, o rei do dancehall: Wrong Girl To Play With (ouça as duas versões abaixo). Por falar em versão, há mais uma ótima versão neste álbum. Trata-se de Simples Viagem – a original é intitulada Sitting And Watching (canção de Dennis Brown, “príncipe do reggae”). E, por falar em dancehall, ainda há de se destacar Realidade Virtual, mais um grande sucesso que, à época da gravação, contou com a participação da cantora jamaicana Patra e rendeu um belo videoclipe, indicado a diversos prêmios. “O Erê” traria outras pérolas, como Jah Vai Providenciar e a participação de Inner Circle em Free.


A história vitoriosa do Cidade Negra seguiu com “Quanto Mais Curtido Melhor” (1998), disco que explora a MPB sem perder a tônica do reggae (como pode ser facilmente constatado em faixas como Rio Pro Mar, O Vacilão e a versão para Nos Barracos da Cidade, de Gilberto Gil). Grandes acertos como Já Foi, Sábado à Noite, A Estrada e A Cor do Sol também fazem parte da tracklist deste que é um dos trabalhos mais bem produzidos do quarteto. No ano seguinte, os fãs foram surpreendidos (leia-se presenteados) com um álbum duplo. “Hits” é uma compilação de grandes sucessos (com a inclusão de Eu Também Quero Beijar, de Pepeu Gomes) e o álbum de “Dubs”, que merece um parágrafo à parte por se tratar de um dos trabalhos que talvez mais explicitem o potencial e prestígio da banda junto a nomes consagrados do reggae mundial.

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O Cidade Negra foi considerado pela crítica dos anos 90 como sendo uma “fábrica de hits” e passou a arrastar multidões para seus shows.

Reggae em seu estado mais lisérgico e mais psicodélico possível. Eis uma boa definição do dub. Num momento em que, no Brasil, pouco se falava em dub, o Cidade Negra lança um disco com versões dub para catorze músicas de seu repertório e, para tanto, conta com a participação de doutores em reggae e dub, como Augustus Pablo, Steel Pulse, Sly & Robbie, Aswad, Lee Perry e Mad Professor; além de ótimos dubs produzidos por Paul Ralphes, Nelson Meirelles, Liminha e uma faixa trabalhada pela “cozinha” da casa, Lazão e Bino. Um disco obrigatório para qualquer fã de música jamaicana. Ouça abaixo a versão dub para a faixa Realidade Virtual.

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O álbum “Direto” (2006), com participação de Toni Garrido e Da Gama, que sairiam do grupo em seguida.

Marcando a passagem para o novo milênio, “Enquanto O Mundo Gira” (2000) vem com guitarras e destaques como Na Moral, Cidade Partida e A Flecha e o Vulcão (esta última teve videoclipe filmado na Jamaica, em lugares emblemáticos para os amantes do reggae, como o Trenchtown Culture Yard, por exemplo). Em 2002, um álbum “Acústico” com versões desplugadas de grandes clássicos, os lançamentos de Berlim e Girassol, a presença (mais que especial) de Gilberto Gil e mais uma excelente versão – dessa vez, para a canção de Chuck Berry na consagrada leitura de Peter Tosh – Johnny B. Good. Em 2004, “Perto de Deus”, disco mixado na Jamaica, viria a retomar um reggae clássico, recheado de dub, com participação do jamaicano Anthony B na faixa-título e uma versão para Concrete Jungle (Bob Marley & The Wailers), além dos sopros que aludem a Burning Spear na música Dia Livre. Na sequência, dois álbuns Ao Vivo: “Direto” (2006) e “Diversão” (2008), este último com grandes acertos da música brasileira gravados em releitura jamaicana.

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Alexandre Massau, entre Bino Farias (à esquerda) e Lazão, esteve à frente dos vocais para o lançamento do disco “Que Assim Seja” (2010).

Com a saída de Toni Garrido (voz) e Da Gama (guitarra), Bino e Lazão lançam, em 2010, o disco “Que Assim Seja”, com novo vocalista, o mineiro Alexandre Massau. O disco traria a participação do DJ/toaster jamaicano Ranking Joe em Na Onda Do Jornal / Espera Amor (citação da parceria dos bambas Agepê e Canário). Toni Garrido volta ao microfone do Cidade Negra em janeiro de 2011 para uma série de shows e o trio (Toni, Bino e Lazão) encaram, mais uma vez, o estúdio e mais uma ida à Jamaica para a mixagem, entre 2012 e 2013, do mais recente álbum de inéditas da banda. Intitulado “Hei, Afro!” numa alusão à diáspora africana, o disco é um passeio nos mais diversos tipos de reggae: da sonoridade tradicional de Diamantes ao dancehall em Don’t Wait.

Atualmente, o grupo está em turnê pelo país em comemoração aos 20 anos de lançamento do álbum “Sobre Todas as Forças” (1994). Seja pelo disco, seja pela longa e vitoriosa carreira até aqui, há motivos de sobra para comemorar.

Ouça a coletânea “Hits”, com os maiores sucessos do Cidade Negra:

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Reggae Legends: Lee “Scratch” Perry

Lee “Scratch” Perry é, sem dúvida alguma, a figura mais excêntrica de toda a história do reggae. Ao longo dos anos, seu comportamento incomum e errático foi largamente compensado por um notável instinto artístico, que deu novas dimensões à sonoridade do reggae, especialmente o dub. Sua carreira produtiva, cujo auge se deu entre o final da década de 1960 e final de 1970, ultrapassou a marca dos sessenta álbuns e chegou a quase quatrocentos singles, considerando suas atuações como artista e produtor. Muitas destas canções figuram até hoje em álbuns por todo o mundo.

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Perry: talento para produção musical que o levou a um caminho sem volta em direção à inovação sonora.

Lee “Scratch” Perry nasceu em Hanover, uma paróquia ao noroeste da Jamaica, em 1936, sob o nome Rainford Hugh Perry. Aos vinte anos ele operava uma escavadeira em um canteiro de obras, experiência através da qual descobriu, segundo ele, o poder do som. Sua introdução na indústria da música se deu  pelas mãos do produtor Duke Reid que, ainda segundo Perry, não o deixava gravar mas roubou algumas de suas composições e as deu para outro cantor, chamado Stranger Cole. A Lee Perry, nem os créditos e nem tampouco a compensação financeira. Nós poderíamos até especular sobre qual rumo sua carreira teria tomado a partir de então, se suas experimetações como produtor, mais tarde, não tivessem ganhado destaque inversamente proporcional à sua iniciação artística como cantor. Embora empregasse suas características vocais com personalidade e convicção, sua voz era muito frágil e faltava nela a textura típica de cantores convencionais como John Holt (ex-vocalista do Paragons), cuja influência de R&B continha muito mais apelo comercial. Perry, então, resolveu dedicar-se à produção de peças instrumentais, que por sua vez o levaram por um caminho sem volta em direção à inovação sonora.

Perry viria a estabelecer, mais tarde, uma conexão com o produtor do Studio One, Coxsone Dodd, trabalhando primeiro como “selector” no sound system Downbeat para, logo em seguida, assumir um importante papel criativo no selo Studio One, um dos mais emblemáticos da época. Lee Perry acumulava várias funções por lá, ainda que não recebesse os devidos créditos por suas múltiplas atividades como cantor, compositor e produtor musical. Foi ele o responsável por apresentar a Coxsone Dodd uma grande quantidade de artistas que viriam a se tornar referências para a gravadora e para a própria música jamaicana, além de ter gravado inúmeros singles como artista solo, às vezes sob o nome King Perry. Os singles “Rub & Squeese” e “Doctor Dick”, ambos de 1966, mostraram pela primeira vez o estilo lascivo das letras de Perry ao reino da música popular jamaicana, ainda sob o gênero dominante na ilha naquele período: o calypso. Naquela época, poucos poderiam imaginar que Perry já havia sido um “homem de família”, casado por um breve período no final da década de 1950 e aparentemente a caminho de uma vida serena e uma existência modesta e até apática. Há quem diga que foi justamente a desilusão com este relacionamento que motivou sua nova visão de mundo, sobretudo em relação às mulheres, o que acabou norteando o comportamento controverso que ele demonstrou ao longo de sua trajetória.

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Lee Perry: começo difícil e parcerias com diversos outros produtores para, em seguida, lançar-se como produtor independente.

Sem ter um salário para chamar de seu e muito menos qualquer participação em “royalties” sobre as músicas que produzia – prática muito comum na indústria musical jamaicana naquela época, Perry deixou o Studio One entre 1966 e 1968 para trabalhar com inúmeros outros produtores, incluindo Prince Buster e Joe Gibbs. Em 1968, uma nova mudança de rumos seguida de outra decepção: após decidir trabalhar como produtor independente para o selo West Indies Records, foi demitido por não conseguir produzir grandes hits. Uma de suas gravações mais conhecidas nesta fase foi “Set Them Free” (ouça abaixo), de 1969, gravada sob o nome Lee Perry & The Defenders. A música era uma resposta um tanto provocativa a um personagem criado por Prince Buster, chamado Judge Dread, que costumava condenar os chamados rude boys a 400 anos de prisão na música de mesmo nome. Perry criou, então, o personagem Lord Defender, que saía em defesa dos rude boys e tentava os livrar da sentença que considerava injusta, dadas as condições sociais e econômicas às quais estavam submetidos.

Lee Perry, aliás, tomou quase como um hábito direcionar ataques incisivos aos seus ex-empregadores em várias de suas gravações, incluindo os notáveis Prince Buster, Coxsonne Dodd, Joe Gibbs e Bunny Lee. O single “I Am The Upsetter” – termo que logo tornou-se mais um de seus famosos apelidos – foi pensado para ser um ataque direto a Coxsone Dodd, a quem atribui a culpa por ter prejudicado e alienado diversos artistas e produtores com os quais havia trabalhado valendo-se de acordos e negociações obscuras. O primeiro hit produzido por Perry, “People Funny Boy”, de 1968, tratava especificamente de Joe Gibbs, embora pudesse descrever muitas outras situações insatisfatórias, nas quais sua contribuição artística fora subvalorizada. Perry trabalhou com Gibbs como produtor e arranjador, até que as intrigas em virtude de disputas financeiras – que viria a se tornar uma marca registrada da indústria jamaicana – os levassem à separação. Segundo estimativas, “People Funny Boy” vendeu mais de 30 mil cópias, um número bastante razoável para os padrões da indústria à época. É irônico que Lee Perry tenha investido tanta energia em criticar modelos de negócios alheios, considerando que ele mesmo futuramente viesse a se envolver em transações duvidosas enquanto trabalhava com o The Wailers, a banda dos futuros “superstars” do reggae Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer. Alegando necessidade financeira, ele licenciou material da banda, supostamente sem autorização, para diversos selos internacionais.

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O genial Lee Perry à época do The Upsetters: talento musical inquestionável.

Antes dos conflitos com o The Wailers, porém, Lee Perry alcançou sucesso internacional com aquela que foi sua mais conhecida banda de estúdio, o The Upsetters (antes conhecida como Hippy Boys) provando que sua excentricidade tinha valor comercial global. O instrumental “Return Of Django”, inspirado nos filmes de velho-oeste italianos que faziam a cabeça dos jamaicanos naqueles tempos, foi um desses hits e invadiu as paradas de sucesso britânicas, alcançando a quinta posição no ranking das mais tocadas, em 1969. O sucesso da música se deve em parte à sua aceitação pelos “skinheads”, jovens britânicos da classe trabalhadora, brancos, que raspavam suas cabeças e rejeitavam o estilo de vida tradicional. Perry ainda daria outra grande contribuição à música jamaicana, ao produzir as primeiras gravações de U-Roy, o pioneiro DJ jamaicano que, mais tarde, viria a conquistar seu próprio espaço.

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Os irmãos Aston (à esquerda) e Carlton Barret, à direita de Bob Marley. Sob a direção de Lee Perry, eles gravaram juntos pela primeira vez.

Foi sob a direção de Perry que os vocalistas do The Wailers gravaram pela primeira em companhia dos irmãos Carlton e Aston Barret, que viriam a se tornar uma das sessões rítmicas de baixo e bateria mais importantes de toda a história da música jamaicana. Eles já haviam integrado o grupo The Upsetters em sua formação original, mas passaram a dedicar-se em tempo integral ao The Wailers após Lee Perry abrir seu estúdio, o Black Ark, em 1973. “Duppy Conqueror”, de 1970, foi uma dos primeiros hits resultantes da promissora parceria entre Lee Perry e The Wailers. Outras inúmeras sessões, gravadas anteriormente no Studio One, produziram algumas peças-chave para o futuro repertório  do grupo, incluindo “Sun Is Shinning”, “Small Axe” e “Kaya”, todas elas gravadas no período entre 1970 e 1971. É bem verdade que algumas destas sessões resultaram em vários álbuns lançados na Inglaterra (com material não autorizado) pela Trojan Records, como é o caso de “Soul Rebels” (1970), Soul Revolution (1971) e African Herbsman (1974), sendo que este é apenas um exemplo da complexa e conturbada relação entre os Wailers e Perry, a quem acusam de frequentemente não lhes pagar devidamente pelas obras.

O primeiro álbum de Perry com experimentações de dub foi “Cloak & Dagger”, lançado entre 1972 e 1974, não se sabe ao certo. O disco trazia bases de algumas faixas produzidas anteriormente com sua banda, o The Upsetters, e possuía diferentes versões para os mercados inglês e jamaicano. Embora não fosse propriamente um disco de dub, aquele foi certamente um dos primeiros passos nesta direção e poderia até ser considerado inovador para a época, já que as faixas dub foram cortadas da versão original jamaicana para o lançamento na Inglaterra, resultando em fracasso comercial. O próximo disco, “Rhythm Shower” (1973), foi lançado apenas na Jamaica e até hoje é considerado item raro.

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King Tubby, engenheiro de som jamaicano e parceiro fundamental de Lee Perry em algumas das primeiras produções de dub.

Perry logo passou a integrar um seleto grupo de produtores, a exemplo de Bunny Lee, investiu em equipamento de estúdio e incorporou técnicas de mixagem dub com o então renomado engenheiro de som King Tubby, considerado até hoje um dos pais do gênero. “Blackboard Jungle Dub”(1973) é o primeiro resultado de uma bem-sucedida parceria entre eles (que apesar da relação de proximidade desenvolveram técnicas e estilos bastantes diferentes ao longo dos anos). Uma raridade em termos conceituais para o reggae e considerado por muitos um clássico do “early dub”, o disco foi lançado em edição limitada e a um preço acima da média do mercado. Embora não tivesse perfil para integrar o “mainstream” britânico, o disco garantiu a Perry margem de lucro muito acima da média para artistas de qualquer gênero à época.

Perry costumava gravar suas faixas em alguns dos mais conhecidos estúdios da Jamaica, como o Randy’s e o Dynamic Sounds. No final de 1973, decidiu montar seu próprio estúdio, o Black Ark, no quintal de sua casa, em Kingston. Um dos principais motivos que o levaram à empreitada foi justamente a insatisfação em relação aos outros estúdios, que não investiam em “upgrades” de seus equipamentos, o que acabava por limitar as suas criações. Ter seu próprio estúdio significava ter poder para moldar sua criatividade musical e seu próprio destino na indústria da música. Segundo alguns relatos, o primeiro equipamento de Perry, um engenhoso sistema de gravação em quarto canais, foi construído por King Tubby, que além de excelente engenheiro de som era também um exímio conhecedor de eletrônica. Perry ainda contou com a colaboração de Errol E. T. Thompson, engenheiro de som que já havia realizado diversos trabalhos no Randy’s Studio e cujas obras continham grande valor e influência.

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Lee “Scratch” Perry em ação no seu lendário estúdio Black Ark, em 1973.

Muito além de simples vitrine para o seu trabalho, o Black Ark era em si mesmo uma espécie de “teia de ideias” para a criatividade de Perry. Suas paredes eram repletas de fotos, figuras e símbolos escritos à mão que não pareciam fazer sentido algum, o que deu margem a especulações sobre sua saúde mental. Mais que um estúdio, o local tornou-se um museu audiovisual para Lee Perry, cujo senso empresarial permaneceu intacto: ele passou a vender inúmeras produções exclusivas em forma de “dubplates” para importantes “soundsystems” de Londres, e costumava trocar algumas obras por roupas e outros suprimentos.

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O disco Super Ape (1976), primeiro álbum de Lee Perry lançado pela Island Records.

Além dos avanços com o estúdio, um acordo de licenciamento com a Island Records, em 1976, conferiu grande exposição à sua música, que agora contava com uma audiência sensivelmente maior. Em meados de 1970, a Island Records já havia se posicionado na vanguarda do reggae. Antes disso, porém, Lee Perry era o responsável por quase a totalidade das produções, gravações, prensagens, vendas e distribuição dos discos produzidos em seu estúdio. O influente “Super Ape”, de 1976, foi um dos primeiros lançamentos a serem beneficiados pelo acordo de produção e distribuição com o selo britânico. Graças à parceria com a Island Records, Lee Perry podia finalmente contar com uma audiência global e mostrar toda sua excentricidade ao mundo, apesar de vários (bons) discos produzidos no lendário Black Ark terem ficado em relativa obscuridade.

A aliança com a Island ainda possibilitou que Perry fizesse os devidos “upgrades” em seu equipamento de estúdio, podendo fazer ainda mais experimentações que, por sua vez, nem sempre resultaram em sucesso comercial. Houve quem dissesse que a inconsistência da vida pessoal de Perry começava a ficar evidente em sua obra, e que aquilo era um prenúncio de uma inequívoca e preocupante perda de foco.

Contrariando mais uma vez as expectativas, ele manteve-se engajado e logo veio a produzir outros grandes feitos. O single “Police & Thieves”, do cantor jamaicano Junior Murvin, uma das produções mais memoráveis de Lee Perry naquele período, alcançou boas posições nas paradas britânicas, e o mesmo se pode dizer de “Hurt So Good”, da cantora britânica Susan Cadogan (ouça abaixo), que emplacou o top 5 e vendeu em torno de 250 mil cópias.

Ele continuava acumulando hits, como já era o caso de “Curly Locks”(1973) com Junior Byles e “War Inna Babylon”, de Max Romeo, lançado pela Island em 1976. Poderia ter ficado limitado ao universo do reggae e não chegar ao mercado pop “mainstream”, se não tivesse produzido material para o ábum de estreia da banda de punk rock britânica The Clash, em 1977. Naquele mesmo ano, juntou-se a Bob Marley nos estúdios da Island, em Londres, para produzir a faixa “Punky Reggae Party”, uma declaração simbólica de alinhamento dos ideais “anti-establishment” dos punk rockers britânicos e dos dreads jamaicanos. Ainda em 1977, Perry reforçou sua vocação para a indústria pop ao produzir material para o album “Wide Prairie”, da então esposa de Paul McCartney, Linda McCartney (registro que só foi lançado em 1998, após sua morte).

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O disco de estreia do grupo de punk rock britânico The Clash (1977), contou com Lee Perry na produção e abriu novos horizontes de mercado para o produtor.

Seguiram-se outros projetos de grande valor artístico, porém, em razão de uma opção da Island em não lançá-los, Lee Perry viu o alcance de sua obra diminuir drasticamente. Sua relação com a gravadora britânica ruiu, assim como sua capacidade de quebrar padrões musicais gozando de reconhecimento comercial. O som produzido no Black Ark tornava-se cada vez mais estranho aos ouvidos, sua música era considerada cada vez mais inacessível, parecendo refletir suas batalhas psicológicas. A despeito de seus acordos comerciais com a Island, o selo acabou por marginalizar o seu trabalho, e várias de suas gravações solo – nas quais havia investido muito financeira e criativamente – não foram lançadas internacionalmente. O selo Trojan Records, no qual havia concentrado grande parte de seu material, também passava por grandes dificuldades e isso só ajudou a piorar a situação. Vários outros fatores contribuíram para um comportamento cada vez mais turbulento, e sua produtividade declinou no final da década de 70, à medida que o Black Ark guadualmente se desintegrava.

No início de 1983, o Black Ark foi consumido por um incêndio deflagrado por seu próprio criador, pondo fim a um dos maiores templos do dub jamaicano da história. Para alguns, Perry era apenas um personagem, inventado por ele próprio, que se fazia de louco para desviar a atenção dos criminosos num período de efervescência sociopolítica que dominava a Jamaica. Para outros, ele era em si mesmo uma personificação de suas criações musicais, um cérebro em constante estado de implosão psíquica. Ele alega que os motivos para o incêndio ao Black Ark estão relacionados às substâncias que usava enquanto produzia seus dubs. Ele cita os cigarros, carne, álcool (especificamente rum) e ganja (maconha) como sendo os agentes químicos fundamentais para o incidente. Certa vez, afirmou que não mais se identificava com o lugar onde as músicas foram criadas, já que não fazia mais uso das substâncias que alteravam seu estado de consciência. Em vez disso, agora voltaria a produzir o que chamou de “simple clean music”, músicas não afetadas pelo que passou a considerar como estimulantes negativos para a mente e o corpo. Mas muito embora ele tenha acenado com a possibilidade de um equilíbrio mental, suas falas nas entrevistas ainda permaneciam enigmáticas e misteriosas, desafiando a um entendimento real de seu significado.

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Black Ark: local repleto de fotos, figuras e símbolos escritos à mão, por onde passaram grandes nomes da música jamaicana e mundial.

Seu trabalho após o fim da era Black Ark mostrou-se inconsistente, tanto em termos de qualidade quanto de direção, e parecia refletir seu sentimento de inquietação e deslocamento após deixar a Jamaica, em 1984. De lá pra cá, ele viveu entre Londres e Nova Iorque até se estabelecer na Suíça por volta de 1989. Uma vida familiar, muito distante do ambiente que deu origem à sua carreira e lhe mostrou o caminho rumo ao estrelato internacional.

Ouça abaixo alguns hits produzidos por Lee “Scratch” Perry:

Bob Marley & The Wailers, em registro de 1973 para o tradicional programa de TV da BBC, em Londres. | foto: reprodução internet

One good thing about music: reggae at BBC

“Pois o reggae quando bate você nunca sente dor”, cantou a banda Cidade Negra na música “Downtown” – hit do grupo nos anos 90 – em uma bem-sucedida adaptação da frase de Bob Marley em “Trenchtown Rock”, por sua vez, hit do rei do reggae nos anos 70.

Embora seja utilizado para descrever a música jamaicana de um modo geral, o termo reggae indica mais especificamente um tipo de música em particular, nascido na Jamaica no final dos anos 60 e que tem como precursores imediatos o rocksteady e o ska.

Foi a partir dos anos 70, no entanto, que o gênero finalmente saiu dos guetos jamaicanos para alçar voos mais altos, primeiramente pela Europa e logo depois conquistando os mercados americano e mundial.

De lá pra cá, o reggae não só ganhou adeptos mundo afora como influenciou de forma contundente e definitiva a música e cultura globais.

Neste precioso registro da BBC, cujo formato já se tornou uma tradição para amantes do reggae e de música jamaicana, é possível conferir uma boa mostra do que foi o período considerado pela crítica mundial como a “golden era” do gênero.

São 90 minutos de um delicioso passeio musical pela essência do reggae em suas mais diversas vertentes, pra curtir sem moderação do início ao fim. Afinal, “uma coisa boa sobre música é que, quando ela bate, você não sente dor”!

Ilustração sobre foto conhecida do cantor e compositor jamaicano | foto: reprodução internet

Wanted, Dread & Alive: a saga de Peter Tosh

Winston Hubert McIntosh, o lendário Peter Tosh, nasceu no dia 19 de outubro de 1944, em Westmoreland, interior da Jamaica. Filho de Alvera Coke e James McIntosh, desde cedo o garoto já demonstrava profundo interesse pela música, embora suas únicas aulas de música tenham sido algumas lições de piano na 5ª série. Segundo Marlene Brown, sua esposa, Peter teria sido abandonado aos três meses de idade pelos pais, sendo criado pela tia-avó nos primeiros anos de vida. Seu pai tinha muitos filhos com várias mulheres, e Peter só veio a conhecê-lo aos 10 anos. Quando lhe perguntavam algo sobre o pai, ele dizia: “meu pai é um moleque. É só isso o que ele sabe fazer da vida: filhos! Eu nem faço ideia de quantos irmãos eu tenho”.

Em 1956, ele e sua tia mudaram-se para Denham Town, em Kingston, capital da Jamaica. Quando Peter completou 15 anos de idade, sua tia faleceu. Ele então se mudou com um tio para West Road, em Trenchtown, onde conheceu Robert “Nesta” Marley (Bob Marley) e Neville O’Reilly Livingston (Bunny Wailer), parceiros com os quais formaria o Wailin’ Wailers, cujo primeiro sucesso, intitulado “Simmer Down”, veio em 1964.

Da esquerda para a direita: Bob Marley, Bunny Wailer e Peter Tosh à época dos Wailing Wailers, em 1964.  |  foto reprodução internet

Da esquerda para a direita: Bob Marley, Bunny Wailer e Peter Tosh à época dos Wailing Wailers, em 1964. | foto reprodução internet

Depois de trabalharem com Joe Higgs, Clement “Coxsone” Dodd e Lee “Scratch” Perry, os então conhecidos como The Wailers foram apadrinhados por Chris Blackwell, produtor da Island Records, o que viria a resultar em diversas oportunidades, exposições e dois discos clássicos: “Catch a Fire” e “Burnin’”. Até então, o Reggae era exclusivamente jamaicano. O quadro viria a mudar quando os Wailers atingiram prestígio internacional e atravessaram as fronteiras da Jamaica. Mas algumas divergências com a Island fizeram com que a formação original se desintegrasse em 1974. Peter Tosh e Bunny Wailer saíram do grupo, abrindo espaço para Bob Marley, agora líder da banda.

Peter Tosh seguiu seu caminho com a mesma militância de sempre. Militância essa que os políticos viam como uma ameaça ao regime corrupto e que o povo enxergava como a rebeldia de um herói que lutava pelos direitos humanos, pela dignidade e libertação dos africanos. Sua missão era, acima de tudo, despertar a mentalidade de resistência do negro. A mensagem, porém, foi muito além desse ideal e vem, até hoje, ajudando as pessoas a pensar, conquistando admiradores em todo o mundo. Apesar de sua arte não ter atingido as mesmas proporções da música de Bob Marley, ela é indiscutivelmente importante aos apreciadores do Reggae e continua viva e atual.

Peter Tosh (ao lado de Bob Marley, à esquerda), ainda integrante do "The Wailers", em matéria de 1973.  | foto: reprodução internet

Peter Tosh (ao lado de Bob Marley, à esquerda), ainda integrante do “The Wailers”, em matéria de 1973. | foto: reprodução internet

A carreira de Tosh foi marcada por fases distintas. Ele atingiu o estrelato internacional no final da década de 70, emplacando sucessos nos quatro cantos do mundo. Algumas publicações internacionais estampavam em suas manchetes frases do tipo: “Peter Tosh: o próximo gigante do Reggae?”. Peter veio ao Brasil para encerrar o primeiro festival internacional de Jazz de São Paulo e aproveitou a passagem para gravar uma cena para a novela “Água Viva” nos estúdios da Rede Globo, no Rio de Janeiro. Peter também viveu fases conturbadas, geralmente relacionadas a conflitos com as autoridades jamaicanas e amigos barra-pesadas que frequentemente o procuravam em busca de ajuda financeira.

“Legalize It” (1976), seu primeiro álbum solo, trazia a temática que ele levou até sua morte: a legalização da maconha. Logo depois, montou sua própria banda, a Word, Sound & Power, que contava com músicos de primeira linha, como a dupla Sly Dunbar (bateria) e Robbie Shakespeare (baixo), considerados, à época, a grande revelação do cenário musical jamaicano. Foi com eles que Peter gravou o clássico álbum “Equal Rights” (1977), tido pela crítica como o disco mais bem produzidos de toda a sua carreira.

A música rebelde de Tosh continuava a todo vapor, espalhando-se e conquistando multidões. Um dos que se renderam ao talento do músico jamaicano foi Mick Jagger, o vocalista dos Rolling Stones, que surpreendeu-se com a performance de Peter no One Love Peace Concert e o convidou para gravar pelo selo Rolling Stones Records, de onde saíram dois álbuns: “Bush Doctor” (1978) e “Mystic Man” (1979).

Peter Tosh: atitude e rebeldia que renderam a fama de artista polêmico e provocador.  foto: reprodução internet

Peter Tosh: atitude e rebeldia que renderam a fama de artista polêmico e provocador. foto: reprodução internet

Durante aquele período, Peter contou com a colaboração de Mick Jagger e Keith Richards. Jagger, compartilhando os vocais em “Don’t Look Back” e Richards tocando guitarra em várias músicas. Hits como “Buckingham Palace”, “I’m The Toughest” (uma adaptação para o antigo sucesso de James and Bobby Purify, “I’m Your Puppet”) e o hino “Jah Seh No” também tiveram a colaboração da dupla. Mas nem tudo foram flores na parceria Tosh/Stones. Peter reclamou que seus discos pelo selo foram mal distribuídos e mal divulgados, os piores de sua carreira.

No ano de 1983, a formação da banda Word, Sound & Power sofreu alterações significativas. Músicos como George Fullwood (baixo) e Santa Davis (bateria), entre outros, passariam a integrar o time. Foi com essa formação, e já pela EMI, que Tosh gravou os álbuns “Mama Africa” (1983, disco que trazia sua versão para o clássico “Johnny B. Good”, de Chuck Berry, que viria a tornar-se seu maior sucesso), “Captured Live” (1984) e “No Nuclear War” (1987), o último de sua carreira.

Peter Tosh foi assassinado em 11 de Setembro de 1987. Três pistoleiros, entre eles, Dennis “Leppo” Lobban, um “rudeboy” conhecido de Peter, invadiram a casa de Tosh em busca de dinheiro. Tudo planejado por Leppo. Tosh, que conhecia técnicas de artes marciais, tentou reagir, o que resultou nos primeiros tiros. Peter, a esposa Marlene Brown, o baterista Santa Davis e alguns amigos estavam entre as vítimas do atentado. Nada foi levado da casa e a polícia chegou ao local após o tiroteio.

Peter chegou ao hospital ainda vivo, porém não resistiu aos ferimentos por muito tempo e morreu logo em seguida. Hoje, após quase três décadas de sua morte, vemos que sua música continua sendo lembrada e reverenciada no mundo inteiro. Sua imagem e sua originalidade permanecem intactas. Sua maneira de usar a arte como uma verdadeira arma na luta contra as injustiças e as desigualdades sociais e raciais continua sendo a marca registrada de Peter Tosh. Para os amantes da boa música, resta a convicção de que o talento prodígio de Peter Tosh merece muito mais do que já alcançou.

Ouça a versão remasterizada do clássico “Equal Rights”, de Peter Tosh: