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O cineasta, DJ e músico Don Letts. | foto: reprodução internet

Don Letts: do reggae ao punk, passando pelo cinema

Cineasta, DJ, músico. Se ainda parece pouco, vamos ao início da história, quando o rapaz de vinte anos era balconista de uma loja de roupas vintage. Don Letts, com seus longos dreadlocks, nasceu na Inglaterra. Filho de jamaicanos que deixaram a ilha em busca de uma vida melhor, gostava de reggae e dub, influência de seu pai, que trouxera consigo seu sound system.

O estilo de Don Letts: em 78 e nos dias de hoje.  |  fotos: reprodução internet

O estilo de Don Letts: em 78 e nos dias de hoje.

Era 1975 e o contador da loja Acme, na qual Don trabalhava, estava prestes a abrir – juntamente com outros sócios – aquele que viria a ser o principal ponto de encontro da cena punk que começava a nascer: The Roxy. Além de atender aos clientes da loja, Don Letts cuidava também da música do local – basicamente reggae – e era essa toda sua experiência como DJ. Mesmo assim, Andrew Czezowski, o tal contador, achou que ele levava jeito para a coisa e o convidou para ser DJ residente.

Eram poucos os discos de punk rock disponíveis no mercado nessa época, assim, Don tocava aquilo que mais gostava e conhecia, ou seja, dub e reggae. O público da casa também gostou e além das apresentações ao vivo de punk, The Roxy passou a ser também um lugar para ouvir música jamaicana.

Uma coisa leva a outra e Letts começou a registrar em super-8 o que via nas noites da Roxy. Tanto material acabou  gerando o documentário “Punk Rock Movie”, lançado em 1978. Além de outros documentários e inúmeros videoclipes de bandas, a carreira cinematográfica de Don Letts teve seu ponto alto em 1997, quando dirigiu, na Jamaica, “Dancehall Queen“.

Como DJ, Don aproximou-se de músicos como Johnny Rotten, do Sex Pistols e Mick Jones, do The Clash. Ambos tiveram grande importância na trajetória de Letts, por razões diferentes. Através de Rotten, foi para a  Jamaica pela primeira vez, como enviado da Virgin Records na busca de novos talentos (veja a história completa em “Johnny Rotten: caçador de talentos na Jamaica“). A viagem marcou sua vida, pois o colocou em contato com ídolos como Bob Marley, Burning Spear, Bunny Wailer e Peter Tosh.

Letts foi um dos vocalistas do BAD - Big Audio Dynamite.  |  foto: reprodução internet

Letts foi um dos vocalistas do Big Audio Dynamite.

Com Mick Jones, a história foi outra. Em 1984, pouco depois de sair do The Clash – com a qual Letts havia trabalhado em vários clipes – Mick formou uma nova banda, chamada Big Audio Dynamite (ou BAD) e convidou Don Letts para dividir os vocais e cuidar dos efeitos sonoros. A banda misturava gêneros como o punk, o reggae, a dance music, o hip hop e o funk. Sucessos como E=MC2, Contact e James Brown marcaram a carreira da banda.

Don Letts sempre foi muito ligado à musica jamaicana, especialmente com o reggae dos anos 1970, mais crítico e voltado às questões sociais. Atualmente, Don continua ativo no mundo musical através de seu programa semanal  de rádio na BBC6, tocando desde músicas mais antigas até lançamentos, de diversos estilos.

O pai de Don Letts, Duke Letts, foi DJ aos fins de semana, quando emigrou da Jamaica. Ele usava seu sound system para tocar rocksteady e bluebeat. Nesses momentos, após a igreja, a comunidade jamaicana podia se reunir e discutir seus problemas na nova terra. A conexão com a música continuou com Jet Letts, filho de Don, representante da terceira geração de DJs na família e produtor de dubstep, um estilo de música eletrônica que surgiu na Inglaterra.

Fiel à atitude do punk e, ao mesmo tempo, aos ideais do reggae, Don Letts é, sobretudo, alguém que acredita na cultura como forma de unir as pessoas. Mesmo que por acaso, deixou a vida de balconista para trás e dedicou-se a trabalhar com cultura, seja na música ou no cinema.

Assista ao documentário Superstonic Sound sobre Don Letts:

fotos: reprodução internet | arte: Jamaica Experience

Johnny Rotten: caçador de talentos na Jamaica

Johnny Rotten era um admirador confesso do reggae jamaicano.  |  foto: reprodução internet

Johnny Rotten era um admirador confesso do reggae jamaicano.

Ele já tinha ajudado a criar o punk rock, já tinha feito parte de muita controvérsia e confusão na Inglaterra. Então, veio a turnê derradeira nos EUA e os Sex Pistols chegaram ao fim. Johnny (Rotten) Lydon estava cansado. Richard Branson, o fundador da Virgin Records, estava ávido por novos nomes para seu selo e convidou Johnny, o cineasta e DJ Don Letts, o fotógrafo Dennis Morris e a jornalista Vivien Goldman para fazerem uma viagem à Jamaica. O objetivo era simples, usando seu faro e sua paixão pelo reggae, John Lydon tinha a tarefa de encontrar talentos que pudessem assinar com a Virgin. Basicamente, estava sendo contratado como um olheiro.

O grupo desembarcou na Jamaica em 1978, quando uma certa mistura de punk, dub e reggae já começava a surgir na Inglaterra. Por lá, havia uma conexão entre irlandeses e imigrantes jamaicanos, ambos considerados cidadãos de segunda classe. Johnny não é irlandês de nascimento, mas como filho de irlandeses teve grande afinidade com os jamaicanos e vice-versa.

Segundo Don Letts, os rastas amavam John. Sabiam de seu sucesso e compreendiam os problemas que vinha enfrentando. Além do mais, Johnny contava com sua vibe que atraía as pessoas. John Lydon já curtia reggae em Londres, frequentava sessões de sound system na cidade e, mentalmente, já tinha um esboço do que viria a ser o PIL (Public Image Ltd.), sua nova banda.

O hotel Sheraton, onde ficaram hospedados, tinha um bar frequentado por artistas como Peter Tosh, Gladiators, The Abyssinians, I-Roy e U-Roy, Tapper Zukie and The Tamlins, Jah Lion, Prince Hammer, Johnny Clarke, John Holt, Robbie Shakespeare, Sly, Chinna, Bim Sherman, Lee Perry, Inner Circle, Prince Mahmoud, Big Youth, The Congos… Segundo Vivien Goldman, era como se estivessem dando uma olhada na sua coleção de discos.

Depois de muitas conversas e muitas noitadas, artistas como Prince Far I, Big Youth, Prince Hammer, Tappa Zukie, Sly Dunbar e The Twinkle Brothers passaram a fazer parte do time Virgin. Em Londres, punk e reggae andavam ainda mais juntos, contra o racismo. Um show do The Clash e Steel Pulse reuniu uma multidão de 80.000 pessoas.

Ao longo dos anos 1980, contudo, os ideais ficaram mais diluídos e grupos como The Police e Culture Club, influenciados pelo reggae, tornaram-se bandas do cenário pop britânico. Para tristeza de Don Letts, apesar de ainda  hoje continuarem existindo o racismo, as greves e a recessão, que ajudaram a gerar o punk, nada de significativo tem acontecido em termos musicais. Talvez esteja faltando um olheiro do calibre de Johnny Rotten para encontrar novas estrelas.

Assista ao documentário sobre o tema, com a participação de Johnny Rotten: