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arte: Michael Thompson | Freestylee

A arte sem fronteiras de Michael ‘Freestylee’ Thompson

Arte é para ser apreciada e ponto. Mas, quando a arte está associada a abrir os olhos das pessoas sobre o que está acontecendo no mundo, quando o artista usa sua criatividade na busca de mudanças positivas e faz de sua arte um instrumento de ativismo de paz, apreciar apenas é pouco.

O artista jamaicano Michael 'Freestylee' Thompson  |  foto: divulgação

O artista jamaicano Michael ‘Freestylee’ Thompson

O trabalho do jamaicano Michael Thompson, além de instigante, tem muita beleza. Michael Thompson é designer gráfico. Ele nasceu em Kingston, Jamaica, e desde 1990 mora nos EUA. Mais precisamente na pequena Easton, na Pensilvânia, numa área semirrural onde ele pode criar tranquilamente, longe da pressão dos grandes centros. Também conhecido como Freestylee, Thompson foi bastante influenciado pelo artista rastafári Ras Daniel Hartman – o mesmo que fez o papel de Pedro, no filme “The Harder They Come”, com Jimmy Cliff.

Os trabalhos de Ras Daniel lhe trouxeram referências e tradições do movimento rastafári que, nos anos 1970, começavam a florescer na cultura popular jamaicana. Em 1978, Freestylee venceu um concurso de pôsteres na Jamaica e integrou a delegação jamaicana que participou do 11º Festival Mundial da Juventude, em Havana, Cuba. Segundo ele, essa visita foi uma experiência transformadora e uma tremenda oportunidade. Entre 1965 e 1975, Cuba vivera sua “época de ouro” do design, com grande produção de pôsteres com conotações políticas, especialmente aqueles produzidos pela OSPAAAL – Organização de Solidariedade aos Povos da Ásia, África, e América Latina – liderada por Che Guevara.

A ideia central dos trabalhos cubanos e que permeia a arte de Thompson é de que “simples é melhor” e o foco está na mensagem. Sua arte é moderna, icônica e sempre com fortes mensagens sociais ou políticas. Os temas são variados: pobreza, racismo, políticas migratórias e muito, muito, sobre a cultura jamaicana. Desde os gêneros musicais e seus representantes, passando pelos símbolos rastafári e elementos urbanos retrô, que remetem à sua adolescência na Jamaica. Freestylee já obteve reconhecimento internacional, com exposições em vários países europeus e trabalhos publicados em importantes revistas de design. Agora, seguindo os princípios semeados pelo reggae e pelo movimento rastafári, Michael Thompson quer devolver à comunidade e ao mundo um pouco do que conquistou.

Em 2011, juntamente com a artista grega Maria Papaefstathiou, criou o International Reggae Poster Contest, um concurso anual de pôsteres com temática ligada não somente ao reggae, mas aos gêneros musicais jamaicanos, como o ska, rocksteady, dub etc. O concurso tem dois objetivos: o primeiro é iniciar uma campanha para a construção de um Reggae Hall of Fame, em Kingston, um misto de museu e local para apresentações musicais, uma espécie de meca para os amantes do reggae. O segundo é conscientizar a respeito da importância da Alpha Boys School – uma escola vocacional por onde passaram astros como Desmond Dekker e Yellowman – e que precisa de todo tipo de suporte.

As ideias de Michael Thompson são grandes, não cabem em divisões políticas, são globais. A Primavera Árabe, o Occupy Movement, o terremoto no Haiti, são alguns dos temas que ele explorou, emprestando sua criatividade na busca do que considera correto e justo. Por isso ele é Freestylee: um artista sem fronteiras. Conheça mais trabalhos do artista em seu site oficial, onde eles estão à venda em formato de pôster com altíssima qualidade de impressão.

Confira a seguir um pouco da arte de Michael ‘Freestylee’ Thompson:

 

 

The Selecter | foto: reprodução internet

O estilo e a truculência dos rude boys

A transição das décadas de 1950 para 1960 foi um período conturbado na Jamaica. Passado o boom dos anos 1950, veio a depressão econômica. De acordo com o censo jamaicano de 1960, havia cerca de 10.000 pessoas (mais de um terço do total da população) desempregadas ou procurando pelo primeiro emprego. Por volta de 70% dessas pessoas tinham menos de 21 anos. Nesse contexto, surgiram os primeiros rude boys.

Alton Ellis gravou a música Dance Crasher, que tinha os rude boys como tema central. | foto: reprodução internet

Alton Ellis gravou a música Dance Crasher, que tinha os rude boys como tema central. | foto: reprodução internet

Violentos, porém elegantes, esse grupo ganhou importância na cultura jamaicana, influenciando inclusive a música. Inspirados nos filmes de gângster americanos, vestiam ternos de três botões, gravatas bem finas, suspensórios, chapéu tipo pork pie e óculos de sol, a qualquer hora do dia. Vindos principalmente das favelas de Kingston, andavam armados com facas ou armas de fogo e cometiam pequenos delitos.

Um desses trabalhos temporários era o de “dance crasher”. Os operadores de sound systems, que dariam origem aos DJs, contratavam rude boys para intimidar seus concorrentes, fazendo uso até de violência. As músicas da época, na Jamaica, eram o rock steady e o ska. Alton Ellis, um grande representante do ska, gravou uma música que tem exatamente o nome de Dance Crasher e, obviamente, trata sobre o assunto.

foto: reprodução internet

Bob Marley no início de carreira

Em 1963, muitas mães estavam preocupadas com a má influência dos rude boys sobre seus filhos. Uma delas era Cedella Marley, mãe de um jovem de 18 anos, chamado Bob Marley. Pensando em acalmá-la, Bob compôs Simmer Down. Embora não fosse a primeira canção a tratar do tema, foi emblemática, pois, além de ser o primeiro single dos Wailing Wailers, grupo do qual Bob Marley fazia parte, ficou em primeiro lugar nas paradas jamaicanas por cerca de 3 meses, no início de 1964.

Durante os anos 1960, o Reino Unido recebeu um número significativo de imigrantes jamaicanos. Nesse período, havia por lá uma subcultura denominada mods, composta por jovens de classe média, ligados a estilos musicais e tendências de moda. Os mods e os rude boys se identificaram e passaram a andar juntos. Dessa mistura, surgiram os primeiros skinheads, assim chamados por terem suas cabeças raspadas. Nessa época, ainda não tinham envolvimento com política ou questões raciais, o que veio a ocorrer apenas nos anos 1970.

O grande fluxo de jamaicanos na Inglaterra levou a um revival do ska. The Specials e Madness foram duas bandas britânicas formadas a partir da influência do ska jamaicano e que iniciaram suas carreiras regravando sucessos como Too Hot, de Prince Buster.

Hoje, o termo rude boy está associado apenas ao ska. Na Jamaica, os aficionados, os colecionadores de discos de ska, aqueles que se vestem de modo a demonstrar seu gosto pelo ska, são os rude boys atuais.

Da esquerda para direita, três ícones do ska: Roy Ellis, The Specials e Laurel Aitken. | foto: reprodução internet

Da esquerda para direita, três ícones do ska: Roy Ellis, The Specials e Laurel Aitken. | foto: reprodução internet

foto: reprodução internet

Reggae Legends: Alton Ellis

Referindo-se à indústria musical jamaicana, Alton Ellis disse uma vez: “você tem que ser abençoado para conseguir algum ‘royalty’… mas não havia mesmo muito dinheiro ali”. Sua música, que era claramente caracterizada pelas mensagens de amor e unidade que carregava em suas letras, foi subestimada pela indústria musical à época.

Na era pré-reggae, as capas dos discos na Jamaica eram fortemente influenciadas pelo R&B americano.  |  foto: reprodução internet

Na era pré-reggae, as capas dos discos na Jamaica eram fortemente influenciadas pelo R&B americano. | foto: reprodução internet

Nascido em Kingston, Jamaica, entre o final da década de 1930 e o início de 1940, Ellis notabilizou-se por sua diferenciada e expressiva característica vocal. Sua carreira teve início em 1959, quando formou o duo de R&B “Alton e Eddy” em parceria com o cantor Eddy Perkins, logo após desistir de seu plano inicial de tornar-se dançarino. Não demoraria para que assinassem contrato com o renomado produtor  Coxsone Dodd, à época também em início de carreira, numa bem-sucedida parceria que logo lhes rendeu o primeiro hit: “Muriel” (1960). Ellis lembrava que, à época da gravação, em 1959, havia apenas um microfone no estúdio, de modo que os músicos e instrumentos eram estrategicamente posicionados e as gravações “ao vivo”, em única tomada, eram uma regra.

Alton & Eddy se separaram logo após Perkins se mudar para os Estados Unidos, e ambos seguiram em carreiras solo. O single “Rock Steady”, de 1966, citado por Alton Ellis como sendo a música que batizou o gênero de mesmo nome, em 1965, foi o primeiro hit do artista nesta nova etapa de sua carreira. Assim como algumas estrelas do rocksteady na época, Ellis frequentemente era convidado para diversos duetos e chegou a emplacar hits sob o título “Alton Ellis & The Flames”. Em 1966, sobretudo por questões financeiras, juntou-se à equipe de Duke Reid no selo Treasure Isle Records, onde gravou a música “Cry Tough”, um clássico da “rude-boy era”. Neste período, cantava músicas com críticas à violência praticada pelas gangues urbanas, deflagradas pela extrema pobreza enfrentada pelos jovens de Kingston. Entretanto, ele logo retomou o foco nas canções de amor, devido às seguidas ameaças sofridas por parte dos rude-boys, incomodados com as críticas de suas letras.

Em meados de 1960, Alton Ellis gravou o que viria a ser um dos maiores patrimônios musicais de toda a sua trajetória artística. A música “I’m Still In Love With You” foi a base para o hit “Uptown Top Ranking” (ouça a faixa acima), do duo de pop-reggae Althea & Donna, que em 1977 alcançou o primeiro lugar no ranking das mais tocadas no Reino Unido.

Embora nunca tenha alcançado reconhecimento artístico e retorno financeiro compatível com a riqueza de sua música, Alton Ellis marcou presença definitiva na indústria da música indiretamente, através dos hits adaptados a partir de suas obras. Outro exemplo recente, nos anos 2000, foi quando “I’m Still In Love With You” ganhou sua versão dancehall com Sean Paul (ouça abaixo) e fez enorme sucesso no mundo, inclusive no Brasil.

Após um período pouco produtivo, Alton Ellis mudou-se para Londres em meados de 1973, local que adotou como sua residência a partir de então. Ele continuou realizando turnês, a despeito de problemas de saúde que o fizeram passar mal em pleno palco, durante um show 2 meses antes de sua morte, em 2008.

Veja Alton Ellis cantando alguns de seus maiores sucessos ao vivo: