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Dustin Brown: o tenista que trocou a Jamaica por uma van

Alegria e tristeza. Orgulho e vergonha. Sentimentos contraditórios diante da vitória do tenista Dustin Brown frente a  Rafael Nadal no último dia 2 de julho, na segunda rodada do torneio de Wimbledon. Várias manchetes deram destaque à notícia, sempre enfatizando que um ex-jamaicano vencera um campeão. Ex-jamaicano? Sim, esta é mais uma daquelas histórias que nós, brasileiros, conhecemos bem: atletas talentosos que se vêem obrigados a competir por outro país para buscar um avanço na carreira.

O caso de Dustin é bem interessante. Ele nasceu na Alemanha, em 1984, filho de pai jamaicano e mãe alemã. Eles se conheceram na Jamaica e depois se estabeleceram em Celle, uma pequena cidade próxima a Hannover. Quando criança, Dustin Brown praticou, além de tênis, futebol, handebol e judô. Aos oito anos de idade, achou que já era hora de se concentrar numa só modalidade e optou pelo tênis. Começou a treinar com Kim Wittenberg, americano e dono de uma academia de tênis perto de Hannover. Tudo levava a crer que sua carreira teria início na Alemanha.

Momentos da carreira de Dustin Brown, quando ele ainda competia pela Jamaica.  |  fotos: reprodução internet

Momentos da carreira de Dustin Brown, quando ele ainda competia pela Jamaica.

Porém, a vida não estava fácil para a família de Brown naquele tempo. Com pouco dinheiro, ficava difícil custear um esporte como o tênis. Quando o garoto tinha onze anos, mudaram-se para a Jamaica. Sem um técnico e sem a infraestrutura necessária, Dustin passava a maior parte do tempo batendo bola com amigos que fez nas quadras.

Olhando para trás, apesar das dificuldades, o tenista acredita que a mudança de país lhe fez muito bem. Sua vida modesta na Alemanha lhe permitia ter, por exemplo, TV a cabo e um Game Boy. Na Jamaica, pôde perceber que seu padrão de vida anterior era bem melhor do que a média local. Isso teve reflexo em sua maneira de encarar a vida, de atribuir valores ao que realmente é importante e influenciou diretamente seu comportamento em quadra, tornando-o mais centrado.

Dustin exibe sua tatuagem do cantor Dennis Brown. | foto: reprodução internet

Dustin exibe sua tatuagem do cantor Dennis Brown.

O tênis na Jamaica não é exatamente um esporte popular, nem tampouco incentivado de alguma forma. No início dos anos 2000, a ilha sediava eventos da categoria Futures, a mais básica dos torneios profissionais. Assim, embora gastasse pouco, Brown também ganhava muito pouco e acumulava poucos pontos para o ranking. Nessas condições, sua carreira parecia fadada ao fracasso.

Em 2004, os pais de Dustin tomaram uma decisão que deu à sua vida contornos de um road movie. Voltaram para a Alemanha, tomaram um empréstimo e deram ao filho uma van grande, equipada com três camas e um banheiro. A ideia era possibilitar viagens por toda a Europa, com o mínimo de custos, aumentando sua participação em torneios de maior relevância.

Durante cinco anos Brown levou uma vida nômade. Um tenista nômade. Trocava de cidade quase todas as semanas, cozinhava para si mesmo, ganhava um dinheirinho encordoando raquetes para outros tenistas – pois tinha uma máquina própria em sua van – ou até alugando uma de suas camas extras para outros atletas tão duros quanto ele. Felizmente, seu desempenho nas competições era bom o suficiente para que os prêmios financiassem o combustível.

O começo da virada na carreira de Dustin Brown foi em 2009, quando ele chegou às finais de alguns eventos Challenger – um nível acima dos Futures. Pôde finalmente aposentar a van e, no ano seguinte, alcançou seu objetivo ao tornar-se profissional: conseguiu a primeira colocação de dois dígitos no ranking mundial.

Espírito jamaicano: determinação e superação fazem parte da vida do tenista Dustin Brown. | fotos: reprodução internet

Espírito jamaicano: determinação e superação fazem parte da vida do tenista Dustin Brown.

Aqui, vale voltar ao parágrafo inicial deste texto. Até 2010, Brown, que possui dupla cidadania (é alemão e jamaicano), competia pela Jamaica. Sendo um esporte abaixo de qualquer prioridade na ilha, o tenista sofreu com a falta de recursos da federação local, de quem recebia, no máximo, cumprimentos após sua participação em torneios. Nem mesmo a imprensa jamaicana noticiava seus resultados.

Desde então, Dustin Brown, agora ex-jamaicano, tem competido como tenista alemão. Em 2013, venceu o campeão Lleyton Hewitt, em Wimbledon. No ano seguinte, no torneio alemão Gerry Weber, derrotou Rafael Nadal por dois sets a zero. Nesta semana, repetiu a vitória sobre o mesmo rival, por três sets a um, em Wimbledon, sendo o primeiro tenista vindo das Qualifying Series a derrotar Nadal num torneio do Grand Slam. Honrando sua ascendência britânica (seu avô paterno era britânico), quadras de grama são as suas favoritas.

Apesar do progresso que tem feito, para Brown ainda é difícil bancar suas despesas como atleta. Ao contrário de esportes como o futebol, um tenista numa posição próxima ao centésimo no ranking não é propriamente um milionário.

Cabelos dreadlocks no estilo rastafári e uma grande tatuagem do cantor de reggae Dennis Brown no corpo, o atleta que se autointitula DreddyTennis no Twitter é motivo de alegria e orgulho para o povo jamaicano, que vê um compatriota vencer tantos desafios para alcançar um ideal. Infelizmente, é também motivo de tristeza e até vergonha, pois vê-lo assumir a cidadania alemã por total falta de apoio faz lembrar que a Jamaica, a exemplo do Brasil, está a anos-luz de países desenvolvidos no que diz respeito às políticas de incentivo ao esporte.

Ouça abaixo a coletânea “Love & Hate – The Best Of Dennis Brown”:

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World a Reggae: Snoop Lion, o novo camaleão da música

Excelente observador – capaz de mover cada um dos olhos para um lugar, ao mesmo tempo – o camaleão é um réptil cuja principal característica é o mimetismo. Fora do campo da biologia, camaleão é aquele que adapta seu comportamento e características conforme o ambiente. No universo da música, dois exemplos clássicos são David Bowie, considerado o camaleão do rock e Madonna, sua versão feminina no quesito transformação.

Calvin Cordozar Broadus Jr. também pode ser incluído na mesma espécie. Ele já foi Snoop Doggy Dogg, Snoop Dogg e até Snoopzilla, além, é claro, da fase Snoop Lion. A mudança não foi apenas no nome, mas também no estilo musical, que passou a ser o reggae, gênero do qual tanto falamos por aqui.

Quando o então Snoop Doggy Dogg começou sua carreira, em 1992, era um rapper e participou do disco “The Cronic”, de Dr Dre, antes de lançar seu primeiro álbum no ano seguinte. “Doggystyle” foi um sucesso, liderando as paradas e vendendo milhares de discos. Suas letras, sempre recheadas de muita violência, encontravam eco em sua própria vida. Snoop chegou a ser preso várias vezes, sendo uma delas sob acusação de participar de um assassinato.

Snoop Doggy Dogg, Snoop Dogg , Snoop Lion, Snoopzilla: as várias faces do camaleão Calvin Cordozar Broadus Jr.  |  fotos: reprodução internet

Snoop Doggy Dogg, Snoop Dogg , Snoop Lion, Snoopzilla: as várias faces do camaleão Calvin Cordozar Broadus Jr.

Calvin personificava a imagem do gangsta rap, posava com armas, abusava das drogas e foi cafetão. Entre 1993 e 2011, lançou um total de 19 discos e atuou no cinema em filmes como “Baby Boy – O Dono da Rua”, “Dia de Treinamento” e “Confusões no Lava-Jato”.

Em 2012, Snoop viajou para a Jamaica, onde converteu-se ao movimento rastafári e, por sugestão de um religioso local, assumiu o nome Snoop Lion. Como reflexo dessa mudança, Snoop gravou o álbum “Reincarnated” – com produção do Major Lazer. A violência passou a ser combatida nas letras, assim como a luta entre gangues. Snoop Lion se dizia a reencarnação de ninguém menos do que Bob Marley.

Snoop Lion: autenticidade ou jogada de marketing?  |  foto: reprodução internet

Snoop Lion: autenticidade ou jogada de marketing?

Apesar de quase totalmente gravado na Jamaica e de contar com inúmeras participações especiais nas diversas faixas, em nenhuma delas há um representante rastafári jamaicano. Talvez  isso tenha irritado Bunny Wailer, que acusou Snoop de “uso fraudulento de personalidades e símbolos rastafáris”. Praticamente uma excomunhão, via Facebook.

De qualquer forma, “Reincarnated” acabou resultando num disco pop agradável, com referências de roots reggae e dancehall. Foi indicado para o Grammy de melhor disco de reggae, mas perdeu para “Revelation Part 1: The Root of Life”, de Stephen Marley.

Uma das melhores faixas, coincidentemente, é Lighters Up, que conta com as participações jamaicanas da banda Tivoli Gardens Drum Corp e dos artistas de dancehall Mavado e Popcann. Já em Ashtrays and Heartbreaks, um pop reggae, quem participa é outra candidata a mutante da música, Miley Cyrus.

Além do álbum, a viagem gerou também um documentário e um livro de fotos, ambos registrando a experiência e a transformação. Na sequência, Snoop criou o pseudônimo Snoopzilla para um novo projeto, e não se sabe se Snoop Lion encerrou totalmente as atividades ou se ainda pode voltar a gravar. Tudo depende de como Calvin enxergar o futuro.

Ouça abaixo o álbum “Reincarnated”, de Snoop Lion:

arte: Michael Thompson | Freestylee

A arte sem fronteiras de Michael ‘Freestylee’ Thompson

Arte é para ser apreciada e ponto. Mas, quando a arte está associada a abrir os olhos das pessoas sobre o que está acontecendo no mundo, quando o artista usa sua criatividade na busca de mudanças positivas e faz de sua arte um instrumento de ativismo de paz, apreciar apenas é pouco.

O artista jamaicano Michael 'Freestylee' Thompson  |  foto: divulgação

O artista jamaicano Michael ‘Freestylee’ Thompson

O trabalho do jamaicano Michael Thompson, além de instigante, tem muita beleza. Michael Thompson é designer gráfico. Ele nasceu em Kingston, Jamaica, e desde 1990 mora nos EUA. Mais precisamente na pequena Easton, na Pensilvânia, numa área semirrural onde ele pode criar tranquilamente, longe da pressão dos grandes centros. Também conhecido como Freestylee, Thompson foi bastante influenciado pelo artista rastafári Ras Daniel Hartman – o mesmo que fez o papel de Pedro, no filme “The Harder They Come”, com Jimmy Cliff.

Os trabalhos de Ras Daniel lhe trouxeram referências e tradições do movimento rastafári que, nos anos 1970, começavam a florescer na cultura popular jamaicana. Em 1978, Freestylee venceu um concurso de pôsteres na Jamaica e integrou a delegação jamaicana que participou do 11º Festival Mundial da Juventude, em Havana, Cuba. Segundo ele, essa visita foi uma experiência transformadora e uma tremenda oportunidade. Entre 1965 e 1975, Cuba vivera sua “época de ouro” do design, com grande produção de pôsteres com conotações políticas, especialmente aqueles produzidos pela OSPAAAL – Organização de Solidariedade aos Povos da Ásia, África, e América Latina – liderada por Che Guevara.

A ideia central dos trabalhos cubanos e que permeia a arte de Thompson é de que “simples é melhor” e o foco está na mensagem. Sua arte é moderna, icônica e sempre com fortes mensagens sociais ou políticas. Os temas são variados: pobreza, racismo, políticas migratórias e muito, muito, sobre a cultura jamaicana. Desde os gêneros musicais e seus representantes, passando pelos símbolos rastafári e elementos urbanos retrô, que remetem à sua adolescência na Jamaica. Freestylee já obteve reconhecimento internacional, com exposições em vários países europeus e trabalhos publicados em importantes revistas de design. Agora, seguindo os princípios semeados pelo reggae e pelo movimento rastafári, Michael Thompson quer devolver à comunidade e ao mundo um pouco do que conquistou.

Em 2011, juntamente com a artista grega Maria Papaefstathiou, criou o International Reggae Poster Contest, um concurso anual de pôsteres com temática ligada não somente ao reggae, mas aos gêneros musicais jamaicanos, como o ska, rocksteady, dub etc. O concurso tem dois objetivos: o primeiro é iniciar uma campanha para a construção de um Reggae Hall of Fame, em Kingston, um misto de museu e local para apresentações musicais, uma espécie de meca para os amantes do reggae. O segundo é conscientizar a respeito da importância da Alpha Boys School – uma escola vocacional por onde passaram astros como Desmond Dekker e Yellowman – e que precisa de todo tipo de suporte.

As ideias de Michael Thompson são grandes, não cabem em divisões políticas, são globais. A Primavera Árabe, o Occupy Movement, o terremoto no Haiti, são alguns dos temas que ele explorou, emprestando sua criatividade na busca do que considera correto e justo. Por isso ele é Freestylee: um artista sem fronteiras. Conheça mais trabalhos do artista em seu site oficial, onde eles estão à venda em formato de pôster com altíssima qualidade de impressão.

Confira a seguir um pouco da arte de Michael ‘Freestylee’ Thompson:

 

 

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Bobo Shanti, a ala ortodoxa do Movimento Rastafári

O Movimento Rastafári é tão representativo para a cultura jamaicana que, mesmo tendo dividido o assunto em duas partes (Movimento Rastafári: das origens ao reggae / Movimento Rastafári: crenças e costumes), ainda há muito a dizer. Como em várias religiões, existem no Movimento Rastafári algumas subdivisões como a Bobo Shanti, Niyabinghi e Twelve Tribes of Israel.

A Bobo Shanti Congress ou Ethiopia Black International Congress é uma das mais ortodoxas. Bobo significa negro e Shanti ou Ashanti é a denominação de antigas tribos africanas. Foi fundada em 1958, por Emmanuel Charles Edwards. Para os seguidores da Bobo Shanti, Emmanuel, juntamente com Haile Selassie e Marcus Garvey, compõe a santíssima trindade, na qual Selassie é o rei ou a representação de Deus (Jah), Garvey é o profeta e Emmanuel o sacerdote supremo (chamado de Prince, ou príncipe).

Os rastafáris Bobo Shanti usam turbantes que escondem os dreadlocks |  foto: reprodução internet

Os rastafáris Bobo Shanti usam turbantes que escondem os dreadlocks

Os seguidores dessa linha vivem em comunidades tanto no Caribe (além da Jamaica, nas Bahamas, Trinidad e Ilhas Virgens), quanto na África (Etiópia, Gana e Nigéria). Na Jamaica, o grupo vive em Bull Bay, próximo a Kingston. Por terem usos e costumes muito peculiares, vivem isolados e não aceitam as leis e princípios da sociedade jamaicana. São praticamente autossuficientes, produzem alimentos, sucos, livros e artefatos africanos. Produzem, também, vassouras. Associadas à limpeza, são vendidas em Kingston, como forma de arrecadação de fundos para a comunidade.

Sendo uma religião ortodoxa, a Bobo Shanti tem regras rígidas a serem seguidas. Os homens usam turbantes, escondendo os dreadlocks e vestem túnicas. Já as mulheres devem ter braços e pernas sempre cobertos, não podem ficar sozinhas com homens estranhos e devem manter resguardo no período menstrual (considerado impuro, da mesma forma como acontece para muçulmanos e judeus). O sábado é o dia sagrado, como no judaísmo, sendo o dia dedicado à oração e ao jejum.

O cantor Sizzla é um dos artistas mais prolíficos da Jamaica. |  foto: reprodução internet

O cantor Sizzla é um dos artistas mais prolíficos da Jamaica.

Na comunidade, a maioria dos homens é profeta (espécie de conselheiro) ou padre (aquele que conduz cerimônias religiosas). As mulheres são subordinadas aos homens, da mesma forma que as crianças. Para o ensino básico, frequentam a Jerusalem School Room. Os que desejam ir além, seguem para Kingston, mas poucos o fazem. Os Bobo Shanti fazem uso da ganja (maconha), mas não em público, pois ela é reservada apenas para os cultos.

Um dos conceitos centrais da Bobo Shanti é a afirmação da cultura negra. Seguem a ideia original de Marcus Garvey de que os negros devem voltar à África e acreditam ser descendentes dos etíopes israelitas, o verdadeiro povo judeu, de pele negra. Para os Bobo, Cristo foi negro e já voltou à Terra na encarnação de Haile Selassie e também de Emmanuel.

Mistura de cristianismo, judaísmo e islamismo o rastafarianismo Bobo Shanti tem revelado músicos talentosos. Entre eles, talvez o mais famoso seja Sizzla Kalonji, responsável por reconduzir o dancehall às influências musicais e espirituais do reggae de raiz. Além disso, trata-se de um artista extremamente produtivo que, em cerca de 20 anos de carreira, produziu mais de 70 álbuns solo.

Ouça na íntegra o álbum “Da Real Thing”, de Sizzla Kalonji:

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O paraíso, segundo Lee Perry

Lee “Scratch” Perry é uma figura lendária da Jamaica. Músico e produtor, teve uma carreira intensa e conturbada até o início dos anos 1980, quando mudou-se para a Inglaterra e retirou-se da cena musical. Um pouco mais tarde, transferiu-se para a Suíça, onde vive até hoje, e teve algumas passagens pelo showbiz, como uma turnê solo, em 2006 e um documentário a seu respeito, lançado em 2011.

Porém, ao que tudo indica, Lee Perry quer voltar para a Jamaica. E em grande estilo. Agora, nada de espetáculos, nada ligado diretamente a sua vida artística. Lee Perry quer criar na Jamaica uma comunidade autossustentável, com casas ecoamigáveis, energia solar e agricultura baseada na permacultura. Um projeto inovador e audacioso, bem ao estilo de seu criador.

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O projeto chamado LSP Paradise Island (Eyeland) Community está em fase inicial. Primeiramente, estão buscando uma propriedade nos arredores de Westmoreland ou Hannover, local onde Perry nasceu. Os fundos necessários para a aquisição da propriedade dependem de doações e investimentos de futuros interessados.

Pôster de Lee Perry à venda no site www.lspparadiseshop.com | foto: reprodução internet

Pôster de Lee Perry à venda no site www.lspparadiseshop.com

Apesar de um tanto utópico, os ideais do projeto são bastante interessantes e modernos no que tange às relações entre o homem e a natureza. Além do sistema construtivo e do aproveitamento da energia solar, haverá, também, um sistema próprio de captação de água. As casas, de 1, 2 ou 3 dormitórios, serão destinadas aos que quiserem residir na comunidade, mas também haverá casas para alugar e para receber convidados dos seminários que lá serão realizados. Sim, porque está prevista a instalação de um centro holístico, cujo objetivo será promover a cura integrada do espírito, da mente e do corpo.

As artes, o artesanato e a aprendizagem são áreas a serem trabalhadas e incentivadas pela comunidade. O site www.lspparadise.com está em busca de pessoas interessadas em colaborar para que o sonho se torne realidade. Artesãos, inventores, especialistas em energias alternativas, pessoas criativas e visionárias, todos estão convidados a participar.

Mais do que um projeto no melhor estilo hippie, a comunidade idealizada por Lee Perry tem ingredientes do ideário rastafári: viver com vibrações positivas para que todos, juntos, possam celebrar a abundância que a vida nos dá e pensar nas coisas que realmente farão com que nossos descendentes, daqui a muitos anos, nos sejam gratos. Esse paraíso tropical é o lugar para aqueles de espírito livre, que querem viver em harmonia com a natureza e de forma saudável, cooperativa e genuinamente feliz.

Ouça abaixo “Back On The Controls”, de Lee “Scratch” Perry, na íntegra:

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Movimento Rastafári, parte 1: das origens ao reggae

Comunidade de Maroons nas montanhas jamaicanas, no início do século XX. | fotos: reprodução internet

Comunidade de Maroons nas montanhas jamaicanas, no início do século XX. | fotos: reprodução internet

A escravidão foi um dos fatos históricos dos quais a humanidade pode e deve sentir-se envergonhada. Contudo, mesmo algo assim pode gerar frutos positivos. Foi o que aconteceu na Jamaica, com o surgimento do movimento rastafári e do reggae.

Os colonizadores proibiam os escravos de professarem suas religiões africanas e, ao mesmo tempo, consideravam o cristianismo uma religião para povos brancos e desenvolvidos. Além do mais, certas noções de igualdade pregadas pela religião cristã não eram nada convenientes aos senhores de escravos. A África, como um todo, era considerada um local inferior, povoado por seres não civilizados. Daí, a necessidade do envio de missionários, para levar a civilização e a salvação àqueles povos.

Os negros escravizados sentiam-se oprimidos e tentavam manter suas crenças, de forma clandestina. Os Maroons, escravos fugidos que foram viver nas montanhas, em comunidades semelhantes aos quilombos brasileiros, foram responsáveis em grande parte pela resistência à cultura dos colonizadores.

Embora a escravatura tenha terminado em 1833, o movimento rastafári surgiria apenas um século depois, em 1930, a partir das ideias de Marcus Garvey, um ativista negro, descendente dos Maroons. Ele pregava a união dos povos negros e seu retorno à África. Seus conceitos encontraram grande aceitação junto a líderes religiosos da Jamaica, que passaram a considerar Garvey um profeta. Uma frase sua, vista como profecia, deu origem ao rastafarianismo. Garvey disse: “Olhe para a África, onde um rei negro será coroado. Ele será nosso redentor.”

O imperador da Etiópia Haile Selassie I  |  foto: reprodução internet

O imperador da Etiópia Haile Selassie I

O rei coroado foi Haile Selassie I, imperador da Etiópia, nascido Tafari Makonnen e posteriormente conhecido como Rás Tafari. Para os seguidores de Marcus Garvey, a profecia havia se concretizado e Haile Selassie passou a ser declarado o Messias Negro, Jah Rastafári, aquele que iria reuni-los na África.

Acredita-se que o primeiro grupo de rastafáris tenha se estabelecido na Jamaica, em 1935, liderados por Leonard P. Howell. Ele pregava a divindade de Selassie e explicava que os negros ganhariam a superioridade sobre os brancos, superioridade essa que sempre lhes fora destinada. Era o início do movimento, que buscava a repatriação para a África e a libertação dos povos negros.

Em 1954, a comunidade liderada por Howell foi destruída por uma batida policial e seus seguidores espalharam-se por toda a ilha, difundindo os conceitos do movimento. Em 1966, Haile Selassie visitou a Jamaica e foi recebido com grande entusiasmo. Bob Marley, que havia passado um tempo nos EUA, retornou para a ilha e converteu-se formalmente ao rastafarianismo. Nos anos 1960, graças a Marley e outros artistas ligados ao reggae, o movimento rastafári ganhou maiores proporções e passou a ser conhecido também fora da Jamaica.

Leonard P. Howell (à direita) é conhecido como o primeiro rasta. Ele foi o líder da comunidade rastafári que deu origem às atuais.  |  fotos: reprodução internet

Leonard P. Howell (à direita) é conhecido como o primeiro rasta. Ele foi o líder da comunidade rastafári que deu origem às atuais.

Em 1974, Haile Salassie foi deposto por uma revolução marxista e, no ano seguinte, morreu de forma misteriosa. O governo etíope anunciou a morte, mas não havia corpo. Se, por um lado, a morte de Selassie abalou as convicções dos rastas, por outro fez aumentar ainda mais sua fé. Poucos dias após o anúncio da morte, Bob Marley lançou a canção Jah Live (ouça abaixo), defendendo os princípios do movimento, apesar da aparente perda. Há quem acredite que Selassie não morreu e assumiu outra identidade. Para outros, ele de fato morreu, mas, assim como Cristo, um dia voltará para salvar seu povo.

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Jamaicanos famosos: muito além do reggae e das corridas

Além das belezas naturais, a Jamaica tem o dom de produzir grandes músicos e velocistas. Mas não fica só por aí, basta pesquisar um pouco para descobrir que esta pequena ilha do Caribe tem dezenas de outros filhos ilustres, que se consagraram em diferentes áreas.

Marcus Garvey é considerado herói nacional e profeta do movimento rastafári na Jamaica.  |  foto: reprodução internet

Marcus Garvey é considerado herói nacional e profeta do movimento rastafári na Jamaica. | foto: reprodução internet

Marcus Garvey nasceu na Jamaica, em 1887, e durante toda vida trabalhou em defesa dos direitos dos negros. Já na adolescência, quando trabalhava como aprendiz numa gráfica, tomou contato com movimentos sindicais e participou de uma greve malsucedida, que, no entanto, lhe despertou a paixão pelo ativismo político.

Garvey viajou pela América Central como editor de um jornal e viu de perto a exploração de imigrantes nos latifúndios. Posteriormente, estudou em Londres e lá trabalhou para jornais que pregavam o chamado Nacionalismo Pan-Africano. De volta à Jamaica, em 1912, fundou o Universal Negro Improvement Association (UNIA), cujo objetivo principal era unir as pessoas de ascendência africana num só país, com governo próprio. Em 1920, a UNIA possuía 1.100 filiais, em mais de 40 países, incluindo os EUA, além de países no Caribe e na África.

Patrick Ewing faz parte do Basketball Hall of Fame. | foto: reprodução internet

Patrick Ewing faz parte do Basketball Hall of Fame. | foto: reprodução internet

Marcus Garvey militou nos EUA e na Inglaterra, onde morreu, em 1940. Na Jamaica, é considerado herói nacional e também profeta do movimento rastafári, por seus ideais. Em 1975, o cantor de reggae Burning Spear lançou o álbum “Marcus Garvey”, cuja primeira faixa homenageia o líder jamaicano.

No campo dos esportes, mas, desta vez, no basquete, a Jamaica tem um representante ilustre: Patrick Ewing. Ele emigrou para os EUA aos onze anos de idade e lá começou a jogar basquete com os vizinhos. Aprendeu facilmente, mas tinha de se dedicar muito aos estudos, pois tinha certa dificuldade. Enfim, conseguiu entrar na Geogetown University, onde iniciou sua carreira no esporte. Jogou por 15 anos pelos New York Knicks, teve passagem pelos Seattle SuperSonics e Orlando Magic e foi ganhador de duas medalhas de ouro, nos Jogos Olímpicos de 1984 e 1992. Foi eleito um dos 50 maiores jogadores da NBA de todos os tempos.

Lisa Hanna une beleza à inteligência e habilidade política. | foto: reprodução internet

Lisa Hanna une beleza à inteligência e habilidade política. | foto: reprodução internet

Para terminar, uma personagem de trajetória inusitada. Em 1993, aos 18 anos de idade, a jamaicana Lisa Hanna foi eleita Miss Mundo. Ela, que já tinha feitos trabalhos voluntários na adolescência e apresentado um famoso programa de TV, chamado Rappin, graduou-se e pós graduou-se em comunicação. Depois de atuar na área, em 2007, foi eleita como Membro do Parlamento. Em 2012, foi indicada Ministra da Juventude e da Cultura, cargo que ocupa até hoje.

Além desses três exemplos, poetas, historiadores, escritores, atores, modelos. Gente que sempre viveu na Jamaica ou que buscou oportunidades em outros países. Pouco a pouco, através da biografia desses jamaicanos ilustres, mostraremos um pouco mais da cultura jamaicana. Aguardem!

foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Kingston, a Hollywood jamaicana

Kingston está para a música jamaicana como Hollywood para o cinema americano. Espécie de Nashville do reggae, a cidade é o berço de artistas mundialmente consagrados como Bob Marley e Peter Tosh e foi retratada em incontáveis músicas, filmes e documentários ao longo dos anos. Famosa por sua rica e diversificada cultura, Kingston é um verdadeiro caldeirão de influências políticas, musicais e religiosas, que impactou o mundo de forma permanente.

Life Yard - Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Life Yard – Paint Jamaica project in Parade Gardens | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Não há nenhuma outra cidade no mundo, comparável em tamanho e população a Kingston, que tenha produzido tanta música, durante tanto tempo e com tamanho impacto na cultura popular mundial. Em pouco mais de 8 km quadrados, a capital da Jamaica, que em 1960 contava com população de 123 mil habitantes, hoje é o lar de aproximadamente 500 mil pessoas e conhecida por ter sido o epicentro de um movimento que colocou a Jamaica no mapa da música mundial. O local foi ponto de partida de uma série infindável de aventuras sonoras e, para muitos artistas, independente de terem nascido na cidade ou migrado das áreas rurais, era sobretudo uma grande promessa de melhoria de vida, embora exigisse uma boa dose de instinto de sobrevivência. A proximidade dos músicos e a quantidade de estúdios num espaço urbano restrito podem ser alguns dos motivos, mas por si só não explicam tamanho potencial criativo ao longo de décadas. As deploráveis condições econômicas e sociais sob as quais a maioria dos artistas viveram foram os catalisadores para uma espécie de “exorcismo musical“, que em parte podem explicar este fenômeno.

O impacto da colonização afetou a Jamaica de forma contundente, começando com a Espanha, que em 1494 praticamente dizimou os nativos arauaques e depois com a Inglaterra, que tomou o poder em 1655 e iniciou um processo de escravização e importação de africanos para a ilha. Estabelecida em 1692, Kingston tornou-se a capital do país e, em 1892, passou a ser o principal porto comercial, desbancando Spanish Town. As bases para a injustiça social que empobreceram tantos jamaicanos ao longo do século XX, foram estabelecidas em Kingston durante o século XVII quando, sob o domínio britânico, a Jamaica tornou-se líder mundial na exportação de açúcar.

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Stone Man, um típico rastafári em Kingston. | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

A exploração colonial das classes trabalhadoras, que garantiu a prosperidade da indústria do açúcar naquele período, levou a graves distúrbios sociais e fez Kingston entrar em colapso em meados de 1938. Mortes e tumultos deflagrados por circunstâncias políticas e raciais prenunciavam as crises das décadas seguintes. A “economia da sobrevivência”, gerada sobretudo pelo alto índice de desemprego, praticamente obrigou as pessoas a se mudarem para a capital, fazendo com que a população crescesse substancialmente na década de 1960. Como consequência, a cidade, que já sofria com a pobreza, se viu frente às inevitáveis competições por recursos, que por sua vez levaram à violência recorrente, ainda mais evidente durante as eleições gerais na ilha.

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

O emblemático estúdio Channel One, na cidade de Kingston. Foto: reprodução internet

No início do século XX, o rastafarianismo surgiu como uma fonte poderosa de fé e resistência em Kingston. Embora Marcus Garvey (1887 – 1940), ícone jamaicano da libertação negra, não fosse ele próprio um Rasta, Kingston foi palco de muitos de seus inflamados discursos promovendo o nacionalismo negro e a independência, visão esta que era completamente alinhada aos ideias rastafáris. O rastafarianismo também ganhou adeptos fora da cidade, que foram forçados a mudarem-se para Kingston após uma série de ações policiais em áreas de plantação de maconha nos arredores da cidade. Em um destes ataques, mais de mil pessoas ficaram desabrigadas e muitas delas foram morar nas favelas urbanas da capital. Vários locais voltados à prática do rastafarianismo começaram a surgir por toda a ilha – especialmente nos arredores de Kingston – e a música passou a ser parte essencial deste movimento, cuja expressão artística e filosófica se fez cada vez mais presente e atraiu jovens e promissores músicos como Tommy McCook, que viria a estabelecer um marco na música jamaicana através do lendário grupo The Skatalites.

As raízes da cultura jamaicana, que estavam naturalmente muito sujeitas às influências africanas, com seus tambores e rituais espirituais de dança como a Kumina e Pukkumina, eram temperos evidentes no caldeirão cultural da cidade. Outros ingredientes, incluindo jazz, R&B, folk e até música country foram elementos que, somados, contribuíram para a criação do “algo novo” que estava por vir. Trenchtown tornou-se, ao mesmo tempo, residência de marginais  e inúmeros artistas cujo trabalho foi fortemente influenciado pelo instinto de sobrevivência.

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

Lojas de disco como esta se via por toda a parte em Kingston, durante o auge do reggae. | foto: reprodução internet

A parte ocidental de Kinston era o núcleo da indústria musical jamaicana. Nas décadas de 50 e 60, Kingston era destino obrigatório para qualquer artista que alimentasse alguma esperança de ser gravado na ilha, já que ali estavam concentrados os melhores estúdios, produtores e músicos, que por sua vez sabiam como obter os melhores resultados. Conhecida informalmente como “Beat Street”, por motivos óbvios, a “Orange Street” era uma espécie de quartel general de produtores como Coxsonne Dodd, Prince Buster e Bunny Lee, entre muitos outros. Locais para audições e ensaios, estúdios, selos e até lojas de disco ficavam concentradas em uma relativamente pequena área da cidade, que incluía ainda a King Street (paralela à Orange Street), Beeston Street, Chancery Lane e North Parade (lar do Randy’s Studio, que mais tarde viria a se tornar a VP Records). Joe Gibbs, os irmãoes Hoo-Kim (do renomado Channel One), Clancy Eccles, Derrick Harriott e incontáveis outros produtores e artistas ocupavam o mesmo espaço, competindo entre si e muitas vezes colaborando uns com os outros para criar o próximo hit musical. Embora a indústria não tenha ficado limitada a esta região com o passar do tempo, Kingston continuou a ser vital e manteve sua vocação de núcleo de explosão criativa da música popular jamaicana. Para isso, muito contribuiu a cultura dos sound systems, com seus “dubplates” e sua capacidade de testar a audiência, antecipando tendências musicais ao público.

Por razões que excedem a lógica, era muito comum as músicas situarem o ouvinte, fazendo de Kingston mais que meramente o local onde as obras foram criadas, mas tornando-a parte essencial da narrativa musical. Em “Trenchtown Rock (1971), Bob Marley faz todos terem certeza de que o gueto está no centro da capital, na (graças a ele) mundialmente famosa “Kingston 12”. Mais tarde, em 1975, Marley mapeia a geografia urbana com “Natty Dread”, levando o público a uma viagem pela emblemática cidade. Por outro lado, “Kingston Town”, lançada originalmente por Lord Creator em 1970 e produzida por Clancy Eccles, idealiza a cidade como mágica, ao invés de trágica. A música ganhou outras versões e atingiu o topo das paradas no Reino Unido e na França, quando foi regravada pelos ingleses do UB40, 20 anos mais tarde, no início dos anos 90. Até mesmo em músicas instrumentais as vibrações Rasta vêm à tona, como em “Man From Wareika”(1976), do lendário trombonista Rico Rodriguez. Ele atribui a inspiração à sua ligação com um acampamento Rasta nas colinas dos arredores de Kingston.

Capa do filme "The Harder They Come", estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Capa do filme “The Harder They Come”, estrelado por Jimmy Cliff. Foto: reprodução internet

Outro fato importante é que um dos motivos por trás do sucesso do filme “The Harder They Come” (estrelado por Jimmy Cliff em 1972), segundo a crítica, é justamente o fato de o filme retratar a realidade de Kingston, cuja reputação à época tornava o local ao mesmo tempo perigoso e emblemático. O filme conta a história de Rhyging, um gangster pistoleiro que causava grande tumulto na cidade até ser morto pela polícia, em 1948. O personagem de Cliff retrata de maneira precisa a figura típica do camponês jamaicano, que migra da área rural para Kingston em busca de melhoria de vida e, ao só encontrar mais dificuldades e pobreza, se entrega à criminalidade em um ambiente desumano e nada inspirador.

Kingston também foi palco de terríveis batalhas políticas entre integrantes dos dois principais partidos do país: o PNP (People’s National Party) e o JLP (Jamaica Labour Party). Foram inúmeros os conflitos por território e poder, que culminaram na perda de dezenas de vidas ao longo de um duro processo, já que cada eleição geral na ilha reacendia a tensão política e a violência. Embora tenha sido um fenômeno característico dos anos 70, Kingston voltou às páginas policiais  internacionais recentemente quando, em 2010, um forte esquema policial foi montado para capturar um suposto bandido e traficante de drogas, chamado Cristopher “Dudus” Coke e extraditá-lo para os Estados Unidos. Espécie de “Robin Hood” jamaicano, Dudus era conhecido em Kingston como “The President” e considerado intocável pela população local, a despeito de todas as acusações contra ele. Interdições de estradas, barricadas, destruição e acusações de abuso policial, além de um número expressivo de homicídios de inocentes, provocaram reações furiosas da população e da classe artística contra a operação. “Don’t Touch The President”, de Bunny Wailer, tocou fundo na ferida e é considerada uma das principais músicas sobre o tema. De um modo geral, o evento só fez piorar a perspectiva de melhoria de vida dos habitantes da cidade, dada a repercussão negativa da cidade, que depende fortemente do turismo.

EDB Vinyl Thursday's | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

EDB Vinyl Thursday’s | foto: Kadu Pinheiro | Jamaica Experience

Mais que uma cidade turística, Kingston tem na criatividade do seu povo seu maior patrimônio histórico. Passado, presente e futuro se misturam num verdadeiro caldeirão cultural, que nasceu nos guetos locais e ganhou o mundo de forma incrivelmente impactante. Milhões de pessoas ao redor do mundo, sem sequer saber onde fica Trench Town, cantam e dançam músicas sobre o lugar. Não há dúvida de que Kingston está no topo da lista entre as cidades no mundo que mais contribuíram para a música e cultura globais.

foto: Steele

Surf na Jamaica: clima favorável às “good vibes”

As melhores ondas da Jamaica estão ao sul da ilha  |  foto: reprodução internet

As melhores ondas da Jamaica estão ao sul da ilha | foto: reprodução internet

Surfar na Jamaica pode parecer uma ideia exótica, já que a ilha não é muito conhecida por esse esporte. Talvez por essa mesma razão, surfar por lá pode surpreender e revelar mais a respeito da cultura jamaicana.

O surf, na Jamaica, começou timidamente, nos anos 1950, com alguns turistas americanos, e ganhou mais adeptos já nos anos 1960, após a independência. Mesmo sendo uma ilha, não é possível surfar em qualquer parte. Ao norte, onde ficam a maioria dos resorts, o mar é flat, ou seja, sem ondas. Esse é o lado da ilha onde as ondulações são bloqueadas por outras ilhas, como Haiti, República Dominicana e Cuba.

O sul, próximo à capital, Kingston, é onde o surf acontece. O fundo do mar é de pedras, favorecendo a formação de ondas (em média, de 3 metros) durante o ano todo, sendo que as melhores estações para o esporte são o verão e o inverno.

O lendário Billy Mystic Wilmot em dois momentos: como músico e como surfista.  |  fotos: reprodução internet

O lendário Billy Mystic Wilmot em dois momentos: como músico e como surfista. | fotos: reprodução internet

Por ser um esporte totalmente ligado à natureza, o surf ganhou a simpatia dos rastafáris. Boa parte dos quase 200 surfistas jamaicanos são rastas. Um deles, além de surfista das antigas, é também o fundador da Associação de Surf da Jamaica e dono do Jamnesia Surf Club. Billy Mystic Wilmot surfa desde os anos 1970 e seus cinco filhos (incluindo uma mulher) seguiram o mesmo caminho. Billy também é músico e tem uma banda de reggae, a Mystic Revealers, que já gravou cinco CDs. Ao visitar a Jamnesia, de quebra, você pode curtir um ensaio.

O mapa da Jamnesia mostra os picos do surf ao leste da ilha  |  foto: reprodução internet

O mapa da Jamnesia mostra os picos do surf ao leste da ilha | foto: reprodução internet

O Jamnesia e a Associação funcionam no mesmo endereço. Lá, é possível ter aulas de surf (a filha de Billy, Imani, ensina crianças), bem como fazer pequenos reparos na prancha. É bom saber que, por enquanto, não há surf shops na ilha.

O grande barato de surfar na Jamaica, segundo brasileiros que tiveram essa experiência, é o astral do lugar. Ao contrário do Havaí, não há clima de competição o tempo todo. Os surfistas locais são hospitaleiros, gostam de assistir e também de acompanhar quem vem de fora. Outra vantagem é que não há crowd, ou seja, não há muitos surfistas pegando onda na mesma área.

foto: reprodução internet

Ital food: alimento para o corpo e a alma

Alimentar-se é bem mais do que saciar a fome e satisfazer uma das necessidades básicas do ser humano. O alimento nos conecta à natureza e cura o corpo. E o corpo é um templo que, como tal, não deve ser profanado. Desta forma, todo alimento deve ser puro, natural, livre de conservantes e quaisquer outros aditivos químicos. Preferencialmente, deve vir da terra e não ser obtido a partir da morte de um animal.

Os rastafáris jamaicanos são adeptos à culinária ital | foto: reprodução internet

A comunidade dos rastafáris jamaicanos é adepta à culinária ital | foto: reprodução internet

Caso você simpatize com as ideias acima, uma visão um tanto filosófica de um ato tão corriqueiro, vai se interessar pela culinária ital, a dieta adotada pelos rastafáris jamaicanos. Uma das características do dialeto rastafári é a substituição da sílaba inicial de uma palavra pelo I (eu, em inglês), possivelmente, para lembrar a integração do homem com Deus e a natureza. Por exemplo, invés de power, I-wer; invés de creation, I-reation. Como a alimentação é vital, para os rastafáris, ficou sendo ital.

Não há dogmas no rastafarianismo e, por essa razão, as regras quanto à alimentação não são extremamente rígidas. Há rastas vegetarianos, outros que incluem peixes na dieta. O uso do sal também é variável, alguns utilizam, outros, o substituem por várias ervas aromáticas, como tomilho e manjericão, além de pimentas e especiarias. A comida não deve ser preparada em panelas de metal e o consumo de álcool e tabaco é proibido.

Um bom cozinheiro ital deve ser capaz de combinar ervas e temperos, que resultem numa comida saborosa. Além de frutas e verduras frescas, feijões e ervilhas são muito utilizados neste tipo de culinária, assim como o leite de coco, que é a base para caldos e molhos.

Para começar a se envolver mais com esta culinária natural e peculiar, nada melhor do que experimentar um de seus pratos: uma saborosa sopa! É muito saudável e extremamente energética.

Sopa ital

Tradicional sopa ital  |  foto: reprodução internet

Tradicional sopa ital | foto: reprodução internet

INGREDIENTES
1 xícara de abóbora (moranga) cortada em cubos
1/2 colher de chá de pimenta-do-reino
1 pimenta caribenha ou habanero
1 xícara de ervilhas secas (em metades)
8-10 xícaras de água
1 cebola
3 dentes de alho
3 inhames
1 batata-doce média
2 batatas
2 talos de cebolinha
6 galhos de tomilho fresco
2 colheres de sopa de orégano fresco
2-3 talos de espinafre (utilizar somente as folhas)
1 cenoura
1/2 xícara de aipo
2 xícaras de leite de coco
5 quiabos
1 colher de sopa de gengibre ralado (opcional)
1 banana-da-terra (meio madura)

Ervas e legumes são a base da culinária ital  |  foto: reprodução internet

Ervas e legumes são a base da culinária ital foto: reprodução internet

MODO DE FAZER
1. Lave as ervilhas secas e coloque-as numa panela com 8 xícaras de água
2. Pique a cebolinha, o alho, a cebola e o aipo. Adicione quando as ervilhas começarem a ferver
3. Reduza para fogo baixo e cozinhe por cerca de 45 minutos, ou até que as ervilhas fiquem macias
4. Adicione a pimenta caribenha inteira, apenas para dar sabor
5. Quando as ervilhas já estiverem se desmanchando, adicione a banana-da-terra, os inhames, as batatas, a batata-doce, a cenoura e a abóbora, todos devidamente descascados e cortados em cubos (não muito pequenos, para não perderem a forma depois de cozidos)
6. Despeje o leite de coco e adicione o tomilho, a pimenta-do-reino e o orégano. Certifique-se de que há líquido suficiente na panela para cobrir tudo e, se necessário, adicione mais água ou leite de coco
7. Deixe ferver e reduza para fogo baixo
8. Tire as pontas dos quiabos, corte-os em rodelas de de mais ou menos 2 cm e adicione
9. Após 25 minutos, quando tudo deve estar cozido, adicione as folhas de espinafre cortadas em tiras de cerca de 1 cm
10. Deixe cozinhar por mais 7-10 minutos para que o espinafre dê sabor à sopa e para que ela engrosse um pouco
11. Retire a pimenta caribenha e os talos de tomilho
12. Sirva em bowls e se desejar, esprema algumas gotas de limão siciliano sobre a sopa fumegante

As ervas, temperos e especiarias conferem muito sabor a esta sopa, porém, se não abrir mão do sal, adicione-o após ter colocado o espinafre. Note que a sopa torna-se espessa quando esfria, então vale a pena reservar um pouco da água do cozimento (caldo) para adicionar posteriormente.