Posts

A série de quadrinhos Dread & Alive, do brasileiro Nicholas da Silva

Dread & Alive: quadrinhos com herói jamaicano

A música pode despertar interesses que muitas vezes não têm relação direta com o universo musical. Através da música, causas são defendidas, histórias são contadas, lugares são descritos e têm suas belezas exaltadas; aprende-se sobre o amor e a dor de perdê-lo; pessoas importantes ou apenas muito amadas são homenageadas ou apresentadas ao mundo. Há pessoas que tiveram os rumos de suas vidas transformados a partir de uma canção, ou de várias. Foi o que aconteceu com Nicholas da Silva.

Brasileiro, com nacionalidade americana e vivendo nos EUA, Nicholas teve uma vida cheia de mudanças. O trabalho do pai, como engenheiro, levou a família a viver em diferentes partes do mundo, com todos os ajustes e adaptações necessários. Exemplo de mistura racial, Nicholas têm ascendência africana, indiana e holandesa, além da brasileira. No entanto, através do reggae, começou a se interessar pela Jamaica, por sua história e suas origens. Quando criança, o pai o levava frequentemente à biblioteca. Nicholas gostava particularmente de ficção científica e sentiu falta de histórias com protagonistas de origem africana. Resolveu, então, criar suas próprias histórias.

O brasileiro Nicholas da Silva, autor da série de quadrinhos Dread & Alive.  |  foto: reprodução internet

O brasileiro Nicholas da Silva, autor da série de quadrinhos Dread & Alive.

Em suas pesquisas sobre a Jamaica, Nicholas ficou muito interessado nos Maroons de Accompong. Comunidade autônoma, existe na Jamaica até os dias atuais e tem origem nos primeiros Maroons, africanos fugitivos que escaparam dos colonizadores, aliaram-se aos nativos Taínos e passaram a viver isolados. Sua resistência à escravização e exemplo de independência inspiraram a imaginação de Nicholas. Somou o reggae que amava a tudo isso e criou o herói Drew Mcintosh e a lenda de Dread & Alive.

Do autor, Drew herdou o gosto por viajar e experimentar outras culturas. Já um dos temas mais importantes das histórias de Dread & Alive é a preservação do planeta e dos direitos de seus habitantes, especialmente de Cockpit Country, região da Jamaica onde vivem os Maroons. Quando criou Drew Mcintosh, Nicholas até cogitou metê-lo numa malha verde, ao estilo do Batman ou do Homem-Aranha. Felizmente, reconsiderou e o que se vê hoje é um herói que, fisicamente, se parece com um rastafári, usa dreadlocks e roupas iguais a de qualquer jovem.

Antropólogo, aventureiro e guerreiro da causa ecológica, Drew possui um amuleto que lhe confere poderes. Quando tinha apenas 15 anos, seu mentor, Cudjoe, lhe deu esse amuleto que renova sua energia e lhe dá força para lutar contra os inimigos. Drew não gosta de lutar, mas não quer que o mal vença e faz de tudo para proteger os habitantes da Terra, sejam eles humanos ou animais.

Antes de lançar Dread & Alive, o autor desenvolveu a série de quadrinhos Hitless, totalmente digital e compatível com o Sony PSP e o iPod. Lançada em 2007, a série incluía uma trilha sonora representando o tema da história. O trabalho foi sucesso instantâneo e ganhos diversos prêmios. Porém, Dread & Alive já estava em seus planos e, assim, foi lançada em 6 de fevereiro de 2010 – não por acaso, dia do aniversário de Bob Marley. Juntamente com o número 1, foi lançado o site em que Da Silva incluía uma seção musical recheada do que ele chama de reggae consciente.

Os personagens principais de Dread & Alive e alguns dos produtos comercializados pela empresa de Nicholas da Silva.  |  fotos: reprodução internet

Os personagens principais de Dread & Alive e alguns dos produtos comercializados pela empresa de Nicholas da Silva

Essa ligação dos quadrinhos com a música despertou o interesse do selo Soul of the Lion, especializado em projetos especiais e de apelo criativo. Trocando ideias, chegaram aos Lost Tapes, compilações musicais que servem como trilha sonora das histórias de Dread & Alive. Já são seis volumes, com muito reggae e dub, para ouvir enquanto se lê as histórias ou para lembrar delas enquanto se ouve.

Além de roteirista e desenhista, Nicholas da Silva é empresário. Dono da Zoolook, agência que criou em 1996 – inicialmente para divulgar seus próprios projetos. Hoje, os quadrinhos e a música dão suporte a uma variedade de produtos ligados à série, que vão de simples camisetas a skates com imagens da saga.

A música mudou a vida de Nicholas e ele, com suas histórias e as canções que escolhe para acompanhá-las, está ajudando a mudar a cabeça das novas gerações, trazendo a elas valores que, se bem aprendidos, poderão mudar o mundo. Que assim seja!

Assista ao promo Dread & Alive’s The Lost Tapes – volume 5:

OT_blue-mountains_destaque1

Blue Mountains são agora Patrimônio Mundial da Humanidade

O mundo é muito vasto, repleto de lugares não apenas bonitos mas significativos, quer em termos naturais ou culturais. As pirâmides do Egito, a catedral de Notre Dame, na França, os Alpes Suíços e o Parque Yellowstone, nos EUA, são alguns exemplos. No Brasil, locais como os centros históricos de Ouro Preto e Olinda, ou áreas de pura natureza, como o Pantanal e Fernando de Noronha.

As Blue Mountains ficam entre Kingston e Port Antonio.  |  foto: reprodução internet

As Blue Mountains ficam entre Kingston e Port Antonio.

Não é por acaso que todos os lugares citados fazem parte de um grupo, denominado pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), Patrimônio Mundial da Humanidade. Há mais de 40 anos – mais precisamente desde 1972, quando foi assinado o tratado internacional sobre o assunto – a  UNESCO vem buscando identificar, proteger e preservar locais considerados de valor excepcional para a humanidade.

Além de incentivar governos e populações a cuidar desse patrimônio, a iniciativa da UNESCO acaba por aguçar a curiosidade em conhecê-lo. Anualmente, novas localidades passam a fazer parte dessa lista e a Jamaica, com suas Blue Mountains e John Crow, acaba de entrar no grupo.

Os dois conjuntos de montanhas, com cerca de 26.000 hectares, fazem parte de um parque de mesmo nome e com área total de 48.000 hectares. O terreno acidentado, porém cercado de vegetação exuberante, fontes e cascatas foi o cenário perfeito para que lá se instalasse, no século XVIII, um grande número de escravos fugidos, os Maroons. Aproveitando-se da mudança de colonizador, uma vez que a Inglaterra tomou a ilha das mãos da Espanha, rumaram para as montanhas e criaram vilas e cidades, passando a viver em liberdade.

Especificamente nesta área agora nomeada Patrimônio Mundial da Humanidade, viveu a tribo dos Windward Maroons. Guerreiros e bastante organizados, lutaram com os britânicos até que, em 1739, conseguiram um tratado de paz, garantindo sua liberdade e soberania na região.

Os Maroons vivem hoje em cidades como Charles Town, Scots Hall e Moore Town, desceram do topo das montanhas em direção ao vale do Rio Grande. Preservam, contudo, suas tradições na forma de governo, na música, na dança, no batuque e também na culinária e no uso de ervas medicinais. Tudo isso, somado aos resquícios das primeiras vilas e cidades no alto das montanhas é o que se pretende preservar em termos culturais.

No que tange aos aspectos naturais, a área possui um dos habitats considerados raros nas montanhas tropicais, denominado floresta nublada (devido a ocorrência frequente de neblina baixa, na altura das copas das árvores). Além de inúmeras árvores e plantas nativas, as montanhas são refúgio para espécies como a borboleta rabo-de-andorinha e pássaros como o Jamaican Blackbird e o Jamaican Tody. Finalmente, as cadeias montanhosas fornecem mais de 40% da água consumida pela população da Jamaica, além de água para uso na agricultura, indústria e comércio.

As paisagens encantadoras da Jamaica, muitas delas captadas do alto das montanhas, podem ser vistas em “Beneath Jamaican Skies”. O filme foi produzido pelo canadense Levi Allen, que utilizou o processo cinematográfico de time-lapse, aquele em que o tempo parece correr mais depressa. É uma boa maneira de traduzir em imagens um pouco da exuberante natureza da ilha.

Certamente, a denominação atribuída pela UNESCO às montanhas jamaicanas é mais do que justa. Esperamos que o fato sirva de inspiração para conhecer não apenas as Blue Mountains mas também outros belíssimos e importantes locais na Jamaica que futuramente, quem sabe, também possam integrar esse grupo.

Assista ao vídeo “Beneath Jamaican Skies”, de Levi Allen:

fotos: reprodução internet | fotomontagem: Jamaica Experience

Movimento Rastafári, parte 1: das origens ao reggae

Comunidade de Maroons nas montanhas jamaicanas, no início do século XX. | fotos: reprodução internet

Comunidade de Maroons nas montanhas jamaicanas, no início do século XX. | fotos: reprodução internet

A escravidão foi um dos fatos históricos dos quais a humanidade pode e deve sentir-se envergonhada. Contudo, mesmo algo assim pode gerar frutos positivos. Foi o que aconteceu na Jamaica, com o surgimento do movimento rastafári e do reggae.

Os colonizadores proibiam os escravos de professarem suas religiões africanas e, ao mesmo tempo, consideravam o cristianismo uma religião para povos brancos e desenvolvidos. Além do mais, certas noções de igualdade pregadas pela religião cristã não eram nada convenientes aos senhores de escravos. A África, como um todo, era considerada um local inferior, povoado por seres não civilizados. Daí, a necessidade do envio de missionários, para levar a civilização e a salvação àqueles povos.

Os negros escravizados sentiam-se oprimidos e tentavam manter suas crenças, de forma clandestina. Os Maroons, escravos fugidos que foram viver nas montanhas, em comunidades semelhantes aos quilombos brasileiros, foram responsáveis em grande parte pela resistência à cultura dos colonizadores.

Embora a escravatura tenha terminado em 1833, o movimento rastafári surgiria apenas um século depois, em 1930, a partir das ideias de Marcus Garvey, um ativista negro, descendente dos Maroons. Ele pregava a união dos povos negros e seu retorno à África. Seus conceitos encontraram grande aceitação junto a líderes religiosos da Jamaica, que passaram a considerar Garvey um profeta. Uma frase sua, vista como profecia, deu origem ao rastafarianismo. Garvey disse: “Olhe para a África, onde um rei negro será coroado. Ele será nosso redentor.”

O imperador da Etiópia Haile Selassie I  |  foto: reprodução internet

O imperador da Etiópia Haile Selassie I

O rei coroado foi Haile Selassie I, imperador da Etiópia, nascido Tafari Makonnen e posteriormente conhecido como Rás Tafari. Para os seguidores de Marcus Garvey, a profecia havia se concretizado e Haile Selassie passou a ser declarado o Messias Negro, Jah Rastafári, aquele que iria reuni-los na África.

Acredita-se que o primeiro grupo de rastafáris tenha se estabelecido na Jamaica, em 1935, liderados por Leonard P. Howell. Ele pregava a divindade de Selassie e explicava que os negros ganhariam a superioridade sobre os brancos, superioridade essa que sempre lhes fora destinada. Era o início do movimento, que buscava a repatriação para a África e a libertação dos povos negros.

Em 1954, a comunidade liderada por Howell foi destruída por uma batida policial e seus seguidores espalharam-se por toda a ilha, difundindo os conceitos do movimento. Em 1966, Haile Selassie visitou a Jamaica e foi recebido com grande entusiasmo. Bob Marley, que havia passado um tempo nos EUA, retornou para a ilha e converteu-se formalmente ao rastafarianismo. Nos anos 1960, graças a Marley e outros artistas ligados ao reggae, o movimento rastafári ganhou maiores proporções e passou a ser conhecido também fora da Jamaica.

Leonard P. Howell (à direita) é conhecido como o primeiro rasta. Ele foi o líder da comunidade rastafári que deu origem às atuais.  |  fotos: reprodução internet

Leonard P. Howell (à direita) é conhecido como o primeiro rasta. Ele foi o líder da comunidade rastafári que deu origem às atuais.

Em 1974, Haile Salassie foi deposto por uma revolução marxista e, no ano seguinte, morreu de forma misteriosa. O governo etíope anunciou a morte, mas não havia corpo. Se, por um lado, a morte de Selassie abalou as convicções dos rastas, por outro fez aumentar ainda mais sua fé. Poucos dias após o anúncio da morte, Bob Marley lançou a canção Jah Live (ouça abaixo), defendendo os princípios do movimento, apesar da aparente perda. Há quem acredite que Selassie não morreu e assumiu outra identidade. Para outros, ele de fato morreu, mas, assim como Cristo, um dia voltará para salvar seu povo.