Posts

foto: reprodução internet

Bobo Shanti, a ala ortodoxa do Movimento Rastafári

O Movimento Rastafári é tão representativo para a cultura jamaicana que, mesmo tendo dividido o assunto em duas partes (Movimento Rastafári: das origens ao reggae / Movimento Rastafári: crenças e costumes), ainda há muito a dizer. Como em várias religiões, existem no Movimento Rastafári algumas subdivisões como a Bobo Shanti, Niyabinghi e Twelve Tribes of Israel.

A Bobo Shanti Congress ou Ethiopia Black International Congress é uma das mais ortodoxas. Bobo significa negro e Shanti ou Ashanti é a denominação de antigas tribos africanas. Foi fundada em 1958, por Emmanuel Charles Edwards. Para os seguidores da Bobo Shanti, Emmanuel, juntamente com Haile Selassie e Marcus Garvey, compõe a santíssima trindade, na qual Selassie é o rei ou a representação de Deus (Jah), Garvey é o profeta e Emmanuel o sacerdote supremo (chamado de Prince, ou príncipe).

Os rastafáris Bobo Shanti usam turbantes que escondem os dreadlocks |  foto: reprodução internet

Os rastafáris Bobo Shanti usam turbantes que escondem os dreadlocks

Os seguidores dessa linha vivem em comunidades tanto no Caribe (além da Jamaica, nas Bahamas, Trinidad e Ilhas Virgens), quanto na África (Etiópia, Gana e Nigéria). Na Jamaica, o grupo vive em Bull Bay, próximo a Kingston. Por terem usos e costumes muito peculiares, vivem isolados e não aceitam as leis e princípios da sociedade jamaicana. São praticamente autossuficientes, produzem alimentos, sucos, livros e artefatos africanos. Produzem, também, vassouras. Associadas à limpeza, são vendidas em Kingston, como forma de arrecadação de fundos para a comunidade.

Sendo uma religião ortodoxa, a Bobo Shanti tem regras rígidas a serem seguidas. Os homens usam turbantes, escondendo os dreadlocks e vestem túnicas. Já as mulheres devem ter braços e pernas sempre cobertos, não podem ficar sozinhas com homens estranhos e devem manter resguardo no período menstrual (considerado impuro, da mesma forma como acontece para muçulmanos e judeus). O sábado é o dia sagrado, como no judaísmo, sendo o dia dedicado à oração e ao jejum.

O cantor Sizzla é um dos artistas mais prolíficos da Jamaica. |  foto: reprodução internet

O cantor Sizzla é um dos artistas mais prolíficos da Jamaica.

Na comunidade, a maioria dos homens é profeta (espécie de conselheiro) ou padre (aquele que conduz cerimônias religiosas). As mulheres são subordinadas aos homens, da mesma forma que as crianças. Para o ensino básico, frequentam a Jerusalem School Room. Os que desejam ir além, seguem para Kingston, mas poucos o fazem. Os Bobo Shanti fazem uso da ganja (maconha), mas não em público, pois ela é reservada apenas para os cultos.

Um dos conceitos centrais da Bobo Shanti é a afirmação da cultura negra. Seguem a ideia original de Marcus Garvey de que os negros devem voltar à África e acreditam ser descendentes dos etíopes israelitas, o verdadeiro povo judeu, de pele negra. Para os Bobo, Cristo foi negro e já voltou à Terra na encarnação de Haile Selassie e também de Emmanuel.

Mistura de cristianismo, judaísmo e islamismo o rastafarianismo Bobo Shanti tem revelado músicos talentosos. Entre eles, talvez o mais famoso seja Sizzla Kalonji, responsável por reconduzir o dancehall às influências musicais e espirituais do reggae de raiz. Além disso, trata-se de um artista extremamente produtivo que, em cerca de 20 anos de carreira, produziu mais de 70 álbuns solo.

Ouça na íntegra o álbum “Da Real Thing”, de Sizzla Kalonji:

fotos: reprodução internet | fotomontagem: Jamaica Experience

Movimento Rastafári, parte 1: das origens ao reggae

Comunidade de Maroons nas montanhas jamaicanas, no início do século XX. | fotos: reprodução internet

Comunidade de Maroons nas montanhas jamaicanas, no início do século XX. | fotos: reprodução internet

A escravidão foi um dos fatos históricos dos quais a humanidade pode e deve sentir-se envergonhada. Contudo, mesmo algo assim pode gerar frutos positivos. Foi o que aconteceu na Jamaica, com o surgimento do movimento rastafári e do reggae.

Os colonizadores proibiam os escravos de professarem suas religiões africanas e, ao mesmo tempo, consideravam o cristianismo uma religião para povos brancos e desenvolvidos. Além do mais, certas noções de igualdade pregadas pela religião cristã não eram nada convenientes aos senhores de escravos. A África, como um todo, era considerada um local inferior, povoado por seres não civilizados. Daí, a necessidade do envio de missionários, para levar a civilização e a salvação àqueles povos.

Os negros escravizados sentiam-se oprimidos e tentavam manter suas crenças, de forma clandestina. Os Maroons, escravos fugidos que foram viver nas montanhas, em comunidades semelhantes aos quilombos brasileiros, foram responsáveis em grande parte pela resistência à cultura dos colonizadores.

Embora a escravatura tenha terminado em 1833, o movimento rastafári surgiria apenas um século depois, em 1930, a partir das ideias de Marcus Garvey, um ativista negro, descendente dos Maroons. Ele pregava a união dos povos negros e seu retorno à África. Seus conceitos encontraram grande aceitação junto a líderes religiosos da Jamaica, que passaram a considerar Garvey um profeta. Uma frase sua, vista como profecia, deu origem ao rastafarianismo. Garvey disse: “Olhe para a África, onde um rei negro será coroado. Ele será nosso redentor.”

O imperador da Etiópia Haile Selassie I  |  foto: reprodução internet

O imperador da Etiópia Haile Selassie I

O rei coroado foi Haile Selassie I, imperador da Etiópia, nascido Tafari Makonnen e posteriormente conhecido como Rás Tafari. Para os seguidores de Marcus Garvey, a profecia havia se concretizado e Haile Selassie passou a ser declarado o Messias Negro, Jah Rastafári, aquele que iria reuni-los na África.

Acredita-se que o primeiro grupo de rastafáris tenha se estabelecido na Jamaica, em 1935, liderados por Leonard P. Howell. Ele pregava a divindade de Selassie e explicava que os negros ganhariam a superioridade sobre os brancos, superioridade essa que sempre lhes fora destinada. Era o início do movimento, que buscava a repatriação para a África e a libertação dos povos negros.

Em 1954, a comunidade liderada por Howell foi destruída por uma batida policial e seus seguidores espalharam-se por toda a ilha, difundindo os conceitos do movimento. Em 1966, Haile Selassie visitou a Jamaica e foi recebido com grande entusiasmo. Bob Marley, que havia passado um tempo nos EUA, retornou para a ilha e converteu-se formalmente ao rastafarianismo. Nos anos 1960, graças a Marley e outros artistas ligados ao reggae, o movimento rastafári ganhou maiores proporções e passou a ser conhecido também fora da Jamaica.

Leonard P. Howell (à direita) é conhecido como o primeiro rasta. Ele foi o líder da comunidade rastafári que deu origem às atuais.  |  fotos: reprodução internet

Leonard P. Howell (à direita) é conhecido como o primeiro rasta. Ele foi o líder da comunidade rastafári que deu origem às atuais.

Em 1974, Haile Salassie foi deposto por uma revolução marxista e, no ano seguinte, morreu de forma misteriosa. O governo etíope anunciou a morte, mas não havia corpo. Se, por um lado, a morte de Selassie abalou as convicções dos rastas, por outro fez aumentar ainda mais sua fé. Poucos dias após o anúncio da morte, Bob Marley lançou a canção Jah Live (ouça abaixo), defendendo os princípios do movimento, apesar da aparente perda. Há quem acredite que Selassie não morreu e assumiu outra identidade. Para outros, ele de fato morreu, mas, assim como Cristo, um dia voltará para salvar seu povo.

foto: reprodução internet

Jamaicanos famosos: muito além do reggae e das corridas

Além das belezas naturais, a Jamaica tem o dom de produzir grandes músicos e velocistas. Mas não fica só por aí, basta pesquisar um pouco para descobrir que esta pequena ilha do Caribe tem dezenas de outros filhos ilustres, que se consagraram em diferentes áreas.

Marcus Garvey é considerado herói nacional e profeta do movimento rastafári na Jamaica.  |  foto: reprodução internet

Marcus Garvey é considerado herói nacional e profeta do movimento rastafári na Jamaica. | foto: reprodução internet

Marcus Garvey nasceu na Jamaica, em 1887, e durante toda vida trabalhou em defesa dos direitos dos negros. Já na adolescência, quando trabalhava como aprendiz numa gráfica, tomou contato com movimentos sindicais e participou de uma greve malsucedida, que, no entanto, lhe despertou a paixão pelo ativismo político.

Garvey viajou pela América Central como editor de um jornal e viu de perto a exploração de imigrantes nos latifúndios. Posteriormente, estudou em Londres e lá trabalhou para jornais que pregavam o chamado Nacionalismo Pan-Africano. De volta à Jamaica, em 1912, fundou o Universal Negro Improvement Association (UNIA), cujo objetivo principal era unir as pessoas de ascendência africana num só país, com governo próprio. Em 1920, a UNIA possuía 1.100 filiais, em mais de 40 países, incluindo os EUA, além de países no Caribe e na África.

Patrick Ewing faz parte do Basketball Hall of Fame. | foto: reprodução internet

Patrick Ewing faz parte do Basketball Hall of Fame. | foto: reprodução internet

Marcus Garvey militou nos EUA e na Inglaterra, onde morreu, em 1940. Na Jamaica, é considerado herói nacional e também profeta do movimento rastafári, por seus ideais. Em 1975, o cantor de reggae Burning Spear lançou o álbum “Marcus Garvey”, cuja primeira faixa homenageia o líder jamaicano.

No campo dos esportes, mas, desta vez, no basquete, a Jamaica tem um representante ilustre: Patrick Ewing. Ele emigrou para os EUA aos onze anos de idade e lá começou a jogar basquete com os vizinhos. Aprendeu facilmente, mas tinha de se dedicar muito aos estudos, pois tinha certa dificuldade. Enfim, conseguiu entrar na Geogetown University, onde iniciou sua carreira no esporte. Jogou por 15 anos pelos New York Knicks, teve passagem pelos Seattle SuperSonics e Orlando Magic e foi ganhador de duas medalhas de ouro, nos Jogos Olímpicos de 1984 e 1992. Foi eleito um dos 50 maiores jogadores da NBA de todos os tempos.

Lisa Hanna une beleza à inteligência e habilidade política. | foto: reprodução internet

Lisa Hanna une beleza à inteligência e habilidade política. | foto: reprodução internet

Para terminar, uma personagem de trajetória inusitada. Em 1993, aos 18 anos de idade, a jamaicana Lisa Hanna foi eleita Miss Mundo. Ela, que já tinha feitos trabalhos voluntários na adolescência e apresentado um famoso programa de TV, chamado Rappin, graduou-se e pós graduou-se em comunicação. Depois de atuar na área, em 2007, foi eleita como Membro do Parlamento. Em 2012, foi indicada Ministra da Juventude e da Cultura, cargo que ocupa até hoje.

Além desses três exemplos, poetas, historiadores, escritores, atores, modelos. Gente que sempre viveu na Jamaica ou que buscou oportunidades em outros países. Pouco a pouco, através da biografia desses jamaicanos ilustres, mostraremos um pouco mais da cultura jamaicana. Aguardem!

foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Kingston, a Hollywood jamaicana

Kingston está para a música jamaicana como Hollywood para o cinema americano. Espécie de Nashville do reggae, a cidade é o berço de artistas mundialmente consagrados como Bob Marley e Peter Tosh e foi retratada em incontáveis músicas, filmes e documentários ao longo dos anos. Famosa por sua rica e diversificada cultura, Kingston é um verdadeiro caldeirão de influências políticas, musicais e religiosas, que impactou o mundo de forma permanente.

Life Yard - Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Life Yard – Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Não há nenhuma outra cidade no mundo, comparável em tamanho e população a Kingston, que tenha produzido tanta música, durante tanto tempo e com tamanho impacto na cultura popular mundial. Em pouco mais de 8 km quadrados, a capital da Jamaica, que em 1960 contava com população de 123 mil habitantes, hoje é o lar de aproximadamente 500 mil pessoas e conhecida por ter sido o epicentro de um movimento que colocou a Jamaica no mapa da música mundial. O local foi ponto de partida de uma série infindável de aventuras sonoras e, para muitos artistas, independente de terem nascido na cidade ou migrado das áreas rurais, era sobretudo uma grande promessa de melhoria de vida, embora exigisse uma boa dose de instinto de sobrevivência. A proximidade dos músicos e a quantidade de estúdios num espaço urbano restrito podem ser alguns dos motivos, mas por si só não explicam tamanho potencial criativo ao longo de décadas. As deploráveis condições econômicas e sociais sob as quais a maioria dos artistas viveram foram os catalisadores para uma espécie de “exorcismo musical“, que em parte podem explicar este fenômeno.

O impacto da colonização afetou a Jamaica de forma contundente, começando com a Espanha, que em 1494 praticamente dizimou os nativos arauaques e depois com a Inglaterra, que tomou o poder em 1655 e iniciou um processo de escravização e importação de africanos para a ilha. Estabelecida em 1692, Kingston tornou-se a capital do país e, em 1892, passou a ser o principal porto comercial, desbancando Spanish Town. As bases para a injustiça social que empobreceram tantos jamaicanos ao longo do século XX, foram estabelecidas em Kingston durante o século XVII quando, sob o domínio britânico, a Jamaica tornou-se líder mundial na exportação de açúcar.

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

A exploração colonial das classes trabalhadoras, que garantiu a prosperidade da indústria do açúcar naquele período, levou a graves distúrbios sociais e fez Kingston entrar em colapso em meados de 1938. Mortes e tumultos deflagrados por circunstâncias políticas e raciais prenunciavam as crises das décadas seguintes. A “economia da sobrevivência”, gerada sobretudo pelo alto índice de desemprego, praticamente obrigou as pessoas a se mudarem para a capital, fazendo com que a população crescesse substancialmente na década de 1960. Como consequência, a cidade, que já sofria com a pobreza, se viu frente às inevitáveis competições por recursos, que por sua vez levaram à violência recorrente, ainda mais evidente durante as eleições gerais na ilha.

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

No início do século XX, o rastafarianismo surgiu como uma fonte poderosa de fé e resistência em Kingston. Embora Marcus Garvey (1887 – 1940), ícone jamaicano da libertação negra, não fosse ele próprio um Rasta, Kingston foi palco de muitos de seus inflamados discursos promovendo o nacionalismo negro e a independência, visão esta que era completamente alinhada aos ideias rastafáris. O rastafarianismo também ganhou adeptos fora da cidade, que foram forçados a mudarem-se para Kingston após uma série de ações policiais em áreas de plantação de maconha nos arredores da cidade. Em um destes ataques, mais de mil pessoas ficaram desabrigadas e muitas delas foram morar nas favelas urbanas da capital. Vários locais voltados à prática do rastafarianismo começaram a surgir por toda a ilha – especialmente nos arredores de Kingston – e a música passou a ser parte essencial deste movimento, cuja expressão artística e filosófica se fez cada vez mais presente e atraiu jovens e promissores músicos como Tommy McCook, que viria a estabelecer um marco na música jamaicana através do lendário grupo The Skatalites.

As raízes da cultura jamaicana, que estavam naturalmente muito sujeitas às influências africanas, com seus tambores e rituais espirituais de dança como a Kumina e Pukkumina, eram temperos evidentes no caldeirão cultural da cidade. Outros ingredientes, incluindo jazz, R&B, folk e até música country foram elementos que, somados, contribuíram para a criação do “algo novo” que estava por vir. Trenchtown tornou-se, ao mesmo tempo, residência de marginais  e inúmeros artistas cujo trabalho foi fortemente influenciado pelo instinto de sobrevivência.

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

A parte ocidental de Kinston era o núcleo da indústria musical jamaicana. Nas décadas de 50 e 60, Kingston era destino obrigatório para qualquer artista que alimentasse alguma esperança de ser gravado na ilha, já que ali estavam concentrados os melhores estúdios, produtores e músicos, que por sua vez sabiam como obter os melhores resultados. Conhecida informalmente como “Beat Street”, por motivos óbvios, a “Orange Street” era uma espécie de quartel general de produtores como Coxsonne Dodd, Prince Buster e Bunny Lee, entre muitos outros. Locais para audições e ensaios, estúdios, selos e até lojas de disco ficavam concentradas em uma relativamente pequena área da cidade, que incluía ainda a King Street (paralela à Orange Street), Beeston Street, Chancery Lane e North Parade (lar do Randy’s Studio, que mais tarde viria a se tornar a VP Records). Joe Gibbs, os irmãoes Hoo-Kim (do renomado Channel One), Clancy Eccles, Derrick Harriott e incontáveis outros produtores e artistas ocupavam o mesmo espaço, competindo entre si e muitas vezes colaborando uns com os outros para criar o próximo hit musical. Embora a indústria não tenha ficado limitada a esta região com o passar do tempo, Kingston continuou a ser vital e manteve sua vocação de núcleo de explosão criativa da música popular jamaicana. Para isso, muito contribuiu a cultura dos sound systems, com seus “dubplates” e sua capacidade de testar a audiência, antecipando tendências musicais ao público.

Por razões que excedem a lógica, era muito comum as músicas situarem o ouvinte, fazendo de Kingston mais que meramente o local onde as obras foram criadas, mas tornando-a parte essencial da narrativa musical. Em “Trenchtown Rock (1971), Bob Marley faz todos terem certeza de que o gueto está no centro da capital, na (graças a ele) mundialmente famosa “Kingston 12”. Mais tarde, em 1975, Marley mapeia a geografia urbana com “Natty Dread”, levando o público a uma viagem pela emblemática cidade. Por outro lado, “Kingston Town”, lançada originalmente por Lord Creator em 1970 e produzida por Clancy Eccles, idealiza a cidade como mágica, ao invés de trágica. A música ganhou outras versões e atingiu o topo das paradas no Reino Unido e na França, quando foi regravada pelos ingleses do UB40, 20 anos mais tarde, no início dos anos 90. Até mesmo em músicas instrumentais as vibrações Rasta vêm à tona, como em “Man From Wareika”(1976), do lendário trombonista Rico Rodriguez. Ele atribui a inspiração à sua ligação com um acampamento Rasta nas colinas dos arredores de Kingston.

Capa do filme "The Harder They Come", estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Capa do filme “The Harder They Come”, estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Outro fato importante é que um dos motivos por trás do sucesso do filme “The Harder They Come” (estrelado por Jimmy Cliff em 1972), segundo a crítica, é justamente o fato de o filme retratar a realidade de Kingston, cuja reputação à época tornava o local ao mesmo tempo perigoso e emblemático. O filme conta a história de Rhyging, um gangster pistoleiro que causava grande tumulto na cidade até ser morto pela polícia, em 1948. O personagem de Cliff retrata de maneira precisa a figura típica do camponês jamaicano, que migra da área rural para Kingston em busca de melhoria de vida e, ao só encontrar mais dificuldades e pobreza, se entrega à criminalidade em um ambiente desumano e nada inspirador.

Kingston também foi palco de terríveis batalhas políticas entre integrantes dos dois principais partidos do país: o PNP (People’s National Party) e o JLP (Jamaica Labour Party). Foram inúmeros os conflitos por território e poder, que culminaram na perda de dezenas de vidas ao longo de um duro processo, já que cada eleição geral na ilha reacendia a tensão política e a violência. Embora tenha sido um fenômeno característico dos anos 70, Kingston voltou às páginas policiais  internacionais recentemente quando, em 2010, um forte esquema policial foi montado para capturar um suposto bandido e traficante de drogas, chamado Cristopher “Dudus” Coke e extraditá-lo para os Estados Unidos. Espécie de “Robin Hood” jamaicano, Dudus era conhecido em Kingston como “The President” e considerado intocável pela população local, a despeito de todas as acusações contra ele. Interdições de estradas, barricadas, destruição e acusações de abuso policial, além de um número expressivo de homicídios de inocentes, provocaram reações furiosas da população e da classe artística contra a operação. “Don’t Touch The President”, de Bunny Wailer, tocou fundo na ferida e é considerada uma das principais músicas sobre o tema. De um modo geral, o evento só fez piorar a perspectiva de melhoria de vida dos habitantes da cidade, dada a repercussão negativa da cidade, que depende fortemente do turismo.

EDB Vinyl Thursday's | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

EDB Vinyl Thursday’s | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Mais que uma cidade turística, Kingston tem na criatividade do seu povo seu maior patrimônio histórico. Passado, presente e futuro se misturam num verdadeiro caldeirão cultural, que nasceu nos guetos locais e ganhou o mundo de forma incrivelmente impactante. Milhões de pessoas ao redor do mundo, sem sequer saber onde fica Trench Town, cantam e dançam músicas sobre o lugar. Não há dúvida de que Kingston está no topo da lista entre as cidades no mundo que mais contribuíram para a música e cultura globais.