A série de quadrinhos Dread & Alive, do brasileiro Nicholas da Silva

Dread & Alive: quadrinhos com herói jamaicano

A música pode despertar interesses que muitas vezes não têm relação direta com o universo musical. Através da música, causas são defendidas, histórias são contadas, lugares são descritos e têm suas belezas exaltadas; aprende-se sobre o amor e a dor de perdê-lo; pessoas importantes ou apenas muito amadas são homenageadas ou apresentadas ao mundo. Há pessoas que tiveram os rumos de suas vidas transformados a partir de uma canção, ou de várias. Foi o que aconteceu com Nicholas da Silva.

Brasileiro, com nacionalidade americana e vivendo nos EUA, Nicholas teve uma vida cheia de mudanças. O trabalho do pai, como engenheiro, levou a família a viver em diferentes partes do mundo, com todos os ajustes e adaptações necessários. Exemplo de mistura racial, Nicholas têm ascendência africana, indiana e holandesa, além da brasileira. No entanto, através do reggae, começou a se interessar pela Jamaica, por sua história e suas origens. Quando criança, o pai o levava frequentemente à biblioteca. Nicholas gostava particularmente de ficção científica e sentiu falta de histórias com protagonistas de origem africana. Resolveu, então, criar suas próprias histórias.

O brasileiro Nicholas da Silva, autor da série de quadrinhos Dread & Alive.  |  foto: reprodução internet

O brasileiro Nicholas da Silva, autor da série de quadrinhos Dread & Alive.

Em suas pesquisas sobre a Jamaica, Nicholas ficou muito interessado nos Maroons de Accompong. Comunidade autônoma, existe na Jamaica até os dias atuais e tem origem nos primeiros Maroons, africanos fugitivos que escaparam dos colonizadores, aliaram-se aos nativos Taínos e passaram a viver isolados. Sua resistência à escravização e exemplo de independência inspiraram a imaginação de Nicholas. Somou o reggae que amava a tudo isso e criou o herói Drew Mcintosh e a lenda de Dread & Alive.

Do autor, Drew herdou o gosto por viajar e experimentar outras culturas. Já um dos temas mais importantes das histórias de Dread & Alive é a preservação do planeta e dos direitos de seus habitantes, especialmente de Cockpit Country, região da Jamaica onde vivem os Maroons. Quando criou Drew Mcintosh, Nicholas até cogitou metê-lo numa malha verde, ao estilo do Batman ou do Homem-Aranha. Felizmente, reconsiderou e o que se vê hoje é um herói que, fisicamente, se parece com um rastafári, usa dreadlocks e roupas iguais a de qualquer jovem.

Antropólogo, aventureiro e guerreiro da causa ecológica, Drew possui um amuleto que lhe confere poderes. Quando tinha apenas 15 anos, seu mentor, Cudjoe, lhe deu esse amuleto que renova sua energia e lhe dá força para lutar contra os inimigos. Drew não gosta de lutar, mas não quer que o mal vença e faz de tudo para proteger os habitantes da Terra, sejam eles humanos ou animais.

Antes de lançar Dread & Alive, o autor desenvolveu a série de quadrinhos Hitless, totalmente digital e compatível com o Sony PSP e o iPod. Lançada em 2007, a série incluía uma trilha sonora representando o tema da história. O trabalho foi sucesso instantâneo e ganhos diversos prêmios. Porém, Dread & Alive já estava em seus planos e, assim, foi lançada em 6 de fevereiro de 2010 – não por acaso, dia do aniversário de Bob Marley. Juntamente com o número 1, foi lançado o site em que Da Silva incluía uma seção musical recheada do que ele chama de reggae consciente.

Os personagens principais de Dread & Alive e alguns dos produtos comercializados pela empresa de Nicholas da Silva.  |  fotos: reprodução internet

Os personagens principais de Dread & Alive e alguns dos produtos comercializados pela empresa de Nicholas da Silva

Essa ligação dos quadrinhos com a música despertou o interesse do selo Soul of the Lion, especializado em projetos especiais e de apelo criativo. Trocando ideias, chegaram aos Lost Tapes, compilações musicais que servem como trilha sonora das histórias de Dread & Alive. Já são seis volumes, com muito reggae e dub, para ouvir enquanto se lê as histórias ou para lembrar delas enquanto se ouve.

Além de roteirista e desenhista, Nicholas da Silva é empresário. Dono da Zoolook, agência que criou em 1996 – inicialmente para divulgar seus próprios projetos. Hoje, os quadrinhos e a música dão suporte a uma variedade de produtos ligados à série, que vão de simples camisetas a skates com imagens da saga.

A música mudou a vida de Nicholas e ele, com suas histórias e as canções que escolhe para acompanhá-las, está ajudando a mudar a cabeça das novas gerações, trazendo a elas valores que, se bem aprendidos, poderão mudar o mundo. Que assim seja!

Assista ao promo Dread & Alive’s The Lost Tapes – volume 5:

O romancista Marlon James, ganhador do Man Booker Prize 2015. | foto: reprodução internet

A Jamaica é destaque também na literatura

2015 está chegando ao fim e tem sido um ano importante para a Jamaica. Começou com as comemorações do aniversário de 70 anos de Bob Marley, em fevereiro, e passou por conquistas inéditas em esportes nos quais a Jamaica tem pouca ou nenhuma projeção, como o tênis (com Dustin Brown), o futebol (desempenho da seleção na Copa América e na Copa Ouro) e a natação (com Alia Atkinson). No último mês de outubro, foi a vez da Jamaica virar notícia através da literatura.

O escritor e a capa de “Brief History of Seven Killings”  |  fotos: reprodução internet

O escritor e a capa de “Brief History of Seven Killings”

Marlon James, um escritor jamaicano de 45 anos, foi o vencedor do Man Booker Prize, prêmio literário concedido anualmente ao melhor romance publicado em inglês. O Man Booker é o principal prêmio da literatura britânica e um dos mais importantes mundialmente. Desde 2014, a premiação passou a considerar autores de qualquer país, desde que a obra tenha sido escrita originalmente em inglês e publicada no Reino Unido.

O romance “Brief History of Seven Killings” é o terceiro da carreira da Marlon James. Com cerca de 700 páginas, o livro trata de um episódio acontecido na Jamaica, em 1976: uma tentativa de assassinato contra Bob Marley e sua equipe, justamente antes de um show em prol da paz, em Kingston. Política, conflitos sociais e raciais são tratados no livro com certa dose de humor e através de inúmeros personagens.

Curiosamente, a narrativa é feita por 15 desses personagens. A cada capítulo, uma surpresa, pois o leitor nunca sabe quem será o próximo a contar a história. Nenhum deles, no entanto, é Bob Marley. Mesmo estando no centro da trama, seu nome não é sequer mencionado, sendo tratado sempre por “The Singer” (O Cantor).

Jornal destaca o atentado sofrido por Bob Marley.  |  fotos: reprodução internet

Jornal destaca o atentado sofrido por Bob Marley.

A história do próprio autor é também singular. Nascido em Kingston, é filho de mãe detetive e pai advogado, o que, de certa forma, lhe credencia a desenvolver boas histórias policiais. Na prática, porém, apenas neste último trabalho a temática policial entrou em cena. Seus dois romances anteriores (“John Crow’s Devil” e “The Book of Night Women”) eram romances de época, voltados a aspectos históricos da Jamaica.

Comum na trajetória da maioria dos escritores, a persistência foi uma das qualidades fundamentais para o sucesso de James. Seu primeiro romance foi rejeitado exatas 78 vezes antes de ser publicado. Talvez mais uma semelhança entre brasileiros e jamaicanos, pois, pelo visto, eles também não desistem nunca.

Apesar da premiação, que deverá alavancar ainda mais o sucesso do livro, a obra foi criticada – especialmente no Reino Unido – por utilizar gírias jamaicanas e também norte-americanas, do Harlem, além de palavrões. Para dificultar ainda mais a vida dos críticos, há um capítulo inteiro escrito em patois, o dialeto jamaicano. No Brasil, a Editora Intrínseca adquiriu os direitos do livro, mas ainda não há previsão do lançamento em português.

E como Jamaica sempre tem a ver com a música, o jornal britânico The Guardian pediu a James que elaborasse uma playlist relacionada ao livro. São cinco canções que, segundo o autor, abrangem os 15 anos em que a história se passa. Se você não consegue esperar pela edição nacional, leia em inglês, ouvindo abaixo as sugestões de Marlon James:

Arleen, do General Echo: um reggae dos anos 1970, que fala sobre o esquema de segurança domiciliar, comum na ilha naqueles tempos;

Under Me Sleng Teng, de Wayne Smith: espécie de dancehall caseiro, do início dos anos 1980;

The Bridge is Over, de Boogie Down Productions: hip-hop americano com conexão jamaicana, de meados dos anos 1980;

Mr. Loverman, de Shabba Ranks: canção que marca o renascimento do dancehall, no final dos anos 1980;

Ghetto Red Hot (remix), do Super Cat: um impressionante híbrido de hip-hop e dancehall, lançado no início dos anos 1990.

Exposição "Return of the Rudeboy" | foto: Dean Chalkley, com direção criativa de Harris Elliott | reprodução internet

O retorno dos rude boys

Já falamos aqui sobre uma profissão chamada cool hunter, ou caçador de tendências. Mais especificamente, falamos de Magá Moura, uma linda e antenada baiana, de apenas 26 anos, que tem se destacado no mundo da moda e lifestyle por seu estilo e originalidade. Hoje, um ano após a publicação daquele texto, me deparei com uma situação na qual pessoas acabam sendo cool hunters, mesmo que por acaso.

Na verdade, esse talento tem a ver com o poder de observação de cada um e, quando se trabalha com assuntos como moda, cinema e publicidade, por exemplo, o talento acaba sendo treinado. É como se para certas pessoas as tendências simplesmente saltassem aos olhos, enquanto para outras, passam despercebidas.

É assim que entendo o trabalho feito pelo cineasta Dean Chalkley e pelo diretor de criação Harris Elliott. Ambos são britânicos, amigos e parceiros de trabalho de longa data. Em 2012 – coincidindo com as Olimpíadas de Londres, a denominação de Usain Bolt como o homem mais rápido da Terra e também com o aniversário de 50 anos da independência da Jamaica – os dois amigos, individualmente, começaram a perceber uma mudança no código visual dos jovens negros.

Calças curtas e chapéus estilosos começaram a substituir as roupas esportivas exaustivamente usadas pelos cantores de rap e hip hop. Havia uma atmosfera de mudança no ar, então Chalkley e Elliott começaram a fotografar pessoas nas ruas, na tentativa de registrar as transformações e captar as tendências. Concluíram, então, estar diante do renascimento do estilo dos rude boys.

Esse assunto também já foi abordado aqui, mas vamos recordar. Rude boys era o nome que se dava às gangues que surgiram na Jamaica logo após a independência, em 1962. Bob Marley flertou com eles e até fez uma canção para tranquilizar sua mãe quanto às más influências (Simmer Down – ouça abaixo). Muitos jamaicanos emigraram para o Reino Unido e influenciaram culturalmente outros grupos de jovens como os mods e, posteriormente, os punks.

A cultura rude boy está ligada à construção da autoestima e também à determinação e criatividade desses imigrantes, dispostos a buscar seu lugar numa sociedade conservadora e racista. E foi exatamente isso que Chalkley e Elliott captaram através dos retratos: a expressão da nova geração de negros através de suas roupas, sua forma de vestir.

Ao contrário do que acontece num ensaio de moda, o trabalho realizado pela dupla não buscou o glamour. As pessoas foram fotografadas ao natural, com suas próprias roupas, nas ruas de Londres. Através de conversas com as pessoas fotografadas, chegavam a outras pessoas que igualmente serviriam de modelos.

O trabalho gerou, primeiramente, uma exposição. Durante dez semanas, no verão londrino de 2014, esteve em cartaz na Terrace Galleries, na Somerset House. Além das fotos, houve eventos ao vivo, DJs e até uma barbearia no estilo rude boy. De quebra, foi exibido o filme “The Harder They Come”, intimamente ligado ao tema. Já em 2015,  a exposição seguiu para o Japão, no Laforet Museum Harajuku, em Tóquio.

Janelle e Gwen: visual estilo rude boy.  |  fotos: reprodução internet

Janelle e Gwen: estilo rude boy.

A exposição foi reunida no livro “Return of the Rudeboy”, lançado no último mês de junho. Além de um número ainda maior de fotos, há textos sobre a herança cultural dos rude boys e detalhamento da montagem da exposição em Londres.

Ao acaso, por treino ou vício profissional, os amigos Chalkley e Elliott acabaram por identificar e resgatar uma forte tendência. E as grifes, é claro, seguiram a onda. Marcas britânicas como Fred Perry’s e Brutus já lançaram suas coleções inspiradas nesse movimento, tão importante para formação da identidade cultural jamaicana. As cantoras Gwen Stefani, do No Doubt, e Janelle Monáe são duas adeptas do estilo.

Assista à entrevista de Harris Elliott e Dean Chalkley:

fotos: reprodução internet | arte: Jamaica Experience

Dancehall Queens: o poder de uma dança

Carlene Smith, a primeira DHQ.  |  foto: reprodução internet

Carlene Smith, a primeira DHQ.

O dancehall surgiu na Jamaica nos anos 1960, nas festas embaladas pelos sound systems. De lá para cá, passou por diversas fases, com letras ora mais sexualizadas, ora mais espiritualizadas e com canções mais ou menos dançantes. Nos anos 1990, machismo, sexo e homofobia eram temas recorrentes e por essa época, surgiram concursos para eleger a Dancehall Queen (DHQ), algo como a rainha do baile.

A primeira delas foi Carlene Smith, coroada em 1992. O sucesso do evento fez com que se tornasse oficial e passasse a existir anualmente a partir de 1996, sempre realizado em Montego Bay. O ritmo e a dança, talvez mais facilmente propagados pela internet, caíram no gosto de muitos outros países e, atualmente, são realizados concursos semelhantes nos Estados Unidos, na Europa (Alemanha, Finlândia e Itália, por exemplo) e também na Austrália e no Japão.

Do Japão, aliás, veio a vencedora do concurso internacional de 2002. Junko Kudo foi a primeira não jamaicana a vencer e sua conquista estimulou inúmeras outras dançarinas a participar, tornando a competição de interesse mundial.

Contudo, assim como acontece com as dançarinas de funk no Brasil, as dançarinas de dancehall jamaicanas sofrem preconceito. Além da dança ser extremamente sexualizada, os figurinos são sempre muito justos, curtos, decotados e, em geral, resultam em pouca roupa em corpos com muitas curvas.

Além das reclamações de pais que não querem ver suas pequenas garotinhas imitando o que veem na TV (qualquer semelhança com nossa Anita não é coincidência), há uma discussão um pouco mais complexa por trás de tudo isso. Essas mulheres estão sendo submissas ao sobreviver a partir da exposição de seus corpos para o público masculino ou, ao contrário, têm absoluto controle da situação por atrair e manipular massas de marmanjos?

O assunto é polêmico e por isso mesmo ótimo tema de discussão. Tanto é que já gerou vários filmes e documentários, dos quais vamos destacar dois. O primeiro é “Dancehall Queen”, um filme mais antigo, de 1997, que conta a história de Marcia Green, uma mãe solteira que trabalha como vendedora ambulante e tem dificuldades para criar duas filhas adolescentes. Além disso, Marcia enfrenta problemas com dois homens: Larry – uma espécie de tio que, além do gosto por armas, está de olho em uma de suas filhas – e Priest – o assassino de sua amiga. Marcia cria, então, uma nova versão de si mesma e sob a identidade de Mystery Lady participa de um concurso de dancehall, conseguindo colocar os dois homens um contra o outro.

O filme conta com a direção do britânico Don Letts, que além de cineasta é músico, DJ e já produziu inúmeros vídeos para bandas como The Clash, The Pretenders e Big Audio Dynamite.

A dancehall queen japonesa Pinky está em "Bruk Out!"  |  foto: reprodução internet | Cori McKenna

A dancehall queen japonesa Pinky está no documentário “Bruk Out!”

O segundo é um documentário, cujo lançamento está previsto ainda para este ano. “Bruk Out!” é dirigido por Cori McKenna, editora da HBO, e segue seis das melhores DHQs do mundo, vindas do Japão, Itália, EUA, Polônia, Espanha e, é claro Jamaica, enquanto elas se preparam para a maior competição mundial de dancehall.

Cada uma delas tem sua história pessoal e suas próprias razões para ter entrado no mundo do dancehall. A espanhola Raquel, por exemplo, aturava um marido violento, até que decidiu trocar a dança moderna pelo ritmo jamaicano. Bianca, a dançarina da Jamaica, é um tipo plus size e diz não sentir preconceito em seu país, ao contrário do que acontece nos EUA.

Segundo McKenna, algo que lhe chamou a atenção entre as protagonistas do filme foi o clima de total respeito e admiração mútuos. Apesar de estarem numa competição, são abertas e receptivas tanto entre si, quanto com o público que lhes assedia. Sua grande dificuldade, porém é falar de si mesmas, de sua intimidade. Talvez, seja uma forma de resguardarem o poder que estão começando a conquistar a partir  do dancehall.

Assista ao trailer do documentário “Bruk Out!”, de Cori McKenna:

foto: reprodução internet

SENAI-MG ajuda a formar profissionais na Jamaica

O mundo fica muito melhor quando existe cooperação, quando pessoas, organizações ou países se unem para um bem maior. São muitas as notícias desagradáveis a respeito do Brasil, notícias que ferem nosso orgulho e nos envergonham. Para, de certa forma, resgatar um pouco da nossa dignidade de cidadãos brasileiros, vale mostrar algo que nosso país tem feito em benefício de outros.

A Jamaica é um país em desenvolvimento. Mais do que isso, é uma pequena ilha com grandes carências, inclusive no que se refere à formação profissional. A HEART (Human Employment and Resource Training Trust, National Training Agency) é uma organização focada nessa área, operando cerca de 30 centros de treinamento e educação vocacional na Jamaica.

Autoridades brasileiras e jamaicanas na inauguração do Centro de Formação Profissional Brasil-Jamaica.  |  foto: reprodução internet

Autoridades brasileiras e jamaicanas na inauguração do Centro de Formação Profissional Brasil-Jamaica.

No Brasil, também há deficiências na formação profissional e uma das instituições que trabalham para minimizar o problema é o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), que tem como um de seus principais objetivos a formação profissional de recursos humanos para a indústria.

Assim, unindo necessidades e capacidades, por iniciativa da ABC (Agência Brasileira de Cooperação) – que faz parte do Ministério das Relações Exteriores – foi possível ao SENAI-MG, em parceria com a HEART, desenvolver o Centro de Formação Profissional Brasil-Jamaica, inaugurado em Kingston, em fevereiro de 2014.

O governo brasileiro, através da ABC, investiu U$4,9 milhões no projeto. Já o SENAI-MG utilizou sua expertise para montar a estrutura necessária para os cursos, adquiriu os equipamentos necessários e cuidou da capacitação dos profissionais. Ao todo, são 40 pessoas, entre gestores, professores e instrutores jamaicanos.

A unidade tem laboratórios de eletrônica, telecomunicações e redes, informática e controle lógico e programável, além de oficinas de refrigeração, eletricidade predial e industrial, marcenaria, serralheria e soldagem, instalações hidráulicas e construção civil. A perspectiva é de que sejam formados pelo menos mil jamaicanos por ano.

É no mínimo gratificante saber que o Brasil será corresponsável pela formação profissional de tantos jamaicanos. Tomara que o SENAI e outras instituições brasileiras avancem nesse tipo de trabalho. O benefício é mútuo e faz muito bem ao nosso maltratado ego.

Ouça o depoimento de Frederico Lamego, gerente-executivo de RI do SENAI:

Instalações do Centro de Formação Profissional Brasil-Jamaica, em Kingston, Jamaica.  |  foto: reprodução internet

Instalações do Centro de Formação Profissional Brasil-Jamaica, em Kingston, capital do país.

arte: Michael Thompson | Freestylee

A arte sem fronteiras de Michael ‘Freestylee’ Thompson

Arte é para ser apreciada e ponto. Mas, quando a arte está associada a abrir os olhos das pessoas sobre o que está acontecendo no mundo, quando o artista usa sua criatividade na busca de mudanças positivas e faz de sua arte um instrumento de ativismo de paz, apreciar apenas é pouco.

O artista jamaicano Michael 'Freestylee' Thompson  |  foto: divulgação

O artista jamaicano Michael ‘Freestylee’ Thompson

O trabalho do jamaicano Michael Thompson, além de instigante, tem muita beleza. Michael Thompson é designer gráfico. Ele nasceu em Kingston, Jamaica, e desde 1990 mora nos EUA. Mais precisamente na pequena Easton, na Pensilvânia, numa área semirrural onde ele pode criar tranquilamente, longe da pressão dos grandes centros. Também conhecido como Freestylee, Thompson foi bastante influenciado pelo artista rastafári Ras Daniel Hartman – o mesmo que fez o papel de Pedro, no filme “The Harder They Come”, com Jimmy Cliff.

Os trabalhos de Ras Daniel lhe trouxeram referências e tradições do movimento rastafári que, nos anos 1970, começavam a florescer na cultura popular jamaicana. Em 1978, Freestylee venceu um concurso de pôsteres na Jamaica e integrou a delegação jamaicana que participou do 11º Festival Mundial da Juventude, em Havana, Cuba. Segundo ele, essa visita foi uma experiência transformadora e uma tremenda oportunidade. Entre 1965 e 1975, Cuba vivera sua “época de ouro” do design, com grande produção de pôsteres com conotações políticas, especialmente aqueles produzidos pela OSPAAAL – Organização de Solidariedade aos Povos da Ásia, África, e América Latina – liderada por Che Guevara.

A ideia central dos trabalhos cubanos e que permeia a arte de Thompson é de que “simples é melhor” e o foco está na mensagem. Sua arte é moderna, icônica e sempre com fortes mensagens sociais ou políticas. Os temas são variados: pobreza, racismo, políticas migratórias e muito, muito, sobre a cultura jamaicana. Desde os gêneros musicais e seus representantes, passando pelos símbolos rastafári e elementos urbanos retrô, que remetem à sua adolescência na Jamaica. Freestylee já obteve reconhecimento internacional, com exposições em vários países europeus e trabalhos publicados em importantes revistas de design. Agora, seguindo os princípios semeados pelo reggae e pelo movimento rastafári, Michael Thompson quer devolver à comunidade e ao mundo um pouco do que conquistou.

Em 2011, juntamente com a artista grega Maria Papaefstathiou, criou o International Reggae Poster Contest, um concurso anual de pôsteres com temática ligada não somente ao reggae, mas aos gêneros musicais jamaicanos, como o ska, rocksteady, dub etc. O concurso tem dois objetivos: o primeiro é iniciar uma campanha para a construção de um Reggae Hall of Fame, em Kingston, um misto de museu e local para apresentações musicais, uma espécie de meca para os amantes do reggae. O segundo é conscientizar a respeito da importância da Alpha Boys School – uma escola vocacional por onde passaram astros como Desmond Dekker e Yellowman – e que precisa de todo tipo de suporte.

As ideias de Michael Thompson são grandes, não cabem em divisões políticas, são globais. A Primavera Árabe, o Occupy Movement, o terremoto no Haiti, são alguns dos temas que ele explorou, emprestando sua criatividade na busca do que considera correto e justo. Por isso ele é Freestylee: um artista sem fronteiras. Conheça mais trabalhos do artista em seu site oficial, onde eles estão à venda em formato de pôster com altíssima qualidade de impressão.

Confira a seguir um pouco da arte de Michael ‘Freestylee’ Thompson:

 

 

Reggae Shark: um dos sucessos do canal do YouTube "Barely Political". | foto: reprodução internet

Reggae Shark: um astro jamaicano na web

A velocidade dos negócios relacionados à internet é impressionante. O canal “Barely Political”, por exemplo, foi criado em junho de 2007,  por Ben Relles. A estreia do canal foi com o vídeo “I Got a Crush… on Obama”, que acabou se tornando viral. Em outubro do mesmo ano, o canal foi vendido para a Next News Network e em 2011 foi adquirido pelo YouTube. Hoje, “Barely Political” é um dos 36 canais do YouTube a ultrapassar os 2 bilhões de visualizações e tem mais de 4 milhões de assinantes.

Sucesso do Reggae Shark é tanto que já há até camisetas do personagem à venda.  |  foto: reprodução internet

Sucesso do Reggae Shark é tanto que já há até camisetas do personagem à venda.

Além de sátiras políticas, caminho por onde começou, o canal também faz paródias de celebridades, cultura pop e de memes da internet. Entre as séries que produz, “Key of Awesome” é uma das mais bem sucedidas. Ao contrário do que acontece com a maioria dos YouTubers, o pessoal do “Barely”, como o escritor e ator Mark Douglas, é mais velho (na faixa dos 40 anos) e veio de outras áreas, como stand up comedy.

E por que resolvemos falar desse assunto no site do Jamaica Experience? Simples, o “Key of  Awesome” tem três vídeos muito legais relacionados à Jamaica: “Reggae Shark”, “Reggae Shark Returns” e “Reggae Sharknado”. Em todos eles, que são animações, o personagem principal é um tubarão que vive nos mares da ilha. O primeiro vídeo conta sua origem e como ele se tornou um herói local, combatendo a corrupção. O segundo faz uma analogia com os músicos e artistas que deixaram a Jamaica para fazer carreira nos EUA. Já no terceiro, ele é chamado a combater uma espécie de “tornado de tubarões” que ameaça a sobrevivência de toda uma população, numa clara referência à franquia “Sharknado”, produzida pelo canal de TV americano SyFy. Diversão, crítica e um pouco de reggae.

Para quem gosta de música e de rir um bocado, há sátiras bem engraçadas de clipes da Rihanna, Lady Gaga, Maroon 5 e um bem famoso, da cantora americana Kesha. Uma boa dica para se divertir sozinho ou com os amigos.

Assista abaixo à playlist com os três episódios da websérie lançados até aqui:

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o velocista Usain Bolt posam juntos em Kingston, Jamaica. | foto: divulgação oficial da Casa Branca | Pete Souza

Barack Obama na Jamaica: Yes, they can!

Carisma: qualidade de personalidade que destaca criaturas a exercerem espontaneamente atitudes de líderes, contagiando aos que lhes são próximos.

Atualmente, na política, ninguém melhor do que o presidente dos EUA, Barack Obama, exemplifica a definição. Não importa o quanto se concorde ou não com suas ideias ou com toda a ideologia que representa. O fato é que ele encanta plateias e cultiva fãs, onde quer que vá.

A primeira-ministra da Jamaica, Portia Simpson Miller, ao lado do presidente americano, Barack Obama.  |  foto: reprodução internet

A primeira-ministra da Jamaica, Portia Simpson Miller, ao lado do presidente americano, Barack Obama.

Assim foi a passagem de Obama pela Jamaica, no último mês de abril: um grande sucesso. Especialmente de público. A ponto da primeira-ministra do país, Portia Simpson Miller, declarar o amor do povo jamaicano ao líder norte-americano. O fato de um negro alcançar um dos postos de comando mais importantes do mundo (e repetir o feito) torna-se ainda mais especial num país como a Jamaica, de maioria negra e ainda em busca de igualdade racial.

O destino final da viagem era o Panamá, onde o presidente americano participaria da Cúpula das Américas para discutir, entre outros assuntos, as mudanças nas relações entre EUA e Cuba. A parada na Jamaica teve razões  econômicas, comerciais e estratégicas. O interesse da China na região, o petróleo (barato) vindo da Venezuela e o grande fluxo de turistas americanos – alvos potenciais de uma possível ameaça terrorista – foram, certamente, alguns dos temas abordados.

Obama chegou numa quarta-feira à noite e antes de qualquer compromisso oficial visitou o Museu Bob Marley, em Kingston. Caminhando pela casa em que morou o grande ídolo do reggae, disse ainda ter todos os álbuns e declarou, posteriormente, que ir ao museu foi uma das visitas mais divertidas que fez desde que se tornou presidente. Ponto para Obama.

Fã confesso do rei do reggae, Barack Obama visita o Museu de Bob Marley em Kingston.  |  foto: reprodução internet

Fã confesso do rei do reggae, Barack Obama visita o Museu de Bob Marley em Kingston.

No dia seguinte, cumpriu uma agenda mais protocolar. Encontrou-se com a primeira-ministra Portia Simpson Miller e seguiu para a University of the West Indies. Primeiro, um encontro com líderes dos países caribenhos, depois, uma palestra para uma plateia de 350 jovens.

Para quebrar o gelo, o presidente americano saudou o público em patois, o dialeto jamaicano: “Greetings massive, wah gwaan Jamaica? (algo como “Saudações imensas, Jamaica. Como vão indo?”). Tudo bem, é pouco, não é tão difícil, mas é uma gentileza, uma interação inesperada. Ponto para Obama.

Depois do discurso, o presidente respondeu algumas perguntas, sempre de forma bastante diplomática. Na plateia, entre outros, estava Usain Bolt. Então, na hora das fotos, Obama deu uma de tiete e imitou Bolt, fazendo a pose clássica do corredor. Mais um ponto para ele.

Barack Obama é o primeiro presidente americano em exercício a visitar a Jamaica desde Ronald Reagan, em 1982. Sua simples visita não é capaz de levar embora graves problemas da sociedade jamaicana, porém, sua imagem é inspiradora. Mais do que criticar o imperialismo que ele representa, a demagogia que pratica e até o poder de sedução que exerce sobre o público, vale torcer para que muitos jamaicanos vejam em Obama um espelho e assumam a missão de fazer as mudanças necessárias. Yes, Jamaican people can!

foto: reprodução internet

Bobo Shanti, a ala ortodoxa do Movimento Rastafári

O Movimento Rastafári é tão representativo para a cultura jamaicana que, mesmo tendo dividido o assunto em duas partes (Movimento Rastafári: das origens ao reggae / Movimento Rastafári: crenças e costumes), ainda há muito a dizer. Como em várias religiões, existem no Movimento Rastafári algumas subdivisões como a Bobo Shanti, Niyabinghi e Twelve Tribes of Israel.

A Bobo Shanti Congress ou Ethiopia Black International Congress é uma das mais ortodoxas. Bobo significa negro e Shanti ou Ashanti é a denominação de antigas tribos africanas. Foi fundada em 1958, por Emmanuel Charles Edwards. Para os seguidores da Bobo Shanti, Emmanuel, juntamente com Haile Selassie e Marcus Garvey, compõe a santíssima trindade, na qual Selassie é o rei ou a representação de Deus (Jah), Garvey é o profeta e Emmanuel o sacerdote supremo (chamado de Prince, ou príncipe).

Os rastafáris Bobo Shanti usam turbantes que escondem os dreadlocks |  foto: reprodução internet

Os rastafáris Bobo Shanti usam turbantes que escondem os dreadlocks

Os seguidores dessa linha vivem em comunidades tanto no Caribe (além da Jamaica, nas Bahamas, Trinidad e Ilhas Virgens), quanto na África (Etiópia, Gana e Nigéria). Na Jamaica, o grupo vive em Bull Bay, próximo a Kingston. Por terem usos e costumes muito peculiares, vivem isolados e não aceitam as leis e princípios da sociedade jamaicana. São praticamente autossuficientes, produzem alimentos, sucos, livros e artefatos africanos. Produzem, também, vassouras. Associadas à limpeza, são vendidas em Kingston, como forma de arrecadação de fundos para a comunidade.

Sendo uma religião ortodoxa, a Bobo Shanti tem regras rígidas a serem seguidas. Os homens usam turbantes, escondendo os dreadlocks e vestem túnicas. Já as mulheres devem ter braços e pernas sempre cobertos, não podem ficar sozinhas com homens estranhos e devem manter resguardo no período menstrual (considerado impuro, da mesma forma como acontece para muçulmanos e judeus). O sábado é o dia sagrado, como no judaísmo, sendo o dia dedicado à oração e ao jejum.

O cantor Sizzla é um dos artistas mais prolíficos da Jamaica. |  foto: reprodução internet

O cantor Sizzla é um dos artistas mais prolíficos da Jamaica.

Na comunidade, a maioria dos homens é profeta (espécie de conselheiro) ou padre (aquele que conduz cerimônias religiosas). As mulheres são subordinadas aos homens, da mesma forma que as crianças. Para o ensino básico, frequentam a Jerusalem School Room. Os que desejam ir além, seguem para Kingston, mas poucos o fazem. Os Bobo Shanti fazem uso da ganja (maconha), mas não em público, pois ela é reservada apenas para os cultos.

Um dos conceitos centrais da Bobo Shanti é a afirmação da cultura negra. Seguem a ideia original de Marcus Garvey de que os negros devem voltar à África e acreditam ser descendentes dos etíopes israelitas, o verdadeiro povo judeu, de pele negra. Para os Bobo, Cristo foi negro e já voltou à Terra na encarnação de Haile Selassie e também de Emmanuel.

Mistura de cristianismo, judaísmo e islamismo o rastafarianismo Bobo Shanti tem revelado músicos talentosos. Entre eles, talvez o mais famoso seja Sizzla Kalonji, responsável por reconduzir o dancehall às influências musicais e espirituais do reggae de raiz. Além disso, trata-se de um artista extremamente produtivo que, em cerca de 20 anos de carreira, produziu mais de 70 álbuns solo.

Ouça na íntegra o álbum “Da Real Thing”, de Sizzla Kalonji:

Julian Marley no palco do Espaço das Américas | foto: Fabiano Oliveira

The Wailers & Julian Marley: mágico!

2015 começou muito bem para os amantes de reggae no Brasil. Isso porque o The Wailers, banda ícone do reggae mundial – conhecida, entre outras coisas, por ter sido a banda do rei do reggae, Bob Marley – esteve de passagem por aqui em turnê que percorreu quase todo o país.

O grupo, que já esteve no Brasil em muitas outras oportunidades, desta vez resolveu presentear os fãs com uma apresentação histórica e subiu ao palco pela primeira vez acompanhando o filho do rei, Julian Marley. Mais: reuniu vários integrantes de uma formação clássica, que excursionaram ao lado de Bob Marley entre 1974 e 1981.

Capitaneados pelo lendário baixista Aston “Familyman” Barrett, integrante da formação original, o “The Wailers Band Reunion”, como ficou conhecida esta formação especial, percorreu 15 cidades brasileiras e desembarcou em São Paulo no final de janeiro para um show que ficará marcado para sempre como uma das performances mais emblemáticas do grupo jamaicano em terras tupiniquins.

Músicos como Earl “Chinna” Smith (guitarra), Tyrone Downie (teclados) e Glen DaCosta (sax), além do próprio baixista Aston Barrett, acompanhado de seu filho Aston Barrett Jr. na bateria, garantiram a sonoridade clássica dos Wailers. Julian Marley, com sua presença de palco e energia, representou muito bem o pai e levou o público à loucura com um repertório nada convencional.

É claro que o Jamaica Experience estava lá para conferir tudo isso! Veja no álbum acima como foi esta noite mágica e confira ainda uma entrevista exclusiva que fizemos com Julian Marley e Aston “Familyman” Barret para o nosso canal no Youtube. Pra ficar tudo melhor ainda, cobertura e entrevista “by” Magá Moura. Não dá pra perder, certo?

E só pra não perder o costume: fiquem ligados, vem muito mais por aí!

Assista a seguir à cobertura exclusiva do show para o Jamaica Experience: