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Alpha Blondy & The Solar System | foto: Alan Alves

Brasil e África numa noite de celebração à música da Jamaica!

Em pouco menos de um ano de projeto, já virou rotina: se é um grande show, o Jamaica Experience marca presença! E assim foi mais uma vez, com a recente passagem de Alpha Blondy pelo Brasil. Acompanhado de sua espetacular banda The Solar System, este ícone africano do reggae conquistou a plateia que lotou a Audio Club, em São Paulo, com um repertório cheio de grandes hits e seu carisma habitual.

A OBMJ botou todo mundo pra dançar ao som de vários clássicos brasileiros, tocados em ritmo jamaicano! | foto: Alan Alves

A OBMJ botou todo mundo pra dançar ao som de vários clássicos brasileiros, tocados em ritmo jamaicano!

Para quem já conhecia o show, uma ótima oportunidade de relembrar os clássicos e conhecer as músicas de seu novo álbum, “Positive Energy”. Para os que ainda não conheciam, a alegria de estar pela primeira vez à frente daquele grande artista e de músicos impecáveis, que transbordaram vibrações positivas e transformaram aquela noite em uma grande e inesquecível festa. Um show para ver, rever e deixar registrado para sempre na memória! Clique aqui e confira um álbum de fotos do show em nossa fanpage no Facebook!

A festa também contou com os cariocas do Dub Ataque, com o folk do britânico Marky Kelly e com aquela que, para os verdadeiros amantes da música jamaicana de raiz, era a grande sensação da noite: a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana. Um timaço de músicos instrumentistas, liderados por Felippe Pipeta e Sergio Soffiatti, que botam todo mundo pra dançar num baile ao mesmo tempo “divertido e educativo”, nas palavras dos próprios idealizadores.

E o Jamaica Experience aproveitou o momento para saber mais sobre esse projeto incrível! Nesta entrevista exclusiva para a nossa apresentadora Magá Moura, Felippe Pipeta e Sergio Soffiatti, os criadores da OBMJ, contam como surgiu a banda, falam das suas principais referências sonoras e traçam paralelos bem interessantes entre a música brasileira e a jamaicana, com suas similaridades de raiz e de ritmos. Uma pequena aula, à qual todo apreciador de música jamaicana deveria assistir.

Este é mais um conteúdo inédito e com o selo de qualidade Jamaica Experience. Assista, comente, compartilhe com seus amigos e nos ajude a fortalecer esta rede em prol da legítima cultura jamaicana em nosso país.

Por aqui, seguimos na missão! Mais novidades em breve…

Assista à cobertura do show + entrevista exclusiva para o Jamaica Experience:

Jah9, uma das representantes da nova geração do reggae jamaicano. | foto: divulgação Jah9

O lugar da mulher na música jamaicana – parte 2

Atualmente, há na Jamaica uma nova safra de cantores e bandas de reggae lançando um outro olhar sobre o roots reggae. O auge do roots reggae aconteceu nos anos 1970, com grande influência espiritual do movimento rastafári e nomes como Johnny Clarke, Cornell Campbell, Bob Marley, Peter Tosh, Burning Spear e bandas como Black Uhuru, Steel Pulse e Culture.

Respeitar o passado, ter algo a dizer nas letras, tocar ao vivo e trabalhar de forma colaborativa com outros artistas. Essas regras são a base do trabalho da nova geração que, antes de simplesmente reeditar o passado, quer escrever seu presente de forma significativa. Chronixx, Protoje e a banda Raging Fyah são alguns exemplos.

No que se refere à presença feminina, se antes poucas mulheres se destacaram, hoje, Jah9, Etana, Sevana e Xana Romeo são algumas das cantoras que, seguindo essa mesma linha, têm ganho espaço e respeito no contexto do novo roots reggae.

As mulheres que são "a cara" do novo roots reggae jamaicano. | fotos: reprodução internet

As mulheres que são “a cara” do novo roots reggae jamaicano. | fotos: reprodução internet

Jah9 – ou Janine Cunningham – cantava desde criança mas, na universidade, com os amigos rastafári, encontrou lugar para sua poesia e suas ideias. A carreira propriamente dita começou em 2011, quando lançou os singles “Keep Holding On” e “Warning”. Em 2013, após mais alguns singles, lançou o álbum “New Name”. Nele, há canções que falam de temas como a hipocrisia autoritária (Intention e Preacher Man), ou que fazem referência à viagem psicológica provocada pelo uso da “erva sagrada” (Taken Up). A favorita do público, Avocado, é uma canção leve e divertida, sobre uma garota, inspirada em seu dia a dia pelas ideias rastafáris (assista ao clipe abaixo).

Nascida em 1983, assim como Jah9, Etana também gostava de cantar quando menina. Aos nove anos, mudou-se para os EUA com a família e lá chegou a fazer parte de um grupo vocal chamado Gift, no início dos anos 2000. Contudo, ela não se sentia à vontade com as demandas da indústria da música, que incluíam o uso de roupas sexy e letras sem grande profundidade. De volta à Jamaica, em 2005 Etana tornou-se backing vocal do cantor Richie Spice. Seu sucesso era tanto, que foi encorajada a iniciar carreira solo. Primeiro, gravou o single “Wrong Address”, de sua autoria e em 2008, lançou seu álbum de estreia, “The Strong One”. Curiosamente, seu nome verdadeiro é Shauna McKenzie e Etana é um nome em Swahili que significa “the strong one”. Etana lançou, posteriormente, mais três discos: “Free Expressions” (2011), “Better Tomorrow” (2013, gravado no Tuff Gong Studios) e “I Rise” (2014).

Sevana Siren tem 23 anos e é uma das grandes promessas da temporada. Nascida numa zona rural, Sevana diz inspirar-se em todos os lugares, todas as pessoas e todas as coisas. Além de cantar, também compõe e tem um estilo definido como indie-reggae. Ela gravou apenas dois singles, “Chant It” (2013) e “Bit Too Shy” (2014), mas, certamente, vale a pena acompanhar seus próximos passos.

Finalmente, a jovem Xana Romeo, de apenas 21 anos e filha do veterano cantor de reggae Max Romeo. Em 2014, Max lançou um disco chamado “Father & Sons”, juntamente com seus dois filhos adolescentes, Romario e Ronaldo, ou Rominal (grande dupla!). Agora, é a vez da filha, cuja linda voz tem gerado grandes expectativas. Ela já lançou dois singles: em 2014, “No Love” e em 2015, “Righteous Path” (ouça abaixo).

É bom perceber que a nova geração do roots reggae tem mulheres na linha de frente e não apenas nos backing vocals. Melhor ainda, elas têm muito a dizer e a cantar. Essas meninas prometem!

Assista ao clipe “Reggae”, da cantora Etana:

Julian Marley no palco do Espaço das Américas | foto: Fabiano Oliveira

The Wailers & Julian Marley: mágico!

2015 começou muito bem para os amantes de reggae no Brasil. Isso porque o The Wailers, banda ícone do reggae mundial – conhecida, entre outras coisas, por ter sido a banda do rei do reggae, Bob Marley – esteve de passagem por aqui em turnê que percorreu quase todo o país.

O grupo, que já esteve no Brasil em muitas outras oportunidades, desta vez resolveu presentear os fãs com uma apresentação histórica e subiu ao palco pela primeira vez acompanhando o filho do rei, Julian Marley. Mais: reuniu vários integrantes de uma formação clássica, que excursionaram ao lado de Bob Marley entre 1974 e 1981.

Capitaneados pelo lendário baixista Aston “Familyman” Barrett, integrante da formação original, o “The Wailers Band Reunion”, como ficou conhecida esta formação especial, percorreu 15 cidades brasileiras e desembarcou em São Paulo no final de janeiro para um show que ficará marcado para sempre como uma das performances mais emblemáticas do grupo jamaicano em terras tupiniquins.

Músicos como Earl “Chinna” Smith (guitarra), Tyrone Downie (teclados) e Glen DaCosta (sax), além do próprio baixista Aston Barrett, acompanhado de seu filho Aston Barrett Jr. na bateria, garantiram a sonoridade clássica dos Wailers. Julian Marley, com sua presença de palco e energia, representou muito bem o pai e levou o público à loucura com um repertório nada convencional.

É claro que o Jamaica Experience estava lá para conferir tudo isso! Veja no álbum acima como foi esta noite mágica e confira ainda uma entrevista exclusiva que fizemos com Julian Marley e Aston “Familyman” Barret para o nosso canal no Youtube. Pra ficar tudo melhor ainda, cobertura e entrevista “by” Magá Moura. Não dá pra perder, certo?

E só pra não perder o costume: fiquem ligados, vem muito mais por aí!

Assista a seguir à cobertura exclusiva do show para o Jamaica Experience:

Lloyd "King Jammy" James é um dos mais aclamados produtores jamaicanos | foto: divulgação

A Jamaica e seus “templos” musicais

Studio One, Tuff Gong, Black Ark, Channel One. Se você é apreciador de reggae e música Jamaicana em geral, já deve ter ouvido falar destes estúdios, famosos por terem dado vida a alguns dos maiores clássicos musicais produzidos na ilha. De fato, na Jamaica, engenheiros de som, técnicas e equipamentos utilizados nas gravações são considerados elementos tão importantes quanto a própria obra musical a ser trabalhada. E por vezes mais importantes até que o próprio artista!

Os produtores Syrix e Professa com Dean Fraser, um dos mais aclamados músicos e produtores da Jamaica, ao centro. | Foto: reprodução Internet

Os produtores Syrix e Professa com Dean Fraser, um dos mais aclamados músicos e produtores da Jamaica, ao centro.

A relação dos músicos na Jamaica com os estúdios é tão visceral que é quase impossível dissociar a imagem de alguns artistas dos locais que ajudaram a eternizar suas obras. Como bons exemplos disso temos o Tuff Gong, estúdio que pertenceu a Bob Marley e hoje continua sob a administração de sua família, e o lendário Black Ark, do genial produtor Lee “Scratch” Perry.

A explicação para isto está na maneira como músicos e produtores locais sempre entenderam a música e seus processos de construção, reconstrução e desconstrução. E isso é a própria essência da música jamaicana, especialmente em gêneros como o dub e o dancehall, que usam e abusam dos recursos digitais para criarem atmosferas sonoras que ao mesmo tempo intrigam e seduzem, especialmente os jovens.

No início da década de 70, Lee Perry e King Tubby definiram as bases sobre as quais a indústria da música pop viria a se apoiar mais tarde ao criarem o dub, com suas formas de agenciamento de sons. Na metade dos anos 80, foi a vez de Lloyd “King Jammy” James e Wayne Smith darem vida àquela que viria a ser a primeira música totalmente computadorizada da história da música jamaicana, Under Mi Sleng Teng (ouça abaixo).

Ao longo das últimas 5 décadas, a ilha que respira música 24 horas por dia foi ficando cada vez mais conhecida por sua capacidade de (re)criar estilos e antecipar tendências musicais ao mundo, influenciando gerações de jovens como os produtores Syrix & Professa, da Dreama Studios e Irievibrations Entertainment, da Alemanha. Juntos, eles decidiram criar uma websérie sobre a história e cultura da indústria musical. E resolveram começar pela Jamaica!

“Studio Chronicles” traz curiosidades dos bastidores, entrevistas com produtores e engenheiros responsáveis pelas gravações, além é claro dos artistas. O resultado é uma saborosíssima viagem pela história da música jamaicana através de alguns dos seus mais emblemáticos estúdios. E por que não dizer “templos”?

Assista a seguir à playlist com a websérie completa em 5 episódios!

Assista à websérie “Studio Chronicles”, com trailer + 5 episódios:

foto: reprodução internet

World a Reggae – Rihanna: a diva pop e suas referências

Difícil imaginar uma combinação tão improvável quanto uma mistura de Mariah Carey, Beyoncé e Madonna, com influências de Bob Marley. Oi?? Então, de certa forma, Rihanna é o resultado dessa combinação inusitada. Vamos tentar explicar melhor tudo isso.

Rihanna fez sua primeira audição aos 15 anos de idade, em Barbados, onde nasceu. O produtor musical Evan Rogers gostou do que ouviu e, no ano seguinte, juntamente com seu sócio Carl Sturken, produziram doze canções que geraram as demos que acabariam por lançá-la como cantora. Em 2005, lançou seu primeiro álbum “Music of the Sun” e, no ano seguinte, o segundo, “A Girl Like Me”. Ambos ficaram entre os top ten da Billboard 200, com os sucessos Pon the Replay e SOS, respectivamente.

Voltando ao começo deste texto, nessa fase inicial da carreira Rihanna era a promessa de uma cantora na linha do dance e do pop, meio Madonna. Mas, em 2007, em seu terceiro álbum, “Good Girl Gone Bad”, mostrou que o R&B era o seu ritmo, aquele com o qual ela mais se identificava. E quem é uma das divas do R&B? Beyoncé, que, aliás, disse ter começado a cantar após ouvir Mariah Carey cantando Vision of Love.

Com Madonna, Mariah Carey, Beyoncé e Bob Marley. Rihanna é única, mas como toda estrela pop, ela tem as suas referências. | foto: reprodução internet

Com Madonna, Mariah Carey, Beyoncé e Bob Marley. Rihanna é única, mas como toda estrela pop, ela tem as suas referências.

“Good Girl Gone Bad” recebeu nove indicações para o Grammy 2008 e ganhou apenas o de melhor Rap/Sung Collaboration, com a canção Umbrella. Posteriormente, Rihanna receberia mais cinco Grammy, além de oito American Music Awards, vinte e dois Billboard Music Awards e dois BRIT Awards. Ela já vendeu mais de 30 milhões de álbuns e 120 milhões de singles, no mundo todo.

E onde entra Bob Marley nessa história toda? Barbados é uma das ilhas do Caribe, assim como a Jamaica. Assim, a associação de Rihanna com o reggae e Bob Marley parece até natural. Porém, há relações que vão além da proximidade geográfica. Admiradora confessa do rei do reggae – ela é vista com frequência usando roupas e adereços que remetem ao ídolo jamaicano – Rihanna não resiste a uma pitada jamaicana em suas produções. Tanto que seu primeiro álbum, “Music of the Sun”, chegou a ser recebido pela crítica como um disco de reggae, dada a origem caribenha da cantora e a nítida influência dos ritmos jamaicanos presentes no disco.

Participações como a do cantor jamaicano Sean Paul em Break It Off, no álbum “A Girl Like Me”, faixa produzida pelo produtor (também jamaicano) Donovan “Don Corleon” Bennett em seu renomado estúdio Hitmaker, em Kingston, também servem como exemplo. E há vários outros, como é possível ouvir nesta playlist especial abaixo.

Como se vê, não é nada difícil encontrar na obra de Rihanna forte influência de música jamaicana. Do reggae mais clássico ao dancehall moderno – incluindo boas doses de temas polêmicos – está tudo lá. Um outro exemplo, de 2010, acabou gerando mesmo muita polêmica. Como parte do álbum “Loud”, Rihanna gravou na Jamaica o clipe da música Man Down. O que, em princípio, seria positivo – uma forma de divulgação da ilha – não foi tão bem recebido, especialmente pelos jamaicanos. A música conta a história de uma garota (Rihanna) que é estuprada e resolve matar seu estuprador. Convenhamos, não é a melhor promoção que um destino pode querer.

Ao lado de Ziggy Marley e Bruno Mars, Rihanna participou de tributo ao rei do reggae, Bob Marley.  |  foto: reprodução internet

Ao lado de Ziggy Marley e Bruno Mars, Rihanna participou de tributo ao rei do reggae, Bob Marley.

Para quem não se lembra, Like a Prayer, Justify My Love e Live To Tell são apenas alguns dos clipes de Madonna que causaram grande polêmica. E, com enorme repercussão, geraram muita mídia. Não foi diferente com Rihanna e sua Man Down. O mundo da música e das celebridades tem dessas coisas…

Em compensação, em 2013, durante a premiação do Grammy, Rihanna teve uma participação bem legal no tributo a Bob Marley. Ao lado de Ziggy Marley, Damian Marley, Sting e Bruno Mars, cantou Could You Be Loved. De quebra, nessa edição do prêmio, Rihanna venceu na categoria de melhor clipe com We Found Love.

Diva e por vezes dramática, como Mariah Carey. Pop e representante do R&B, como Beyoncé. Sempre se reinventando, como Madonna. Caribenha e ligada às suas raízes, como Bob Marley. Prazer, essa é Rihanna!

Assista ao polêmico clipe de “Man Down”, de Rihanna, gravado na Jamaica:

O grupo No-Maddz | foto: reprodução Internet

Great times are coming. Ou: Big Things A Gwaan!

A menção ao famoso slogan publicitário de uma certa marca de cerveja guarda forte semelhança com um termo comumente usado na Jamaica, ambos com a mesma intenção e significado: anunciar um evento excepcional, algo de proporções significativas e que promete causar impacto.

Chronixx é considerado uma das maiores revelações do reggae jamaicano na atualidade | Foto: reprodução Internet

Chronixx é considerado uma das maiores revelações do reggae jamaicano na atualidade

Não sabemos se a tal marca de cerveja entrega ou entregará o que promete, mas temos razões de sobra para acreditar que a Jamaica vai entregar o que vem prometendo nos últimos anos. Já ensinamos aqui que devemos esquecer o termo “terceiro mundo” quando falamos de música jamaicana, já que há motivos de sobra para entender que a ilha deve ser reconhecida como uma das grandes potências mundiais nesta área (leia Música jamaicana: muito além de Bob Marley).

Se é verdade que o reggae viveu sua “golden era” nos anos 70 e 80, também é verdade que o gênero teve o seu merecido “revival” nos anos 90, quando novos artistas surgiram e antigos nomes retornaram à cena. No Brasil, o fenômeno teve papel decisivo e contribuiu para o surgimento de inúmeras bandas, que por sua vez contribuíram não apenas para a formação e renovação do público, mas sobretudo para a consolidação do gênero no país.

Protoje: legítimo representante da nova escola do reggae jamaicano | foto: reprodução Internet

Protoje: legítimo representante da nova escola do reggae jamaicano

Duas décadas depois, um movimento muito parecido àquele já dá sinais de força suficiente para que artistas e produtores jamaicanos afirmem que vem aí um segundo “reggae revival”. É bom deixar claro que a música jamaicana nunca saiu de cena. Basta lembrar dos midiáticos Shabba Ranks, Shaggy, Sean Paul e outros representantes do dancehall, que ganharam lá os seus Grammys, emplacaram seus hits nas rádios pelo mundo e venderam muito disco nas últimas duas décadas.

Mas aqui nos referimos ao reggae mais clássico, aquele que remete mais à fundação do reggae jamaicano, nas letras engajadas e no ritmo hipnotizante que (desculpem) eles sabem fazer como ninguém. O “reggae roots”, como gostamos de dizer por aqui. Que também nunca saiu de cena, mas que viu seu protagonismo na indústria musical jamaicana perder espaço para a nova onda do dancehall, com seus sintetizadores e sua temática em grande parte voltada à violência e sexualidade. Qualquer semelhança com o mundo (e o Brasil) não é mera coincidência.

Curioso notar como o período que compreende as últimas duas décadas coincide com as profundas mudanças por que passou a indústria da música em escala global. O surgimento da Internet, o avanço da pirataria, as disputas jurídicas entre os grandes conglomerados da indústria musical contra gênios prodígios, capazes de criar sistemas e algoritmos que revolucionaram a maneira como acessamos e consumimos informação, inclusive e principalmente música.

Na “era da informação”, foi a vez das grandes gravadoras verem o seu protagonismo e poder de influência cederem espaço às novas e surpreendentes plataformas de distribuição de conteúdo, através das quais artistas poderiam encurtar as distâncias e intensificar o diálogo com seu público. Uma mudança de rumo sem precedentes, que abriu espaço para toda uma geração de novos e talentosos artistas mundo afora – que sabem muito bem usar a Internet a seu favor, obrigado.

Não seria diferente na Jamaica. Chronixx, Protoje, Jah Cure, No-Maddz, Jah-9, Tarrus Riley, Etana, Iba Mahr, Jesse Royal… são muitos os nomes que despontam como os legítimos novos representantes da escola jamaicana de fazer reggae. Não é mais do mesmo. É o “new roots”. Ou “conscious music”, como eles gostam de dizer por lá.

Ouça a playlist acima e assista às playlists exclusivas que montamos em nosso canal no Youtube (abaixo) para conhecer os jovens jamaicanos que estão fazendo a cabeça do público mundo afora. Desta vez, não tem mais volta: a Internet está aí a nosso favor.

Assista à playlist “New Reggae – part 2”, de Jamaica Experience:

 

Lady Saw, cantora jamaicana conhecida como a "rainha do dancehall" | foto: reprodução internet

Qual é o lugar da mulher na música jamaicana?

A Jamaica foi colonizada primeiramente por espanhóis, que trouxeram os primeiros escravos africanos e, posteriormente por ingleses. Às culturas latinas e africanas, que têm em comum uma alta dose de machismo, somou-se, no caso da Jamaica, a questão dos princípios seguidos pelos rastafáris, os quais acabam por colocar a mulher em posição secundária, de submissão.

Foto de família jamaicana no início do século XX |  foto: reprodução internet

Foto de família jamaicana no início do século XX

Os reflexos disso na sociedade jamaicana são muitos e bastante cruéis, em alguns casos. As mulheres resistem ao planejamento familiar, especialmente por conhecerem a posição contrária de seus pares. Elas costumam ter muitos filhos, de diferentes parceiros e a razão é, sobretudo, econômica: se um pai não reconhecer suas responsabilidades, quem sabe outro o faça.

Mulheres criando filhos sem a ajuda ou presença do pai são uma instituição na Jamaica. Estima-se que oito em cada dez crianças nasçam fora de um casamento. Esse desajuste familiar tem consequências prejudiciais, tanto para as mulheres quanto para as crianças.

Atualmente, as mulheres representam cerca de 46% da força de trabalho na ilha, a maior taxa per capita do mundo. Submetem-se a todo tipo de trabalho, especialmente àqueles rejeitados pelos homens, em confecções ou como empregadas domésticas. Desempenham funções cujos salários são baixos e recebem menos que homens exercendo a mesma função. A participação das mulheres jamaicanas em posições de alta gerência não chega nem a 10% do total.

"Dancehall party": ritmo envolvente e performances sensuais  |  foto: reprodução internet

“Dancehall party”: ritmo envolvente e performances sensuais

As manifestações culturais de um povo refletem suas características, seu modo de pensar, seus problemas. Assim é na música. Enquanto as letras dos roots reggae eram mais filosóficas e às vezes até messiânicas, o dancehall e o ragga (dancehall digital) são mais explícitos na crítica social, ou quando tratam de violência ou sexo. Nesse sentido, aproximam-se do funk carioca, inclusive nas performances e nas danças extremamente sexualizadas.

De um lado, cantores como Shabba Ranks – que fez grande sucesso nos anos 1990 sendo, inclusive, considerado símbolo sexual –  com letras onde o sexo é quase uma obsessão e a mulher, um mero objeto. Atualmente, na mesma linha, Elephant Man canta pérolas como Whine Up.

Como resposta, há mulheres que resolveram combater o machismo através da música, como Lady Saw. Em Not In Love (ouça a faixa acima) e Rich Girl, por exemplo, ela coloca a mulher no poder, dona de seus sentimentos ou de seu dinheiro. Já Tanya Stephens vai da reclamação pelo tratamento recebido, como em Lying Lips e It’s A Pitty (ouça abaixo), até a dominação através do sexo, como em UnapologeticPon Di Side.

Há quem defenda que a posição da mulheres na Jamaica não é tão crítica, pois segundo esse raciocínio, elas conseguem manipular os homens através da sexualidade, fazendo-os sentir donos da situação. Sinceramente, prefiro acreditar numa outra linha, que demonstra que a escolarização está crescendo junto às mulheres jamaicanas. Como as brasileiras, elas são dedicadas e acabam tendo mais anos de estudo, e isso, a médio prazo, as levará a uma independência social e financeira que lhes permitirá tratar de seus relacionamentos de igual para igual.

Assista o clipe “Unapologetic”, de Tanya Stephens:

Ziggy Marley desbancou concorrentes "de peso" e mais uma vez levou o Grammy de melhor disco de reggae do ano.

And the Grammy goes to… Ziggy Marley.

Na noite do último domingo, 8 de fevereiro, o mundo conheceu os vencedores do Grammy Awards 2015, edição do tradicional evento que elege os melhores da indústria musical na opinião da Academia norte-americana, durante o ano anterior à premiação.

O excêntrico DJ e produtor jamaicano, Lee "Scratch" Perry.

O excêntrico Lee “Scratch” Perry.

Sob os holofotes da imprensa mundial e os olhos (e ouvidos) atentos do público, celebridades do mundo da música desfilaram seus estilos, figurinos e frases de efeito para milhões de telespectadores, numa noite que ficará marcada como uma das mais inusitadas da história do evento, ao menos no que se refere à escolha dos principais vencedores, que muitas vezes contrariou as expectativas e apostas da crítica especializada.

Na categoria reggae, no entanto, nenhuma surpresa. Com 6 gramofones na bagagem, Ziggy Marley abocanhou o sétimo, desbancando concorrentes de (muito) peso, como é o caso dos jamaicanos Shaggy, Sly & Robbie, Sean Paul e Lee “Scratch” Perry. Este último, figura lendária da música jamaicana, conhecido entre outras coisas por ter sido o principal mentor de Bob Marley e um dos inventores do dub, técnica de mixagem que revolucionou a indústria da música pop (leia matéria especial sobre o renomado DJ e produtor).

Além de “Fly Rasta”, de Ziggy Marley, concorriam ao prêmio de melhor álbum de reggae do ano “Out Of Many, One Music”, de Shaggy, produzido pela “dupla dinâmica” do baixo e bateria da Jamaica, Sly & Robbie – que por sua vez também emplacou na disputa o disco “The Reggae Power”, produzido em parceria com o DJ e produtor japonês Spicy Chocolate – “Full Frequency”, de Sean Paul, “Back On The Controls”, de Lee “Scratch” Perry e “Amid the Noise and Haste”, do grupo americano de pop reggae SOJA.

Reggae, Dub, Ragga, Dancehall… tinha de (quase) tudo à escolha dos jurados. Como gosto não se discute e tratam-se todos de excelentes opções para amantes de música jamaicana, disponibilizamos abaixo os discos (com exceção de “The Reggae Power”, disponível apenas no iTunes) para que você mesmo ouça e faça a sua escolha.

Ah, veja também ao final desta página o videoclipe oficial de I Don’t Wanna Live On Mars, principal música de trabalho até aqui do álbum “Fly Rasta”, de Ziggy Marley. =)

Ouça abaixo “Fly Rasta”, de Ziggy Marley, na íntegra:

Ouça abaixo “Full Frequency”, de Sean Paul, na íntegra:

Ouça abaixo “Back On The Controls”, de Lee “Scratch” Perry, na íntegra:

Ouça abaixo “Out Of Many, One Music”, de Shaggy, na íntegra:

Ouça abaixo “Amid The Noise And Haste”, do grupo SOJA, na íntegra:

Assista ao clipe de “I Don’t Wanna Live On Mars”, de Ziggy Marley:

foto: reprodução internet

The Jolly Boys: espalhando toda a alegria da Jamaica

Se você não é tão novinho, já deve ter pelo menos ouvido falar de Jackson do Pandeiro e Moreira da Silva. Ambos já faleceram há algum tempo, mas deixaram seus estilos marcados na história da música brasileira. O primeiro compunha e cantava forrós, sambas e seus derivados (xaxado, baião, frevo), era, sobretudo, um grande ritmista. Já Moreira da Silva era um sambista que personificava o estereótipo do malandro carioca. Pensei nisso tudo quando recebi a tarefa de escrever sobre os Jolly Boys, um grupo de mento jamaicano.

The Jolly Boys foi um dos primeiros grupos a mostrar a música jamaicana ao mundo.  |  foto: reprodução internet

The Jolly Boys foi um dos primeiros grupos a mostrar a música jamaicana ao mundo. | foto: reprodução internet

Bem, para começar, o mento é um tipo de música popular, tradicional da Jamaica. Nasceu da mistura das tradições musicais dos escravos africanos com elementos da música europeia. Além de ter muito ritmo, o mento utiliza instrumentos acústicos (como violão, banjo e tambor) e tem letras que falam do dia-a-dia de forma bem humorada e leve. Referências sexuais veladas e insinuações também são comuns. E isso me fez lembrar de outra figura do nosso forró: Genival Lacerda (aquele do “ele tá de olho é na butique dela”).

Uma das formações dos Jolly Boys  |  foto: reprodução internet

Uma das formações dos Jolly Boys

A história dos Jolly Boys é antiga, já que a banda existe desde 1955! Na verdade, houve um grupo antes, os Navy Island Swamp Boys, formado em 1945. Durante um bom tempo, eles tocaram nas festas (verdadeiros bacanais, segundo consta) oferecidas pelo ator Errol Flynn, então proprietário da pequena Navy Island. Quando o grupo se desfez, em 1955, dois de seus integrantes, Moses Deans e “Papa” Brown, formaram os Jolly Boys, que contava ainda com Derrick “Johnny” Henry, Martell Brown e David “Sonny” Martin. A banda ganhou fama e passou a ser considerada a melhor de sua região, Port Antonio.

Nos anos 1960, os Jolly Boys tocavam em festas e hotéis e até ganharam um concurso nacional de bandas de mento, na Jamaica. Nas festas, muitas vezes eram acompanhados por grupos de dança; o líder de um deles, Albert Minott, acabaria, futuramente, tornando-se também um dos Jolly Boys.

Na década seguinte,  gravaram seu primeiro single com as canções Take Me Back To Jamaica e Thousand Of Children. Passaram por mudanças em sua formação – já houve pelo menos 18 participantes – e até na divisão do grupo em dois, que coexistiram por algum tempo, tocando em áreas diferentes da ilha e mantendo contato regular entre si.

Entre os anos 1980 e 1990, os Jolly Boys gravaram vários álbuns e alcançaram reconhecimento internacional como nenhum outro grupo de mento. Fizeram turnês pelo mundo, dos EUA ao Japão. A partir de 1998, passaram a se apresentar regularmente no Geejam Studios, uma espécie de estúdio de gravação residencial, por onde passaram artistas como No Doubt, Amy Winehouse e the Gorillaz.

Em 2008, o Geejam abriu também um hotel, em Port Antonio, que passou a ser a casa da banda. Jon Baker, coproprietário do local, resolveu, então, produzir um disco que documentasse a importância da banda para as futuras gerações. O resultado foi o brilhante álbum “Great Expectations”, lançado em 2010.

Nada tradicionalistas e sempre dispostos em transformar em mento uma boa música, os Jolly Boys reuniram doze sucessos de feras como os Rolling Stones, The Doors, David Bowie e Amy Winehouse. É incrível como as versões são alegres e conseguem unir a vibração do mento a sucessos já tão consagrados.

Neste ano, os Jolly Boys perderam um de seus membros mais antigos, Joseph “Powda” Bennet, falecido em agosto, aos 76 anos. Ele era um dos remanescentes da formação”original”, ao lado de Derrick ‘Johnny’ Henry, Albert Minott, Allan Swymmer e Egbert Watson. Há ainda o sangue novo de Donald Waugh, Lenford “Brutus” Richards e Dale Virgo. O grupo continua firme, na ativa, em busca de novos desafios que possam ser enfrentados com alegria e irreverência. Como, aliás, bem faziam os saudosos Jackson do Pandeiro e Moreira da Silva.

Ouça na íntegra o álbum “Great Expectations”:

A banda No Doubt, da vocalista Gwen Stefani: Influências da música jamaicana e discos produzidos na ilha. | Foto: reprodução internet

World a Reggae – No Doubt: reggae music “underneath it all”

A influência da música jamaicana é assunto do qual já tratamos anteriormente (ver “A onda jamaicana que invadiu o Reino Unido“). Isso aconteceu não apenas no Reino Unido, mas também nos EUA, onde um dos bons exemplos é a banda No Doubt, da vocalista Gwen Stefani.

Gwen Stefani fez homenagens à Jamaica e ao reggae ao batizar dois de seus três filhos | foto: reprodução internet

Gwen Stefani fez homenagens à Jamaica e ao reggae ao batizar dois de seus três filhos

Inspirada na banda inglesa Madness – uma das primeiras responsáveis pelo revival do ska nos anos 1970 – a americana No Doubt foi criada em 1987. No início, era uma mistura de  new wave e ska. Começaram a fazer sucesso na Califórnia, onde a banda nasceu, e gravaram seu primeiro disco (“No Doubt”) em 1992. Então, sofreram o impacto da invasão do movimento grunge, também conhecido como som de Seattle (Nirvana, Pearl Jam e companhia). Mantiveram seu estilo e com alguma influência do punk rock, lançaram o segundo álbum (“The Beacon Street Collection”), em 1995.

Ainda em 1995, lançaram um novo álbum (“Tragic Kingdom”) que marcava o fim do relacionamento entre a vocalista Gwen e o baixista Tony Kanal. A temática, aliada à vocação pop de Gwen, sempre presente na mídia, ajudaram a promover o disco, que chegou ao primeiro lugar nas paradas. O álbum seguinte, “Return of Saturn”, saiu apenas em 2000 e teve boa aceitação de crítica e público, com sucessos como Simple Kind of Life e Ex-Girlfriend.

Contudo, a influência jamaicana está mais evidente no quinto álbum, chamado “Rock Steady” (ouça abaixo, na íntegra). Lançado em 2001, o álbum começou a ser gravado em Los Angeles e San Francisco. Posteriormente, a banda seguiu para Londres e Jamaica e trabalhou em conjunto com diversos intérpretes, autores e produtores. Entre eles, os jamaicanos Sly Dunbar & Robbie Shakespeare – que já foram produtores de artistas como Peter Tosh, Bob Dylan e os Rolling Stones – os americanos do The Neptunes (duo de Pharrel Williams) e o inglês William Orbit, produtor de Madonna.

Com tantas estrelas, o resultado só poderia ser excepcional. Dub jamaicano, pop eletrônico e dance são alguns dos estilos que dão forma ao disco, que vendeu cerca de 3 milhões de cópias. Dois destaques são as faixas Hey Baby e Underneath It All. A primeira, com a participação do DJ jamaicano Bounty Killer, gerou o single que rendeu ao No Doubt o quinto lugar na Billboard Hot 100.

Underneath It All,  escrita por Gwen Stefani e Dave Stewart, do Eurythmics, tem suas curiosidades. A banda foi visitar Dave, a quem não conheciam, em seu apartamento. Em quinze minutos, sentados na cozinha, Gwen e Dave tinham a música pronta. Para o álbum, a canção foi gravada com a participação da cantora de reggae jamaicana Lady Saw (assista ao videoclipe acima).

Depois de um hiato de mais de dez anos, nos quais Gwen teve sua carreira solo, além de três filhos, a banda lançou, em 2012, o disco “Push and Shove”, cuja finalização foi feita em um estúdio na Jamaica (ouça abaixo a faixa que dá nome ao disco, com participação especial do jamaicano Busy Signal). A produção, dessa vez, ficou a cargo do DJ americano Diplo, do Major Lazer.

Gwen, aliás, foi bastante criativa ao dar nomes a seus filhos e, em dois deles, expressou sua forte relação com a Jamaica. O mais velho é Kingston James McGregor Rossdale, sim, Kingston, como a capital da Jamaica. O do meio chama-se Zuma Nesta Rock Rossdale, sendo que Nesta é o segundo nome de Robert (ou Bob) Marley. O mais novinho, nascido em fevereiro deste ano, é Apollo Bowie Flynn Rossdale, mas Bowie and Flynn são nomes de solteira da mamãe. Além de extensos, os nomes trazem inúmeras homenagens e referências a pessoas e locais importantes para Gwen e seu marido, Gavin Rossdale. Pelo bem das crianças que estão por vir, esperamos que essa moda não pegue!

Ouça o disco “Rock Steady”, do No Doubt, na íntegra: