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Johnny Rotten: caçador de talentos na Jamaica

Johnny Rotten era um admirador confesso do reggae jamaicano.  |  foto: reprodução internet

Johnny Rotten era um admirador confesso do reggae jamaicano.

Ele já tinha ajudado a criar o punk rock, já tinha feito parte de muita controvérsia e confusão na Inglaterra. Então, veio a turnê derradeira nos EUA e os Sex Pistols chegaram ao fim. Johnny (Rotten) Lydon estava cansado. Richard Branson, o fundador da Virgin Records, estava ávido por novos nomes para seu selo e convidou Johnny, o cineasta e DJ Don Letts, o fotógrafo Dennis Morris e a jornalista Vivien Goldman para fazerem uma viagem à Jamaica. O objetivo era simples, usando seu faro e sua paixão pelo reggae, John Lydon tinha a tarefa de encontrar talentos que pudessem assinar com a Virgin. Basicamente, estava sendo contratado como um olheiro.

O grupo desembarcou na Jamaica em 1978, quando uma certa mistura de punk, dub e reggae já começava a surgir na Inglaterra. Por lá, havia uma conexão entre irlandeses e imigrantes jamaicanos, ambos considerados cidadãos de segunda classe. Johnny não é irlandês de nascimento, mas como filho de irlandeses teve grande afinidade com os jamaicanos e vice-versa.

Segundo Don Letts, os rastas amavam John. Sabiam de seu sucesso e compreendiam os problemas que vinha enfrentando. Além do mais, Johnny contava com sua vibe que atraía as pessoas. John Lydon já curtia reggae em Londres, frequentava sessões de sound system na cidade e, mentalmente, já tinha um esboço do que viria a ser o PIL (Public Image Ltd.), sua nova banda.

O hotel Sheraton, onde ficaram hospedados, tinha um bar frequentado por artistas como Peter Tosh, Gladiators, The Abyssinians, I-Roy e U-Roy, Tapper Zukie and The Tamlins, Jah Lion, Prince Hammer, Johnny Clarke, John Holt, Robbie Shakespeare, Sly, Chinna, Bim Sherman, Lee Perry, Inner Circle, Prince Mahmoud, Big Youth, The Congos… Segundo Vivien Goldman, era como se estivessem dando uma olhada na sua coleção de discos.

Depois de muitas conversas e muitas noitadas, artistas como Prince Far I, Big Youth, Prince Hammer, Tappa Zukie, Sly Dunbar e The Twinkle Brothers passaram a fazer parte do time Virgin. Em Londres, punk e reggae andavam ainda mais juntos, contra o racismo. Um show do The Clash e Steel Pulse reuniu uma multidão de 80.000 pessoas.

Ao longo dos anos 1980, contudo, os ideais ficaram mais diluídos e grupos como The Police e Culture Club, influenciados pelo reggae, tornaram-se bandas do cenário pop britânico. Para tristeza de Don Letts, apesar de ainda  hoje continuarem existindo o racismo, as greves e a recessão, que ajudaram a gerar o punk, nada de significativo tem acontecido em termos musicais. Talvez esteja faltando um olheiro do calibre de Johnny Rotten para encontrar novas estrelas.

Assista ao documentário sobre o tema, com a participação de Johnny Rotten:

foto: reprodução internet | Jamaica Experience

A onda jamaicana que invadiu o Reino Unido

Os primeiros imigrantes jamaicanos desembarcando no Reino Unido. | foto: reprodução internet

Os primeiros imigrantes jamaicanos desembarcando no Reino Unido.

Nos anos 1950, o Reino Unido ainda sofria as consequências do pós-guerra, a economia estava enfraquecida e havia falta de mão de obra. O governo britânico, então, encorajou a imigração a partir de suas colônias, oferecendo oportunidades de emprego. Entre esses imigrantes estava um grande número de jamaicanos, que se estabeleceram principalmente em Londres.

Diferentemente do que acontecia nos EUA, onde já havia comunidades negras, os jamaicanos em Londres viviam isolados. Faziam festas familiares, reuniam os amigos e ouviam rock e rythm and blues americanos. No início dos anos 1960, o ska começou a tomar conta da Jamaica e a situação mudou, pois os dois maiores distribuidores de discos de ska na época, Emil Shalit e Mrs King, estavam em Londres.

A música era uma forma de identificação muito forte e significativa para os imigrantes jamaicanos. Quando recebiam seus salários, corriam para as lojas de discos. Em pouco tempo, os sound systems, já tradicionais na Jamaica, começaram a aparecer em Londres.

O primeiro sucesso a alcançar o topo das paradas inglesas foi My Boy Lollipop, com Millie Small, em 1964. Porém, o grande impulso à música jamaicana viria em 1968, com a Trojan Records. A empresa, fundada pelo jamaicano Lee Gopthal, tornou-se a maior distribuidora de rocksteady e posteriormente de reggae, no Reino Unido. Seus maiores clientes eram os produtores jamaicanos Clement ‘Coxson’ Dodd, Arthur ‘Duke’ Reid, Leslie Kong e Prince Buster.

No final dos anos 1960, com o surgimento do reggae, na Jamaica, o papel da música tornou-se ainda mais importante. As letras tinham rebeldia, eram antigoverno, antiestado e iam ao encontro dos pensamentos da juventude negra, consciente e politizada de Londres.

Em 1972, Bob Marley assinou com a CBS Records, em Londres, e saiu em tour com o americano Johnny Nash. O reggae, definitivamente, explodia no Reino Unido. Em 1973, os Rolling Stones gravaram Cherry Oh Baby, do jamaicano Eric Donaldson e um ano depois, Eric Clapton gravou I Shot the Sheriff, de Bob Marley & The Wailers.

Começaram a surgir bandas de reggae inglesas, como Steel Pulse, UB40 e Aswad. Paralelamente, nascia, também, o Lovers Rock, uma espécie de subgênero do reggae, com temas românticos. No caso das bandas, foi difícil para elas serem aceitas pela juventude negra, que não as considerava autênticas. No entanto, acabaram encontrando seu público: os punks. Foram eles os responsáveis pelo sucesso do reggae. Em 1977, The Clash gravou Police and Thieves, de Junior Murvin e bandas pop como The Police, Culture Club e Madness, eram claramente influenciadas pelo estilo nascido na Jamaica.

Já o Lovers Rock começou como uma sacada de produtores, como Dennis Bovell. Eles achavam o reggae um estilo machista, que colocava as garotas apenas como backing vocals. Então, resolveram colocá-las na frente, cantando baladas românticas, incluindo hits da Motown, no ritmo do reggae. Uma das primeiras foi Janet Kay, que teve grande sucesso com Silly Games. Count Shelly, que gravou Ginger Williams’s Tenderness, em 1974, e Louisa Mark, com Caught You in a Lie, foram outros nomes desse gênero, que se firmou com a criação de uma gravadora de mesmo nome.

"Lovers Rock", álbum de Sade.  |  foto: reprodução internet

“Lovers Rock”, álbum de Sade.

O Lovers Rock, diferente do reggae tradicional, era apolítico, mais suave e foi, aos poucos, invadindo as cidades britânicas e levando uma mensagem de união racial. O estilo assumiu a condição de genuína música negra britânica. Nos anos 1980, o estilo se consolidou e ganhou novos adeptos, como Sade e Sugar Minott. Já os jamaicanos Dennis Brown, Gregory Isaacs e Johnny Osbourne, que passaram muito tempo em Londres, levaram o estilo de volta para suas origens.

Em 2011, a BBC Four apresentou um documentário em quatro programas, chamado Reggae Britannia. Para aqueles que quiserem se aprofundar a respeito da importância do reggae e sua influência no Reino Unido, vale a pena assistir.

Ouça “Greatest Hits”, coletânea do The Police: