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SuperHeavy: Damian Marley, Dave Stewart, Mick Jagger, A. R. Rahman e Joss Stone. | foto: divulgação

World a Reggae: Um supergrupo musical chamado SuperHeavy

Basicamente, vejo duas possibilidades para a formação de supergrupos musicais – aqueles em que pelo menos um ou dois integrantes são oriundos de outras bandas de sucesso ou já possuem uma sólida carreira solo. A primeira é que a vida de popstar é meio enfadonha e, de repente, o cara acorda agoniado, com vontade de fazer algo diferente. Daí, liga para uns amigos igualmente famosos e entediados e pronto.

O SuperHeavy reuniu rock, blues, pop, soul, jazz e reggae. | foto: divulgação

O SuperHeavy reuniu rock, blues, pop, soul, jazz e reggae.

A segunda é que o artista tem múltiplas facetas que nem sempre podem ser exploradas em seu status atual como membro de uma banda ou em sua própria carreira solo. Então, surge a ideia de um novo projeto. Ele entra em contato com outros músicos que conheceu ao longo da carreira e eles topam a empreitada. Além de mais glamourosa e de, certamente, render boas respostas nas coletivas de imprensa, é o que acontece muitas vezes.

Essas reuniões de feras geram resultados bem interessantes. Aqui no Brasil, o caso mais famoso e o único de que me lembro é o dos Tribalistas – Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte. Marisa foi gravar uma participação no disco de Arnaldo, que estava sendo produzido por Brown. Conversa vai, conversa vem, em pouco tempo já tinham canções suficientes para um disco.

Tudo isso aconteceu em 2002, o álbum vendeu mais de 1,5 milhão de cópias só no Brasil e os três nunca fizeram uma grande turnê. Apesar do enorme sucesso de músicas como Já Sei Namorar e a linda Velha Infância, cada um dos três continuou sua própria carreira, em sua própria tribo.

Mundo afora a lista de supergrupos é enorme, desde os mais antigos como Cream, de Eric Clapton, passando por Emerson, Lake and Palmer, Temple of the Dog e Foo Fighters – este último, inclusive, mais duradouro do que os grupos de origem, como o Nirvana.

Encontro histórico: Bob Marley, Mick Jagger e Peter Tosh.  |  foto: reprodução internet

Encontro histórico: Bob Marley, Mick Jagger e Peter Tosh.

Em 2011 surgiu o SuperHeavy,  formado por Mick Jagger, Joss Stone, Dave Stewart (Eurithmics), A. R. Rahman (produtor de trilhas sonoras) e Damian Marley. Analisando em partes dá para encontrar se não similaridades, pelo menos intersecções entre seus trabalhos. Mick Jagger é puro rock, mas também blues e pop. Joss Stone faz mais a linha soul e R&B, mas também é blues e jazz. Dave Stewart é pop rock, Rahman é um músico indiano e Damian Marley é reggae, claro!

A história é mais ou menos assim: Dave Stewart comprou uma casa na Jamaica. Ouvia muita música vinda das ruas e ficou inspirado para começar algo novo. Queria misturar estilos, pensou em juntar orquestração indiana que ele e Jagger já curtiam.

Mick Jagger, por sua vez, já flertava com o reggae desde os anos 1960, quando dançava nos clubes jamaicanos, em Londres. Lá, ele conheceu Bob Marley quando este gravava “Catch A Fire”, com The Wailers – seu primeiro disco pela Island Records, de Chris Blackwell. Finalmente, em 1978, Jagger e Peter Tosh fizeram um dueto na versão reggae da canção Don’t Look Back, dos The Temptations (assista abaixo).

Em 2004, no remake do filme “Alfie”, com Jude Law no papel principal, Jagger e Stewart produziram a trilha sonora e participaram de várias canções. Uma delas, Old Habits Die Hard, foi a vencedora do Globo de Ouro 2005, na categoria de melhor canção original. Joss Stone também participou em duas faixas dessa trilha.

Joss Stone e Damian Marley: parceria além do SuperHeavy. | foto: reprodução internet

Joss Stone e Damian Marley: parceria além do SuperHeavy.

Anos depois, em 2009, Joss Stone, dona de uma bela voz feminina, participou do disco “Y Not”, do beatle Ringo Starr. Dave Stewart também trabalhou nesse disco e talvez aí tenha surgido mais uma conexão. Em 2011, Stewart foi o produtor do quinto álbum de Joss, “LP1”.

Muito incentivada por Damian Marley, seu companheiro de SuperHeavy, Joss Stone lançou, no último mês de julho, um álbum de reggae chamado “Water For Your Soul”. Damian participou como co-produtor e também em alguns vocais e letras. Ouça acima playlist especial com algumas das principais faixas do disco.

A. R. Rahman, cuja carreira na Índia já era um sucesso, levou nada menos que dois Oscar em 2009, pela melhor trilha sonora original e melhor canção original do filme “Quem Quer Ser um Milionário?”. Por fim, Damian veio para representar a Jamaica e arrematar esse quebra-cabeça musical.

Feitas as análises e voltando ao SuperHeavy, foram dois anos de trabalho secreto, até o lançamento do álbum de mesmo nome do grupo, em 2011. Eles se reuniam em Los Angeles com o objetivo de “escrever canções que tivessem significado”. Miracle Worker foi a primeira faixa lançada como single e também num clipe no YouTube.

Não houve consenso nem de crítica, nem de público. Apesar do álbum ter ficado entre os 30 primeiros no Billboard 200, faltou divulgação e as vendas foram fracas: apenas 33.000 cópias no lançamento. Gostoso de ouvir e com músicas bem elaboradas, o álbum não decolou. Talvez, dizem alguns, tenha se perdido na vontade de ser tudo para todos. Talvez, penso eu, tenha sido um projeto de músicos para músicos: foi prazeroso e divertido fazer. Não fez sucesso? Paciência, vamos em frente.

Assista ao clipe “Miracle Worker”, do SuperHeavy:

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Marley, o musical: mais do que apenas ótimas canções

Cartaz de divulgação de "Marley, o musical"  |  foto: divulgação

Cartaz de divulgação de “Marley, o musical”

Em fevereiro deste ano, Bob Marley completaria 70 anos. Entre as muitas formas de celebrar a data e relembrar a importância do grande ídolo jamaicano, nasceu a ideia de um musical. Escrito e dirigido pelo britânico Kwame Kwei-Armah, o espetáculo estreou em maio passado em Baltimore, nos EUA.

Kwei-Armah é diretor artístico do Center Stage, em Baltimore, e aceitou entrar no projeto desde que sua estreia fosse na cidade. Obra do acaso ou do destino, em abril deste ano, pouco antes de Marley entrar em cartaz, um jovem negro chamado Freddie Gray foi morto por policiais, causando grande comoção em Baltimore. Vítima de conflito racial e violência urbana, algumas das bandeiras contra as quais Bob Marley lutou.

O musical não se propõe a contar toda a vida do astro do reggae. Kwei-Armah optou por concentrar a história no período entre 1975 e 1978, quando Bob deixou a Jamaica – após escapar de uma tentativa de assassinato – e se auto-exilou em Londres. Durante esse intervalo, o cantor reafirmou suas convicções religiosas e sociais, além de ter lançado álbuns como “Rastaman Vibration”, com Positive Vibration e Roots, Rock, Reggae, “Exodus”, que inclui as canções Jamming e Three Little Birds, e “Kaya”, de Is This Love e Time Will Tell (ouça abaixo). Certamente, um dos períodos mais férteis de sua carreira.

Canções de outros álbuns também fazem parte do espetáculo que traz ao todo 30 músicas, interpretadas na íntegra ou parcialmente. Uma das críticas recebidas diz respeito exatamente ao grande número de canções, que acabam dando pouco espaço para o desenrolar da história. Porém, o que é um musical sem grandes músicas? E quanto aos intérpretes?

Neste quesito, especialmente no que se refere ao protagonista, o diretor foi extremamente feliz. Entre as 35 milhões de visualizações no You Tube, Mitchell Brunings – interpretando Redemption Song na edição holandesa do programa de TV The Voice – foi visto por Kwei-Armah. Ele, que já tinha testado diversas opções para o papel de Bob Marley, teve a certeza de ter encontrado o candidato perfeito. Tudo bem, já tínhamos dado a dica aqui no site, em Covers, tributos, versões: para manter vivos grandes ídolos.

Para o papel de Rita Marley a escolhida foi Saycon Sengbloh, que já havia participado de musicais na Broadway, como “Motown”, “Fela!”, “Aida” e “Wicked”. Quando soube das audições, ela foi decidida a conseguir o papel de Rita, a quem já admirava. Determinada e talentosa, foi, também, uma ótima escolha.

Para ajudar a entrar no clima, o lobby do teatro foi ambientado como um pedaço da Jamaica: o chão coberto de terra, uma cabana de madeira no canto, grafites de protesto e pôsteres políticos, pessoas comuns dançando ao som de Jimmy Cliff. A ideia de Kwei-Armah era a de um musical mais engajado e menos voltado ao entretenimento – como “Mamma Mia”, por exemplo. No entanto, o que se viu durante as apresentações é que há envolvimento do público, que ergue os braços com Get Up, Stand Up e junta-se aos atores no clímax, com One Love.

Marley esteve em cartaz em Baltimore até 14 de junho e foi um total sucesso de público. Simplesmente a maior renda e a maior audiência em 52 anos de história do teatro Center Stage. O espetáculo foi visto por mais de 22 mil pessoas em pouco mais de um mês de temporada, arrecadando cerca de US$780 mil.

A continuação da turnê ainda não está definida, mas o sucesso da temporada de estreia, somado ao peso de produtores como Chris Blackwell , fundador da Island Records, levam a crer que o musical terá uma longa estrada a percorrer.

Assista a um trecho do ensaio de “Marley, o musical”:


 

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Jamaicanos famosos, parte dois: difícil escolher…

Há pouco falamos a respeito de alguns jamaicanos ilustres, que fizeram sucesso em áreas que não o esporte e a música. A lista é tão extensa, surpreendente e interessante, que não pudemos resistir e  resolvemos trazer mais algumas histórias.

Grace Jones, por exemplo, nasceu na Jamaica e morou lá, com os avós, até os 13 anos de idade. Foi quando ela e seus familiares mudaram para Nova Iorque, onde seus pais trabalhavam. Muito tímida e magra, sofria bulling na escola, porém, compensava saindo-se muito bem nos esportes. Aos 18 anos, iniciou a carreira de modelo, nos EUA, e em 1970, aos 22, mudou-se para Paris. Sua aparência andrógina fez grande sucesso na cena parisiense e Jones desfilou para Yves St. Laurent e Kenzo e foi capa de revistas como Elle e Vogue. Em Paris, Grace Jones dividia apartamento com Jerry Hall (ex-mulher de Mick Jagger) e Jessica Lange (atriz de King Kong, 1977).

O visual andrógino de Grace Jones foi uma grande influência no movimento "power dressing" dos anos 80 | fotos: reprodução internet

O visual andrógino de Grace Jones foi uma grande influência no movimento “power dressing” dos anos 80 | fotos: reprodução internet

Em 1977, Grace Jones assinou contrato com a Island Records e fez grande sucesso com músicas disco. Após lançar 3 álbuns nesse estilo (“Portfolio”, “Fame” e “Muse”), Jones embarcou no New Wave, lançando os álbuns “Warm Leatherette” (1980) e “Nightclubbing” (1981). Por essa época, adotou o visual com o qual ficou mais conhecida, o corte de cabelo em formato quadrado e roupas acolchoadas.

Grace Jones ao lado de Arnold Schwarzenneger em "Conan, o Destruidor" | foto: divulgação

Grace Jones ao lado de Arnold Schwarzenneger em “Conan, o Destruidor” | foto: divulgação

Em 1984, novos rumos: Grace Jones atuou no filme “Conan, o Destruidor”, com Arnold Schwarzenneger e, no ano seguinte, em “007, A View to a Kill”. Em ambos os casos, foi indicada como melhor atriz coadjuvante.

Grace Jones retomou sua carreira musical e lançou diversos outros discos, sendo o mais recente “Hurricane”, de 2008.

Harry Belafonte, hoje um senhor de 87 anos, não é jamaicano de nascimento, mas americano. Após a separação de seus pais, Harry foi enviado para a Jamaica, terra natal de sua mãe, para viver com parentes. Viveu na ilha durante sua infância e viu de perto a opressão que as autoridades inglesas exerciam sobre o povo negro. Isso o marcou profundamente.

No início da adolescência, voltou a viver com a mãe, no Harlem. Alistou-se na Marinha e lutou na 2ª Guerra Mundial. Após desligar-se da vida militar, ficou um tanto sem rumo e teve vários empregos até achar inspiração ao assistir uma apresentação no American Negro Theater.

Passou a estudar teatro e teve como colegas Marlon Brando e Walter Matthau. Para financiar seu curso de teatro, Belafonte começou a se apresentar como cantor. Primeiro, canções mais pop, depois, passou a se interessar por música folk e, mais adiante, o calipso. É dessa fase o seu maior sucesso, Banana Boat Song (Day-O), do álbum “Calypso”. Além de introduzir na América um novo gênero musical, o álbum “Calypso” foi o primeiro a vender mais de um milhão de cópias.

Harry Belafonte foi apelidado de "Rei do Calypso" | foto: reprodução internet

Harry Belafonte foi apelidado de “Rei do Calypso” | foto: reprodução internet

Belafonte foi um dos organizadores do grupo que gravou We Are The World  |  foto: reprodução internet

Belafonte foi um dos organizadores do grupo que gravou We Are The World | foto: reprodução internet

Paralelamente à carreira musical, Harry Belafonte atuou no cinema e na televisão. Contudo, outra faceta muito importante foi a de ativista político. Ele apoiou o Movimento dos Direitos Civis nos EUA, nos anos 1950, e foi amigo de Martin Luther King. Muitos anos depois, nos anos 1980, teve a ideia de ajudar as crianças da Etiópia, lançando uma canção interpretada por ele e outras celebridades. We Are The World, de Michael Jackson e Lionel Ritchie foi gravada em 1985 e, com enorme sucesso, levantou milhões de dólares para a causa.

Ao longo dos anos, Belafonte apoiou diversas outras causas humanitárias. Além de Embaixador da Boa Vontade, pela UNICEF, lutou para o fim do apartheid, na África do Sul, e foi contra as ações militares americanas no Iraque.

Motivos de orgulho para a Jamaica, por seu talento e seus ideais, Grace Jones e Harry Belafonte são exemplos da diversidade de tipos interessantes que a pequena ilha do Caribe tem sido capaz de produzir.

Ouça “Slave To The Rhythm”, da coletânea “Island Life”, de Grace Jones:

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Reggae Legends: Lee “Scratch” Perry

Lee “Scratch” Perry é, sem dúvida alguma, a figura mais excêntrica de toda a história do reggae. Ao longo dos anos, seu comportamento incomum e errático foi largamente compensado por um notável instinto artístico, que deu novas dimensões à sonoridade do reggae, especialmente o dub. Sua carreira produtiva, cujo auge se deu entre o final da década de 1960 e final de 1970, ultrapassou a marca dos sessenta álbuns e chegou a quase quatrocentos singles, considerando suas atuações como artista e produtor. Muitas destas canções figuram até hoje em álbuns por todo o mundo.

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Perry: talento para produção musical que o levou a um caminho sem volta em direção à inovação sonora.

Lee “Scratch” Perry nasceu em Hanover, uma paróquia ao noroeste da Jamaica, em 1936, sob o nome Rainford Hugh Perry. Aos vinte anos ele operava uma escavadeira em um canteiro de obras, experiência através da qual descobriu, segundo ele, o poder do som. Sua introdução na indústria da música se deu  pelas mãos do produtor Duke Reid que, ainda segundo Perry, não o deixava gravar mas roubou algumas de suas composições e as deu para outro cantor, chamado Stranger Cole. A Lee Perry, nem os créditos e nem tampouco a compensação financeira. Nós poderíamos até especular sobre qual rumo sua carreira teria tomado a partir de então, se suas experimetações como produtor, mais tarde, não tivessem ganhado destaque inversamente proporcional à sua iniciação artística como cantor. Embora empregasse suas características vocais com personalidade e convicção, sua voz era muito frágil e faltava nela a textura típica de cantores convencionais como John Holt (ex-vocalista do Paragons), cuja influência de R&B continha muito mais apelo comercial. Perry, então, resolveu dedicar-se à produção de peças instrumentais, que por sua vez o levaram por um caminho sem volta em direção à inovação sonora.

Perry viria a estabelecer, mais tarde, uma conexão com o produtor do Studio One, Coxsone Dodd, trabalhando primeiro como “selector” no sound system Downbeat para, logo em seguida, assumir um importante papel criativo no selo Studio One, um dos mais emblemáticos da época. Lee Perry acumulava várias funções por lá, ainda que não recebesse os devidos créditos por suas múltiplas atividades como cantor, compositor e produtor musical. Foi ele o responsável por apresentar a Coxsone Dodd uma grande quantidade de artistas que viriam a se tornar referências para a gravadora e para a própria música jamaicana, além de ter gravado inúmeros singles como artista solo, às vezes sob o nome King Perry. Os singles “Rub & Squeese” e “Doctor Dick”, ambos de 1966, mostraram pela primeira vez o estilo lascivo das letras de Perry ao reino da música popular jamaicana, ainda sob o gênero dominante na ilha naquele período: o calypso. Naquela época, poucos poderiam imaginar que Perry já havia sido um “homem de família”, casado por um breve período no final da década de 1950 e aparentemente a caminho de uma vida serena e uma existência modesta e até apática. Há quem diga que foi justamente a desilusão com este relacionamento que motivou sua nova visão de mundo, sobretudo em relação às mulheres, o que acabou norteando o comportamento controverso que ele demonstrou ao longo de sua trajetória.

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Lee Perry: começo difícil e parcerias com diversos outros produtores para, em seguida, lançar-se como produtor independente.

Sem ter um salário para chamar de seu e muito menos qualquer participação em “royalties” sobre as músicas que produzia – prática muito comum na indústria musical jamaicana naquela época, Perry deixou o Studio One entre 1966 e 1968 para trabalhar com inúmeros outros produtores, incluindo Prince Buster e Joe Gibbs. Em 1968, uma nova mudança de rumos seguida de outra decepção: após decidir trabalhar como produtor independente para o selo West Indies Records, foi demitido por não conseguir produzir grandes hits. Uma de suas gravações mais conhecidas nesta fase foi “Set Them Free” (ouça abaixo), de 1969, gravada sob o nome Lee Perry & The Defenders. A música era uma resposta um tanto provocativa a um personagem criado por Prince Buster, chamado Judge Dread, que costumava condenar os chamados rude boys a 400 anos de prisão na música de mesmo nome. Perry criou, então, o personagem Lord Defender, que saía em defesa dos rude boys e tentava os livrar da sentença que considerava injusta, dadas as condições sociais e econômicas às quais estavam submetidos.

Lee Perry, aliás, tomou quase como um hábito direcionar ataques incisivos aos seus ex-empregadores em várias de suas gravações, incluindo os notáveis Prince Buster, Coxsonne Dodd, Joe Gibbs e Bunny Lee. O single “I Am The Upsetter” – termo que logo tornou-se mais um de seus famosos apelidos – foi pensado para ser um ataque direto a Coxsone Dodd, a quem atribui a culpa por ter prejudicado e alienado diversos artistas e produtores com os quais havia trabalhado valendo-se de acordos e negociações obscuras. O primeiro hit produzido por Perry, “People Funny Boy”, de 1968, tratava especificamente de Joe Gibbs, embora pudesse descrever muitas outras situações insatisfatórias, nas quais sua contribuição artística fora subvalorizada. Perry trabalhou com Gibbs como produtor e arranjador, até que as intrigas em virtude de disputas financeiras – que viria a se tornar uma marca registrada da indústria jamaicana – os levassem à separação. Segundo estimativas, “People Funny Boy” vendeu mais de 30 mil cópias, um número bastante razoável para os padrões da indústria à época. É irônico que Lee Perry tenha investido tanta energia em criticar modelos de negócios alheios, considerando que ele mesmo futuramente viesse a se envolver em transações duvidosas enquanto trabalhava com o The Wailers, a banda dos futuros “superstars” do reggae Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer. Alegando necessidade financeira, ele licenciou material da banda, supostamente sem autorização, para diversos selos internacionais.

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O genial Lee Perry à época do The Upsetters: talento musical inquestionável.

Antes dos conflitos com o The Wailers, porém, Lee Perry alcançou sucesso internacional com aquela que foi sua mais conhecida banda de estúdio, o The Upsetters (antes conhecida como Hippy Boys) provando que sua excentricidade tinha valor comercial global. O instrumental “Return Of Django”, inspirado nos filmes de velho-oeste italianos que faziam a cabeça dos jamaicanos naqueles tempos, foi um desses hits e invadiu as paradas de sucesso britânicas, alcançando a quinta posição no ranking das mais tocadas, em 1969. O sucesso da música se deve em parte à sua aceitação pelos “skinheads”, jovens britânicos da classe trabalhadora, brancos, que raspavam suas cabeças e rejeitavam o estilo de vida tradicional. Perry ainda daria outra grande contribuição à música jamaicana, ao produzir as primeiras gravações de U-Roy, o pioneiro DJ jamaicano que, mais tarde, viria a conquistar seu próprio espaço.

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Os irmãos Aston (à esquerda) e Carlton Barret, à direita de Bob Marley. Sob a direção de Lee Perry, eles gravaram juntos pela primeira vez.

Foi sob a direção de Perry que os vocalistas do The Wailers gravaram pela primeira em companhia dos irmãos Carlton e Aston Barret, que viriam a se tornar uma das sessões rítmicas de baixo e bateria mais importantes de toda a história da música jamaicana. Eles já haviam integrado o grupo The Upsetters em sua formação original, mas passaram a dedicar-se em tempo integral ao The Wailers após Lee Perry abrir seu estúdio, o Black Ark, em 1973. “Duppy Conqueror”, de 1970, foi uma dos primeiros hits resultantes da promissora parceria entre Lee Perry e The Wailers. Outras inúmeras sessões, gravadas anteriormente no Studio One, produziram algumas peças-chave para o futuro repertório  do grupo, incluindo “Sun Is Shinning”, “Small Axe” e “Kaya”, todas elas gravadas no período entre 1970 e 1971. É bem verdade que algumas destas sessões resultaram em vários álbuns lançados na Inglaterra (com material não autorizado) pela Trojan Records, como é o caso de “Soul Rebels” (1970), Soul Revolution (1971) e African Herbsman (1974), sendo que este é apenas um exemplo da complexa e conturbada relação entre os Wailers e Perry, a quem acusam de frequentemente não lhes pagar devidamente pelas obras.

O primeiro álbum de Perry com experimentações de dub foi “Cloak & Dagger”, lançado entre 1972 e 1974, não se sabe ao certo. O disco trazia bases de algumas faixas produzidas anteriormente com sua banda, o The Upsetters, e possuía diferentes versões para os mercados inglês e jamaicano. Embora não fosse propriamente um disco de dub, aquele foi certamente um dos primeiros passos nesta direção e poderia até ser considerado inovador para a época, já que as faixas dub foram cortadas da versão original jamaicana para o lançamento na Inglaterra, resultando em fracasso comercial. O próximo disco, “Rhythm Shower” (1973), foi lançado apenas na Jamaica e até hoje é considerado item raro.

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King Tubby, engenheiro de som jamaicano e parceiro fundamental de Lee Perry em algumas das primeiras produções de dub.

Perry logo passou a integrar um seleto grupo de produtores, a exemplo de Bunny Lee, investiu em equipamento de estúdio e incorporou técnicas de mixagem dub com o então renomado engenheiro de som King Tubby, considerado até hoje um dos pais do gênero. “Blackboard Jungle Dub”(1973) é o primeiro resultado de uma bem-sucedida parceria entre eles (que apesar da relação de proximidade desenvolveram técnicas e estilos bastantes diferentes ao longo dos anos). Uma raridade em termos conceituais para o reggae e considerado por muitos um clássico do “early dub”, o disco foi lançado em edição limitada e a um preço acima da média do mercado. Embora não tivesse perfil para integrar o “mainstream” britânico, o disco garantiu a Perry margem de lucro muito acima da média para artistas de qualquer gênero à época.

Perry costumava gravar suas faixas em alguns dos mais conhecidos estúdios da Jamaica, como o Randy’s e o Dynamic Sounds. No final de 1973, decidiu montar seu próprio estúdio, o Black Ark, no quintal de sua casa, em Kingston. Um dos principais motivos que o levaram à empreitada foi justamente a insatisfação em relação aos outros estúdios, que não investiam em “upgrades” de seus equipamentos, o que acabava por limitar as suas criações. Ter seu próprio estúdio significava ter poder para moldar sua criatividade musical e seu próprio destino na indústria da música. Segundo alguns relatos, o primeiro equipamento de Perry, um engenhoso sistema de gravação em quarto canais, foi construído por King Tubby, que além de excelente engenheiro de som era também um exímio conhecedor de eletrônica. Perry ainda contou com a colaboração de Errol E. T. Thompson, engenheiro de som que já havia realizado diversos trabalhos no Randy’s Studio e cujas obras continham grande valor e influência.

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Lee “Scratch” Perry em ação no seu lendário estúdio Black Ark, em 1973.

Muito além de simples vitrine para o seu trabalho, o Black Ark era em si mesmo uma espécie de “teia de ideias” para a criatividade de Perry. Suas paredes eram repletas de fotos, figuras e símbolos escritos à mão que não pareciam fazer sentido algum, o que deu margem a especulações sobre sua saúde mental. Mais que um estúdio, o local tornou-se um museu audiovisual para Lee Perry, cujo senso empresarial permaneceu intacto: ele passou a vender inúmeras produções exclusivas em forma de “dubplates” para importantes “soundsystems” de Londres, e costumava trocar algumas obras por roupas e outros suprimentos.

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O disco Super Ape (1976), primeiro álbum de Lee Perry lançado pela Island Records.

Além dos avanços com o estúdio, um acordo de licenciamento com a Island Records, em 1976, conferiu grande exposição à sua música, que agora contava com uma audiência sensivelmente maior. Em meados de 1970, a Island Records já havia se posicionado na vanguarda do reggae. Antes disso, porém, Lee Perry era o responsável por quase a totalidade das produções, gravações, prensagens, vendas e distribuição dos discos produzidos em seu estúdio. O influente “Super Ape”, de 1976, foi um dos primeiros lançamentos a serem beneficiados pelo acordo de produção e distribuição com o selo britânico. Graças à parceria com a Island Records, Lee Perry podia finalmente contar com uma audiência global e mostrar toda sua excentricidade ao mundo, apesar de vários (bons) discos produzidos no lendário Black Ark terem ficado em relativa obscuridade.

A aliança com a Island ainda possibilitou que Perry fizesse os devidos “upgrades” em seu equipamento de estúdio, podendo fazer ainda mais experimentações que, por sua vez, nem sempre resultaram em sucesso comercial. Houve quem dissesse que a inconsistência da vida pessoal de Perry começava a ficar evidente em sua obra, e que aquilo era um prenúncio de uma inequívoca e preocupante perda de foco.

Contrariando mais uma vez as expectativas, ele manteve-se engajado e logo veio a produzir outros grandes feitos. O single “Police & Thieves”, do cantor jamaicano Junior Murvin, uma das produções mais memoráveis de Lee Perry naquele período, alcançou boas posições nas paradas britânicas, e o mesmo se pode dizer de “Hurt So Good”, da cantora britânica Susan Cadogan (ouça abaixo), que emplacou o top 5 e vendeu em torno de 250 mil cópias.

Ele continuava acumulando hits, como já era o caso de “Curly Locks”(1973) com Junior Byles e “War Inna Babylon”, de Max Romeo, lançado pela Island em 1976. Poderia ter ficado limitado ao universo do reggae e não chegar ao mercado pop “mainstream”, se não tivesse produzido material para o ábum de estreia da banda de punk rock britânica The Clash, em 1977. Naquele mesmo ano, juntou-se a Bob Marley nos estúdios da Island, em Londres, para produzir a faixa “Punky Reggae Party”, uma declaração simbólica de alinhamento dos ideais “anti-establishment” dos punk rockers britânicos e dos dreads jamaicanos. Ainda em 1977, Perry reforçou sua vocação para a indústria pop ao produzir material para o album “Wide Prairie”, da então esposa de Paul McCartney, Linda McCartney (registro que só foi lançado em 1998, após sua morte).

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O disco de estreia do grupo de punk rock britânico The Clash (1977), contou com Lee Perry na produção e abriu novos horizontes de mercado para o produtor.

Seguiram-se outros projetos de grande valor artístico, porém, em razão de uma opção da Island em não lançá-los, Lee Perry viu o alcance de sua obra diminuir drasticamente. Sua relação com a gravadora britânica ruiu, assim como sua capacidade de quebrar padrões musicais gozando de reconhecimento comercial. O som produzido no Black Ark tornava-se cada vez mais estranho aos ouvidos, sua música era considerada cada vez mais inacessível, parecendo refletir suas batalhas psicológicas. A despeito de seus acordos comerciais com a Island, o selo acabou por marginalizar o seu trabalho, e várias de suas gravações solo – nas quais havia investido muito financeira e criativamente – não foram lançadas internacionalmente. O selo Trojan Records, no qual havia concentrado grande parte de seu material, também passava por grandes dificuldades e isso só ajudou a piorar a situação. Vários outros fatores contribuíram para um comportamento cada vez mais turbulento, e sua produtividade declinou no final da década de 70, à medida que o Black Ark guadualmente se desintegrava.

No início de 1983, o Black Ark foi consumido por um incêndio deflagrado por seu próprio criador, pondo fim a um dos maiores templos do dub jamaicano da história. Para alguns, Perry era apenas um personagem, inventado por ele próprio, que se fazia de louco para desviar a atenção dos criminosos num período de efervescência sociopolítica que dominava a Jamaica. Para outros, ele era em si mesmo uma personificação de suas criações musicais, um cérebro em constante estado de implosão psíquica. Ele alega que os motivos para o incêndio ao Black Ark estão relacionados às substâncias que usava enquanto produzia seus dubs. Ele cita os cigarros, carne, álcool (especificamente rum) e ganja (maconha) como sendo os agentes químicos fundamentais para o incidente. Certa vez, afirmou que não mais se identificava com o lugar onde as músicas foram criadas, já que não fazia mais uso das substâncias que alteravam seu estado de consciência. Em vez disso, agora voltaria a produzir o que chamou de “simple clean music”, músicas não afetadas pelo que passou a considerar como estimulantes negativos para a mente e o corpo. Mas muito embora ele tenha acenado com a possibilidade de um equilíbrio mental, suas falas nas entrevistas ainda permaneciam enigmáticas e misteriosas, desafiando a um entendimento real de seu significado.

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Black Ark: local repleto de fotos, figuras e símbolos escritos à mão, por onde passaram grandes nomes da música jamaicana e mundial.

Seu trabalho após o fim da era Black Ark mostrou-se inconsistente, tanto em termos de qualidade quanto de direção, e parecia refletir seu sentimento de inquietação e deslocamento após deixar a Jamaica, em 1984. De lá pra cá, ele viveu entre Londres e Nova Iorque até se estabelecer na Suíça por volta de 1989. Uma vida familiar, muito distante do ambiente que deu origem à sua carreira e lhe mostrou o caminho rumo ao estrelato internacional.

Ouça abaixo alguns hits produzidos por Lee “Scratch” Perry: