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O cineasta, DJ e músico Don Letts. | foto: reprodução internet

Don Letts: do reggae ao punk, passando pelo cinema

Cineasta, DJ, músico. Se ainda parece pouco, vamos ao início da história, quando o rapaz de vinte anos era balconista de uma loja de roupas vintage. Don Letts, com seus longos dreadlocks, nasceu na Inglaterra. Filho de jamaicanos que deixaram a ilha em busca de uma vida melhor, gostava de reggae e dub, influência de seu pai, que trouxera consigo seu sound system.

O estilo de Don Letts: em 78 e nos dias de hoje.  |  fotos: reprodução internet

O estilo de Don Letts: em 78 e nos dias de hoje.

Era 1975 e o contador da loja Acme, na qual Don trabalhava, estava prestes a abrir – juntamente com outros sócios – aquele que viria a ser o principal ponto de encontro da cena punk que começava a nascer: The Roxy. Além de atender aos clientes da loja, Don Letts cuidava também da música do local – basicamente reggae – e era essa toda sua experiência como DJ. Mesmo assim, Andrew Czezowski, o tal contador, achou que ele levava jeito para a coisa e o convidou para ser DJ residente.

Eram poucos os discos de punk rock disponíveis no mercado nessa época, assim, Don tocava aquilo que mais gostava e conhecia, ou seja, dub e reggae. O público da casa também gostou e além das apresentações ao vivo de punk, The Roxy passou a ser também um lugar para ouvir música jamaicana.

Uma coisa leva a outra e Letts começou a registrar em super-8 o que via nas noites da Roxy. Tanto material acabou  gerando o documentário “Punk Rock Movie”, lançado em 1978. Além de outros documentários e inúmeros videoclipes de bandas, a carreira cinematográfica de Don Letts teve seu ponto alto em 1997, quando dirigiu, na Jamaica, “Dancehall Queen“.

Como DJ, Don aproximou-se de músicos como Johnny Rotten, do Sex Pistols e Mick Jones, do The Clash. Ambos tiveram grande importância na trajetória de Letts, por razões diferentes. Através de Rotten, foi para a  Jamaica pela primeira vez, como enviado da Virgin Records na busca de novos talentos (veja a história completa em “Johnny Rotten: caçador de talentos na Jamaica“). A viagem marcou sua vida, pois o colocou em contato com ídolos como Bob Marley, Burning Spear, Bunny Wailer e Peter Tosh.

Letts foi um dos vocalistas do BAD - Big Audio Dynamite.  |  foto: reprodução internet

Letts foi um dos vocalistas do Big Audio Dynamite.

Com Mick Jones, a história foi outra. Em 1984, pouco depois de sair do The Clash – com a qual Letts havia trabalhado em vários clipes – Mick formou uma nova banda, chamada Big Audio Dynamite (ou BAD) e convidou Don Letts para dividir os vocais e cuidar dos efeitos sonoros. A banda misturava gêneros como o punk, o reggae, a dance music, o hip hop e o funk. Sucessos como E=MC2, Contact e James Brown marcaram a carreira da banda.

Don Letts sempre foi muito ligado à musica jamaicana, especialmente com o reggae dos anos 1970, mais crítico e voltado às questões sociais. Atualmente, Don continua ativo no mundo musical através de seu programa semanal  de rádio na BBC6, tocando desde músicas mais antigas até lançamentos, de diversos estilos.

O pai de Don Letts, Duke Letts, foi DJ aos fins de semana, quando emigrou da Jamaica. Ele usava seu sound system para tocar rocksteady e bluebeat. Nesses momentos, após a igreja, a comunidade jamaicana podia se reunir e discutir seus problemas na nova terra. A conexão com a música continuou com Jet Letts, filho de Don, representante da terceira geração de DJs na família e produtor de dubstep, um estilo de música eletrônica que surgiu na Inglaterra.

Fiel à atitude do punk e, ao mesmo tempo, aos ideais do reggae, Don Letts é, sobretudo, alguém que acredita na cultura como forma de unir as pessoas. Mesmo que por acaso, deixou a vida de balconista para trás e dedicou-se a trabalhar com cultura, seja na música ou no cinema.

Assista ao documentário Superstonic Sound sobre Don Letts:

arte: Michael Thompson | Freestylee

A arte sem fronteiras de Michael ‘Freestylee’ Thompson

Arte é para ser apreciada e ponto. Mas, quando a arte está associada a abrir os olhos das pessoas sobre o que está acontecendo no mundo, quando o artista usa sua criatividade na busca de mudanças positivas e faz de sua arte um instrumento de ativismo de paz, apreciar apenas é pouco.

O artista jamaicano Michael 'Freestylee' Thompson  |  foto: divulgação

O artista jamaicano Michael ‘Freestylee’ Thompson

O trabalho do jamaicano Michael Thompson, além de instigante, tem muita beleza. Michael Thompson é designer gráfico. Ele nasceu em Kingston, Jamaica, e desde 1990 mora nos EUA. Mais precisamente na pequena Easton, na Pensilvânia, numa área semirrural onde ele pode criar tranquilamente, longe da pressão dos grandes centros. Também conhecido como Freestylee, Thompson foi bastante influenciado pelo artista rastafári Ras Daniel Hartman – o mesmo que fez o papel de Pedro, no filme “The Harder They Come”, com Jimmy Cliff.

Os trabalhos de Ras Daniel lhe trouxeram referências e tradições do movimento rastafári que, nos anos 1970, começavam a florescer na cultura popular jamaicana. Em 1978, Freestylee venceu um concurso de pôsteres na Jamaica e integrou a delegação jamaicana que participou do 11º Festival Mundial da Juventude, em Havana, Cuba. Segundo ele, essa visita foi uma experiência transformadora e uma tremenda oportunidade. Entre 1965 e 1975, Cuba vivera sua “época de ouro” do design, com grande produção de pôsteres com conotações políticas, especialmente aqueles produzidos pela OSPAAAL – Organização de Solidariedade aos Povos da Ásia, África, e América Latina – liderada por Che Guevara.

A ideia central dos trabalhos cubanos e que permeia a arte de Thompson é de que “simples é melhor” e o foco está na mensagem. Sua arte é moderna, icônica e sempre com fortes mensagens sociais ou políticas. Os temas são variados: pobreza, racismo, políticas migratórias e muito, muito, sobre a cultura jamaicana. Desde os gêneros musicais e seus representantes, passando pelos símbolos rastafári e elementos urbanos retrô, que remetem à sua adolescência na Jamaica. Freestylee já obteve reconhecimento internacional, com exposições em vários países europeus e trabalhos publicados em importantes revistas de design. Agora, seguindo os princípios semeados pelo reggae e pelo movimento rastafári, Michael Thompson quer devolver à comunidade e ao mundo um pouco do que conquistou.

Em 2011, juntamente com a artista grega Maria Papaefstathiou, criou o International Reggae Poster Contest, um concurso anual de pôsteres com temática ligada não somente ao reggae, mas aos gêneros musicais jamaicanos, como o ska, rocksteady, dub etc. O concurso tem dois objetivos: o primeiro é iniciar uma campanha para a construção de um Reggae Hall of Fame, em Kingston, um misto de museu e local para apresentações musicais, uma espécie de meca para os amantes do reggae. O segundo é conscientizar a respeito da importância da Alpha Boys School – uma escola vocacional por onde passaram astros como Desmond Dekker e Yellowman – e que precisa de todo tipo de suporte.

As ideias de Michael Thompson são grandes, não cabem em divisões políticas, são globais. A Primavera Árabe, o Occupy Movement, o terremoto no Haiti, são alguns dos temas que ele explorou, emprestando sua criatividade na busca do que considera correto e justo. Por isso ele é Freestylee: um artista sem fronteiras. Conheça mais trabalhos do artista em seu site oficial, onde eles estão à venda em formato de pôster com altíssima qualidade de impressão.

Confira a seguir um pouco da arte de Michael ‘Freestylee’ Thompson:

 

 

fotos: reprodução internet | arte: Jamaica Experience

Johnny Rotten: caçador de talentos na Jamaica

Johnny Rotten era um admirador confesso do reggae jamaicano.  |  foto: reprodução internet

Johnny Rotten era um admirador confesso do reggae jamaicano.

Ele já tinha ajudado a criar o punk rock, já tinha feito parte de muita controvérsia e confusão na Inglaterra. Então, veio a turnê derradeira nos EUA e os Sex Pistols chegaram ao fim. Johnny (Rotten) Lydon estava cansado. Richard Branson, o fundador da Virgin Records, estava ávido por novos nomes para seu selo e convidou Johnny, o cineasta e DJ Don Letts, o fotógrafo Dennis Morris e a jornalista Vivien Goldman para fazerem uma viagem à Jamaica. O objetivo era simples, usando seu faro e sua paixão pelo reggae, John Lydon tinha a tarefa de encontrar talentos que pudessem assinar com a Virgin. Basicamente, estava sendo contratado como um olheiro.

O grupo desembarcou na Jamaica em 1978, quando uma certa mistura de punk, dub e reggae já começava a surgir na Inglaterra. Por lá, havia uma conexão entre irlandeses e imigrantes jamaicanos, ambos considerados cidadãos de segunda classe. Johnny não é irlandês de nascimento, mas como filho de irlandeses teve grande afinidade com os jamaicanos e vice-versa.

Segundo Don Letts, os rastas amavam John. Sabiam de seu sucesso e compreendiam os problemas que vinha enfrentando. Além do mais, Johnny contava com sua vibe que atraía as pessoas. John Lydon já curtia reggae em Londres, frequentava sessões de sound system na cidade e, mentalmente, já tinha um esboço do que viria a ser o PIL (Public Image Ltd.), sua nova banda.

O hotel Sheraton, onde ficaram hospedados, tinha um bar frequentado por artistas como Peter Tosh, Gladiators, The Abyssinians, I-Roy e U-Roy, Tapper Zukie and The Tamlins, Jah Lion, Prince Hammer, Johnny Clarke, John Holt, Robbie Shakespeare, Sly, Chinna, Bim Sherman, Lee Perry, Inner Circle, Prince Mahmoud, Big Youth, The Congos… Segundo Vivien Goldman, era como se estivessem dando uma olhada na sua coleção de discos.

Depois de muitas conversas e muitas noitadas, artistas como Prince Far I, Big Youth, Prince Hammer, Tappa Zukie, Sly Dunbar e The Twinkle Brothers passaram a fazer parte do time Virgin. Em Londres, punk e reggae andavam ainda mais juntos, contra o racismo. Um show do The Clash e Steel Pulse reuniu uma multidão de 80.000 pessoas.

Ao longo dos anos 1980, contudo, os ideais ficaram mais diluídos e grupos como The Police e Culture Club, influenciados pelo reggae, tornaram-se bandas do cenário pop britânico. Para tristeza de Don Letts, apesar de ainda  hoje continuarem existindo o racismo, as greves e a recessão, que ajudaram a gerar o punk, nada de significativo tem acontecido em termos musicais. Talvez esteja faltando um olheiro do calibre de Johnny Rotten para encontrar novas estrelas.

Assista ao documentário sobre o tema, com a participação de Johnny Rotten:

Lloyd "King Jammy" James é um dos mais aclamados produtores jamaicanos | foto: divulgação

A Jamaica e seus “templos” musicais

Studio One, Tuff Gong, Black Ark, Channel One. Se você é apreciador de reggae e música Jamaicana em geral, já deve ter ouvido falar destes estúdios, famosos por terem dado vida a alguns dos maiores clássicos musicais produzidos na ilha. De fato, na Jamaica, engenheiros de som, técnicas e equipamentos utilizados nas gravações são considerados elementos tão importantes quanto a própria obra musical a ser trabalhada. E por vezes mais importantes até que o próprio artista!

Os produtores Syrix e Professa com Dean Fraser, um dos mais aclamados músicos e produtores da Jamaica, ao centro. | Foto: reprodução Internet

Os produtores Syrix e Professa com Dean Fraser, um dos mais aclamados músicos e produtores da Jamaica, ao centro.

A relação dos músicos na Jamaica com os estúdios é tão visceral que é quase impossível dissociar a imagem de alguns artistas dos locais que ajudaram a eternizar suas obras. Como bons exemplos disso temos o Tuff Gong, estúdio que pertenceu a Bob Marley e hoje continua sob a administração de sua família, e o lendário Black Ark, do genial produtor Lee “Scratch” Perry.

A explicação para isto está na maneira como músicos e produtores locais sempre entenderam a música e seus processos de construção, reconstrução e desconstrução. E isso é a própria essência da música jamaicana, especialmente em gêneros como o dub e o dancehall, que usam e abusam dos recursos digitais para criarem atmosferas sonoras que ao mesmo tempo intrigam e seduzem, especialmente os jovens.

No início da década de 70, Lee Perry e King Tubby definiram as bases sobre as quais a indústria da música pop viria a se apoiar mais tarde ao criarem o dub, com suas formas de agenciamento de sons. Na metade dos anos 80, foi a vez de Lloyd “King Jammy” James e Wayne Smith darem vida àquela que viria a ser a primeira música totalmente computadorizada da história da música jamaicana, Under Mi Sleng Teng (ouça abaixo).

Ao longo das últimas 5 décadas, a ilha que respira música 24 horas por dia foi ficando cada vez mais conhecida por sua capacidade de (re)criar estilos e antecipar tendências musicais ao mundo, influenciando gerações de jovens como os produtores Syrix & Professa, da Dreama Studios e Irievibrations Entertainment, da Alemanha. Juntos, eles decidiram criar uma websérie sobre a história e cultura da indústria musical. E resolveram começar pela Jamaica!

“Studio Chronicles” traz curiosidades dos bastidores, entrevistas com produtores e engenheiros responsáveis pelas gravações, além é claro dos artistas. O resultado é uma saborosíssima viagem pela história da música jamaicana através de alguns dos seus mais emblemáticos estúdios. E por que não dizer “templos”?

Assista a seguir à playlist com a websérie completa em 5 episódios!

Assista à websérie “Studio Chronicles”, com trailer + 5 episódios:

A banda No Doubt, da vocalista Gwen Stefani: Influências da música jamaicana e discos produzidos na ilha. | Foto: reprodução internet

World a Reggae – No Doubt: reggae music “underneath it all”

A influência da música jamaicana é assunto do qual já tratamos anteriormente (ver “A onda jamaicana que invadiu o Reino Unido“). Isso aconteceu não apenas no Reino Unido, mas também nos EUA, onde um dos bons exemplos é a banda No Doubt, da vocalista Gwen Stefani.

Gwen Stefani fez homenagens à Jamaica e ao reggae ao batizar dois de seus três filhos | foto: reprodução internet

Gwen Stefani fez homenagens à Jamaica e ao reggae ao batizar dois de seus três filhos

Inspirada na banda inglesa Madness – uma das primeiras responsáveis pelo revival do ska nos anos 1970 – a americana No Doubt foi criada em 1987. No início, era uma mistura de  new wave e ska. Começaram a fazer sucesso na Califórnia, onde a banda nasceu, e gravaram seu primeiro disco (“No Doubt”) em 1992. Então, sofreram o impacto da invasão do movimento grunge, também conhecido como som de Seattle (Nirvana, Pearl Jam e companhia). Mantiveram seu estilo e com alguma influência do punk rock, lançaram o segundo álbum (“The Beacon Street Collection”), em 1995.

Ainda em 1995, lançaram um novo álbum (“Tragic Kingdom”) que marcava o fim do relacionamento entre a vocalista Gwen e o baixista Tony Kanal. A temática, aliada à vocação pop de Gwen, sempre presente na mídia, ajudaram a promover o disco, que chegou ao primeiro lugar nas paradas. O álbum seguinte, “Return of Saturn”, saiu apenas em 2000 e teve boa aceitação de crítica e público, com sucessos como Simple Kind of Life e Ex-Girlfriend.

Contudo, a influência jamaicana está mais evidente no quinto álbum, chamado “Rock Steady” (ouça abaixo, na íntegra). Lançado em 2001, o álbum começou a ser gravado em Los Angeles e San Francisco. Posteriormente, a banda seguiu para Londres e Jamaica e trabalhou em conjunto com diversos intérpretes, autores e produtores. Entre eles, os jamaicanos Sly Dunbar & Robbie Shakespeare – que já foram produtores de artistas como Peter Tosh, Bob Dylan e os Rolling Stones – os americanos do The Neptunes (duo de Pharrel Williams) e o inglês William Orbit, produtor de Madonna.

Com tantas estrelas, o resultado só poderia ser excepcional. Dub jamaicano, pop eletrônico e dance são alguns dos estilos que dão forma ao disco, que vendeu cerca de 3 milhões de cópias. Dois destaques são as faixas Hey Baby e Underneath It All. A primeira, com a participação do DJ jamaicano Bounty Killer, gerou o single que rendeu ao No Doubt o quinto lugar na Billboard Hot 100.

Underneath It All,  escrita por Gwen Stefani e Dave Stewart, do Eurythmics, tem suas curiosidades. A banda foi visitar Dave, a quem não conheciam, em seu apartamento. Em quinze minutos, sentados na cozinha, Gwen e Dave tinham a música pronta. Para o álbum, a canção foi gravada com a participação da cantora de reggae jamaicana Lady Saw (assista ao videoclipe acima).

Depois de um hiato de mais de dez anos, nos quais Gwen teve sua carreira solo, além de três filhos, a banda lançou, em 2012, o disco “Push and Shove”, cuja finalização foi feita em um estúdio na Jamaica (ouça abaixo a faixa que dá nome ao disco, com participação especial do jamaicano Busy Signal). A produção, dessa vez, ficou a cargo do DJ americano Diplo, do Major Lazer.

Gwen, aliás, foi bastante criativa ao dar nomes a seus filhos e, em dois deles, expressou sua forte relação com a Jamaica. O mais velho é Kingston James McGregor Rossdale, sim, Kingston, como a capital da Jamaica. O do meio chama-se Zuma Nesta Rock Rossdale, sendo que Nesta é o segundo nome de Robert (ou Bob) Marley. O mais novinho, nascido em fevereiro deste ano, é Apollo Bowie Flynn Rossdale, mas Bowie and Flynn são nomes de solteira da mamãe. Além de extensos, os nomes trazem inúmeras homenagens e referências a pessoas e locais importantes para Gwen e seu marido, Gavin Rossdale. Pelo bem das crianças que estão por vir, esperamos que essa moda não pegue!

Ouça o disco “Rock Steady”, do No Doubt, na íntegra:

foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Kingston, a Hollywood jamaicana

Kingston está para a música jamaicana como Hollywood para o cinema americano. Espécie de Nashville do reggae, a cidade é o berço de artistas mundialmente consagrados como Bob Marley e Peter Tosh e foi retratada em incontáveis músicas, filmes e documentários ao longo dos anos. Famosa por sua rica e diversificada cultura, Kingston é um verdadeiro caldeirão de influências políticas, musicais e religiosas, que impactou o mundo de forma permanente.

Life Yard - Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Life Yard – Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Não há nenhuma outra cidade no mundo, comparável em tamanho e população a Kingston, que tenha produzido tanta música, durante tanto tempo e com tamanho impacto na cultura popular mundial. Em pouco mais de 8 km quadrados, a capital da Jamaica, que em 1960 contava com população de 123 mil habitantes, hoje é o lar de aproximadamente 500 mil pessoas e conhecida por ter sido o epicentro de um movimento que colocou a Jamaica no mapa da música mundial. O local foi ponto de partida de uma série infindável de aventuras sonoras e, para muitos artistas, independente de terem nascido na cidade ou migrado das áreas rurais, era sobretudo uma grande promessa de melhoria de vida, embora exigisse uma boa dose de instinto de sobrevivência. A proximidade dos músicos e a quantidade de estúdios num espaço urbano restrito podem ser alguns dos motivos, mas por si só não explicam tamanho potencial criativo ao longo de décadas. As deploráveis condições econômicas e sociais sob as quais a maioria dos artistas viveram foram os catalisadores para uma espécie de “exorcismo musical“, que em parte podem explicar este fenômeno.

O impacto da colonização afetou a Jamaica de forma contundente, começando com a Espanha, que em 1494 praticamente dizimou os nativos arauaques e depois com a Inglaterra, que tomou o poder em 1655 e iniciou um processo de escravização e importação de africanos para a ilha. Estabelecida em 1692, Kingston tornou-se a capital do país e, em 1892, passou a ser o principal porto comercial, desbancando Spanish Town. As bases para a injustiça social que empobreceram tantos jamaicanos ao longo do século XX, foram estabelecidas em Kingston durante o século XVII quando, sob o domínio britânico, a Jamaica tornou-se líder mundial na exportação de açúcar.

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

A exploração colonial das classes trabalhadoras, que garantiu a prosperidade da indústria do açúcar naquele período, levou a graves distúrbios sociais e fez Kingston entrar em colapso em meados de 1938. Mortes e tumultos deflagrados por circunstâncias políticas e raciais prenunciavam as crises das décadas seguintes. A “economia da sobrevivência”, gerada sobretudo pelo alto índice de desemprego, praticamente obrigou as pessoas a se mudarem para a capital, fazendo com que a população crescesse substancialmente na década de 1960. Como consequência, a cidade, que já sofria com a pobreza, se viu frente às inevitáveis competições por recursos, que por sua vez levaram à violência recorrente, ainda mais evidente durante as eleições gerais na ilha.

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

No início do século XX, o rastafarianismo surgiu como uma fonte poderosa de fé e resistência em Kingston. Embora Marcus Garvey (1887 – 1940), ícone jamaicano da libertação negra, não fosse ele próprio um Rasta, Kingston foi palco de muitos de seus inflamados discursos promovendo o nacionalismo negro e a independência, visão esta que era completamente alinhada aos ideias rastafáris. O rastafarianismo também ganhou adeptos fora da cidade, que foram forçados a mudarem-se para Kingston após uma série de ações policiais em áreas de plantação de maconha nos arredores da cidade. Em um destes ataques, mais de mil pessoas ficaram desabrigadas e muitas delas foram morar nas favelas urbanas da capital. Vários locais voltados à prática do rastafarianismo começaram a surgir por toda a ilha – especialmente nos arredores de Kingston – e a música passou a ser parte essencial deste movimento, cuja expressão artística e filosófica se fez cada vez mais presente e atraiu jovens e promissores músicos como Tommy McCook, que viria a estabelecer um marco na música jamaicana através do lendário grupo The Skatalites.

As raízes da cultura jamaicana, que estavam naturalmente muito sujeitas às influências africanas, com seus tambores e rituais espirituais de dança como a Kumina e Pukkumina, eram temperos evidentes no caldeirão cultural da cidade. Outros ingredientes, incluindo jazz, R&B, folk e até música country foram elementos que, somados, contribuíram para a criação do “algo novo” que estava por vir. Trenchtown tornou-se, ao mesmo tempo, residência de marginais  e inúmeros artistas cujo trabalho foi fortemente influenciado pelo instinto de sobrevivência.

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

A parte ocidental de Kinston era o núcleo da indústria musical jamaicana. Nas décadas de 50 e 60, Kingston era destino obrigatório para qualquer artista que alimentasse alguma esperança de ser gravado na ilha, já que ali estavam concentrados os melhores estúdios, produtores e músicos, que por sua vez sabiam como obter os melhores resultados. Conhecida informalmente como “Beat Street”, por motivos óbvios, a “Orange Street” era uma espécie de quartel general de produtores como Coxsonne Dodd, Prince Buster e Bunny Lee, entre muitos outros. Locais para audições e ensaios, estúdios, selos e até lojas de disco ficavam concentradas em uma relativamente pequena área da cidade, que incluía ainda a King Street (paralela à Orange Street), Beeston Street, Chancery Lane e North Parade (lar do Randy’s Studio, que mais tarde viria a se tornar a VP Records). Joe Gibbs, os irmãoes Hoo-Kim (do renomado Channel One), Clancy Eccles, Derrick Harriott e incontáveis outros produtores e artistas ocupavam o mesmo espaço, competindo entre si e muitas vezes colaborando uns com os outros para criar o próximo hit musical. Embora a indústria não tenha ficado limitada a esta região com o passar do tempo, Kingston continuou a ser vital e manteve sua vocação de núcleo de explosão criativa da música popular jamaicana. Para isso, muito contribuiu a cultura dos sound systems, com seus “dubplates” e sua capacidade de testar a audiência, antecipando tendências musicais ao público.

Por razões que excedem a lógica, era muito comum as músicas situarem o ouvinte, fazendo de Kingston mais que meramente o local onde as obras foram criadas, mas tornando-a parte essencial da narrativa musical. Em “Trenchtown Rock (1971), Bob Marley faz todos terem certeza de que o gueto está no centro da capital, na (graças a ele) mundialmente famosa “Kingston 12”. Mais tarde, em 1975, Marley mapeia a geografia urbana com “Natty Dread”, levando o público a uma viagem pela emblemática cidade. Por outro lado, “Kingston Town”, lançada originalmente por Lord Creator em 1970 e produzida por Clancy Eccles, idealiza a cidade como mágica, ao invés de trágica. A música ganhou outras versões e atingiu o topo das paradas no Reino Unido e na França, quando foi regravada pelos ingleses do UB40, 20 anos mais tarde, no início dos anos 90. Até mesmo em músicas instrumentais as vibrações Rasta vêm à tona, como em “Man From Wareika”(1976), do lendário trombonista Rico Rodriguez. Ele atribui a inspiração à sua ligação com um acampamento Rasta nas colinas dos arredores de Kingston.

Capa do filme "The Harder They Come", estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Capa do filme “The Harder They Come”, estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Outro fato importante é que um dos motivos por trás do sucesso do filme “The Harder They Come” (estrelado por Jimmy Cliff em 1972), segundo a crítica, é justamente o fato de o filme retratar a realidade de Kingston, cuja reputação à época tornava o local ao mesmo tempo perigoso e emblemático. O filme conta a história de Rhyging, um gangster pistoleiro que causava grande tumulto na cidade até ser morto pela polícia, em 1948. O personagem de Cliff retrata de maneira precisa a figura típica do camponês jamaicano, que migra da área rural para Kingston em busca de melhoria de vida e, ao só encontrar mais dificuldades e pobreza, se entrega à criminalidade em um ambiente desumano e nada inspirador.

Kingston também foi palco de terríveis batalhas políticas entre integrantes dos dois principais partidos do país: o PNP (People’s National Party) e o JLP (Jamaica Labour Party). Foram inúmeros os conflitos por território e poder, que culminaram na perda de dezenas de vidas ao longo de um duro processo, já que cada eleição geral na ilha reacendia a tensão política e a violência. Embora tenha sido um fenômeno característico dos anos 70, Kingston voltou às páginas policiais  internacionais recentemente quando, em 2010, um forte esquema policial foi montado para capturar um suposto bandido e traficante de drogas, chamado Cristopher “Dudus” Coke e extraditá-lo para os Estados Unidos. Espécie de “Robin Hood” jamaicano, Dudus era conhecido em Kingston como “The President” e considerado intocável pela população local, a despeito de todas as acusações contra ele. Interdições de estradas, barricadas, destruição e acusações de abuso policial, além de um número expressivo de homicídios de inocentes, provocaram reações furiosas da população e da classe artística contra a operação. “Don’t Touch The President”, de Bunny Wailer, tocou fundo na ferida e é considerada uma das principais músicas sobre o tema. De um modo geral, o evento só fez piorar a perspectiva de melhoria de vida dos habitantes da cidade, dada a repercussão negativa da cidade, que depende fortemente do turismo.

EDB Vinyl Thursday's | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

EDB Vinyl Thursday’s | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Mais que uma cidade turística, Kingston tem na criatividade do seu povo seu maior patrimônio histórico. Passado, presente e futuro se misturam num verdadeiro caldeirão cultural, que nasceu nos guetos locais e ganhou o mundo de forma incrivelmente impactante. Milhões de pessoas ao redor do mundo, sem sequer saber onde fica Trench Town, cantam e dançam músicas sobre o lugar. Não há dúvida de que Kingston está no topo da lista entre as cidades no mundo que mais contribuíram para a música e cultura globais.

foto: reprodução internet

Reggae Legends: Lee “Scratch” Perry

Lee “Scratch” Perry é, sem dúvida alguma, a figura mais excêntrica de toda a história do reggae. Ao longo dos anos, seu comportamento incomum e errático foi largamente compensado por um notável instinto artístico, que deu novas dimensões à sonoridade do reggae, especialmente o dub. Sua carreira produtiva, cujo auge se deu entre o final da década de 1960 e final de 1970, ultrapassou a marca dos sessenta álbuns e chegou a quase quatrocentos singles, considerando suas atuações como artista e produtor. Muitas destas canções figuram até hoje em álbuns por todo o mundo.

foto: reprodução internet

Perry: talento para produção musical que o levou a um caminho sem volta em direção à inovação sonora.

Lee “Scratch” Perry nasceu em Hanover, uma paróquia ao noroeste da Jamaica, em 1936, sob o nome Rainford Hugh Perry. Aos vinte anos ele operava uma escavadeira em um canteiro de obras, experiência através da qual descobriu, segundo ele, o poder do som. Sua introdução na indústria da música se deu  pelas mãos do produtor Duke Reid que, ainda segundo Perry, não o deixava gravar mas roubou algumas de suas composições e as deu para outro cantor, chamado Stranger Cole. A Lee Perry, nem os créditos e nem tampouco a compensação financeira. Nós poderíamos até especular sobre qual rumo sua carreira teria tomado a partir de então, se suas experimetações como produtor, mais tarde, não tivessem ganhado destaque inversamente proporcional à sua iniciação artística como cantor. Embora empregasse suas características vocais com personalidade e convicção, sua voz era muito frágil e faltava nela a textura típica de cantores convencionais como John Holt (ex-vocalista do Paragons), cuja influência de R&B continha muito mais apelo comercial. Perry, então, resolveu dedicar-se à produção de peças instrumentais, que por sua vez o levaram por um caminho sem volta em direção à inovação sonora.

Perry viria a estabelecer, mais tarde, uma conexão com o produtor do Studio One, Coxsone Dodd, trabalhando primeiro como “selector” no sound system Downbeat para, logo em seguida, assumir um importante papel criativo no selo Studio One, um dos mais emblemáticos da época. Lee Perry acumulava várias funções por lá, ainda que não recebesse os devidos créditos por suas múltiplas atividades como cantor, compositor e produtor musical. Foi ele o responsável por apresentar a Coxsone Dodd uma grande quantidade de artistas que viriam a se tornar referências para a gravadora e para a própria música jamaicana, além de ter gravado inúmeros singles como artista solo, às vezes sob o nome King Perry. Os singles “Rub & Squeese” e “Doctor Dick”, ambos de 1966, mostraram pela primeira vez o estilo lascivo das letras de Perry ao reino da música popular jamaicana, ainda sob o gênero dominante na ilha naquele período: o calypso. Naquela época, poucos poderiam imaginar que Perry já havia sido um “homem de família”, casado por um breve período no final da década de 1950 e aparentemente a caminho de uma vida serena e uma existência modesta e até apática. Há quem diga que foi justamente a desilusão com este relacionamento que motivou sua nova visão de mundo, sobretudo em relação às mulheres, o que acabou norteando o comportamento controverso que ele demonstrou ao longo de sua trajetória.

foto: reprodução internet

Lee Perry: começo difícil e parcerias com diversos outros produtores para, em seguida, lançar-se como produtor independente.

Sem ter um salário para chamar de seu e muito menos qualquer participação em “royalties” sobre as músicas que produzia – prática muito comum na indústria musical jamaicana naquela época, Perry deixou o Studio One entre 1966 e 1968 para trabalhar com inúmeros outros produtores, incluindo Prince Buster e Joe Gibbs. Em 1968, uma nova mudança de rumos seguida de outra decepção: após decidir trabalhar como produtor independente para o selo West Indies Records, foi demitido por não conseguir produzir grandes hits. Uma de suas gravações mais conhecidas nesta fase foi “Set Them Free” (ouça abaixo), de 1969, gravada sob o nome Lee Perry & The Defenders. A música era uma resposta um tanto provocativa a um personagem criado por Prince Buster, chamado Judge Dread, que costumava condenar os chamados rude boys a 400 anos de prisão na música de mesmo nome. Perry criou, então, o personagem Lord Defender, que saía em defesa dos rude boys e tentava os livrar da sentença que considerava injusta, dadas as condições sociais e econômicas às quais estavam submetidos.

Lee Perry, aliás, tomou quase como um hábito direcionar ataques incisivos aos seus ex-empregadores em várias de suas gravações, incluindo os notáveis Prince Buster, Coxsonne Dodd, Joe Gibbs e Bunny Lee. O single “I Am The Upsetter” – termo que logo tornou-se mais um de seus famosos apelidos – foi pensado para ser um ataque direto a Coxsone Dodd, a quem atribui a culpa por ter prejudicado e alienado diversos artistas e produtores com os quais havia trabalhado valendo-se de acordos e negociações obscuras. O primeiro hit produzido por Perry, “People Funny Boy”, de 1968, tratava especificamente de Joe Gibbs, embora pudesse descrever muitas outras situações insatisfatórias, nas quais sua contribuição artística fora subvalorizada. Perry trabalhou com Gibbs como produtor e arranjador, até que as intrigas em virtude de disputas financeiras – que viria a se tornar uma marca registrada da indústria jamaicana – os levassem à separação. Segundo estimativas, “People Funny Boy” vendeu mais de 30 mil cópias, um número bastante razoável para os padrões da indústria à época. É irônico que Lee Perry tenha investido tanta energia em criticar modelos de negócios alheios, considerando que ele mesmo futuramente viesse a se envolver em transações duvidosas enquanto trabalhava com o The Wailers, a banda dos futuros “superstars” do reggae Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer. Alegando necessidade financeira, ele licenciou material da banda, supostamente sem autorização, para diversos selos internacionais.

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O genial Lee Perry à época do The Upsetters: talento musical inquestionável.

Antes dos conflitos com o The Wailers, porém, Lee Perry alcançou sucesso internacional com aquela que foi sua mais conhecida banda de estúdio, o The Upsetters (antes conhecida como Hippy Boys) provando que sua excentricidade tinha valor comercial global. O instrumental “Return Of Django”, inspirado nos filmes de velho-oeste italianos que faziam a cabeça dos jamaicanos naqueles tempos, foi um desses hits e invadiu as paradas de sucesso britânicas, alcançando a quinta posição no ranking das mais tocadas, em 1969. O sucesso da música se deve em parte à sua aceitação pelos “skinheads”, jovens britânicos da classe trabalhadora, brancos, que raspavam suas cabeças e rejeitavam o estilo de vida tradicional. Perry ainda daria outra grande contribuição à música jamaicana, ao produzir as primeiras gravações de U-Roy, o pioneiro DJ jamaicano que, mais tarde, viria a conquistar seu próprio espaço.

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Os irmãos Aston (à esquerda) e Carlton Barret, à direita de Bob Marley. Sob a direção de Lee Perry, eles gravaram juntos pela primeira vez.

Foi sob a direção de Perry que os vocalistas do The Wailers gravaram pela primeira em companhia dos irmãos Carlton e Aston Barret, que viriam a se tornar uma das sessões rítmicas de baixo e bateria mais importantes de toda a história da música jamaicana. Eles já haviam integrado o grupo The Upsetters em sua formação original, mas passaram a dedicar-se em tempo integral ao The Wailers após Lee Perry abrir seu estúdio, o Black Ark, em 1973. “Duppy Conqueror”, de 1970, foi uma dos primeiros hits resultantes da promissora parceria entre Lee Perry e The Wailers. Outras inúmeras sessões, gravadas anteriormente no Studio One, produziram algumas peças-chave para o futuro repertório  do grupo, incluindo “Sun Is Shinning”, “Small Axe” e “Kaya”, todas elas gravadas no período entre 1970 e 1971. É bem verdade que algumas destas sessões resultaram em vários álbuns lançados na Inglaterra (com material não autorizado) pela Trojan Records, como é o caso de “Soul Rebels” (1970), Soul Revolution (1971) e African Herbsman (1974), sendo que este é apenas um exemplo da complexa e conturbada relação entre os Wailers e Perry, a quem acusam de frequentemente não lhes pagar devidamente pelas obras.

O primeiro álbum de Perry com experimentações de dub foi “Cloak & Dagger”, lançado entre 1972 e 1974, não se sabe ao certo. O disco trazia bases de algumas faixas produzidas anteriormente com sua banda, o The Upsetters, e possuía diferentes versões para os mercados inglês e jamaicano. Embora não fosse propriamente um disco de dub, aquele foi certamente um dos primeiros passos nesta direção e poderia até ser considerado inovador para a época, já que as faixas dub foram cortadas da versão original jamaicana para o lançamento na Inglaterra, resultando em fracasso comercial. O próximo disco, “Rhythm Shower” (1973), foi lançado apenas na Jamaica e até hoje é considerado item raro.

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King Tubby, engenheiro de som jamaicano e parceiro fundamental de Lee Perry em algumas das primeiras produções de dub.

Perry logo passou a integrar um seleto grupo de produtores, a exemplo de Bunny Lee, investiu em equipamento de estúdio e incorporou técnicas de mixagem dub com o então renomado engenheiro de som King Tubby, considerado até hoje um dos pais do gênero. “Blackboard Jungle Dub”(1973) é o primeiro resultado de uma bem-sucedida parceria entre eles (que apesar da relação de proximidade desenvolveram técnicas e estilos bastantes diferentes ao longo dos anos). Uma raridade em termos conceituais para o reggae e considerado por muitos um clássico do “early dub”, o disco foi lançado em edição limitada e a um preço acima da média do mercado. Embora não tivesse perfil para integrar o “mainstream” britânico, o disco garantiu a Perry margem de lucro muito acima da média para artistas de qualquer gênero à época.

Perry costumava gravar suas faixas em alguns dos mais conhecidos estúdios da Jamaica, como o Randy’s e o Dynamic Sounds. No final de 1973, decidiu montar seu próprio estúdio, o Black Ark, no quintal de sua casa, em Kingston. Um dos principais motivos que o levaram à empreitada foi justamente a insatisfação em relação aos outros estúdios, que não investiam em “upgrades” de seus equipamentos, o que acabava por limitar as suas criações. Ter seu próprio estúdio significava ter poder para moldar sua criatividade musical e seu próprio destino na indústria da música. Segundo alguns relatos, o primeiro equipamento de Perry, um engenhoso sistema de gravação em quarto canais, foi construído por King Tubby, que além de excelente engenheiro de som era também um exímio conhecedor de eletrônica. Perry ainda contou com a colaboração de Errol E. T. Thompson, engenheiro de som que já havia realizado diversos trabalhos no Randy’s Studio e cujas obras continham grande valor e influência.

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Lee “Scratch” Perry em ação no seu lendário estúdio Black Ark, em 1973.

Muito além de simples vitrine para o seu trabalho, o Black Ark era em si mesmo uma espécie de “teia de ideias” para a criatividade de Perry. Suas paredes eram repletas de fotos, figuras e símbolos escritos à mão que não pareciam fazer sentido algum, o que deu margem a especulações sobre sua saúde mental. Mais que um estúdio, o local tornou-se um museu audiovisual para Lee Perry, cujo senso empresarial permaneceu intacto: ele passou a vender inúmeras produções exclusivas em forma de “dubplates” para importantes “soundsystems” de Londres, e costumava trocar algumas obras por roupas e outros suprimentos.

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O disco Super Ape (1976), primeiro álbum de Lee Perry lançado pela Island Records.

Além dos avanços com o estúdio, um acordo de licenciamento com a Island Records, em 1976, conferiu grande exposição à sua música, que agora contava com uma audiência sensivelmente maior. Em meados de 1970, a Island Records já havia se posicionado na vanguarda do reggae. Antes disso, porém, Lee Perry era o responsável por quase a totalidade das produções, gravações, prensagens, vendas e distribuição dos discos produzidos em seu estúdio. O influente “Super Ape”, de 1976, foi um dos primeiros lançamentos a serem beneficiados pelo acordo de produção e distribuição com o selo britânico. Graças à parceria com a Island Records, Lee Perry podia finalmente contar com uma audiência global e mostrar toda sua excentricidade ao mundo, apesar de vários (bons) discos produzidos no lendário Black Ark terem ficado em relativa obscuridade.

A aliança com a Island ainda possibilitou que Perry fizesse os devidos “upgrades” em seu equipamento de estúdio, podendo fazer ainda mais experimentações que, por sua vez, nem sempre resultaram em sucesso comercial. Houve quem dissesse que a inconsistência da vida pessoal de Perry começava a ficar evidente em sua obra, e que aquilo era um prenúncio de uma inequívoca e preocupante perda de foco.

Contrariando mais uma vez as expectativas, ele manteve-se engajado e logo veio a produzir outros grandes feitos. O single “Police & Thieves”, do cantor jamaicano Junior Murvin, uma das produções mais memoráveis de Lee Perry naquele período, alcançou boas posições nas paradas britânicas, e o mesmo se pode dizer de “Hurt So Good”, da cantora britânica Susan Cadogan (ouça abaixo), que emplacou o top 5 e vendeu em torno de 250 mil cópias.

Ele continuava acumulando hits, como já era o caso de “Curly Locks”(1973) com Junior Byles e “War Inna Babylon”, de Max Romeo, lançado pela Island em 1976. Poderia ter ficado limitado ao universo do reggae e não chegar ao mercado pop “mainstream”, se não tivesse produzido material para o ábum de estreia da banda de punk rock britânica The Clash, em 1977. Naquele mesmo ano, juntou-se a Bob Marley nos estúdios da Island, em Londres, para produzir a faixa “Punky Reggae Party”, uma declaração simbólica de alinhamento dos ideais “anti-establishment” dos punk rockers britânicos e dos dreads jamaicanos. Ainda em 1977, Perry reforçou sua vocação para a indústria pop ao produzir material para o album “Wide Prairie”, da então esposa de Paul McCartney, Linda McCartney (registro que só foi lançado em 1998, após sua morte).

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O disco de estreia do grupo de punk rock britânico The Clash (1977), contou com Lee Perry na produção e abriu novos horizontes de mercado para o produtor.

Seguiram-se outros projetos de grande valor artístico, porém, em razão de uma opção da Island em não lançá-los, Lee Perry viu o alcance de sua obra diminuir drasticamente. Sua relação com a gravadora britânica ruiu, assim como sua capacidade de quebrar padrões musicais gozando de reconhecimento comercial. O som produzido no Black Ark tornava-se cada vez mais estranho aos ouvidos, sua música era considerada cada vez mais inacessível, parecendo refletir suas batalhas psicológicas. A despeito de seus acordos comerciais com a Island, o selo acabou por marginalizar o seu trabalho, e várias de suas gravações solo – nas quais havia investido muito financeira e criativamente – não foram lançadas internacionalmente. O selo Trojan Records, no qual havia concentrado grande parte de seu material, também passava por grandes dificuldades e isso só ajudou a piorar a situação. Vários outros fatores contribuíram para um comportamento cada vez mais turbulento, e sua produtividade declinou no final da década de 70, à medida que o Black Ark guadualmente se desintegrava.

No início de 1983, o Black Ark foi consumido por um incêndio deflagrado por seu próprio criador, pondo fim a um dos maiores templos do dub jamaicano da história. Para alguns, Perry era apenas um personagem, inventado por ele próprio, que se fazia de louco para desviar a atenção dos criminosos num período de efervescência sociopolítica que dominava a Jamaica. Para outros, ele era em si mesmo uma personificação de suas criações musicais, um cérebro em constante estado de implosão psíquica. Ele alega que os motivos para o incêndio ao Black Ark estão relacionados às substâncias que usava enquanto produzia seus dubs. Ele cita os cigarros, carne, álcool (especificamente rum) e ganja (maconha) como sendo os agentes químicos fundamentais para o incidente. Certa vez, afirmou que não mais se identificava com o lugar onde as músicas foram criadas, já que não fazia mais uso das substâncias que alteravam seu estado de consciência. Em vez disso, agora voltaria a produzir o que chamou de “simple clean music”, músicas não afetadas pelo que passou a considerar como estimulantes negativos para a mente e o corpo. Mas muito embora ele tenha acenado com a possibilidade de um equilíbrio mental, suas falas nas entrevistas ainda permaneciam enigmáticas e misteriosas, desafiando a um entendimento real de seu significado.

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Black Ark: local repleto de fotos, figuras e símbolos escritos à mão, por onde passaram grandes nomes da música jamaicana e mundial.

Seu trabalho após o fim da era Black Ark mostrou-se inconsistente, tanto em termos de qualidade quanto de direção, e parecia refletir seu sentimento de inquietação e deslocamento após deixar a Jamaica, em 1984. De lá pra cá, ele viveu entre Londres e Nova Iorque até se estabelecer na Suíça por volta de 1989. Uma vida familiar, muito distante do ambiente que deu origem à sua carreira e lhe mostrou o caminho rumo ao estrelato internacional.

Ouça abaixo alguns hits produzidos por Lee “Scratch” Perry:

Um autêntico Sound System jamaicano  |  foto: reprodução internet

História e magia do Dub

A história do dub jamaicano é fascinante, e serve para nos lembrar das influências da tecnologia e da indústria na evolução da música popular moderna. A música popular jamaicana sempre teve um relacionamento forte com a indústria de produção de discos. Nos anos 50, eram os operadores de sistemas de som (que futuramente seriam chamados de “Disk-Jockeys”, ou DJ´s) que dominavam as pistas de dança na ilha, com suas “discotecas móveis”.

Tirando proveito do recém-lançado sistema de gravação em quatro pistas e de efeitos de estúdio como reverberação e eco, eles criaram paisagens sonoras onde, com base no baixo e bateria, podia-se brincar à vontade com os efeitos de voz e outros instrumentos de apoio. Essa técnica foi batizada de “Dub” com base no termo “dubbing”, que significa tirar cópias de fitas.

Fábrica de vinil desativada, no lendário Tuff Gong Studios, em Kingston  |  foto: Laerte Brasil

Fábrica de vinil desativada, no lendário Tuff Gong Studios, em Kingston | foto: Laerte Brasil

O Dub foi muito influente na Jamaica e fora dela. Nos Estados Unidos, se disseminou nas comunidades negras de Miami e New York, onde ajudou no nascimento do Rap. Na Inglaterra, onde a música jamaicana sempre teve grande penetração desde a época do ska, fez surgir a dub poetry, que consistia em sofisticados poemas ingleses lidos sobre uma base instrumental Dub. Lee “Scratch” Perry, King Tubby e Sly & Robbie são alguns de seus principais expoentes.