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O cineasta, DJ e músico Don Letts. | foto: reprodução internet

Don Letts: do reggae ao punk, passando pelo cinema

Cineasta, DJ, músico. Se ainda parece pouco, vamos ao início da história, quando o rapaz de vinte anos era balconista de uma loja de roupas vintage. Don Letts, com seus longos dreadlocks, nasceu na Inglaterra. Filho de jamaicanos que deixaram a ilha em busca de uma vida melhor, gostava de reggae e dub, influência de seu pai, que trouxera consigo seu sound system.

O estilo de Don Letts: em 78 e nos dias de hoje.  |  fotos: reprodução internet

O estilo de Don Letts: em 78 e nos dias de hoje.

Era 1975 e o contador da loja Acme, na qual Don trabalhava, estava prestes a abrir – juntamente com outros sócios – aquele que viria a ser o principal ponto de encontro da cena punk que começava a nascer: The Roxy. Além de atender aos clientes da loja, Don Letts cuidava também da música do local – basicamente reggae – e era essa toda sua experiência como DJ. Mesmo assim, Andrew Czezowski, o tal contador, achou que ele levava jeito para a coisa e o convidou para ser DJ residente.

Eram poucos os discos de punk rock disponíveis no mercado nessa época, assim, Don tocava aquilo que mais gostava e conhecia, ou seja, dub e reggae. O público da casa também gostou e além das apresentações ao vivo de punk, The Roxy passou a ser também um lugar para ouvir música jamaicana.

Uma coisa leva a outra e Letts começou a registrar em super-8 o que via nas noites da Roxy. Tanto material acabou  gerando o documentário “Punk Rock Movie”, lançado em 1978. Além de outros documentários e inúmeros videoclipes de bandas, a carreira cinematográfica de Don Letts teve seu ponto alto em 1997, quando dirigiu, na Jamaica, “Dancehall Queen“.

Como DJ, Don aproximou-se de músicos como Johnny Rotten, do Sex Pistols e Mick Jones, do The Clash. Ambos tiveram grande importância na trajetória de Letts, por razões diferentes. Através de Rotten, foi para a  Jamaica pela primeira vez, como enviado da Virgin Records na busca de novos talentos (veja a história completa em “Johnny Rotten: caçador de talentos na Jamaica“). A viagem marcou sua vida, pois o colocou em contato com ídolos como Bob Marley, Burning Spear, Bunny Wailer e Peter Tosh.

Letts foi um dos vocalistas do BAD - Big Audio Dynamite.  |  foto: reprodução internet

Letts foi um dos vocalistas do Big Audio Dynamite.

Com Mick Jones, a história foi outra. Em 1984, pouco depois de sair do The Clash – com a qual Letts havia trabalhado em vários clipes – Mick formou uma nova banda, chamada Big Audio Dynamite (ou BAD) e convidou Don Letts para dividir os vocais e cuidar dos efeitos sonoros. A banda misturava gêneros como o punk, o reggae, a dance music, o hip hop e o funk. Sucessos como E=MC2, Contact e James Brown marcaram a carreira da banda.

Don Letts sempre foi muito ligado à musica jamaicana, especialmente com o reggae dos anos 1970, mais crítico e voltado às questões sociais. Atualmente, Don continua ativo no mundo musical através de seu programa semanal  de rádio na BBC6, tocando desde músicas mais antigas até lançamentos, de diversos estilos.

O pai de Don Letts, Duke Letts, foi DJ aos fins de semana, quando emigrou da Jamaica. Ele usava seu sound system para tocar rocksteady e bluebeat. Nesses momentos, após a igreja, a comunidade jamaicana podia se reunir e discutir seus problemas na nova terra. A conexão com a música continuou com Jet Letts, filho de Don, representante da terceira geração de DJs na família e produtor de dubstep, um estilo de música eletrônica que surgiu na Inglaterra.

Fiel à atitude do punk e, ao mesmo tempo, aos ideais do reggae, Don Letts é, sobretudo, alguém que acredita na cultura como forma de unir as pessoas. Mesmo que por acaso, deixou a vida de balconista para trás e dedicou-se a trabalhar com cultura, seja na música ou no cinema.

Assista ao documentário Superstonic Sound sobre Don Letts:

A série de quadrinhos Dread & Alive, do brasileiro Nicholas da Silva

Dread & Alive: quadrinhos com herói jamaicano

A música pode despertar interesses que muitas vezes não têm relação direta com o universo musical. Através da música, causas são defendidas, histórias são contadas, lugares são descritos e têm suas belezas exaltadas; aprende-se sobre o amor e a dor de perdê-lo; pessoas importantes ou apenas muito amadas são homenageadas ou apresentadas ao mundo. Há pessoas que tiveram os rumos de suas vidas transformados a partir de uma canção, ou de várias. Foi o que aconteceu com Nicholas da Silva.

Brasileiro, com nacionalidade americana e vivendo nos EUA, Nicholas teve uma vida cheia de mudanças. O trabalho do pai, como engenheiro, levou a família a viver em diferentes partes do mundo, com todos os ajustes e adaptações necessários. Exemplo de mistura racial, Nicholas têm ascendência africana, indiana e holandesa, além da brasileira. No entanto, através do reggae, começou a se interessar pela Jamaica, por sua história e suas origens. Quando criança, o pai o levava frequentemente à biblioteca. Nicholas gostava particularmente de ficção científica e sentiu falta de histórias com protagonistas de origem africana. Resolveu, então, criar suas próprias histórias.

O brasileiro Nicholas da Silva, autor da série de quadrinhos Dread & Alive.  |  foto: reprodução internet

O brasileiro Nicholas da Silva, autor da série de quadrinhos Dread & Alive.

Em suas pesquisas sobre a Jamaica, Nicholas ficou muito interessado nos Maroons de Accompong. Comunidade autônoma, existe na Jamaica até os dias atuais e tem origem nos primeiros Maroons, africanos fugitivos que escaparam dos colonizadores, aliaram-se aos nativos Taínos e passaram a viver isolados. Sua resistência à escravização e exemplo de independência inspiraram a imaginação de Nicholas. Somou o reggae que amava a tudo isso e criou o herói Drew Mcintosh e a lenda de Dread & Alive.

Do autor, Drew herdou o gosto por viajar e experimentar outras culturas. Já um dos temas mais importantes das histórias de Dread & Alive é a preservação do planeta e dos direitos de seus habitantes, especialmente de Cockpit Country, região da Jamaica onde vivem os Maroons. Quando criou Drew Mcintosh, Nicholas até cogitou metê-lo numa malha verde, ao estilo do Batman ou do Homem-Aranha. Felizmente, reconsiderou e o que se vê hoje é um herói que, fisicamente, se parece com um rastafári, usa dreadlocks e roupas iguais a de qualquer jovem.

Antropólogo, aventureiro e guerreiro da causa ecológica, Drew possui um amuleto que lhe confere poderes. Quando tinha apenas 15 anos, seu mentor, Cudjoe, lhe deu esse amuleto que renova sua energia e lhe dá força para lutar contra os inimigos. Drew não gosta de lutar, mas não quer que o mal vença e faz de tudo para proteger os habitantes da Terra, sejam eles humanos ou animais.

Antes de lançar Dread & Alive, o autor desenvolveu a série de quadrinhos Hitless, totalmente digital e compatível com o Sony PSP e o iPod. Lançada em 2007, a série incluía uma trilha sonora representando o tema da história. O trabalho foi sucesso instantâneo e ganhos diversos prêmios. Porém, Dread & Alive já estava em seus planos e, assim, foi lançada em 6 de fevereiro de 2010 – não por acaso, dia do aniversário de Bob Marley. Juntamente com o número 1, foi lançado o site em que Da Silva incluía uma seção musical recheada do que ele chama de reggae consciente.

Os personagens principais de Dread & Alive e alguns dos produtos comercializados pela empresa de Nicholas da Silva.  |  fotos: reprodução internet

Os personagens principais de Dread & Alive e alguns dos produtos comercializados pela empresa de Nicholas da Silva

Essa ligação dos quadrinhos com a música despertou o interesse do selo Soul of the Lion, especializado em projetos especiais e de apelo criativo. Trocando ideias, chegaram aos Lost Tapes, compilações musicais que servem como trilha sonora das histórias de Dread & Alive. Já são seis volumes, com muito reggae e dub, para ouvir enquanto se lê as histórias ou para lembrar delas enquanto se ouve.

Além de roteirista e desenhista, Nicholas da Silva é empresário. Dono da Zoolook, agência que criou em 1996 – inicialmente para divulgar seus próprios projetos. Hoje, os quadrinhos e a música dão suporte a uma variedade de produtos ligados à série, que vão de simples camisetas a skates com imagens da saga.

A música mudou a vida de Nicholas e ele, com suas histórias e as canções que escolhe para acompanhá-las, está ajudando a mudar a cabeça das novas gerações, trazendo a elas valores que, se bem aprendidos, poderão mudar o mundo. Que assim seja!

Assista ao promo Dread & Alive’s The Lost Tapes – volume 5:

O romancista Marlon James, ganhador do Man Booker Prize 2015. | foto: reprodução internet

A Jamaica é destaque também na literatura

2015 está chegando ao fim e tem sido um ano importante para a Jamaica. Começou com as comemorações do aniversário de 70 anos de Bob Marley, em fevereiro, e passou por conquistas inéditas em esportes nos quais a Jamaica tem pouca ou nenhuma projeção, como o tênis (com Dustin Brown), o futebol (desempenho da seleção na Copa América e na Copa Ouro) e a natação (com Alia Atkinson). No último mês de outubro, foi a vez da Jamaica virar notícia através da literatura.

O escritor e a capa de “Brief History of Seven Killings”  |  fotos: reprodução internet

O escritor e a capa de “Brief History of Seven Killings”

Marlon James, um escritor jamaicano de 45 anos, foi o vencedor do Man Booker Prize, prêmio literário concedido anualmente ao melhor romance publicado em inglês. O Man Booker é o principal prêmio da literatura britânica e um dos mais importantes mundialmente. Desde 2014, a premiação passou a considerar autores de qualquer país, desde que a obra tenha sido escrita originalmente em inglês e publicada no Reino Unido.

O romance “Brief History of Seven Killings” é o terceiro da carreira da Marlon James. Com cerca de 700 páginas, o livro trata de um episódio acontecido na Jamaica, em 1976: uma tentativa de assassinato contra Bob Marley e sua equipe, justamente antes de um show em prol da paz, em Kingston. Política, conflitos sociais e raciais são tratados no livro com certa dose de humor e através de inúmeros personagens.

Curiosamente, a narrativa é feita por 15 desses personagens. A cada capítulo, uma surpresa, pois o leitor nunca sabe quem será o próximo a contar a história. Nenhum deles, no entanto, é Bob Marley. Mesmo estando no centro da trama, seu nome não é sequer mencionado, sendo tratado sempre por “The Singer” (O Cantor).

Jornal destaca o atentado sofrido por Bob Marley.  |  fotos: reprodução internet

Jornal destaca o atentado sofrido por Bob Marley.

A história do próprio autor é também singular. Nascido em Kingston, é filho de mãe detetive e pai advogado, o que, de certa forma, lhe credencia a desenvolver boas histórias policiais. Na prática, porém, apenas neste último trabalho a temática policial entrou em cena. Seus dois romances anteriores (“John Crow’s Devil” e “The Book of Night Women”) eram romances de época, voltados a aspectos históricos da Jamaica.

Comum na trajetória da maioria dos escritores, a persistência foi uma das qualidades fundamentais para o sucesso de James. Seu primeiro romance foi rejeitado exatas 78 vezes antes de ser publicado. Talvez mais uma semelhança entre brasileiros e jamaicanos, pois, pelo visto, eles também não desistem nunca.

Apesar da premiação, que deverá alavancar ainda mais o sucesso do livro, a obra foi criticada – especialmente no Reino Unido – por utilizar gírias jamaicanas e também norte-americanas, do Harlem, além de palavrões. Para dificultar ainda mais a vida dos críticos, há um capítulo inteiro escrito em patois, o dialeto jamaicano. No Brasil, a Editora Intrínseca adquiriu os direitos do livro, mas ainda não há previsão do lançamento em português.

E como Jamaica sempre tem a ver com a música, o jornal britânico The Guardian pediu a James que elaborasse uma playlist relacionada ao livro. São cinco canções que, segundo o autor, abrangem os 15 anos em que a história se passa. Se você não consegue esperar pela edição nacional, leia em inglês, ouvindo abaixo as sugestões de Marlon James:

Arleen, do General Echo: um reggae dos anos 1970, que fala sobre o esquema de segurança domiciliar, comum na ilha naqueles tempos;

Under Me Sleng Teng, de Wayne Smith: espécie de dancehall caseiro, do início dos anos 1980;

The Bridge is Over, de Boogie Down Productions: hip-hop americano com conexão jamaicana, de meados dos anos 1980;

Mr. Loverman, de Shabba Ranks: canção que marca o renascimento do dancehall, no final dos anos 1980;

Ghetto Red Hot (remix), do Super Cat: um impressionante híbrido de hip-hop e dancehall, lançado no início dos anos 1990.

Wickie Wackie Music Festival | foto: reprodução internet | Jamaica Experience

Wickie Wackie Music Festival transformando o mundo

Em sua sexta edição, o Wickie Wackie Music Festival já faz parte do extenso calendário de eventos musicais da Jamaica. Este ano, o festival acontecerá nos dias 5 e 6 de dezembro. O local, é claro, será a praia de Wickie Wackie, em Bull Bay, que fica no sudeste da ilha, a cerca de 16 quilômetros da capital, Kingston.

Kumar Bent, vocalista do RagingFyah, banda que idealizou o WWMF.  |  foto: divulgação | On The Roots Photography

Kumar Bent, vocalista do RagingFyah, banda que idealizou o WWMF.

O WWMF, como é conhecido, foi idealizado por uma banda de roots reggae chamada Raging Fyah. Formada em 2006, a banda traz influências que vão de Bob Marley e Peter Tosh, passando por Inner Circle e Maroon 5. Além de excelentes intérpretes, escrevem suas próprias canções, baseadas em suas experiências, sonhos, objetivos e nas mudanças que pretendem para o mundo. O grupo, de fato, encara a música como uma missão, entendem que estão ligados espiritualmente, com o objetivo de fazerem música juntos e, através dela, mudar o mundo.

Para esta edição, o WWMF contará com toda a experiência e expertise da Touch The Road, agência local de turismo urbano e entretenimento. A ideia é transformar a área num enorme camping para abrigar o público do festival, além de proporcionar aos amantes do reggae opções de passeios por Kingston, St. Andrew e St. Thomas.

O WWMF não é apenas mais um festival musical. É um evento completo: além dos shows ao vivo, sessões de sound systems, instalações artísticas, atividades na praia e até um amanhecer acústico, ao som de tambores. Porém, a música é o elemento fundamental e alguns dos artistas confirmados são feras como Morgan Heritage, Mystic Revealers, Raging Fyah e Jesse Royal. Para as sessões de sound system e dub, nomes locais como Gabre Selassie e Yaadcore e internacionais, como Roots Revival Sound, da Polônia e Damalistik Roots Survival, da França (ouça abaixo).

Como já disse, a ideia do Raging Fyah é mudar o mundo através da música e eles não estão sozinhos. A banda é uma das representantes de um movimento que se iniciou na Jamaica e hoje já tomou proporções mundiais: o Reggae Revival.

O termo surgiu em 2011, pelo autor Dutty Bookman. Na época, ele identificava o início de uma conscientização a respeito do valor de aspectos culturais jamaicanos, tendo a música na linha de frente. De um modo mais simples, Bookman percebeu que estava acontecendo uma espécie de retorno às origens, como se as pessoas tivessem se dado conta de que certas tendências e modismos estavam colocando de lado a verdadeira qualidade artística na música e em outras artes.

O que começou como uma referência para discussão nacional ganhou atenção pelo mundo. Prova disso é a recente e extensa matéria publicada na revista americana Vogue (clique aqui e veja a matéria). O Reggae Revival é uma verdadeira revolução cultural em curso. Além de Raging Fyah, Protoje, Chronixx, Jah9 e Addis Pablo fazem parte desse movimento.

O WWMF está chegando, mas ainda dá tempo de ir. A Touch The Road oferece um pacote de uma semana chamado Wickie Wackie Wanderers, com opção de hospedagem/acampamento e passe para fim de semana a partir de US$949. Os preços dos ingressos são os seguintes: US$18 para uma noite, antecipado, ou US$23, na bilheteria e US$38 para o fim de semana. Uma oportunidade de conhecer a Jamaica e assistir a shows incríveis, que farão parte de um novo capítulo da história da música jamaicana.

Assista à playlist de vídeos com alguns artistas presentes no WWWF 2015:

Exposição "Return of the Rudeboy" | foto: Dean Chalkley, com direção criativa de Harris Elliott | reprodução internet

O retorno dos rude boys

Já falamos aqui sobre uma profissão chamada cool hunter, ou caçador de tendências. Mais especificamente, falamos de Magá Moura, uma linda e antenada baiana, de apenas 26 anos, que tem se destacado no mundo da moda e lifestyle por seu estilo e originalidade. Hoje, um ano após a publicação daquele texto, me deparei com uma situação na qual pessoas acabam sendo cool hunters, mesmo que por acaso.

Na verdade, esse talento tem a ver com o poder de observação de cada um e, quando se trabalha com assuntos como moda, cinema e publicidade, por exemplo, o talento acaba sendo treinado. É como se para certas pessoas as tendências simplesmente saltassem aos olhos, enquanto para outras, passam despercebidas.

É assim que entendo o trabalho feito pelo cineasta Dean Chalkley e pelo diretor de criação Harris Elliott. Ambos são britânicos, amigos e parceiros de trabalho de longa data. Em 2012 – coincidindo com as Olimpíadas de Londres, a denominação de Usain Bolt como o homem mais rápido da Terra e também com o aniversário de 50 anos da independência da Jamaica – os dois amigos, individualmente, começaram a perceber uma mudança no código visual dos jovens negros.

Calças curtas e chapéus estilosos começaram a substituir as roupas esportivas exaustivamente usadas pelos cantores de rap e hip hop. Havia uma atmosfera de mudança no ar, então Chalkley e Elliott começaram a fotografar pessoas nas ruas, na tentativa de registrar as transformações e captar as tendências. Concluíram, então, estar diante do renascimento do estilo dos rude boys.

Esse assunto também já foi abordado aqui, mas vamos recordar. Rude boys era o nome que se dava às gangues que surgiram na Jamaica logo após a independência, em 1962. Bob Marley flertou com eles e até fez uma canção para tranquilizar sua mãe quanto às más influências (Simmer Down – ouça abaixo). Muitos jamaicanos emigraram para o Reino Unido e influenciaram culturalmente outros grupos de jovens como os mods e, posteriormente, os punks.

A cultura rude boy está ligada à construção da autoestima e também à determinação e criatividade desses imigrantes, dispostos a buscar seu lugar numa sociedade conservadora e racista. E foi exatamente isso que Chalkley e Elliott captaram através dos retratos: a expressão da nova geração de negros através de suas roupas, sua forma de vestir.

Ao contrário do que acontece num ensaio de moda, o trabalho realizado pela dupla não buscou o glamour. As pessoas foram fotografadas ao natural, com suas próprias roupas, nas ruas de Londres. Através de conversas com as pessoas fotografadas, chegavam a outras pessoas que igualmente serviriam de modelos.

O trabalho gerou, primeiramente, uma exposição. Durante dez semanas, no verão londrino de 2014, esteve em cartaz na Terrace Galleries, na Somerset House. Além das fotos, houve eventos ao vivo, DJs e até uma barbearia no estilo rude boy. De quebra, foi exibido o filme “The Harder They Come”, intimamente ligado ao tema. Já em 2015,  a exposição seguiu para o Japão, no Laforet Museum Harajuku, em Tóquio.

Janelle e Gwen: visual estilo rude boy.  |  fotos: reprodução internet

Janelle e Gwen: estilo rude boy.

A exposição foi reunida no livro “Return of the Rudeboy”, lançado no último mês de junho. Além de um número ainda maior de fotos, há textos sobre a herança cultural dos rude boys e detalhamento da montagem da exposição em Londres.

Ao acaso, por treino ou vício profissional, os amigos Chalkley e Elliott acabaram por identificar e resgatar uma forte tendência. E as grifes, é claro, seguiram a onda. Marcas britânicas como Fred Perry’s e Brutus já lançaram suas coleções inspiradas nesse movimento, tão importante para formação da identidade cultural jamaicana. As cantoras Gwen Stefani, do No Doubt, e Janelle Monáe são duas adeptas do estilo.

Assista à entrevista de Harris Elliott e Dean Chalkley:

Roberto Carlos na gravação do clipe "Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo" | foto: reprodução internet | Vevo

Reggae: música de reis

Apesar de contemporâneos, eles nunca se cruzaram. Bob Marley, o rei do reggae, completaria 70 anos em 2015. Roberto Carlos, o eterno rei da música brasileira, está com 74 anos e continua em plena atividade. Prova disso é o lançamento, no último dia 18 de setembro, do clipe da gravação feita em maio, em Abbey Road – sim, o estúdio que ficou famoso com os Beatles. O disco, que será lançado no final do ano, faz parte do projeto Primeira Fila, da Sony Music, no qual cantores latino-americanos gravam em diferentes estúdios.

O álbum "É Proibido Fumar" (1964) | foto: reprodução internet

O álbum “É Proibido Fumar” (1964)

No caso de Roberto Carlos, o álbum será uma comemoração dos 50 anos de sua primeira gravação em espanhol. Esta faceta de sua carreira, que começou em 1965 com Mi Cacharrito, versão de O Calhambeque, tem sido muito promissora e Roberto é o único artista brasileiro a vender mais de 120 milhões de álbuns na América Latina.

Todas as regravações tiveram novos arranjos e nem todas serão cantadas em espanhol. Uma delas, Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo, que está na trilha sonora da novela “Regra do Jogo”, da TV Globo, é uma versão reggae deste grande sucesso do finalzinho dos anos 1960 (assista ao clipe no final deste post).

Mas, por mais inusitado que possa parecer, há quem afirme que esta ligação entre Roberto e o reggae já aconteceu antes, mais precisamente em 1964, na canção Rosinha, do álbum “É Proibido Fumar” (ouça a faixa abaixo). De fato, o arranjo possui características muito peculiares ao ritmo jamaicano, como uma linha melódica de baixo e uma marcação rítmica de guitarra, embora não remeta exatamente ao que acostumou-se a ouvir – sobretudo a partir dos anos 70 e com Bob Marley – como reggae. A bateria no estilo “one drop”, por exemplo, é uma ausência importante.

E há pelo menos uma outra ligação (embora indireta) da obra de Roberto Carlos com a música jamaicana. De releitura em releitura, 30 anos após seu lançamento, em 1994, É Proibido Fumar foi regravada pelo Skank como faixa do álbum “Calango” e também está no ótimo disco tributo do mesmo ano, chamado “Rei”. A versão do Skank, que começou sua carreira tocando reggae, tem tudo a ver com a música jamaicana, mas no estilo dancehall. Compare abaixo a base usada pelo Skank com as das canções Oh Carolina (com Shaggy) e Tease Me (com Chaka Demus & Pliers) e note as influências.

Assim como Bob Marley, Roberto Carlos – que não deixa de ser Bob! – já teve suas músicas regravadas por inúmeros artistas. De Caetano Veloso a Titãs, de Maria Bethânia a Chico Science – aliás, com ótima versão de Todos Estão Surdos, também no álbum “Rei” – de Alcione a Marisa Monte. Quando se trata de um rei, não vale gostar ou não gostar, mas é preciso respeitar. Afinal, se não fossem mesmo bons, não seriam reis. E, neste caso em particular, mesmo o mais exigente fã de reggae irá se render à versão, que ficou bem “honesta”. Como diria o rei Bob (o da Jamaica): “Who feels it knows it”. Em bom português: quem sente, entende.

Assista ao clipe “Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo”, de Roberto Carlos:

Alpha Blondy & The Solar System | foto: Alan Alves

Brasil e África numa noite de celebração à música da Jamaica!

Em pouco menos de um ano de projeto, já virou rotina: se é um grande show, o Jamaica Experience marca presença! E assim foi mais uma vez, com a recente passagem de Alpha Blondy pelo Brasil. Acompanhado de sua espetacular banda The Solar System, este ícone africano do reggae conquistou a plateia que lotou a Audio Club, em São Paulo, com um repertório cheio de grandes hits e seu carisma habitual.

A OBMJ botou todo mundo pra dançar ao som de vários clássicos brasileiros, tocados em ritmo jamaicano! | foto: Alan Alves

A OBMJ botou todo mundo pra dançar ao som de vários clássicos brasileiros, tocados em ritmo jamaicano!

Para quem já conhecia o show, uma ótima oportunidade de relembrar os clássicos e conhecer as músicas de seu novo álbum, “Positive Energy”. Para os que ainda não conheciam, a alegria de estar pela primeira vez à frente daquele grande artista e de músicos impecáveis, que transbordaram vibrações positivas e transformaram aquela noite em uma grande e inesquecível festa. Um show para ver, rever e deixar registrado para sempre na memória! Clique aqui e confira um álbum de fotos do show em nossa fanpage no Facebook!

A festa também contou com os cariocas do Dub Ataque, com o folk do britânico Marky Kelly e com aquela que, para os verdadeiros amantes da música jamaicana de raiz, era a grande sensação da noite: a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana. Um timaço de músicos instrumentistas, liderados por Felippe Pipeta e Sergio Soffiatti, que botam todo mundo pra dançar num baile ao mesmo tempo “divertido e educativo”, nas palavras dos próprios idealizadores.

E o Jamaica Experience aproveitou o momento para saber mais sobre esse projeto incrível! Nesta entrevista exclusiva para a nossa apresentadora Magá Moura, Felippe Pipeta e Sergio Soffiatti, os criadores da OBMJ, contam como surgiu a banda, falam das suas principais referências sonoras e traçam paralelos bem interessantes entre a música brasileira e a jamaicana, com suas similaridades de raiz e de ritmos. Uma pequena aula, à qual todo apreciador de música jamaicana deveria assistir.

Este é mais um conteúdo inédito e com o selo de qualidade Jamaica Experience. Assista, comente, compartilhe com seus amigos e nos ajude a fortalecer esta rede em prol da legítima cultura jamaicana em nosso país.

Por aqui, seguimos na missão! Mais novidades em breve…

Assista à cobertura do show + entrevista exclusiva para o Jamaica Experience:

Largada da Reggae Marathon, em Negril. | foto: divulgação Reggae Marathon

Em Negril, a maratona embalada pelo reggae!

Isolada por décadas no extremo oeste da ilha, Negril ficou quase esquecida. O acesso era difícil e só começou a melhorar no início dos anos 1960, com a construção de uma rodovia. Os primeiros turistas eram verdadeiros aventureiros e foram seguidos pelos hippies, que adotaram a região. Apesar de seu desenvolvimento ter sido mais lento, Negril tem hoje vários resorts em suas praias de águas tranquilas e mornas.

A Reggae Marathon começa em Long Bay Beach Park (Seven-Mile Beach)  |  foto: reprodução internet

A Reggae Marathon começa em Long Bay Beach Park (Seven-Mile Beach)

Numa das mais famosas praias de Negril, conhecida como Seven-Mile Beach, acontece anualmente a Reggae Marathon, um evento cheio de boas vibrações e muito reggae. Além dos tradicionais 42 km, os menos preparados podem optar pela meia maratona (21km) ou pelos consagrados 10k.

A primeira parte da corrida acontece ainda no escuro, antes do amanhecer. Soam os tambores e há tochas iluminando o caminho. Aos poucos, à medida que os quilômetros avançam, as belezas naturais vão surgindo, hipnotizando os corredores, que seguem cumprindo sua missão com muito mais prazer. Segundo um corredor experiente, na Jamaica, o povo faz a diferença e talvez por essa razão, a Reggae Marathon esteja entre as dez melhores maratonas internacionais.

O percurso é bastante plano e os maiores desafios, especialmente para os estrangeiros, são o calor e a umidade. Mesmo com a boa quantidade de água e isotônicos distribuídos por voluntários ao longo de toda prova, é bom se aclimatar, chegando alguns dias antes.

Mapa da 15ª Reggae Marathon  |  foto; divulgação Reggae Marathon

Mapa da 15ª Reggae Marathon

Todos os que terminarem suas respectivas provas receberão uma medalha e os maratonistas vencedores nas categorias masculina e feminina receberão, respectivamente, os troféus Bob Marley (adepto do jogging) e Rita Marley. Além disso, há premiação em dinheiro de mais de U$10.000.

Há dois eventos ligados à maratona para os quais os competidores têm entrada garantida. O primeiro, na véspera da corrida, é o ‘World’s Best’ Pasta Party, uma festa gourmet. Já o Victory Beach & Awards Party, acontece para celebrar o final da prova.

No ano de 2014, em sua 14ª edição, a Reggae Marathon teve mais de 1.500 competidores, de 36 diferentes nações. As inscrições para a prova deste ano, que acontecerá no dia 5 de dezembro, já estão abertas e podem ser feitas através do site www.reggaemarathon.com. Uma grande oportunidade de terminar o ano de 2015 cheio de energia, numa das mais belas praias da ilha mais alto astral do Caribe!

Veja abaixo um pouco do que foi a edição 2014 da Reggae Marathon:

foto: divulgação

Marley, o musical: mais do que apenas ótimas canções

Cartaz de divulgação de "Marley, o musical"  |  foto: divulgação

Cartaz de divulgação de “Marley, o musical”

Em fevereiro deste ano, Bob Marley completaria 70 anos. Entre as muitas formas de celebrar a data e relembrar a importância do grande ídolo jamaicano, nasceu a ideia de um musical. Escrito e dirigido pelo britânico Kwame Kwei-Armah, o espetáculo estreou em maio passado em Baltimore, nos EUA.

Kwei-Armah é diretor artístico do Center Stage, em Baltimore, e aceitou entrar no projeto desde que sua estreia fosse na cidade. Obra do acaso ou do destino, em abril deste ano, pouco antes de Marley entrar em cartaz, um jovem negro chamado Freddie Gray foi morto por policiais, causando grande comoção em Baltimore. Vítima de conflito racial e violência urbana, algumas das bandeiras contra as quais Bob Marley lutou.

O musical não se propõe a contar toda a vida do astro do reggae. Kwei-Armah optou por concentrar a história no período entre 1975 e 1978, quando Bob deixou a Jamaica – após escapar de uma tentativa de assassinato – e se auto-exilou em Londres. Durante esse intervalo, o cantor reafirmou suas convicções religiosas e sociais, além de ter lançado álbuns como “Rastaman Vibration”, com Positive Vibration e Roots, Rock, Reggae, “Exodus”, que inclui as canções Jamming e Three Little Birds, e “Kaya”, de Is This Love e Time Will Tell (ouça abaixo). Certamente, um dos períodos mais férteis de sua carreira.

Canções de outros álbuns também fazem parte do espetáculo que traz ao todo 30 músicas, interpretadas na íntegra ou parcialmente. Uma das críticas recebidas diz respeito exatamente ao grande número de canções, que acabam dando pouco espaço para o desenrolar da história. Porém, o que é um musical sem grandes músicas? E quanto aos intérpretes?

Neste quesito, especialmente no que se refere ao protagonista, o diretor foi extremamente feliz. Entre as 35 milhões de visualizações no You Tube, Mitchell Brunings – interpretando Redemption Song na edição holandesa do programa de TV The Voice – foi visto por Kwei-Armah. Ele, que já tinha testado diversas opções para o papel de Bob Marley, teve a certeza de ter encontrado o candidato perfeito. Tudo bem, já tínhamos dado a dica aqui no site, em Covers, tributos, versões: para manter vivos grandes ídolos.

Para o papel de Rita Marley a escolhida foi Saycon Sengbloh, que já havia participado de musicais na Broadway, como “Motown”, “Fela!”, “Aida” e “Wicked”. Quando soube das audições, ela foi decidida a conseguir o papel de Rita, a quem já admirava. Determinada e talentosa, foi, também, uma ótima escolha.

Para ajudar a entrar no clima, o lobby do teatro foi ambientado como um pedaço da Jamaica: o chão coberto de terra, uma cabana de madeira no canto, grafites de protesto e pôsteres políticos, pessoas comuns dançando ao som de Jimmy Cliff. A ideia de Kwei-Armah era a de um musical mais engajado e menos voltado ao entretenimento – como “Mamma Mia”, por exemplo. No entanto, o que se viu durante as apresentações é que há envolvimento do público, que ergue os braços com Get Up, Stand Up e junta-se aos atores no clímax, com One Love.

Marley esteve em cartaz em Baltimore até 14 de junho e foi um total sucesso de público. Simplesmente a maior renda e a maior audiência em 52 anos de história do teatro Center Stage. O espetáculo foi visto por mais de 22 mil pessoas em pouco mais de um mês de temporada, arrecadando cerca de US$780 mil.

A continuação da turnê ainda não está definida, mas o sucesso da temporada de estreia, somado ao peso de produtores como Chris Blackwell , fundador da Island Records, levam a crer que o musical terá uma longa estrada a percorrer.

Assista a um trecho do ensaio de “Marley, o musical”:


 

foto: divulgação

World a Reggae: Snoop Lion, o novo camaleão da música

Excelente observador – capaz de mover cada um dos olhos para um lugar, ao mesmo tempo – o camaleão é um réptil cuja principal característica é o mimetismo. Fora do campo da biologia, camaleão é aquele que adapta seu comportamento e características conforme o ambiente. No universo da música, dois exemplos clássicos são David Bowie, considerado o camaleão do rock e Madonna, sua versão feminina no quesito transformação.

Calvin Cordozar Broadus Jr. também pode ser incluído na mesma espécie. Ele já foi Snoop Doggy Dogg, Snoop Dogg e até Snoopzilla, além, é claro, da fase Snoop Lion. A mudança não foi apenas no nome, mas também no estilo musical, que passou a ser o reggae, gênero do qual tanto falamos por aqui.

Quando o então Snoop Doggy Dogg começou sua carreira, em 1992, era um rapper e participou do disco “The Cronic”, de Dr Dre, antes de lançar seu primeiro álbum no ano seguinte. “Doggystyle” foi um sucesso, liderando as paradas e vendendo milhares de discos. Suas letras, sempre recheadas de muita violência, encontravam eco em sua própria vida. Snoop chegou a ser preso várias vezes, sendo uma delas sob acusação de participar de um assassinato.

Snoop Doggy Dogg, Snoop Dogg , Snoop Lion, Snoopzilla: as várias faces do camaleão Calvin Cordozar Broadus Jr.  |  fotos: reprodução internet

Snoop Doggy Dogg, Snoop Dogg , Snoop Lion, Snoopzilla: as várias faces do camaleão Calvin Cordozar Broadus Jr.

Calvin personificava a imagem do gangsta rap, posava com armas, abusava das drogas e foi cafetão. Entre 1993 e 2011, lançou um total de 19 discos e atuou no cinema em filmes como “Baby Boy – O Dono da Rua”, “Dia de Treinamento” e “Confusões no Lava-Jato”.

Em 2012, Snoop viajou para a Jamaica, onde converteu-se ao movimento rastafári e, por sugestão de um religioso local, assumiu o nome Snoop Lion. Como reflexo dessa mudança, Snoop gravou o álbum “Reincarnated” – com produção do Major Lazer. A violência passou a ser combatida nas letras, assim como a luta entre gangues. Snoop Lion se dizia a reencarnação de ninguém menos do que Bob Marley.

Snoop Lion: autenticidade ou jogada de marketing?  |  foto: reprodução internet

Snoop Lion: autenticidade ou jogada de marketing?

Apesar de quase totalmente gravado na Jamaica e de contar com inúmeras participações especiais nas diversas faixas, em nenhuma delas há um representante rastafári jamaicano. Talvez  isso tenha irritado Bunny Wailer, que acusou Snoop de “uso fraudulento de personalidades e símbolos rastafáris”. Praticamente uma excomunhão, via Facebook.

De qualquer forma, “Reincarnated” acabou resultando num disco pop agradável, com referências de roots reggae e dancehall. Foi indicado para o Grammy de melhor disco de reggae, mas perdeu para “Revelation Part 1: The Root of Life”, de Stephen Marley.

Uma das melhores faixas, coincidentemente, é Lighters Up, que conta com as participações jamaicanas da banda Tivoli Gardens Drum Corp e dos artistas de dancehall Mavado e Popcann. Já em Ashtrays and Heartbreaks, um pop reggae, quem participa é outra candidata a mutante da música, Miley Cyrus.

Além do álbum, a viagem gerou também um documentário e um livro de fotos, ambos registrando a experiência e a transformação. Na sequência, Snoop criou o pseudônimo Snoopzilla para um novo projeto, e não se sabe se Snoop Lion encerrou totalmente as atividades ou se ainda pode voltar a gravar. Tudo depende de como Calvin enxergar o futuro.

Ouça abaixo o álbum “Reincarnated”, de Snoop Lion: