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O romancista Marlon James, ganhador do Man Booker Prize 2015. | foto: reprodução internet

A Jamaica é destaque também na literatura

2015 está chegando ao fim e tem sido um ano importante para a Jamaica. Começou com as comemorações do aniversário de 70 anos de Bob Marley, em fevereiro, e passou por conquistas inéditas em esportes nos quais a Jamaica tem pouca ou nenhuma projeção, como o tênis (com Dustin Brown), o futebol (desempenho da seleção na Copa América e na Copa Ouro) e a natação (com Alia Atkinson). No último mês de outubro, foi a vez da Jamaica virar notícia através da literatura.

O escritor e a capa de “Brief History of Seven Killings”  |  fotos: reprodução internet

O escritor e a capa de “Brief History of Seven Killings”

Marlon James, um escritor jamaicano de 45 anos, foi o vencedor do Man Booker Prize, prêmio literário concedido anualmente ao melhor romance publicado em inglês. O Man Booker é o principal prêmio da literatura britânica e um dos mais importantes mundialmente. Desde 2014, a premiação passou a considerar autores de qualquer país, desde que a obra tenha sido escrita originalmente em inglês e publicada no Reino Unido.

O romance “Brief History of Seven Killings” é o terceiro da carreira da Marlon James. Com cerca de 700 páginas, o livro trata de um episódio acontecido na Jamaica, em 1976: uma tentativa de assassinato contra Bob Marley e sua equipe, justamente antes de um show em prol da paz, em Kingston. Política, conflitos sociais e raciais são tratados no livro com certa dose de humor e através de inúmeros personagens.

Curiosamente, a narrativa é feita por 15 desses personagens. A cada capítulo, uma surpresa, pois o leitor nunca sabe quem será o próximo a contar a história. Nenhum deles, no entanto, é Bob Marley. Mesmo estando no centro da trama, seu nome não é sequer mencionado, sendo tratado sempre por “The Singer” (O Cantor).

Jornal destaca o atentado sofrido por Bob Marley.  |  fotos: reprodução internet

Jornal destaca o atentado sofrido por Bob Marley.

A história do próprio autor é também singular. Nascido em Kingston, é filho de mãe detetive e pai advogado, o que, de certa forma, lhe credencia a desenvolver boas histórias policiais. Na prática, porém, apenas neste último trabalho a temática policial entrou em cena. Seus dois romances anteriores (“John Crow’s Devil” e “The Book of Night Women”) eram romances de época, voltados a aspectos históricos da Jamaica.

Comum na trajetória da maioria dos escritores, a persistência foi uma das qualidades fundamentais para o sucesso de James. Seu primeiro romance foi rejeitado exatas 78 vezes antes de ser publicado. Talvez mais uma semelhança entre brasileiros e jamaicanos, pois, pelo visto, eles também não desistem nunca.

Apesar da premiação, que deverá alavancar ainda mais o sucesso do livro, a obra foi criticada – especialmente no Reino Unido – por utilizar gírias jamaicanas e também norte-americanas, do Harlem, além de palavrões. Para dificultar ainda mais a vida dos críticos, há um capítulo inteiro escrito em patois, o dialeto jamaicano. No Brasil, a Editora Intrínseca adquiriu os direitos do livro, mas ainda não há previsão do lançamento em português.

E como Jamaica sempre tem a ver com a música, o jornal britânico The Guardian pediu a James que elaborasse uma playlist relacionada ao livro. São cinco canções que, segundo o autor, abrangem os 15 anos em que a história se passa. Se você não consegue esperar pela edição nacional, leia em inglês, ouvindo abaixo as sugestões de Marlon James:

Arleen, do General Echo: um reggae dos anos 1970, que fala sobre o esquema de segurança domiciliar, comum na ilha naqueles tempos;

Under Me Sleng Teng, de Wayne Smith: espécie de dancehall caseiro, do início dos anos 1980;

The Bridge is Over, de Boogie Down Productions: hip-hop americano com conexão jamaicana, de meados dos anos 1980;

Mr. Loverman, de Shabba Ranks: canção que marca o renascimento do dancehall, no final dos anos 1980;

Ghetto Red Hot (remix), do Super Cat: um impressionante híbrido de hip-hop e dancehall, lançado no início dos anos 1990.

fotos: reprodução internet | arte: Jamaica Experience

Dancehall Queens: o poder de uma dança

Carlene Smith, a primeira DHQ.  |  foto: reprodução internet

Carlene Smith, a primeira DHQ.

O dancehall surgiu na Jamaica nos anos 1960, nas festas embaladas pelos sound systems. De lá para cá, passou por diversas fases, com letras ora mais sexualizadas, ora mais espiritualizadas e com canções mais ou menos dançantes. Nos anos 1990, machismo, sexo e homofobia eram temas recorrentes e por essa época, surgiram concursos para eleger a Dancehall Queen (DHQ), algo como a rainha do baile.

A primeira delas foi Carlene Smith, coroada em 1992. O sucesso do evento fez com que se tornasse oficial e passasse a existir anualmente a partir de 1996, sempre realizado em Montego Bay. O ritmo e a dança, talvez mais facilmente propagados pela internet, caíram no gosto de muitos outros países e, atualmente, são realizados concursos semelhantes nos Estados Unidos, na Europa (Alemanha, Finlândia e Itália, por exemplo) e também na Austrália e no Japão.

Do Japão, aliás, veio a vencedora do concurso internacional de 2002. Junko Kudo foi a primeira não jamaicana a vencer e sua conquista estimulou inúmeras outras dançarinas a participar, tornando a competição de interesse mundial.

Contudo, assim como acontece com as dançarinas de funk no Brasil, as dançarinas de dancehall jamaicanas sofrem preconceito. Além da dança ser extremamente sexualizada, os figurinos são sempre muito justos, curtos, decotados e, em geral, resultam em pouca roupa em corpos com muitas curvas.

Além das reclamações de pais que não querem ver suas pequenas garotinhas imitando o que veem na TV (qualquer semelhança com nossa Anita não é coincidência), há uma discussão um pouco mais complexa por trás de tudo isso. Essas mulheres estão sendo submissas ao sobreviver a partir da exposição de seus corpos para o público masculino ou, ao contrário, têm absoluto controle da situação por atrair e manipular massas de marmanjos?

O assunto é polêmico e por isso mesmo ótimo tema de discussão. Tanto é que já gerou vários filmes e documentários, dos quais vamos destacar dois. O primeiro é “Dancehall Queen”, um filme mais antigo, de 1997, que conta a história de Marcia Green, uma mãe solteira que trabalha como vendedora ambulante e tem dificuldades para criar duas filhas adolescentes. Além disso, Marcia enfrenta problemas com dois homens: Larry – uma espécie de tio que, além do gosto por armas, está de olho em uma de suas filhas – e Priest – o assassino de sua amiga. Marcia cria, então, uma nova versão de si mesma e sob a identidade de Mystery Lady participa de um concurso de dancehall, conseguindo colocar os dois homens um contra o outro.

O filme conta com a direção do britânico Don Letts, que além de cineasta é músico, DJ e já produziu inúmeros vídeos para bandas como The Clash, The Pretenders e Big Audio Dynamite.

A dancehall queen japonesa Pinky está em "Bruk Out!"  |  foto: reprodução internet | Cori McKenna

A dancehall queen japonesa Pinky está no documentário “Bruk Out!”

O segundo é um documentário, cujo lançamento está previsto ainda para este ano. “Bruk Out!” é dirigido por Cori McKenna, editora da HBO, e segue seis das melhores DHQs do mundo, vindas do Japão, Itália, EUA, Polônia, Espanha e, é claro Jamaica, enquanto elas se preparam para a maior competição mundial de dancehall.

Cada uma delas tem sua história pessoal e suas próprias razões para ter entrado no mundo do dancehall. A espanhola Raquel, por exemplo, aturava um marido violento, até que decidiu trocar a dança moderna pelo ritmo jamaicano. Bianca, a dançarina da Jamaica, é um tipo plus size e diz não sentir preconceito em seu país, ao contrário do que acontece nos EUA.

Segundo McKenna, algo que lhe chamou a atenção entre as protagonistas do filme foi o clima de total respeito e admiração mútuos. Apesar de estarem numa competição, são abertas e receptivas tanto entre si, quanto com o público que lhes assedia. Sua grande dificuldade, porém é falar de si mesmas, de sua intimidade. Talvez, seja uma forma de resguardarem o poder que estão começando a conquistar a partir  do dancehall.

Assista ao trailer do documentário “Bruk Out!”, de Cori McKenna:

foto: divulgação

World a Reggae: Snoop Lion, o novo camaleão da música

Excelente observador – capaz de mover cada um dos olhos para um lugar, ao mesmo tempo – o camaleão é um réptil cuja principal característica é o mimetismo. Fora do campo da biologia, camaleão é aquele que adapta seu comportamento e características conforme o ambiente. No universo da música, dois exemplos clássicos são David Bowie, considerado o camaleão do rock e Madonna, sua versão feminina no quesito transformação.

Calvin Cordozar Broadus Jr. também pode ser incluído na mesma espécie. Ele já foi Snoop Doggy Dogg, Snoop Dogg e até Snoopzilla, além, é claro, da fase Snoop Lion. A mudança não foi apenas no nome, mas também no estilo musical, que passou a ser o reggae, gênero do qual tanto falamos por aqui.

Quando o então Snoop Doggy Dogg começou sua carreira, em 1992, era um rapper e participou do disco “The Cronic”, de Dr Dre, antes de lançar seu primeiro álbum no ano seguinte. “Doggystyle” foi um sucesso, liderando as paradas e vendendo milhares de discos. Suas letras, sempre recheadas de muita violência, encontravam eco em sua própria vida. Snoop chegou a ser preso várias vezes, sendo uma delas sob acusação de participar de um assassinato.

Snoop Doggy Dogg, Snoop Dogg , Snoop Lion, Snoopzilla: as várias faces do camaleão Calvin Cordozar Broadus Jr.  |  fotos: reprodução internet

Snoop Doggy Dogg, Snoop Dogg , Snoop Lion, Snoopzilla: as várias faces do camaleão Calvin Cordozar Broadus Jr.

Calvin personificava a imagem do gangsta rap, posava com armas, abusava das drogas e foi cafetão. Entre 1993 e 2011, lançou um total de 19 discos e atuou no cinema em filmes como “Baby Boy – O Dono da Rua”, “Dia de Treinamento” e “Confusões no Lava-Jato”.

Em 2012, Snoop viajou para a Jamaica, onde converteu-se ao movimento rastafári e, por sugestão de um religioso local, assumiu o nome Snoop Lion. Como reflexo dessa mudança, Snoop gravou o álbum “Reincarnated” – com produção do Major Lazer. A violência passou a ser combatida nas letras, assim como a luta entre gangues. Snoop Lion se dizia a reencarnação de ninguém menos do que Bob Marley.

Snoop Lion: autenticidade ou jogada de marketing?  |  foto: reprodução internet

Snoop Lion: autenticidade ou jogada de marketing?

Apesar de quase totalmente gravado na Jamaica e de contar com inúmeras participações especiais nas diversas faixas, em nenhuma delas há um representante rastafári jamaicano. Talvez  isso tenha irritado Bunny Wailer, que acusou Snoop de “uso fraudulento de personalidades e símbolos rastafáris”. Praticamente uma excomunhão, via Facebook.

De qualquer forma, “Reincarnated” acabou resultando num disco pop agradável, com referências de roots reggae e dancehall. Foi indicado para o Grammy de melhor disco de reggae, mas perdeu para “Revelation Part 1: The Root of Life”, de Stephen Marley.

Uma das melhores faixas, coincidentemente, é Lighters Up, que conta com as participações jamaicanas da banda Tivoli Gardens Drum Corp e dos artistas de dancehall Mavado e Popcann. Já em Ashtrays and Heartbreaks, um pop reggae, quem participa é outra candidata a mutante da música, Miley Cyrus.

Além do álbum, a viagem gerou também um documentário e um livro de fotos, ambos registrando a experiência e a transformação. Na sequência, Snoop criou o pseudônimo Snoopzilla para um novo projeto, e não se sabe se Snoop Lion encerrou totalmente as atividades ou se ainda pode voltar a gravar. Tudo depende de como Calvin enxergar o futuro.

Ouça abaixo o álbum “Reincarnated”, de Snoop Lion:

arte: Michael Thompson | Freestylee

A arte sem fronteiras de Michael ‘Freestylee’ Thompson

Arte é para ser apreciada e ponto. Mas, quando a arte está associada a abrir os olhos das pessoas sobre o que está acontecendo no mundo, quando o artista usa sua criatividade na busca de mudanças positivas e faz de sua arte um instrumento de ativismo de paz, apreciar apenas é pouco.

O artista jamaicano Michael 'Freestylee' Thompson  |  foto: divulgação

O artista jamaicano Michael ‘Freestylee’ Thompson

O trabalho do jamaicano Michael Thompson, além de instigante, tem muita beleza. Michael Thompson é designer gráfico. Ele nasceu em Kingston, Jamaica, e desde 1990 mora nos EUA. Mais precisamente na pequena Easton, na Pensilvânia, numa área semirrural onde ele pode criar tranquilamente, longe da pressão dos grandes centros. Também conhecido como Freestylee, Thompson foi bastante influenciado pelo artista rastafári Ras Daniel Hartman – o mesmo que fez o papel de Pedro, no filme “The Harder They Come”, com Jimmy Cliff.

Os trabalhos de Ras Daniel lhe trouxeram referências e tradições do movimento rastafári que, nos anos 1970, começavam a florescer na cultura popular jamaicana. Em 1978, Freestylee venceu um concurso de pôsteres na Jamaica e integrou a delegação jamaicana que participou do 11º Festival Mundial da Juventude, em Havana, Cuba. Segundo ele, essa visita foi uma experiência transformadora e uma tremenda oportunidade. Entre 1965 e 1975, Cuba vivera sua “época de ouro” do design, com grande produção de pôsteres com conotações políticas, especialmente aqueles produzidos pela OSPAAAL – Organização de Solidariedade aos Povos da Ásia, África, e América Latina – liderada por Che Guevara.

A ideia central dos trabalhos cubanos e que permeia a arte de Thompson é de que “simples é melhor” e o foco está na mensagem. Sua arte é moderna, icônica e sempre com fortes mensagens sociais ou políticas. Os temas são variados: pobreza, racismo, políticas migratórias e muito, muito, sobre a cultura jamaicana. Desde os gêneros musicais e seus representantes, passando pelos símbolos rastafári e elementos urbanos retrô, que remetem à sua adolescência na Jamaica. Freestylee já obteve reconhecimento internacional, com exposições em vários países europeus e trabalhos publicados em importantes revistas de design. Agora, seguindo os princípios semeados pelo reggae e pelo movimento rastafári, Michael Thompson quer devolver à comunidade e ao mundo um pouco do que conquistou.

Em 2011, juntamente com a artista grega Maria Papaefstathiou, criou o International Reggae Poster Contest, um concurso anual de pôsteres com temática ligada não somente ao reggae, mas aos gêneros musicais jamaicanos, como o ska, rocksteady, dub etc. O concurso tem dois objetivos: o primeiro é iniciar uma campanha para a construção de um Reggae Hall of Fame, em Kingston, um misto de museu e local para apresentações musicais, uma espécie de meca para os amantes do reggae. O segundo é conscientizar a respeito da importância da Alpha Boys School – uma escola vocacional por onde passaram astros como Desmond Dekker e Yellowman – e que precisa de todo tipo de suporte.

As ideias de Michael Thompson são grandes, não cabem em divisões políticas, são globais. A Primavera Árabe, o Occupy Movement, o terremoto no Haiti, são alguns dos temas que ele explorou, emprestando sua criatividade na busca do que considera correto e justo. Por isso ele é Freestylee: um artista sem fronteiras. Conheça mais trabalhos do artista em seu site oficial, onde eles estão à venda em formato de pôster com altíssima qualidade de impressão.

Confira a seguir um pouco da arte de Michael ‘Freestylee’ Thompson:

 

 

Lloyd "King Jammy" James é um dos mais aclamados produtores jamaicanos | foto: divulgação

A Jamaica e seus “templos” musicais

Studio One, Tuff Gong, Black Ark, Channel One. Se você é apreciador de reggae e música Jamaicana em geral, já deve ter ouvido falar destes estúdios, famosos por terem dado vida a alguns dos maiores clássicos musicais produzidos na ilha. De fato, na Jamaica, engenheiros de som, técnicas e equipamentos utilizados nas gravações são considerados elementos tão importantes quanto a própria obra musical a ser trabalhada. E por vezes mais importantes até que o próprio artista!

Os produtores Syrix e Professa com Dean Fraser, um dos mais aclamados músicos e produtores da Jamaica, ao centro. | Foto: reprodução Internet

Os produtores Syrix e Professa com Dean Fraser, um dos mais aclamados músicos e produtores da Jamaica, ao centro.

A relação dos músicos na Jamaica com os estúdios é tão visceral que é quase impossível dissociar a imagem de alguns artistas dos locais que ajudaram a eternizar suas obras. Como bons exemplos disso temos o Tuff Gong, estúdio que pertenceu a Bob Marley e hoje continua sob a administração de sua família, e o lendário Black Ark, do genial produtor Lee “Scratch” Perry.

A explicação para isto está na maneira como músicos e produtores locais sempre entenderam a música e seus processos de construção, reconstrução e desconstrução. E isso é a própria essência da música jamaicana, especialmente em gêneros como o dub e o dancehall, que usam e abusam dos recursos digitais para criarem atmosferas sonoras que ao mesmo tempo intrigam e seduzem, especialmente os jovens.

No início da década de 70, Lee Perry e King Tubby definiram as bases sobre as quais a indústria da música pop viria a se apoiar mais tarde ao criarem o dub, com suas formas de agenciamento de sons. Na metade dos anos 80, foi a vez de Lloyd “King Jammy” James e Wayne Smith darem vida àquela que viria a ser a primeira música totalmente computadorizada da história da música jamaicana, Under Mi Sleng Teng (ouça abaixo).

Ao longo das últimas 5 décadas, a ilha que respira música 24 horas por dia foi ficando cada vez mais conhecida por sua capacidade de (re)criar estilos e antecipar tendências musicais ao mundo, influenciando gerações de jovens como os produtores Syrix & Professa, da Dreama Studios e Irievibrations Entertainment, da Alemanha. Juntos, eles decidiram criar uma websérie sobre a história e cultura da indústria musical. E resolveram começar pela Jamaica!

“Studio Chronicles” traz curiosidades dos bastidores, entrevistas com produtores e engenheiros responsáveis pelas gravações, além é claro dos artistas. O resultado é uma saborosíssima viagem pela história da música jamaicana através de alguns dos seus mais emblemáticos estúdios. E por que não dizer “templos”?

Assista a seguir à playlist com a websérie completa em 5 episódios!

Assista à websérie “Studio Chronicles”, com trailer + 5 episódios:

Lady Saw, cantora jamaicana conhecida como a "rainha do dancehall" | foto: reprodução internet

Qual é o lugar da mulher na música jamaicana?

A Jamaica foi colonizada primeiramente por espanhóis, que trouxeram os primeiros escravos africanos e, posteriormente por ingleses. Às culturas latinas e africanas, que têm em comum uma alta dose de machismo, somou-se, no caso da Jamaica, a questão dos princípios seguidos pelos rastafáris, os quais acabam por colocar a mulher em posição secundária, de submissão.

Foto de família jamaicana no início do século XX |  foto: reprodução internet

Foto de família jamaicana no início do século XX

Os reflexos disso na sociedade jamaicana são muitos e bastante cruéis, em alguns casos. As mulheres resistem ao planejamento familiar, especialmente por conhecerem a posição contrária de seus pares. Elas costumam ter muitos filhos, de diferentes parceiros e a razão é, sobretudo, econômica: se um pai não reconhecer suas responsabilidades, quem sabe outro o faça.

Mulheres criando filhos sem a ajuda ou presença do pai são uma instituição na Jamaica. Estima-se que oito em cada dez crianças nasçam fora de um casamento. Esse desajuste familiar tem consequências prejudiciais, tanto para as mulheres quanto para as crianças.

Atualmente, as mulheres representam cerca de 46% da força de trabalho na ilha, a maior taxa per capita do mundo. Submetem-se a todo tipo de trabalho, especialmente àqueles rejeitados pelos homens, em confecções ou como empregadas domésticas. Desempenham funções cujos salários são baixos e recebem menos que homens exercendo a mesma função. A participação das mulheres jamaicanas em posições de alta gerência não chega nem a 10% do total.

"Dancehall party": ritmo envolvente e performances sensuais  |  foto: reprodução internet

“Dancehall party”: ritmo envolvente e performances sensuais

As manifestações culturais de um povo refletem suas características, seu modo de pensar, seus problemas. Assim é na música. Enquanto as letras dos roots reggae eram mais filosóficas e às vezes até messiânicas, o dancehall e o ragga (dancehall digital) são mais explícitos na crítica social, ou quando tratam de violência ou sexo. Nesse sentido, aproximam-se do funk carioca, inclusive nas performances e nas danças extremamente sexualizadas.

De um lado, cantores como Shabba Ranks – que fez grande sucesso nos anos 1990 sendo, inclusive, considerado símbolo sexual –  com letras onde o sexo é quase uma obsessão e a mulher, um mero objeto. Atualmente, na mesma linha, Elephant Man canta pérolas como Whine Up.

Como resposta, há mulheres que resolveram combater o machismo através da música, como Lady Saw. Em Not In Love (ouça a faixa acima) e Rich Girl, por exemplo, ela coloca a mulher no poder, dona de seus sentimentos ou de seu dinheiro. Já Tanya Stephens vai da reclamação pelo tratamento recebido, como em Lying Lips e It’s A Pitty (ouça abaixo), até a dominação através do sexo, como em UnapologeticPon Di Side.

Há quem defenda que a posição da mulheres na Jamaica não é tão crítica, pois segundo esse raciocínio, elas conseguem manipular os homens através da sexualidade, fazendo-os sentir donos da situação. Sinceramente, prefiro acreditar numa outra linha, que demonstra que a escolarização está crescendo junto às mulheres jamaicanas. Como as brasileiras, elas são dedicadas e acabam tendo mais anos de estudo, e isso, a médio prazo, as levará a uma independência social e financeira que lhes permitirá tratar de seus relacionamentos de igual para igual.

Assista o clipe “Unapologetic”, de Tanya Stephens:

A banda No Doubt, da vocalista Gwen Stefani: Influências da música jamaicana e discos produzidos na ilha. | Foto: reprodução internet

World a Reggae – No Doubt: reggae music “underneath it all”

A influência da música jamaicana é assunto do qual já tratamos anteriormente (ver “A onda jamaicana que invadiu o Reino Unido“). Isso aconteceu não apenas no Reino Unido, mas também nos EUA, onde um dos bons exemplos é a banda No Doubt, da vocalista Gwen Stefani.

Gwen Stefani fez homenagens à Jamaica e ao reggae ao batizar dois de seus três filhos | foto: reprodução internet

Gwen Stefani fez homenagens à Jamaica e ao reggae ao batizar dois de seus três filhos

Inspirada na banda inglesa Madness – uma das primeiras responsáveis pelo revival do ska nos anos 1970 – a americana No Doubt foi criada em 1987. No início, era uma mistura de  new wave e ska. Começaram a fazer sucesso na Califórnia, onde a banda nasceu, e gravaram seu primeiro disco (“No Doubt”) em 1992. Então, sofreram o impacto da invasão do movimento grunge, também conhecido como som de Seattle (Nirvana, Pearl Jam e companhia). Mantiveram seu estilo e com alguma influência do punk rock, lançaram o segundo álbum (“The Beacon Street Collection”), em 1995.

Ainda em 1995, lançaram um novo álbum (“Tragic Kingdom”) que marcava o fim do relacionamento entre a vocalista Gwen e o baixista Tony Kanal. A temática, aliada à vocação pop de Gwen, sempre presente na mídia, ajudaram a promover o disco, que chegou ao primeiro lugar nas paradas. O álbum seguinte, “Return of Saturn”, saiu apenas em 2000 e teve boa aceitação de crítica e público, com sucessos como Simple Kind of Life e Ex-Girlfriend.

Contudo, a influência jamaicana está mais evidente no quinto álbum, chamado “Rock Steady” (ouça abaixo, na íntegra). Lançado em 2001, o álbum começou a ser gravado em Los Angeles e San Francisco. Posteriormente, a banda seguiu para Londres e Jamaica e trabalhou em conjunto com diversos intérpretes, autores e produtores. Entre eles, os jamaicanos Sly Dunbar & Robbie Shakespeare – que já foram produtores de artistas como Peter Tosh, Bob Dylan e os Rolling Stones – os americanos do The Neptunes (duo de Pharrel Williams) e o inglês William Orbit, produtor de Madonna.

Com tantas estrelas, o resultado só poderia ser excepcional. Dub jamaicano, pop eletrônico e dance são alguns dos estilos que dão forma ao disco, que vendeu cerca de 3 milhões de cópias. Dois destaques são as faixas Hey Baby e Underneath It All. A primeira, com a participação do DJ jamaicano Bounty Killer, gerou o single que rendeu ao No Doubt o quinto lugar na Billboard Hot 100.

Underneath It All,  escrita por Gwen Stefani e Dave Stewart, do Eurythmics, tem suas curiosidades. A banda foi visitar Dave, a quem não conheciam, em seu apartamento. Em quinze minutos, sentados na cozinha, Gwen e Dave tinham a música pronta. Para o álbum, a canção foi gravada com a participação da cantora de reggae jamaicana Lady Saw (assista ao videoclipe acima).

Depois de um hiato de mais de dez anos, nos quais Gwen teve sua carreira solo, além de três filhos, a banda lançou, em 2012, o disco “Push and Shove”, cuja finalização foi feita em um estúdio na Jamaica (ouça abaixo a faixa que dá nome ao disco, com participação especial do jamaicano Busy Signal). A produção, dessa vez, ficou a cargo do DJ americano Diplo, do Major Lazer.

Gwen, aliás, foi bastante criativa ao dar nomes a seus filhos e, em dois deles, expressou sua forte relação com a Jamaica. O mais velho é Kingston James McGregor Rossdale, sim, Kingston, como a capital da Jamaica. O do meio chama-se Zuma Nesta Rock Rossdale, sendo que Nesta é o segundo nome de Robert (ou Bob) Marley. O mais novinho, nascido em fevereiro deste ano, é Apollo Bowie Flynn Rossdale, mas Bowie and Flynn são nomes de solteira da mamãe. Além de extensos, os nomes trazem inúmeras homenagens e referências a pessoas e locais importantes para Gwen e seu marido, Gavin Rossdale. Pelo bem das crianças que estão por vir, esperamos que essa moda não pegue!

Ouça o disco “Rock Steady”, do No Doubt, na íntegra:

foto: reprodução internet

Mistérios do Twerk

Lambada, zumba, stiletto. Com certeza, você já ouviu falar delas. De tempos em tempos, surge uma nova dança, um novo ritmo, que se espalha pelo mundo e se torna uma verdadeira mania. Com o twerk também foi assim.

A palavra twerk vem de twist (a dança) + jerk (que pode ser um puxão ou comida jamaicana) ou de trick (truque) + work (trabalho) ? E da onde vem esta dança, da Jamaica ou de New Orleans? Há controvérsia…

A americana Millus Cyrus popularizou o twerk com o clip We Can't Stop

A americana Milley Cyrus popularizou o twerk com o clip We Can’t Stop  |  foto: divulgação

Melhor, então, é tentar entender um pouco mais sobre esta dança que se popularizou, em 2013, com o clip We Can’t Stop, da cantora Milley Cyrus.

Na Jamaica, a dança está ligada a um estilo musical chamado dancehall, que surgiu nos anos 1970 e é uma espécie de mistura entre o reggae e o hip hop. É uma dança extremamente sensual, onde o foco está nos movimentos do quadril e em agachamentos. Dá para imaginar o esforço físico requerido: em uma aula de 50 minutos são gastas, em média, 500 calorias.

Para confundir você mais um pouco, o que tem a Rússia a ver com o twerk? Não se sabe bem porque – afinal trata-se de um país com uma cultura muito particular, de onde surgiram grandes nomes do balé clássico – mas o twerk caiu nas graças das mulheres e tornou-se uma febre, inclusive com competições entre clubes. Ao que parece, pelo estilo da música, o twerk que se dança por lá é o autêntico jamaicano, apesar de todas as diferenças geográficas e culturais.

A dança tem andado tão em alta que o verbete twerk acabou, em 2013, entrando para o tradicional dicionário britânico Oxford. Agora não há mais dúvida: o twerk veio para ficar!

Bob Marley & The Wailers, em registro de 1973 para o tradicional programa de TV da BBC, em Londres. | foto: reprodução internet

One good thing about music: reggae at BBC

“Pois o reggae quando bate você nunca sente dor”, cantou a banda Cidade Negra na música “Downtown” – hit do grupo nos anos 90 – em uma bem-sucedida adaptação da frase de Bob Marley em “Trenchtown Rock”, por sua vez, hit do rei do reggae nos anos 70.

Embora seja utilizado para descrever a música jamaicana de um modo geral, o termo reggae indica mais especificamente um tipo de música em particular, nascido na Jamaica no final dos anos 60 e que tem como precursores imediatos o rocksteady e o ska.

Foi a partir dos anos 70, no entanto, que o gênero finalmente saiu dos guetos jamaicanos para alçar voos mais altos, primeiramente pela Europa e logo depois conquistando os mercados americano e mundial.

De lá pra cá, o reggae não só ganhou adeptos mundo afora como influenciou de forma contundente e definitiva a música e cultura globais.

Neste precioso registro da BBC, cujo formato já se tornou uma tradição para amantes do reggae e de música jamaicana, é possível conferir uma boa mostra do que foi o período considerado pela crítica mundial como a “golden era” do gênero.

São 90 minutos de um delicioso passeio musical pela essência do reggae em suas mais diversas vertentes, pra curtir sem moderação do início ao fim. Afinal, “uma coisa boa sobre música é que, quando ela bate, você não sente dor”!