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Marley, o musical: mais do que apenas ótimas canções

Cartaz de divulgação de "Marley, o musical"  |  foto: divulgação

Cartaz de divulgação de “Marley, o musical”

Em fevereiro deste ano, Bob Marley completaria 70 anos. Entre as muitas formas de celebrar a data e relembrar a importância do grande ídolo jamaicano, nasceu a ideia de um musical. Escrito e dirigido pelo britânico Kwame Kwei-Armah, o espetáculo estreou em maio passado em Baltimore, nos EUA.

Kwei-Armah é diretor artístico do Center Stage, em Baltimore, e aceitou entrar no projeto desde que sua estreia fosse na cidade. Obra do acaso ou do destino, em abril deste ano, pouco antes de Marley entrar em cartaz, um jovem negro chamado Freddie Gray foi morto por policiais, causando grande comoção em Baltimore. Vítima de conflito racial e violência urbana, algumas das bandeiras contra as quais Bob Marley lutou.

O musical não se propõe a contar toda a vida do astro do reggae. Kwei-Armah optou por concentrar a história no período entre 1975 e 1978, quando Bob deixou a Jamaica – após escapar de uma tentativa de assassinato – e se auto-exilou em Londres. Durante esse intervalo, o cantor reafirmou suas convicções religiosas e sociais, além de ter lançado álbuns como “Rastaman Vibration”, com Positive Vibration e Roots, Rock, Reggae, “Exodus”, que inclui as canções Jamming e Three Little Birds, e “Kaya”, de Is This Love e Time Will Tell (ouça abaixo). Certamente, um dos períodos mais férteis de sua carreira.

Canções de outros álbuns também fazem parte do espetáculo que traz ao todo 30 músicas, interpretadas na íntegra ou parcialmente. Uma das críticas recebidas diz respeito exatamente ao grande número de canções, que acabam dando pouco espaço para o desenrolar da história. Porém, o que é um musical sem grandes músicas? E quanto aos intérpretes?

Neste quesito, especialmente no que se refere ao protagonista, o diretor foi extremamente feliz. Entre as 35 milhões de visualizações no You Tube, Mitchell Brunings – interpretando Redemption Song na edição holandesa do programa de TV The Voice – foi visto por Kwei-Armah. Ele, que já tinha testado diversas opções para o papel de Bob Marley, teve a certeza de ter encontrado o candidato perfeito. Tudo bem, já tínhamos dado a dica aqui no site, em Covers, tributos, versões: para manter vivos grandes ídolos.

Para o papel de Rita Marley a escolhida foi Saycon Sengbloh, que já havia participado de musicais na Broadway, como “Motown”, “Fela!”, “Aida” e “Wicked”. Quando soube das audições, ela foi decidida a conseguir o papel de Rita, a quem já admirava. Determinada e talentosa, foi, também, uma ótima escolha.

Para ajudar a entrar no clima, o lobby do teatro foi ambientado como um pedaço da Jamaica: o chão coberto de terra, uma cabana de madeira no canto, grafites de protesto e pôsteres políticos, pessoas comuns dançando ao som de Jimmy Cliff. A ideia de Kwei-Armah era a de um musical mais engajado e menos voltado ao entretenimento – como “Mamma Mia”, por exemplo. No entanto, o que se viu durante as apresentações é que há envolvimento do público, que ergue os braços com Get Up, Stand Up e junta-se aos atores no clímax, com One Love.

Marley esteve em cartaz em Baltimore até 14 de junho e foi um total sucesso de público. Simplesmente a maior renda e a maior audiência em 52 anos de história do teatro Center Stage. O espetáculo foi visto por mais de 22 mil pessoas em pouco mais de um mês de temporada, arrecadando cerca de US$780 mil.

A continuação da turnê ainda não está definida, mas o sucesso da temporada de estreia, somado ao peso de produtores como Chris Blackwell , fundador da Island Records, levam a crer que o musical terá uma longa estrada a percorrer.

Assista a um trecho do ensaio de “Marley, o musical”:


 

arte: Michael Thompson | Freestylee

A arte sem fronteiras de Michael ‘Freestylee’ Thompson

Arte é para ser apreciada e ponto. Mas, quando a arte está associada a abrir os olhos das pessoas sobre o que está acontecendo no mundo, quando o artista usa sua criatividade na busca de mudanças positivas e faz de sua arte um instrumento de ativismo de paz, apreciar apenas é pouco.

O artista jamaicano Michael 'Freestylee' Thompson  |  foto: divulgação

O artista jamaicano Michael ‘Freestylee’ Thompson

O trabalho do jamaicano Michael Thompson, além de instigante, tem muita beleza. Michael Thompson é designer gráfico. Ele nasceu em Kingston, Jamaica, e desde 1990 mora nos EUA. Mais precisamente na pequena Easton, na Pensilvânia, numa área semirrural onde ele pode criar tranquilamente, longe da pressão dos grandes centros. Também conhecido como Freestylee, Thompson foi bastante influenciado pelo artista rastafári Ras Daniel Hartman – o mesmo que fez o papel de Pedro, no filme “The Harder They Come”, com Jimmy Cliff.

Os trabalhos de Ras Daniel lhe trouxeram referências e tradições do movimento rastafári que, nos anos 1970, começavam a florescer na cultura popular jamaicana. Em 1978, Freestylee venceu um concurso de pôsteres na Jamaica e integrou a delegação jamaicana que participou do 11º Festival Mundial da Juventude, em Havana, Cuba. Segundo ele, essa visita foi uma experiência transformadora e uma tremenda oportunidade. Entre 1965 e 1975, Cuba vivera sua “época de ouro” do design, com grande produção de pôsteres com conotações políticas, especialmente aqueles produzidos pela OSPAAAL – Organização de Solidariedade aos Povos da Ásia, África, e América Latina – liderada por Che Guevara.

A ideia central dos trabalhos cubanos e que permeia a arte de Thompson é de que “simples é melhor” e o foco está na mensagem. Sua arte é moderna, icônica e sempre com fortes mensagens sociais ou políticas. Os temas são variados: pobreza, racismo, políticas migratórias e muito, muito, sobre a cultura jamaicana. Desde os gêneros musicais e seus representantes, passando pelos símbolos rastafári e elementos urbanos retrô, que remetem à sua adolescência na Jamaica. Freestylee já obteve reconhecimento internacional, com exposições em vários países europeus e trabalhos publicados em importantes revistas de design. Agora, seguindo os princípios semeados pelo reggae e pelo movimento rastafári, Michael Thompson quer devolver à comunidade e ao mundo um pouco do que conquistou.

Em 2011, juntamente com a artista grega Maria Papaefstathiou, criou o International Reggae Poster Contest, um concurso anual de pôsteres com temática ligada não somente ao reggae, mas aos gêneros musicais jamaicanos, como o ska, rocksteady, dub etc. O concurso tem dois objetivos: o primeiro é iniciar uma campanha para a construção de um Reggae Hall of Fame, em Kingston, um misto de museu e local para apresentações musicais, uma espécie de meca para os amantes do reggae. O segundo é conscientizar a respeito da importância da Alpha Boys School – uma escola vocacional por onde passaram astros como Desmond Dekker e Yellowman – e que precisa de todo tipo de suporte.

As ideias de Michael Thompson são grandes, não cabem em divisões políticas, são globais. A Primavera Árabe, o Occupy Movement, o terremoto no Haiti, são alguns dos temas que ele explorou, emprestando sua criatividade na busca do que considera correto e justo. Por isso ele é Freestylee: um artista sem fronteiras. Conheça mais trabalhos do artista em seu site oficial, onde eles estão à venda em formato de pôster com altíssima qualidade de impressão.

Confira a seguir um pouco da arte de Michael ‘Freestylee’ Thompson:

 

 

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World A Reggae – Lucky Dube: sensibilidade, militância e voz

Passados sete anos e cinco meses do assassinato do maior expoente do reggae africano (comparável apenas a Alpha Blondy em termos de representatividade), ainda elabora-se o luto da perda trágica de um dos mais importantes críticos do apartheid, da voz grave e de falsetes poderosos, dos teclados característicos de sua banda (The Slaves) e da presença de palco que costumava hipnotizar grandes plateias. É tempo de lembrar e de prestar homenagem a ele, Lucky Philip Dube – ou simplesmente Lucky Dube, um grande artista

Nascido na pequena cidade de Ermelo (África do Sul) no dia 03 de Agosto de 1964, Lucky Dube foi abandonado pela mãe ainda muito novo e foi filho de pais separados antes mesmo de nascer. Porém, não lhe faltaria uma figura materna. O exercício da maternagem veio a ser realizado por Sarah Khanyi, sua avó materna e responsável pelo registro do nome Lucky (literalmente a ideia de um garoto de sorte, muito provavelmente em função de não ter perdido aquilo que a psicanálise considera como a condição sine qua non para a constituição do indivíduo, isto é, um primeiro vínculo fundante e que garante segurança estrutural à criança) – ou seja, devemos parte da grandeza de Lucky Dube a esta senhora que o acolheu, juntamente com seus irmãos (Thandi e Patrick), e de quem o astro se aproxima com carinho no vídeo extraído do documentário “Lucky Dube – The Man & The Music” (assista abaixo).

Dramas familiares carregados de emotividade sempre inspiraram as letras de Lucky Dube. Seria possível destacar o caso da belíssima canção do vídeo acima – Oh, My Son (I’m Sorry) – ou ainda a tocante Hold On, do álbum House Of Exile (ouça a faixa abaixo). Ainda criança, Lucky Dube foi jardineiro e ajudou a garantir a renda mínima da família sem, no entanto, abrir mão do direito à escolarização. Foi na escola que nasceu seu interesse por literatura e onde pôde exercer o trabalho de assistente de biblioteca (à época, o garoto tinha apenas nove anos de idade). O acesso aos livros também o aproximou, um pouco mais tarde, dos princípios do rastafarianismo, a partir dos quais viria a extrair inspiração para suas lutas e ideais a partir da música.

O primeiro disco solo | foto: reprodução internet

O primeiro disco solo

No entanto, antes de aprofundar-se nos códigos do rastafarianismo, Lucky Dube viveria, no auge da adolescência, suas primeiras experiências com música a partir da relação com colegas de escola, com os quais viria a formar a Skyway Band. Lucky Dube viria a dedicar-se ao mbaqanga, estilo tipicamente sul-africano, de raízes rurais zulu, nascido no início da década de 1960. Formou com o primo (Richard Siluma) e outros colegas o grupo The Love Brothers (entre o final da década de 70 e o início da década de 80). Após esse período, gravou um disco solo de grande sucesso, intitulado Lengane Ngeyethu. Mais tarde, assumiria a frente do nome Lucky Dube And The Supersoul, mas foi incentivado por Dave Segal (que posteriormente tornou-se seu engenheiro de som) a investir em carreira solo.

Ainda na primeira metade da década de 1980, Dube abraça definitivamente o reggae, marcado pelas influências de Peter Tosh (evidente inclusive no timbre de voz), Jimmy Cliff e Bob Marley. Acompanhado pela banda The Slaves, Dube identificou no reggae o grande instrumento para a transmissão de suas mensagens de combate ao racismo, de união e integração da África do Sul dominada pelo regime do apartheid (separação / segregação racial) no período que se estende de 1948 a 1994, com a intervenção de Nelson Mandela – a quem Dube viria a homenagear com a música House Of Exile (do álbum homônimo, lançado no início dos anos 90). Mas antes desse disco emblemático, Dube trabalhou muito no intuito do que Bob Marley pedia em Africa Unite.

Lucky Dube: reggae como instrumento para a transmissão de mensagens contra o racismo e o sistema de apartheid na África do Sul | foto: reprodução internet

Lucky Dube: reggae como instrumento para a transmissão de mensagens contra o racismo e o sistema de apartheid na África do Sul

O primeiro álbum reggae de Lucky Dube (curiosamente o primeiro álbum de reggae gravado na África do Sul, em 1984), intitulado Rastas Never Dies, não foi sucesso comercial (pouco mais de 4.000 discos vendidos; portanto um número pouco expressivo, principalmente em se tratando de um artista promissor que estava começando a projetar-se no cenário musical africano e que tinha suas pretensões de levar seu trabalho para além da África. Lucky Dube já havia atingido a marca dos 30.000 discos vendidos com um álbum de seu período mbaqanga). Mesmo com um boicote ao Rastas Never Dies (em função de seu conteúdo notadamente político e de crítica ao racismo / algo semelhante ocorreu no Brasil, em 1992, com o álbum Negro no Poder, da banda Cidade Negra), Lucky Dube insistia no reggae e em seu potencial crítico-emancipatório.

Lançou em 1985 o álbum Think About The Children (destaques para a faixa-título, I Wanna Take You To Jamaica e I’ve Got Jah), em 1986 o álbum Slave (destaques para a faixa-título, que obviamente não se reduz à escravidão do alcoolismo, tal como o vídeo-clipe pode sugerir – trata-se, é claro, de uma estratégia para driblar a censura -, Let Jah Be Praised, que não chega a ser a adaptação para a clássica de Peter Tosh (apesar de seu título), I’ve Got You Babe e Back To My Roots, esta última, diga-se de passagem, bastante apropriada para se considerar o atual cenário do reggae na própria Jamaica (leia Great Times Are Coming. Ou: Big Tings a Gwaan).

Prisoner ultrapassou a marca de 1 milhão de cópias vendidas| foto: reprodução internet

Prisoner ultrapassou a marca de 1 milhão de cópias vendidas

Quando a carreira de Lucky Dube se constitui como a carreira de um artista de reggae (ou seja, na segunda metade da década de 1980), o álbum Rastas Never Dies é relançado pela demanda do público que começa a expandir-se consideravelmente para além da África do Sul, é seguido do lançamento de Together As One (1988 – destaques para a faixa-título e Truth In The World) e, em 1989, é lançado o álbum mais bem-sucedido da história de DubePrisoner. Com apenas cinco dias de lançamento, o disco já era platina duplo, trazia na tracklist grandes acertos como Remember Me e Reggae Strong. Prisoner ultrapassa a marca de 1.000.000 de discos vendidos e consolida a carreira de Lucky Dube como astro do reggae internacional. No início da década de 1990, o cantor lança Captured Live (platina novamente) e toca no Reggae Sunsplash (Jamaica).

Ainda no início dos 90, Dube lança o belíssimo House Of Exile (destaques para Crazy World, It’s Not Easy, Hold On, Mickey Mouse Freedom, Group Areas Act, Running Falling e a faixa-título); o cantor segue tocando questões da opressão e da desigualdade, mas também abre um espaço a dramas pessoais, relacionais e familiares. Victims (1993) também integra a lista de discos bem-sucedidos de Lucky Dube. Músicas como Different Colours/One People – com uma introdução a la Super Mario Bros. – e a faixa-título, Victims (ouça abaixo), não deixam sombra de dúvida sobre a habilidade vocal surpreendente do sul-africano que assina contrato com a Motown Record Company para o lançamento do disco Trinity (1995), que, por sua vez, traz pérolas tais como Feel Irie, Big Boys Don’t Cry, God Bless The Women e Rastaman Prayer.

Após a morte trágica, parentes, amigos e fãs prestam uma última homenagem ao artista | foto: reprodução internet

Após a morte trágica, parentes, amigos e fãs prestam uma última homenagem ao artista

Em 1996, a primeira coletânea; intitulado Serious Reggae Business (ouça abaixo, na íntegra), o disco reuniria os maiores sucessos do cantor sem qualquer anúncio de término da carreira, já que ainda seriam lançados Taxman, de 1997 (destaques para Guns & Roses, Release Me, Is This The Way e a regravação de I Want To Know What Love Is, clássico de Michael Jones) e The Way It Is, de 1999 (destaques para a faixa-título, Crying Games, You Stand Alone e Till You Lose It All – com violinos na introdução).

Em 2001, mais uma coletânea de hits – The Rough Guide To Lucky Dube – e o sucesso seguiria os três últimos álbuns: Soul Taker (2001), The Other Side (2003 / destaque para Ding Ding Licky Licky Bong, com guitarras que remetem a Alagados, d’Os Paralamas do Sucesso) e Respect, de 2007 (destaques para a faixa-título e para a belíssima Celebrate Life. Mas (infelizmente) Dube não pôde celebrar a vida por muito tempo.

No momento de sua carreira em que dividia palcos com artistas do calibre de Sinéad O’Connor, Peter Gabriel e Sting e em que acabava de apresentar-se no festival Live 8 (em Joanesburgo), o cantor deparou-se com a violência de um assalto que lhe custou a vida. A cena brutal acontece na frente de dois dos filhos do cantor, em 18 de Outubro de 2007. Três tiros matam um grande homem e artista de 43 anos de idade. Os assassinos de Lucky Dube foram condenados à prisão perpétua. O astro do reggae sul-africano deixou a esposa Zanele, sete filhos (dentre os filhos, a cantora Nkulee Dube), um acervo de lindas canções e uma legião de admiradores pelo mundo.

Ouça a coletânea “Serious Reggae Business”, com o melhor de Lucky Dube:

 

A Capa de "Chant Down Babylon", tributo hip-hop ao rei do reggae. | Foto: reprodução internet

Covers, tributos, versões: para manter vivos grandes ídolos

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Bob Marley está entre os artistas que mais possuem covers de suas músicas em todo o mundo.

No início da era das gravadoras, a distribuição dos discos era bastante regional. Quando uma música começava a tornar-se muito popular numa região, era comum que gravadoras concorrentes, de outras regiões, gravassem a mesma música com outro intérprete e a distribuísse em sua área. A cobertura de uma nova área deu origem às primeiras covers (cover=cobertura, em inglês).

Muitos artistas e bandas iniciaram suas carreiras fazendo covers. Afinal, é uma maneira segura de mostrar seu talento vocal e/ou instrumental, sem a preocupação de apresentar um repertório desconhecido. Alguns fazem do cover sua carreira, apresentam-se com frequência em bares, festas ou casamentos e conseguem um bom salário.

Elvis Presley, Michael Jackson, Beatles, U2… Para cada um desses, há inúmeros artistas mundo afora, cantando suas músicas, trazendo seu repertório às novas gerações. Assim acontece com Bob Marley, ícone da música jamaicana, que ajudou a divulgar o reggae. O número de covers de Marley é tão expressivo que, em seu site oficial, há uma área exclusiva para divulgá-los.

Há versões famosíssimas, nas vozes de cantores igualmente famosos, como I Shot The Sheriff, com Eric Clapton e Could You Be Loved, com Joe Cocker. Outras, mais contemporâneas, mas também interpretadas por cantores famosos, como Jack Johnson e Ben Harper (High Tide or Low Tide) e Rihanna (Is This Love). Mas há, também, versões maravilhosas e emocionantes, nas vozes de aspirantes, de quase anônimos, de artistas de rua. Só para ter se uma ideia, colocamos aqui dois vídeos (assista abaixo), um da França, com Tamara Nivillac e outro da Inglaterra, com AHI e sua filha, uma graça!

Um projeto extremamente interessante e que tem muita afinidade com o mundo dos covers é o Playing For Change, idealizado por dois americanos, Mark Johnson e Whitney Kroenke. O projeto viaja o mundo todo, filmando e gravando a interpretação de vários artistas, para uma mesma música. Depois, tudo é editado e agrupado numa só versão, com os diferentes intérpretes cantando juntos (apesar de fisicamente separados!). Canções dos Beatles, Rolling Stones e, é claro, Bob Marley, são uma constante nos 3 álbuns. O projeto gerou a ONG Playing For Change Foundation, bem alinhada com os princípios que Marley defendia, dedicada a construir escolas de artes e música pelo mundo.

Uma linda versão da música War/No More Trouble, de Bob Marley, está no álbum “Songs Around the World”, lançado em 2009 pelo Playing For Change (assista abaixo). War é derivada de um discurso feito por Haile Selassie (imperador etíope, considerado Deus pelos rastafáris), que Marley adaptou e musicou.

Outro tipo de cover é aquele que dá nova roupagem às canções. Nesse estilo, em 1999, foi lançado um CD chamado “Chant Down Babylon”, no qual canções de Bob Marley foram remodeladas no estilo hip-hop e interpretadas por gente como Erykah Badu, Lauryn Hill e Steven Tyler (ouça abaixo, na íntegra). No mesmo ano, o DVD “One Love All-Star Marley Tribute”, documentou o concerto em homenagem ao CD (“Chant Down Babylon”). Além da presença de parte dos artistas que trabalharam no CD, outros, como Jimmy Cliff e Tracy Chapman, também participam. De quebra, faixas bônus, com canções interpretadas pela família Marley. Um grande show e um DVD de qualidade excepcional!

Para finalizar, duas dicas de interpretações que também valem a pena ser vistas, ambas no programa The Voice. A primeira, Mitchell Brunings, cantando Redemption Song, na versão holandesa de 2013 e a segunda, Anita Antoinette (jamaicana), na versão americana que está atualmente no ar, com Turn Your Lights Down Low.

Ouça o disco “Chant Down Babylon” na íntegra:

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Tessanne Chin, uma das (grandes) vozes da Jamaica

A Jamaica tem uma extensão territorial de aproximadamente 11.000 km². Sergipe, o menor estado brasileiro, tem cerca de 22.ooo km². Essa comparação serve apenas para ilustrar a pequena dimensão territorial da Jamaica no planeta, porém, ajuda a tornar ainda mais surpreendente a importância dessa pequena ilha no universo da música.

Jimmy Cliff, o padrinho musical de Tessane Chin.  |  foto: reprodução internet

Jimmy Cliff, o padrinho musical de Tessane Chin.

Até os anos 1940, na Jamaica, havia pouco acesso à musica que se ouvia pelo mundo. Uma única emissora de rádio transmitia basicamente notícias e tocava umas poucas canções americanas. Entre os anos 1940 e 1950, no entanto, esse panorama mudou drasticamente. Começaram a aparecer os sound systems, que trouxeram música às ruas e às festas; a invenção do transistor popularizou os rádios e os espalhou pelas casas, lojas e escritórios; com tantos aparelhos, a ilha ganhou duas emissoras de rádio realmente estruturadas e capazes de entreter o público.

O país que em sua alma, na alma de seu povo majoritariamente negro, era musical somente através do folclore e das músicas religiosas, começaria a tornar-se um grande produtor de gêneros musicais e grandes cantores. Em 1961, foram gravadas as primeiras músicas realmente jamaicanas: Easy Snapping, de Theophilus Beckford e Boogie in My Bones, de Laurel Aitken.

Tessane Chin e Adam Levine, do Maroon 5, seu treinador no The Voice.  |  foto: reprodução internet

Tessane Chin e Adam Levine, do Maroon 5, seu treinador no The Voice. | foto: reprodução internet

Em 1968, surgiu o reggae. Desmond Dekker, que teve sucessivos hits nesse novo período, atingiu um feito histórico com a música Israelites, que foi número um nas paradas inglesas e ficou entre as dez mais pedidas da Billboard americana. Feito ainda maior se considerarmos que esta foi a primeira década em que se produziu música genuinamente jamaicana.

Jimmy Cliff, um dos expoentes do reggae jamaicano, teve como backing vocal uma adolescente nascida na Jamaica, filha de pai descendente de chineses e mãe descendente de ingleses e africanos, Tessanne Chin. Seus pais faziam parte da banda The Carnations. Sua irmã mais velha, Tami Chynn, também é cantora.

Depois da experiência com Cliff, Tessanne começou a compor e iniciou carreira solo. Messenger e Hideaway foram dois de seus primeiros singles. Foram bem avaliados pela crítica, mas a carreira não decolava. Então, Shaggy, com quem ela também já havia trabalhado, insistiu para que Tessanne participasse do programa The Voice, em 2013.

Dona de um formidável controle vocal, ela foi capaz de interpretar canções de gêneros muito distintos durante o programa e saiu-se muito bem em todos eles. De Unconditionally (Katy Perry) a Bridge Over Troubled Water (Simon e Garfunkel), passando por Redemption Song (Bob Marley) e I Have Nothing (Whitney Houston).

Vencedora do concurso, Tessanne firmou um contrato com a Universal Music Group e lançou, no último mês de julho, seu novo álbum, “Count on My Love”. O estilo é soul/pop, com toques de reggae, é claro! A faixa Tumbling Down, uma balada, tem sido a principal faixa de trabalho. Além de uma extensa agenda de shows, Tessane também passou a ser requisitada em importantes eventos, como é o caso da apresentação na Casa Branca, para o presidente dos EUA, Barack Obama, e uma plateia seleta de convidados (assista ao vídeo acima).

E a Jamaica não para de produzir talentos. Na edição atual do The Voice americano (7ª temporada), há mais uma jamaicana participando. Anita Antoinette, nascida em Kingston, foi para os EUA aos 8 anos de idade e é estudante de música. Turn Your Lights Down Low, de Bob Marley, foi a canção que a fez conquistar os jurados. E desta vez, será que mais uma das belas vozes da Jamaica será a vencedora novamente?

Tessane Chin leva o público ao delírio com sua performance vocal.  |  foto: reprodução internet

Tessane Chin leva o público ao delírio com sua performance vocal. | foto: reprodução internet

Ouça na íntegra o disco “Count on My Love”, de Tessane Chin:

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The Harder They Come: o filme que mostrou a Jamaica ao mundo

Jimmy Cliff é o protagonista de "The Harder They Come" | foto: reprodução internet

Jimmy Cliff é o protagonista de “The Harder They Come” | foto: reprodução internet

Apenas 10 anos após a Jamaica tornar-se independente, em 1972, foi produzido no país o filme que é até hoje considerado o mais importante. “The Harder They Come” (no Brasil, “Balada Sangrenta”), protagonizado pelo cantor de reggae Jimmy Cliff, foi o primeiro longa-metragem a ser totalmente filmado na Jamaica, com elenco e diretor jamaicanos. Mais do que isso, mostrava a realidade de exploração e crimes que aconteciam na capital, Kingston. A trilha sonora, com músicas de Desmond Dekker, Toots and the Maytals, além do próprio Cliff, ajudou a popularizar o reggae pelo mundo.

A história do filme é inspirada na vida de um criminoso que ganhou fama na ilha, nos anos 1940. Seu nome era Vincent “Ivanhoe” Martin, mais conhecido como Rhyging. Por seus sucessivos crimes de roubo e assassinatos, além de várias fugas da prisão, Rhyging tornou-se um fora da lei lendário na Jamaica. Sua vida foi glamurizada e ele virou uma espécie de herói popular.

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“The Harder They Come” foi totalmente filmado na Jamaica.

Em “The Harder They Come”, dirigido por Perry Henzel, Cliff faz o papel principal e se chama Ivanhoe (ou apenas Ivan) Martin. A história se passa nos anos 1970; Ivan é um garoto do interior que vai para Kingston, a fim de tentar a carreira de cantor. Em meio às dificuldades e tensões sociais da época, ele acaba cometendo um furto e sendo convidado a trabalhar no tráfico de drogas. Ivan/Cliff escreve a canção que dá nome ao filme e a mostra a um produtor que, apesar de se interessar por ela, lhe paga uma miséria.

Ivan envolve-se  numa sucessão de crimes ligados ao tráfico, mata várias pessoas, incluindo policiais, e foge diversas vezes. Paralelamente, o tal produtor musical lança a música composta por Ivan/Cliff, que se torna um sucesso instantâneo. No final… não, é melhor assistir para saber!

“The Harder They Come” fez de Perry Henzel o mais importante diretor jamaicano, promoveu o reggae na Europa e nos EUA e levou a carreira musical de Jimmy Cliff ao estrelato. Ele, que na época já era conhecido e admirado por músicos como Bob Dylan, tornou-se um dos grandes astros do reggae.

Em 2005, o filme foi adaptado para o teatro, no Reino Unido, e apresentado também em Miami e Toronto. O próprio Henzel cogitava fazer um remake ou uma continuação do filme, mas não concluiu o projeto e faleceu, em 2006. Sua filha, Justine Henzell, em parceria com uma companhia britânica e outra canadense, tem trabalhado há algum tempo no remake, mas as filmagens ainda não começaram.

Os grandes méritos do filme (além da trilha sonora incrível, e que o mantém tão significativo até os dias de hoje) são ter mudado a maneira de representar a Jamaica internacionalmente e ter espalhado sua música e cultura vibrantes pelo mundo.

Ouça a trilha sonora do filme “The Harder They Come”:

foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Kingston, a Hollywood jamaicana

Kingston está para a música jamaicana como Hollywood para o cinema americano. Espécie de Nashville do reggae, a cidade é o berço de artistas mundialmente consagrados como Bob Marley e Peter Tosh e foi retratada em incontáveis músicas, filmes e documentários ao longo dos anos. Famosa por sua rica e diversificada cultura, Kingston é um verdadeiro caldeirão de influências políticas, musicais e religiosas, que impactou o mundo de forma permanente.

Life Yard - Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Life Yard – Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Não há nenhuma outra cidade no mundo, comparável em tamanho e população a Kingston, que tenha produzido tanta música, durante tanto tempo e com tamanho impacto na cultura popular mundial. Em pouco mais de 8 km quadrados, a capital da Jamaica, que em 1960 contava com população de 123 mil habitantes, hoje é o lar de aproximadamente 500 mil pessoas e conhecida por ter sido o epicentro de um movimento que colocou a Jamaica no mapa da música mundial. O local foi ponto de partida de uma série infindável de aventuras sonoras e, para muitos artistas, independente de terem nascido na cidade ou migrado das áreas rurais, era sobretudo uma grande promessa de melhoria de vida, embora exigisse uma boa dose de instinto de sobrevivência. A proximidade dos músicos e a quantidade de estúdios num espaço urbano restrito podem ser alguns dos motivos, mas por si só não explicam tamanho potencial criativo ao longo de décadas. As deploráveis condições econômicas e sociais sob as quais a maioria dos artistas viveram foram os catalisadores para uma espécie de “exorcismo musical“, que em parte podem explicar este fenômeno.

O impacto da colonização afetou a Jamaica de forma contundente, começando com a Espanha, que em 1494 praticamente dizimou os nativos arauaques e depois com a Inglaterra, que tomou o poder em 1655 e iniciou um processo de escravização e importação de africanos para a ilha. Estabelecida em 1692, Kingston tornou-se a capital do país e, em 1892, passou a ser o principal porto comercial, desbancando Spanish Town. As bases para a injustiça social que empobreceram tantos jamaicanos ao longo do século XX, foram estabelecidas em Kingston durante o século XVII quando, sob o domínio britânico, a Jamaica tornou-se líder mundial na exportação de açúcar.

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

A exploração colonial das classes trabalhadoras, que garantiu a prosperidade da indústria do açúcar naquele período, levou a graves distúrbios sociais e fez Kingston entrar em colapso em meados de 1938. Mortes e tumultos deflagrados por circunstâncias políticas e raciais prenunciavam as crises das décadas seguintes. A “economia da sobrevivência”, gerada sobretudo pelo alto índice de desemprego, praticamente obrigou as pessoas a se mudarem para a capital, fazendo com que a população crescesse substancialmente na década de 1960. Como consequência, a cidade, que já sofria com a pobreza, se viu frente às inevitáveis competições por recursos, que por sua vez levaram à violência recorrente, ainda mais evidente durante as eleições gerais na ilha.

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

No início do século XX, o rastafarianismo surgiu como uma fonte poderosa de fé e resistência em Kingston. Embora Marcus Garvey (1887 – 1940), ícone jamaicano da libertação negra, não fosse ele próprio um Rasta, Kingston foi palco de muitos de seus inflamados discursos promovendo o nacionalismo negro e a independência, visão esta que era completamente alinhada aos ideias rastafáris. O rastafarianismo também ganhou adeptos fora da cidade, que foram forçados a mudarem-se para Kingston após uma série de ações policiais em áreas de plantação de maconha nos arredores da cidade. Em um destes ataques, mais de mil pessoas ficaram desabrigadas e muitas delas foram morar nas favelas urbanas da capital. Vários locais voltados à prática do rastafarianismo começaram a surgir por toda a ilha – especialmente nos arredores de Kingston – e a música passou a ser parte essencial deste movimento, cuja expressão artística e filosófica se fez cada vez mais presente e atraiu jovens e promissores músicos como Tommy McCook, que viria a estabelecer um marco na música jamaicana através do lendário grupo The Skatalites.

As raízes da cultura jamaicana, que estavam naturalmente muito sujeitas às influências africanas, com seus tambores e rituais espirituais de dança como a Kumina e Pukkumina, eram temperos evidentes no caldeirão cultural da cidade. Outros ingredientes, incluindo jazz, R&B, folk e até música country foram elementos que, somados, contribuíram para a criação do “algo novo” que estava por vir. Trenchtown tornou-se, ao mesmo tempo, residência de marginais  e inúmeros artistas cujo trabalho foi fortemente influenciado pelo instinto de sobrevivência.

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

A parte ocidental de Kinston era o núcleo da indústria musical jamaicana. Nas décadas de 50 e 60, Kingston era destino obrigatório para qualquer artista que alimentasse alguma esperança de ser gravado na ilha, já que ali estavam concentrados os melhores estúdios, produtores e músicos, que por sua vez sabiam como obter os melhores resultados. Conhecida informalmente como “Beat Street”, por motivos óbvios, a “Orange Street” era uma espécie de quartel general de produtores como Coxsonne Dodd, Prince Buster e Bunny Lee, entre muitos outros. Locais para audições e ensaios, estúdios, selos e até lojas de disco ficavam concentradas em uma relativamente pequena área da cidade, que incluía ainda a King Street (paralela à Orange Street), Beeston Street, Chancery Lane e North Parade (lar do Randy’s Studio, que mais tarde viria a se tornar a VP Records). Joe Gibbs, os irmãoes Hoo-Kim (do renomado Channel One), Clancy Eccles, Derrick Harriott e incontáveis outros produtores e artistas ocupavam o mesmo espaço, competindo entre si e muitas vezes colaborando uns com os outros para criar o próximo hit musical. Embora a indústria não tenha ficado limitada a esta região com o passar do tempo, Kingston continuou a ser vital e manteve sua vocação de núcleo de explosão criativa da música popular jamaicana. Para isso, muito contribuiu a cultura dos sound systems, com seus “dubplates” e sua capacidade de testar a audiência, antecipando tendências musicais ao público.

Por razões que excedem a lógica, era muito comum as músicas situarem o ouvinte, fazendo de Kingston mais que meramente o local onde as obras foram criadas, mas tornando-a parte essencial da narrativa musical. Em “Trenchtown Rock (1971), Bob Marley faz todos terem certeza de que o gueto está no centro da capital, na (graças a ele) mundialmente famosa “Kingston 12”. Mais tarde, em 1975, Marley mapeia a geografia urbana com “Natty Dread”, levando o público a uma viagem pela emblemática cidade. Por outro lado, “Kingston Town”, lançada originalmente por Lord Creator em 1970 e produzida por Clancy Eccles, idealiza a cidade como mágica, ao invés de trágica. A música ganhou outras versões e atingiu o topo das paradas no Reino Unido e na França, quando foi regravada pelos ingleses do UB40, 20 anos mais tarde, no início dos anos 90. Até mesmo em músicas instrumentais as vibrações Rasta vêm à tona, como em “Man From Wareika”(1976), do lendário trombonista Rico Rodriguez. Ele atribui a inspiração à sua ligação com um acampamento Rasta nas colinas dos arredores de Kingston.

Capa do filme "The Harder They Come", estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Capa do filme “The Harder They Come”, estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Outro fato importante é que um dos motivos por trás do sucesso do filme “The Harder They Come” (estrelado por Jimmy Cliff em 1972), segundo a crítica, é justamente o fato de o filme retratar a realidade de Kingston, cuja reputação à época tornava o local ao mesmo tempo perigoso e emblemático. O filme conta a história de Rhyging, um gangster pistoleiro que causava grande tumulto na cidade até ser morto pela polícia, em 1948. O personagem de Cliff retrata de maneira precisa a figura típica do camponês jamaicano, que migra da área rural para Kingston em busca de melhoria de vida e, ao só encontrar mais dificuldades e pobreza, se entrega à criminalidade em um ambiente desumano e nada inspirador.

Kingston também foi palco de terríveis batalhas políticas entre integrantes dos dois principais partidos do país: o PNP (People’s National Party) e o JLP (Jamaica Labour Party). Foram inúmeros os conflitos por território e poder, que culminaram na perda de dezenas de vidas ao longo de um duro processo, já que cada eleição geral na ilha reacendia a tensão política e a violência. Embora tenha sido um fenômeno característico dos anos 70, Kingston voltou às páginas policiais  internacionais recentemente quando, em 2010, um forte esquema policial foi montado para capturar um suposto bandido e traficante de drogas, chamado Cristopher “Dudus” Coke e extraditá-lo para os Estados Unidos. Espécie de “Robin Hood” jamaicano, Dudus era conhecido em Kingston como “The President” e considerado intocável pela população local, a despeito de todas as acusações contra ele. Interdições de estradas, barricadas, destruição e acusações de abuso policial, além de um número expressivo de homicídios de inocentes, provocaram reações furiosas da população e da classe artística contra a operação. “Don’t Touch The President”, de Bunny Wailer, tocou fundo na ferida e é considerada uma das principais músicas sobre o tema. De um modo geral, o evento só fez piorar a perspectiva de melhoria de vida dos habitantes da cidade, dada a repercussão negativa da cidade, que depende fortemente do turismo.

EDB Vinyl Thursday's | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

EDB Vinyl Thursday’s | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Mais que uma cidade turística, Kingston tem na criatividade do seu povo seu maior patrimônio histórico. Passado, presente e futuro se misturam num verdadeiro caldeirão cultural, que nasceu nos guetos locais e ganhou o mundo de forma incrivelmente impactante. Milhões de pessoas ao redor do mundo, sem sequer saber onde fica Trench Town, cantam e dançam músicas sobre o lugar. Não há dúvida de que Kingston está no topo da lista entre as cidades no mundo que mais contribuíram para a música e cultura globais.

foto: Acervo Gege Produções Artísticas | divulgação

Brasil, Jamaica: pro outro lado de lá

Já falamos, aqui, sobre um brasileiro que tem tudo a ver com a Jamaica: René Simões (René Simões, o brasileiro desbravador da Jamaica). Nesse caso, o elo de ligação era o futebol. Porém, há um outro elemento que une profundamente as duas nações: a música.

Ao que parece, a primeira vez que se ouviu falar em reggae no Brasil foi através de Caetano Veloso. Em 1971, ele gravou Nine Out of Ten (está no disco “Transa”, de 1972), na qual cita o som do reggae que ouvia na Portobello Road, na época em que vivia em Londres. Gilberto Gil, que também viveu exilado em Londres no mesmo período, só viria despertar para o ritmo mais tarde.

Em 1979, no LP Realce, Gil gravou a faixa Não Chore Mais, sua versão para No Woman, No Cry, de Bob Marley. Gil não conheceu Bob Marley, mas ficou amigo de Jimmy Cliff. Em 1980, excursionaram juntos pelo Brasil e lotaram todos os estádios por onde passaram.

Um encontro histórico: Gilberto Gil e Jimmy Cliff.  |  foto: Acervo Gege Produções Artísticas | divulgação

Um encontro histórico: Gilberto Gil e Jimmy Cliff. | foto: Acervo Gege Produções Artísticas | divulgação

Muito tempo depois, em 2002, Gilberto Gil lançou “Kaya n’gan daya”, uma homenagem a Bob Marley. O disco, de 16 faixas, foi gravado na Jamaica (13 faixas) e no Rio de Janeiro (as outras 3). Há releituras de clássicos como Three Little Birds e Buffalo Soldier , além de versões para Time Will Tell e Lively Up Yourself. Na Jamaica, Gilberto Gil gravou nos estúdios Tuff Gong , de Bob Marley, e contou com a participação dos vocais femininos das I-Three (Rita Marley [viúva do compositor], Marcia Griffiths e Judy Mowatt), em faixas como One Drop e Rebel Music (ouça abaixo).

Recentemente, o prestigiado jornal jamaicano Jamaica Observer publicou uma matéria em que compara a importância de Gil, para a música, a de Pelé, no futebol. Além disso, nomeia Gil o Marley brasileiro, por suas ideias e comentários, em defesa dos oprimidos.

Rita Lee, Baby Consuelo e Luiz Melodia, esses e outros artistas flertaram com o reggae. Os Paralamas do Sucesso foram muito influenciados pelo reggae e o ska jamaicanos, principalmente a partir do LP “Selvagem” (1986), que mudaria os rumos e a cara da banda (ouça abaixo o disco na íntegra).

Outra banda brasileira importante e fortemente ligada às raízes jamaicanas é o Skank (ouça abaixo Ela Me Deixou, nova música de trabalho da banda). Antes de se tornarem conhecidos, Samuel Rosa e Henrique Portugal tocavam numa banda de reggae mineira, chamada Pouso Alto.

Contudo, a banda brasileira de reggae por excelência é o Cidade Negra (leia matéria especial sobre a banda). Surgida na Baixada Fluminense, há 28 anos, a banda tem 13 LPs gravados, sendo que o mais recente, “Hei, Afro!”, foi mixado na Jamaica. Segundo Toni Garrido, a Jamaica está para a música, assim como o Japão está para a tecnologia. Em sua opinião, o que vai ser novidade daqui a 5, 6 anos é o que está acontecendo agora por lá.

Em 2011, um disco selou ainda mais a relação Brasil-Jamaica: “Bambas Dois” (assista acima ao clipe Only Jah Love, com participação do astro jamaicano Sizzla), produzido por Eduardo BiD e Gustah Echosound. Com 14 faixas, “Bamba Dois” reúne músicos brasileiros e jamaicanos em encontros primorosos, como em Little Johnny, com Chico César e Jah Marcus ou no xote Brasil (Little Sunday), com Ky-mani Marley e Dominguinhos. Misturando gerações e ritmos dos dois países, “Bambas Dois” resume um pouco da relação musical entre duas culturas tão diferentes e tão semelhantes, ao mesmo tempo. Uma relação que não se esgota, que sempre se renova e se atualiza.

“Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui…
Pro outro lado de lá
Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui… Eu fui…
Brasil, Jamaica”

Ouça o disco “Selvagem?”, do Paralamas do Sucesso:

foto: reprodução internet

Cidade Negra: reggae brasileiro tipo exportação

Precursores do reggae no país e primeiro grupo brasileiro do gênero a atingir projeção nacional e internacional, o Cidade Negra trouxe inegáveis contribuições no sentido de uma afirmação da cultura reggae no Brasil e em outros países do mundo. Ao longo de 28 anos de carreira, o grupo acumulou hits, conquistou uma legião de fãs e investiu como nenhum outro na interlocução Brasil-Jamaica.

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Cidade Negra em sua formação atual: Bino, Toni Garrido e Lazão.

Baixada Fluminense. Rio de Janeiro. 1986. Subia ao palco, pela primeira vez, a banda Lumiar. O grupo, formado por quatro admiradores do reggae (Bernardo Rangel – Ras Bernardo, Da Gama, Bino Farias e Lazão), logo viria a ter de mudar o nome da banda (em função do nome Lumiar já ter sido registrado, à época, por outra banda). Bino Farias (baixista) recebeu em sonho o nome Cidade Negra, referência ao fato de o Brasil ser a nação com a segunda maior população negra do mundo. O nome foi imediatamente aceito e, no decorrer da segunda metade dos anos 80, a banda já se apresentava como Cidade Negra, a primeira representante do reggae no Brasil que atingiu projeção nacional e internacional.

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Capa de “Lute Para Viver” (1991)

Ainda no final da década de 1980, um documentário da BBC de Londres sobre a cultura local na Baixada Fluminense viria a jogar holofote na arte do quarteto de Belford Roxo e tal destaque resultaria num contrato com uma grande gravadora e no lançamento do primeiro disco (“Lute Para Viver”, 1991). O disco pode e deve ser reconhecido na qualidade de primeiro álbum de uma banda brasileira de reggae – trouxe o primeiro grande hit da banda (Falar a Verdade) e o luxo de uma participação especial do ídolo jamaicano Jimmy Cliff, na faixa Mensagem. “Lute Para Viver” trazia ainda uma versão digna de respeito para o clássico Jah Jah Made Us For A Purpose (Winston Foster – mais conhecido como Yellowman). Na versão do Cidade Negra, a música, cantada pelo baterista Lazão, foi chamada Nada Mudou (ouça abaixo).

Em 1992, a banda lança “Negro no Poder”, um álbum de inegável potência política progressista e de uma sonoridade facilmente comparável à fase de maior prestígio da banda jamaicana Black Uhuru (a título de exemplos, ouça a faixa Conciliação, abaixo, além de Sai-Lário e Na Frente da TV). “Negro no Poder” viria a ser o último disco com Ras Bernardo na posição de vocalista do Cidade.

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“Sobre Todas as Forças” (1994), já com Toni Garrido nos vocais: o disco é considerado uma coletânea de sucessos da banda.

O terceiro álbum, “Sobre Todas As Forças” (1994), situa a entrada de Toni Garrido para a banda, trazendo o tempero soul com o qual o Cidade já flertava desde o início de sua formação. No entanto, esse álbum – que pode ser tomado como uma coletânea de sucessos da banda –, seguiria marcando compromisso com a “música que bate sem machucar”. Querem Meu Sangue, versão de Nando Reis para a clássica The Harder They Come (eternizada por Jimmy Cliff) é uma das faixas que se destacam no disco que ainda presenteia o público (de reggae, mas não só) com Casa (mais um ponto de referência  à banda Black Uhuru), Minha Irmã, Doutor, Mucama, Luta de Classes e os grandes sucessos radiofônicos A Sombra da Maldade, Pensamento (composição do período de Ras Bernardo), Onde Você Mora? (composta por Nando Reis e Marisa Monte) e a emblemática Downtown, que conta com a participação de Shabba Ranks, gigante do dancehall jamaicano. A música é a narrativa das viagens de uma banda de reggae que tem o privilégio de encontrar-se com ídolos do tamanho de Ziggy Marley e Jimmy Cliff. Uma banda credenciada a apresentar-se no Reggae Sunsplash Festival (Montego Bay, Jamaica) na qualidade de primeira representante latino-americana a tocar nesse importantíssimo festival. Downtown alude, portanto, à ambição maior de toda banda de reggae: expor sua música na Jamaica de Shabba Ranks, Burning Spear, Wailing Souls, Big Youth e Cocotea.

A carreira do Cidade Negra se consolida definitivamente com o disco “O Erê” (1996). Nele, os fãs da banda puderam constatar a maturidade do ofício artístico dos cariocas em canções como O Erê [faixa-título que presta homenagem, em yorubá, à criança (em geral) e, particularmente, às crianças que passam a compor as famílias de integrantes da banda]. É um disco, aliás, marcado pelo sentimento de família, como se pode perceber no videoclipe de Firmamento, o grande hit do disco, que é, por sua vez, mais uma versão da banda para uma música de Mr. Yellowman, o rei do dancehall: Wrong Girl To Play With (ouça as duas versões abaixo). Por falar em versão, há mais uma ótima versão neste álbum. Trata-se de Simples Viagem – a original é intitulada Sitting And Watching (canção de Dennis Brown, “príncipe do reggae”). E, por falar em dancehall, ainda há de se destacar Realidade Virtual, mais um grande sucesso que, à época da gravação, contou com a participação da cantora jamaicana Patra e rendeu um belo videoclipe, indicado a diversos prêmios. “O Erê” traria outras pérolas, como Jah Vai Providenciar e a participação de Inner Circle em Free.


A história vitoriosa do Cidade Negra seguiu com “Quanto Mais Curtido Melhor” (1998), disco que explora a MPB sem perder a tônica do reggae (como pode ser facilmente constatado em faixas como Rio Pro Mar, O Vacilão e a versão para Nos Barracos da Cidade, de Gilberto Gil). Grandes acertos como Já Foi, Sábado à Noite, A Estrada e A Cor do Sol também fazem parte da tracklist deste que é um dos trabalhos mais bem produzidos do quarteto. No ano seguinte, os fãs foram surpreendidos (leia-se presenteados) com um álbum duplo. “Hits” é uma compilação de grandes sucessos (com a inclusão de Eu Também Quero Beijar, de Pepeu Gomes) e o álbum de “Dubs”, que merece um parágrafo à parte por se tratar de um dos trabalhos que talvez mais explicitem o potencial e prestígio da banda junto a nomes consagrados do reggae mundial.

foto: reprodução internet

O Cidade Negra foi considerado pela crítica dos anos 90 como sendo uma “fábrica de hits” e passou a arrastar multidões para seus shows.

Reggae em seu estado mais lisérgico e mais psicodélico possível. Eis uma boa definição do dub. Num momento em que, no Brasil, pouco se falava em dub, o Cidade Negra lança um disco com versões dub para catorze músicas de seu repertório e, para tanto, conta com a participação de doutores em reggae e dub, como Augustus Pablo, Steel Pulse, Sly & Robbie, Aswad, Lee Perry e Mad Professor; além de ótimos dubs produzidos por Paul Ralphes, Nelson Meirelles, Liminha e uma faixa trabalhada pela “cozinha” da casa, Lazão e Bino. Um disco obrigatório para qualquer fã de música jamaicana. Ouça abaixo a versão dub para a faixa Realidade Virtual.

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O álbum “Direto” (2006), com participação de Toni Garrido e Da Gama, que sairiam do grupo em seguida.

Marcando a passagem para o novo milênio, “Enquanto O Mundo Gira” (2000) vem com guitarras e destaques como Na Moral, Cidade Partida e A Flecha e o Vulcão (esta última teve videoclipe filmado na Jamaica, em lugares emblemáticos para os amantes do reggae, como o Trenchtown Culture Yard, por exemplo). Em 2002, um álbum “Acústico” com versões desplugadas de grandes clássicos, os lançamentos de Berlim e Girassol, a presença (mais que especial) de Gilberto Gil e mais uma excelente versão – dessa vez, para a canção de Chuck Berry na consagrada leitura de Peter Tosh – Johnny B. Good. Em 2004, “Perto de Deus”, disco mixado na Jamaica, viria a retomar um reggae clássico, recheado de dub, com participação do jamaicano Anthony B na faixa-título e uma versão para Concrete Jungle (Bob Marley & The Wailers), além dos sopros que aludem a Burning Spear na música Dia Livre. Na sequência, dois álbuns Ao Vivo: “Direto” (2006) e “Diversão” (2008), este último com grandes acertos da música brasileira gravados em releitura jamaicana.

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Alexandre Massau, entre Bino Farias (à esquerda) e Lazão, esteve à frente dos vocais para o lançamento do disco “Que Assim Seja” (2010).

Com a saída de Toni Garrido (voz) e Da Gama (guitarra), Bino e Lazão lançam, em 2010, o disco “Que Assim Seja”, com novo vocalista, o mineiro Alexandre Massau. O disco traria a participação do DJ/toaster jamaicano Ranking Joe em Na Onda Do Jornal / Espera Amor (citação da parceria dos bambas Agepê e Canário). Toni Garrido volta ao microfone do Cidade Negra em janeiro de 2011 para uma série de shows e o trio (Toni, Bino e Lazão) encaram, mais uma vez, o estúdio e mais uma ida à Jamaica para a mixagem, entre 2012 e 2013, do mais recente álbum de inéditas da banda. Intitulado “Hei, Afro!” numa alusão à diáspora africana, o disco é um passeio nos mais diversos tipos de reggae: da sonoridade tradicional de Diamantes ao dancehall em Don’t Wait.

Atualmente, o grupo está em turnê pelo país em comemoração aos 20 anos de lançamento do álbum “Sobre Todas as Forças” (1994). Seja pelo disco, seja pela longa e vitoriosa carreira até aqui, há motivos de sobra para comemorar.

Ouça a coletânea “Hits”, com os maiores sucessos do Cidade Negra:

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Jamaica Abaixo de Zero: inspirado numa história real

O filme "Jamaica Abaixo de Zero" foi um sucesso da Disney  |  foto: divulgação Disney

O filme “Jamaica Abaixo de Zero” foi um sucesso da Disney | foto: divulgação Disney

Muitas vezes, acontecimentos reais acabam por gerar boas histórias. É claro, com algumas adaptações e as chamadas licenças poéticas. É o caso de “Cool Runnings”, ou “Jamaica Abaixo de Zero”, filme de 1993.

O enredo gira em torno da primeira participação da Jamaica, país de clima quente, em jogos de inverno. Desde a inusitada ideia de tomar parte numa competição como essa, passando pela preparação dos atletas e a performance propriamente dita, o filme garante boas risadas.

Mas houve algo de real em toda a história, que se passa em 1988. George Finch e William Maloney, dois americanos que tinham ligações pessoais com a Jamaica, pensaram que corredores de velocidade seriam ideais num time de bobsled, uma vez que o início das provas consiste em uma corrida de 50 m.

Entusiasmados, buscaram adesão nas equipes de atletismo jamaicanas, mas não conseguiram. Procuraram ajuda no meio militar e, enfim, foram classificados Devon Harris, capitão do Exército e ex-corredor, Dudley Stokes, piloto de helicóptero, Michael White, operador de rádio e Caswell Allen, engenheiro.

O time jamaicano de Bobsled em 88: White, Stokes, Harris e Powell. | foto: reprodução internet

O time jamaicano de Bobsled em 88: White, Stokes, Harris e Powell. | foto: reprodução internet

As condições de treinamento foram muito diferentes do apresentado nas telas. A dupla de americanos tinha recursos e estava disposta a financiar a empreitada. Com orientação de diversos treinadores, ao longo de toda preparação, o quarteto praticou numa base militar da Jamaica, foi meses antes para Calgary, no Canadá, cidade onde seriam realizados os Jogos de Inverno, para conhecer as condições reais e chegaram até a participar de eventos menores, na Áustria.

A receptividade das demais equipes nos Jogos foi muito positiva, providenciando, inclusive, um trenó reserva para a equipe jamaicana. Contudo, o desfecho foi semelhante ao do filme. Por um erro do piloto, os jamaicanos realmente bateram e foram caminhando até a linha de chegada, porém, não carregaram o trenó nas costas.

A Jamaica seguiu participando na modalidade nos Jogos de Inverno de 1992, na França, 1994, na Noruega, 1998, no Japão e 2002, nos Estados Unidos. Ficou de fora das duas edições seguintes e voltou neste ano, nos Jogos realizados em Sóchi, na Rússia.

O time atualmente: Michael White, Devon Harris, Dudley Stokes e Chris Stokes. | foto: reprodução internet

O time atualmente: Michael White, Devon Harris, Dudley Stokes e Chris Stokes. | foto: reprodução internet

Mais uma vez, roteiro de cinema. Para ir aos Jogos, a equipe teve de levantar recursos através da  internet. Na chegada à Rússia, parte do equipamento havia extraviado numa das conexões, prejudicando os treinos. O resultado, ainda que sem acidentes, foi a penúltima colocação.

Piadas à parte, é admirável a determinação e a perseverança dos atletas que, mesmo diante de tantas adversidades, continuam batalhando para participar dos Jogos de Inverno. Aliás, é bom lembrar, a Jamaica abriu caminho para que outros países de clima quente, inclusive o Brasil, passassem a se aventurar nesse tipo de competição.

Só mais uma coisa: a trilha sonora do filme é ótima e inclui a versão reggae de Jimmy Cliff para I Can See Clearly Now. Ouça abaixo e, se puder, (re)veja o filme!

A equipe de Bobsled da Jamaica de 1988 foi um exemplo de determinação, perseverança e espírito esportivo.  |  fotos: reprodução internet

A equipe de Bobsled da Jamaica de 1988 foi um exemplo de determinação, perseverança e espírito esportivo. | fotos: reprodução internet