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SuperHeavy: Damian Marley, Dave Stewart, Mick Jagger, A. R. Rahman e Joss Stone. | foto: divulgação

World a Reggae: Um supergrupo musical chamado SuperHeavy

Basicamente, vejo duas possibilidades para a formação de supergrupos musicais – aqueles em que pelo menos um ou dois integrantes são oriundos de outras bandas de sucesso ou já possuem uma sólida carreira solo. A primeira é que a vida de popstar é meio enfadonha e, de repente, o cara acorda agoniado, com vontade de fazer algo diferente. Daí, liga para uns amigos igualmente famosos e entediados e pronto.

O SuperHeavy reuniu rock, blues, pop, soul, jazz e reggae. | foto: divulgação

O SuperHeavy reuniu rock, blues, pop, soul, jazz e reggae.

A segunda é que o artista tem múltiplas facetas que nem sempre podem ser exploradas em seu status atual como membro de uma banda ou em sua própria carreira solo. Então, surge a ideia de um novo projeto. Ele entra em contato com outros músicos que conheceu ao longo da carreira e eles topam a empreitada. Além de mais glamourosa e de, certamente, render boas respostas nas coletivas de imprensa, é o que acontece muitas vezes.

Essas reuniões de feras geram resultados bem interessantes. Aqui no Brasil, o caso mais famoso e o único de que me lembro é o dos Tribalistas – Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte. Marisa foi gravar uma participação no disco de Arnaldo, que estava sendo produzido por Brown. Conversa vai, conversa vem, em pouco tempo já tinham canções suficientes para um disco.

Tudo isso aconteceu em 2002, o álbum vendeu mais de 1,5 milhão de cópias só no Brasil e os três nunca fizeram uma grande turnê. Apesar do enorme sucesso de músicas como Já Sei Namorar e a linda Velha Infância, cada um dos três continuou sua própria carreira, em sua própria tribo.

Mundo afora a lista de supergrupos é enorme, desde os mais antigos como Cream, de Eric Clapton, passando por Emerson, Lake and Palmer, Temple of the Dog e Foo Fighters – este último, inclusive, mais duradouro do que os grupos de origem, como o Nirvana.

Encontro histórico: Bob Marley, Mick Jagger e Peter Tosh.  |  foto: reprodução internet

Encontro histórico: Bob Marley, Mick Jagger e Peter Tosh.

Em 2011 surgiu o SuperHeavy,  formado por Mick Jagger, Joss Stone, Dave Stewart (Eurithmics), A. R. Rahman (produtor de trilhas sonoras) e Damian Marley. Analisando em partes dá para encontrar se não similaridades, pelo menos intersecções entre seus trabalhos. Mick Jagger é puro rock, mas também blues e pop. Joss Stone faz mais a linha soul e R&B, mas também é blues e jazz. Dave Stewart é pop rock, Rahman é um músico indiano e Damian Marley é reggae, claro!

A história é mais ou menos assim: Dave Stewart comprou uma casa na Jamaica. Ouvia muita música vinda das ruas e ficou inspirado para começar algo novo. Queria misturar estilos, pensou em juntar orquestração indiana que ele e Jagger já curtiam.

Mick Jagger, por sua vez, já flertava com o reggae desde os anos 1960, quando dançava nos clubes jamaicanos, em Londres. Lá, ele conheceu Bob Marley quando este gravava “Catch A Fire”, com The Wailers – seu primeiro disco pela Island Records, de Chris Blackwell. Finalmente, em 1978, Jagger e Peter Tosh fizeram um dueto na versão reggae da canção Don’t Look Back, dos The Temptations (assista abaixo).

Em 2004, no remake do filme “Alfie”, com Jude Law no papel principal, Jagger e Stewart produziram a trilha sonora e participaram de várias canções. Uma delas, Old Habits Die Hard, foi a vencedora do Globo de Ouro 2005, na categoria de melhor canção original. Joss Stone também participou em duas faixas dessa trilha.

Joss Stone e Damian Marley: parceria além do SuperHeavy. | foto: reprodução internet

Joss Stone e Damian Marley: parceria além do SuperHeavy.

Anos depois, em 2009, Joss Stone, dona de uma bela voz feminina, participou do disco “Y Not”, do beatle Ringo Starr. Dave Stewart também trabalhou nesse disco e talvez aí tenha surgido mais uma conexão. Em 2011, Stewart foi o produtor do quinto álbum de Joss, “LP1”.

Muito incentivada por Damian Marley, seu companheiro de SuperHeavy, Joss Stone lançou, no último mês de julho, um álbum de reggae chamado “Water For Your Soul”. Damian participou como co-produtor e também em alguns vocais e letras. Ouça acima playlist especial com algumas das principais faixas do disco.

A. R. Rahman, cuja carreira na Índia já era um sucesso, levou nada menos que dois Oscar em 2009, pela melhor trilha sonora original e melhor canção original do filme “Quem Quer Ser um Milionário?”. Por fim, Damian veio para representar a Jamaica e arrematar esse quebra-cabeça musical.

Feitas as análises e voltando ao SuperHeavy, foram dois anos de trabalho secreto, até o lançamento do álbum de mesmo nome do grupo, em 2011. Eles se reuniam em Los Angeles com o objetivo de “escrever canções que tivessem significado”. Miracle Worker foi a primeira faixa lançada como single e também num clipe no YouTube.

Não houve consenso nem de crítica, nem de público. Apesar do álbum ter ficado entre os 30 primeiros no Billboard 200, faltou divulgação e as vendas foram fracas: apenas 33.000 cópias no lançamento. Gostoso de ouvir e com músicas bem elaboradas, o álbum não decolou. Talvez, dizem alguns, tenha se perdido na vontade de ser tudo para todos. Talvez, penso eu, tenha sido um projeto de músicos para músicos: foi prazeroso e divertido fazer. Não fez sucesso? Paciência, vamos em frente.

Assista ao clipe “Miracle Worker”, do SuperHeavy:

foto: divulgação

Marley, o musical: mais do que apenas ótimas canções

Cartaz de divulgação de "Marley, o musical"  |  foto: divulgação

Cartaz de divulgação de “Marley, o musical”

Em fevereiro deste ano, Bob Marley completaria 70 anos. Entre as muitas formas de celebrar a data e relembrar a importância do grande ídolo jamaicano, nasceu a ideia de um musical. Escrito e dirigido pelo britânico Kwame Kwei-Armah, o espetáculo estreou em maio passado em Baltimore, nos EUA.

Kwei-Armah é diretor artístico do Center Stage, em Baltimore, e aceitou entrar no projeto desde que sua estreia fosse na cidade. Obra do acaso ou do destino, em abril deste ano, pouco antes de Marley entrar em cartaz, um jovem negro chamado Freddie Gray foi morto por policiais, causando grande comoção em Baltimore. Vítima de conflito racial e violência urbana, algumas das bandeiras contra as quais Bob Marley lutou.

O musical não se propõe a contar toda a vida do astro do reggae. Kwei-Armah optou por concentrar a história no período entre 1975 e 1978, quando Bob deixou a Jamaica – após escapar de uma tentativa de assassinato – e se auto-exilou em Londres. Durante esse intervalo, o cantor reafirmou suas convicções religiosas e sociais, além de ter lançado álbuns como “Rastaman Vibration”, com Positive Vibration e Roots, Rock, Reggae, “Exodus”, que inclui as canções Jamming e Three Little Birds, e “Kaya”, de Is This Love e Time Will Tell (ouça abaixo). Certamente, um dos períodos mais férteis de sua carreira.

Canções de outros álbuns também fazem parte do espetáculo que traz ao todo 30 músicas, interpretadas na íntegra ou parcialmente. Uma das críticas recebidas diz respeito exatamente ao grande número de canções, que acabam dando pouco espaço para o desenrolar da história. Porém, o que é um musical sem grandes músicas? E quanto aos intérpretes?

Neste quesito, especialmente no que se refere ao protagonista, o diretor foi extremamente feliz. Entre as 35 milhões de visualizações no You Tube, Mitchell Brunings – interpretando Redemption Song na edição holandesa do programa de TV The Voice – foi visto por Kwei-Armah. Ele, que já tinha testado diversas opções para o papel de Bob Marley, teve a certeza de ter encontrado o candidato perfeito. Tudo bem, já tínhamos dado a dica aqui no site, em Covers, tributos, versões: para manter vivos grandes ídolos.

Para o papel de Rita Marley a escolhida foi Saycon Sengbloh, que já havia participado de musicais na Broadway, como “Motown”, “Fela!”, “Aida” e “Wicked”. Quando soube das audições, ela foi decidida a conseguir o papel de Rita, a quem já admirava. Determinada e talentosa, foi, também, uma ótima escolha.

Para ajudar a entrar no clima, o lobby do teatro foi ambientado como um pedaço da Jamaica: o chão coberto de terra, uma cabana de madeira no canto, grafites de protesto e pôsteres políticos, pessoas comuns dançando ao som de Jimmy Cliff. A ideia de Kwei-Armah era a de um musical mais engajado e menos voltado ao entretenimento – como “Mamma Mia”, por exemplo. No entanto, o que se viu durante as apresentações é que há envolvimento do público, que ergue os braços com Get Up, Stand Up e junta-se aos atores no clímax, com One Love.

Marley esteve em cartaz em Baltimore até 14 de junho e foi um total sucesso de público. Simplesmente a maior renda e a maior audiência em 52 anos de história do teatro Center Stage. O espetáculo foi visto por mais de 22 mil pessoas em pouco mais de um mês de temporada, arrecadando cerca de US$780 mil.

A continuação da turnê ainda não está definida, mas o sucesso da temporada de estreia, somado ao peso de produtores como Chris Blackwell , fundador da Island Records, levam a crer que o musical terá uma longa estrada a percorrer.

Assista a um trecho do ensaio de “Marley, o musical”:


 

Appleton e o Blackwell, as marcas mais famosas de rum da Jamaica

Rum, a “cachaça” do Caribe

Assim como no caso da cachaça, o rum também é produzido a partir da cana de açúcar. Porém, enquanto a cachaça é preparada a partir do caldo de cana fermentado, o rum é destilado do melaço fermentado.

Trata-se de uma bebida de forte teor alcoólico, entre de 40 a 55°GL, e que tornou-se conhecida a partir do século XVII, primeiramente, como um medicamento capaz de “exorcizar os demônios do corpo”. O fato é que o sabor e as características da bebida logo a tornaram popular.

Conhecida como a bebida dos piratas, ao rum era creditada a capacidade de encorajar antes dos combates. Este hábito se perpetuou entre os militares e até por volta dos anos 1970 ainda era parte da dieta diária dos marinheiros ingleses.

O rum é uma bebida cristalina como a cachaça. A cor dourada ou até escura de algumas variedades é resultado do envelhecimento em barris de carvalho ou da adição de corantes.

Há produção de rum em todo o Caribe, com variações de sabor. O rum da Jamaica é um dos mais fortes e encorpados. As marcas mais famosas são o Appleton e o Blackwell. Esta última pertence a Chris Blackwell, o dono da Island Records e do Goldeneye Hotel & Resort.

Muito versátil, o rum é ingrediente de muitos drinques famosos como o Daiquiri, o preferido de Ernest Hemingway, o Mojito, a Piña Colada e a Cuba Libre, um clássico dos anos 1960.

E que tal experimentar o Cliffhanger, um dos drinques mais apreciados da Jamaica?

Cliffhanger, delícia jamaicana

Cliffhanger, delícia jamaicana

The Cliffhanger

INGREDIENTES
1 dose de Blackwell Rum
1/2 dose de Appleton Gold Jamaica Rum
100ml de suco de melancia fresca
Uma pitada de gengibre esmagado

MODO DE FAZER
1. Encha um copo alto com gelo.
2. Misture todos os ingredientes numa coqueteleira.
3. Despeje sobre o gelo.
4. Decore o copo com um pedaço de melancia.

Se quiser experimentar, pode ainda incrementar com uma trilha sonora especial: Jamaica Rum, de Ted Mulry Gang.

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James Bond e a Jamaica

A relação entre o cinema e a Jamaica é antiga. De 20.000 Léguas Submarinas, de 1954, passando por A Lagoa Azul, de 1980, até a comédia Jamaica Abaixo de Zero, de 1993. Mas, o que isso tem a ver com James Bond?

Talvez pesquisando sobre turismo na Jamaica você já tenha esbarrado com a James Bond Beach. A razão do nome é simples: lá viveu Ian Fleming, o autor dos 12 romances e 2 contos que narram as histórias do espião inglês.

Mais do que pesquisa ou imaginação, Ian Fleming teve certa vivência no mundo da espionagem. Ele foi Oficial da Inteligência Naval Britânica durante a Segunda Guerra Mundial e participou do planejamento e supervisão de muitas operações de inteligência e espionagem, inclusive uma na Jamaica, sobre as atividades de submarinos alemães.

Fleming apaixonou-se pelo lugar e, posteriormente, comprou uma propriedade na aldeia de Oracabessa Bay, que batizou de Goldeneye. Foi nesta casa que Ian Fleming, trabalhando sistematicamente, criou o personagem e todas as suas aventuras.

Hotel Goldeneye, em  Oracabessa Bay.  |  foto: divulgação

Hotel Goldeneye, em Oracabessa Bay

Atualmente, Goldeneye é um sofisticado hotel e resort que pertence a Chris Blackwell, produtor musical e dono da Island Records. A casa original do autor está preservada e é possível ficar hospedado nela pagando 8,5 mil dólares por noite!

Ainda falando de James Bond, o filme 007 Contra o Satânico Dr. No, de 1962, foi rodado na Jamaica (além de Londres) e teve Ursula Andress como uma das bondgirls.

Bob Marley, o rei do reggae | foto: reprodução internet

Is this love that I’m feeling? 34 anos sem Bob Marley

Um dos músicos mais importantes do século 20, Bob Marley foi mais que um artista genial. Nascido na Jamaica, filho de um capitão da marinha inglesa com uma negra camponesa, foi o inventor de um estilo e principal responsável por sua popularização em todo o mundo. 34 anos depois de sua morte, ocorrida em 11 de maio de 1981, não há como falar em reggae sem lembrar de Bob Marley.

Robert Nesta Marley, o Bob Marley que todo mundo conhece, foi um artista completo. Da música às atitudes, a imagem que se tem dele é a de um músico talentosíssimo e de um líder extremamente preocupado com o destino da humanidade.

Bob nasceu em St. Ann, um vilarejo de Nine Miles, zona rural jamaicana. Sua mãe, uma negra camponesa chamada Cedella Booker, engravidou de um capitão da marinha inglesa, Norval Sinclair Marley, que desapareceu logo em seguida. Bob passou a maior parte da infância com o avô, Omeriah Malcolm, um feiticeiro-curandeiro jamaicano cujas palavras de sabedoria o acompanharam em toda sua trajetória.

Ainda criança, no ano de 1955, Bob mudou-se para Kingston, capital jamaicana, onde teve de deixar as brincadeiras de criança do campo para enfrentar a dura realidade de um gueto miserável. Podertia ter se transformado em mais um delinquente condenado à morte prematura ou a longas temporadas na cadeia mas, pare ele, a música falou mais alto.

Sob influência do rhythm’n blues Americano – Fats Domino, The Moonglows e Curtis Mayfield eram os grandes nomes do gênero à época – era cada vez maior a admiração do garoto Robert Nesta pela música.

Sua primeira experiência em estúdio aconteceu em 1962, quando Jimmy Cliff – na ocasião um ilustre desconhecido – apresentou-lhe a Leslie Kong, um chinês que topou arcar com as despesas com músicos e aluguel de estúdio. Bob então gravou duas composições: Judge Not e Do You Still Love Me?, apenas mais um fracasso entre tantos cometidos por diversos jovens daquela pequena – e até então desconhecida – ilha do Caribe.

À época, a mãe de Bob estava casada com um tal de Toddy Livingston – cujo filho, Bunny Livingston (hoje conhecido como Bunny Wailer), passou a compor com Bob algumas músicas. Mais tarde, Winston Hubert Macintosh (Peter Tosh) juntou-se à dupla. Estava formado o grupo “Wailing Wailers”.

Em 1964, o trio emplacou a música Simmer Down, o primeiro de tantos outros sucessos que viriam em seguida. O ritmo ainda era o Ska. As letras eram fortes, engajadas e expunham as dificuldades enfrentadas pelos Wailing Wailers no dia a dia dos subúrbios de Kingston, a mesma realidade enfrentada por toda uma geração de jovens daquele lugar, sobre os quais Bob, Bunny e Peter exerciam grande influência.

Foi em meados de 1968 que o reggae começou a tomar a forma e o conteúdo tal qual conhecemos atualmente. O Rock Steady – considerado o avanço do Ska, com o baixo mais forte e a batida mais acelerada – serviu como elo de ligação com o reggae, que agora trazia com ele a fé rastafári. Entre outras tantas coisas, o rastafarianismo pregava a volta dos negros e seus descendentes à África e atribuía poder de cura à maconha. Haile Selassie, ex-imperador da Etiópia, era tido como um novo “Messias”. Seu nome de batismo era Ras Tafari Makonnen, daí a origem do termo Rastafari.

Agora, mais do que letras de protesto, o reggae engajava-se numa causa mais espiritual. A crença rastafári uniu-se aos ideais revolucionários de Bob Marley e seus comparsas e não demorou muito para que os rastas misturassem o som de seus tambores às guitarras e outros instrumentos nos estúdios. A música popular caracterizou-se então com um aspecto “gordo”, muito mais pesado do que antes. Baixo e bateria estavam à frente e as melodias eram, no mínimo, intrigantes.

Em 1966 Bob casou-se com Rita Anderson. No dia seguinte ao casamento, viajou para os EUA, chegando a Delaware, na Filadélfia, para tentar a sorte nas linhas de montagem das fábricas de automóveis. Há quem diga que era uma maneira de Bob tentar trilhar outros caminhos, haja vista a dificuldade que encontrara em se manter como músico na Jamaica. Para outros, era apenas uma forma de conseguir um dinheiro extra para tentar levar sua música mais longe, frequentar os melhores estúdios e, quem sabe, gravar um bom disco. Não deu outra: a música mais uma vez falou mais alto e Bob Marley voltou para a Jamaica, onde sua carreira de cantor e compositor finalmente decolou.

De volta à ilha, Bob reencontrou os amigos Peter Tosh e Bunny Wailer. Juntos, passaram a frequentar os melhores estúdios da Jamaica e em 1969 conheceram o produtor Lee “Scratch” Perry, que os presenteou com or irmãos Carlton (bateria) e Aston Barret (contrabaixo). A partir daí, o grupo passa a se chamar “The Wailers”. Segundo Rita Marley, Lee Perry despertava um lado irreverente e alegre da personalidade de Bob, o que ninguém havia conseguido até então. E isso rendeu bons frutos para ambos. Mas nem tudo foram flores na parceria de Bob Marley & The Wailers com o produtor. Com algumas belas composições inéditas nas mãos, Perry achou que elas lhe pertenciam por direito e as vendeu para a Europa. Isso explica a enorme quantidade de discos “não oficiais” de Bob Marley & The Wailers em todo o mundo, com fotos de capa diferentes para o mesmo conteúdo.

O melhor momento da carreira de Bob Marley & The Wailers, entretanto, viria mais tarde, com a proposta de Chris Blackwell, dono da gravadora Island Records, de lançá-los no mercado internacional. De fato, a música estava redonda, o ritmo jamaicano estava pronto para explorar novos mercados. O reggae já havia dado as suas caras pelo mundo com o lançamento do filme “The Harder They Come” (1971), de Perry Henzel, com Jimmy Cliff no papel principal e através das músicas Ob-La-Di, Ob-La-Da (Beatles, 1968, com acompanhamento de uma banda jamaicana) e I Can See Clearly Now (Johnny Nash, 1972). Porém, nada que chamasse a atenção do mundo para o novo ritmo.

Com o lançamento do álbum “Catch a Fire”, em 1972, não demorou para que a Inglaterra desse ouvidos ao som dos Wailers. O disco era uma produção esmerada, uma mistura do som original dos Wailers gravado na Jamaica com algumas sessões gravadas em Londres – um time competente de técnicos e engenheiros de som especialmente contratados pela Island para este trabalho participou da gravação. Apesar de as vendas iniciais não ultrapassarem as 14.000 cópias, o disco recebeu elogios da crítica e o reggae estava definitivamente inserido no cenário musical internacional. O segundo disco, “Burnin’”, lançado em 1973, acabou por conquistar não só o público, mas também alguns dos grandes nomes do showbizz mundial na época. Eric Clapton regravou I Shot The Sheriff, fato que por si só já dava credibilidade suficiente para Bob Marley e sua trupe seguir em frente com sua música.

Porém, dois dos integrantes originais dos Wailers, Peter Tosh e Bunny Wailer saíram, abrindo espaço para Bob, agora líder da banda. Em 1974 veio o álbum “Natty Dread” (o nome estampado nas capas dos discos agora era Bob Marley & The Wailers). Com uma liberdade maior e mais autonomia sobre a banda, a carreira de Bob Marley decolou de vez. Os Wailers contavam agora com um poderoso trio de backing vocals, as I-Threes. Rita Marley, Marcia Griffiths e Juddy Mowat acompanharam Bob Marley & The Wailers numa curta temporada no Lyceum de Londres, que deu origem ao álbum “Live”, de 1975. Essa foi a formação mais consagrada da banda, aquela que todo mundo já deve ter visto, seja em clipes ou nos inúmeros documentários e fotos sobre Bob Marley, na TV ou na web. É também a mais produtiva, já que deu origem a mais de meia dúzia de discos, todos contendo grandes sucessos na voz de Marley.

Sessão de fotos que deu origem à capa de "Natty Dread", de 1974: a banda agora passaria a se chamar "Bob Marley & The Wailers".  |  foto: reprodução internet

Sessão de fotos que deu origem à capa de “Natty Dread”, de 1974: a banda agora passaria a se chamar “Bob Marley & The Wailers”. | foto: reprodução internet

As coisas mudaram bastante na vida do rei do reggae. Ele ainda passava a maior parte do seu tempo na Jamaica, porém, vivendo numa mansão na área chique de Kingston, onde não só recebia amigos e parentes, como lhes dava toda a assistência necessária. A bondade de Marley o impedia de negar favores às pessoas, o que acabou por fazê-lo perder o controle das coisas. Ele era popular mundialmente, rodava o mundo fazendo shows e seu tempo era cada vez mais escasso. Esteve no Brasil em 1980, onde entre outras coisas, jogou bola no campo de Chico Buarque.

Um ano antes lançou “Survival”, o disco que calou a boca dos críticos que diziam que ele tinha se vendido ao sistema. No disco, que traz na capa bandeiras de países africanos, Bob cantava a volta dos negros à África, um dos principais pilares da cultura rastafári. Na festa de independência do Zimbabwe, Marley experimentou glórias de chefe de estado e foi absurdamente aclamado pelo público, que via em sua figura a de um revolucionário, um libertador.

Ele havia passado por uma experiência parecida em 1976, quando foi convidado a tocar em uma festa apoiada pelo governo jamaicano. Após aceitar o convite, teve sua casa invadida por um grupo de pistoleiros que abriram fogo contra ele, sua esposa, Rita, e seu empresário, Don Taylor. Rita Marley foi atingida na cabeça, Taylor quase morreu e Bob levou um tiro no braço. O atentado não impediu a realização do show, dois dias depois, na Arena Nacional dos Heróis. No estádio, 70 mil pessoas louvavam Marley, cantando em coro suas músicas.

Após machucar o dedo do pé durante uma partida de futebol na França, Bob deveria ser exposto a uma cirurgia de amputação do dedo, o que não aconteceu em virtude do fato contrariar sua crença rastafári, que o impedia de cortar qualquer membro do seu corpo. O câncer manifestou-se primeiro na perna, na forma de uma simples contusão, mas Bob manteve-se fiel àquilo que acreditava até o fim. Após algumas frustradas tentativas de recuperação, Bob sucumbiu à doença no dia 11 de maio de 1981, deixando para trás um legado que só aumenta com o passar dos anos.

Sua herança financeira, estimada em U$ 100 milhões à época de sua morte, foi motivo de inúmeras e incansáveis disputas nos tribunais envolvendo parentes, empresários, amigos e inimigos. Confusões à parte, Marley foi e ainda é o primeiro e único superstar do “terceiro mundo”, e 34 anos depois de sua morte, seu público cresce a cada dia nos quarto cantos do planeta. Sua mensagem, sempre carregada de paz, amor e liberdade, contagiou negros, brancos, ricos e pobres, e levou o ritmo jamaicano ao conhecimento de todos. Graças a ele, o reggae não cabe no rótulo de World Music.

Duas coletâneas lançadas muito tempo depois de sua morte, “Legend” e “Natural Mystic” (também conhecido como Legend 2) são seus discos de maior sucesso. O primeiro figura até hoje na lista dos três discos mais vendidos do mundo em todos os tempos. O álbum “Exodus”, de 1977, foi eleito o melhor disco do século XX pela revista Time, mais um de seus feitos históricos.

Mais que um músico ou artista, Bob Marley foi um revolucionário que fez da sua música a voz dos excluídos, um líder extremamente preocupado com o destino da humanidade. Um poeta negro num país pobre onde só os brancos tinham voz e um religioso que manteve-se fiel àquilo que acreditava até a morte. Tornou-se um mito, figurinha fácil em camisetas, adesivos e bandeiras ao redor do globo. É por essas e outras que Bob Marley faz valer a máxima “Quem foi Rei nunca perde a Majestade”.

Ouça a coletânea “Songs Of Freedom”, de Bob Marley & The Wailers: