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Exposição "Return of the Rudeboy" | foto: Dean Chalkley, com direção criativa de Harris Elliott | reprodução internet

O retorno dos rude boys

Já falamos aqui sobre uma profissão chamada cool hunter, ou caçador de tendências. Mais especificamente, falamos de Magá Moura, uma linda e antenada baiana, de apenas 26 anos, que tem se destacado no mundo da moda e lifestyle por seu estilo e originalidade. Hoje, um ano após a publicação daquele texto, me deparei com uma situação na qual pessoas acabam sendo cool hunters, mesmo que por acaso.

Na verdade, esse talento tem a ver com o poder de observação de cada um e, quando se trabalha com assuntos como moda, cinema e publicidade, por exemplo, o talento acaba sendo treinado. É como se para certas pessoas as tendências simplesmente saltassem aos olhos, enquanto para outras, passam despercebidas.

É assim que entendo o trabalho feito pelo cineasta Dean Chalkley e pelo diretor de criação Harris Elliott. Ambos são britânicos, amigos e parceiros de trabalho de longa data. Em 2012 – coincidindo com as Olimpíadas de Londres, a denominação de Usain Bolt como o homem mais rápido da Terra e também com o aniversário de 50 anos da independência da Jamaica – os dois amigos, individualmente, começaram a perceber uma mudança no código visual dos jovens negros.

Calças curtas e chapéus estilosos começaram a substituir as roupas esportivas exaustivamente usadas pelos cantores de rap e hip hop. Havia uma atmosfera de mudança no ar, então Chalkley e Elliott começaram a fotografar pessoas nas ruas, na tentativa de registrar as transformações e captar as tendências. Concluíram, então, estar diante do renascimento do estilo dos rude boys.

Esse assunto também já foi abordado aqui, mas vamos recordar. Rude boys era o nome que se dava às gangues que surgiram na Jamaica logo após a independência, em 1962. Bob Marley flertou com eles e até fez uma canção para tranquilizar sua mãe quanto às más influências (Simmer Down – ouça abaixo). Muitos jamaicanos emigraram para o Reino Unido e influenciaram culturalmente outros grupos de jovens como os mods e, posteriormente, os punks.

A cultura rude boy está ligada à construção da autoestima e também à determinação e criatividade desses imigrantes, dispostos a buscar seu lugar numa sociedade conservadora e racista. E foi exatamente isso que Chalkley e Elliott captaram através dos retratos: a expressão da nova geração de negros através de suas roupas, sua forma de vestir.

Ao contrário do que acontece num ensaio de moda, o trabalho realizado pela dupla não buscou o glamour. As pessoas foram fotografadas ao natural, com suas próprias roupas, nas ruas de Londres. Através de conversas com as pessoas fotografadas, chegavam a outras pessoas que igualmente serviriam de modelos.

O trabalho gerou, primeiramente, uma exposição. Durante dez semanas, no verão londrino de 2014, esteve em cartaz na Terrace Galleries, na Somerset House. Além das fotos, houve eventos ao vivo, DJs e até uma barbearia no estilo rude boy. De quebra, foi exibido o filme “The Harder They Come”, intimamente ligado ao tema. Já em 2015,  a exposição seguiu para o Japão, no Laforet Museum Harajuku, em Tóquio.

Janelle e Gwen: visual estilo rude boy.  |  fotos: reprodução internet

Janelle e Gwen: estilo rude boy.

A exposição foi reunida no livro “Return of the Rudeboy”, lançado no último mês de junho. Além de um número ainda maior de fotos, há textos sobre a herança cultural dos rude boys e detalhamento da montagem da exposição em Londres.

Ao acaso, por treino ou vício profissional, os amigos Chalkley e Elliott acabaram por identificar e resgatar uma forte tendência. E as grifes, é claro, seguiram a onda. Marcas britânicas como Fred Perry’s e Brutus já lançaram suas coleções inspiradas nesse movimento, tão importante para formação da identidade cultural jamaicana. As cantoras Gwen Stefani, do No Doubt, e Janelle Monáe são duas adeptas do estilo.

Assista à entrevista de Harris Elliott e Dean Chalkley:

The Selecter | foto: reprodução internet

O estilo e a truculência dos rude boys

A transição das décadas de 1950 para 1960 foi um período conturbado na Jamaica. Passado o boom dos anos 1950, veio a depressão econômica. De acordo com o censo jamaicano de 1960, havia cerca de 10.000 pessoas (mais de um terço do total da população) desempregadas ou procurando pelo primeiro emprego. Por volta de 70% dessas pessoas tinham menos de 21 anos. Nesse contexto, surgiram os primeiros rude boys.

Alton Ellis gravou a música Dance Crasher, que tinha os rude boys como tema central. | foto: reprodução internet

Alton Ellis gravou a música Dance Crasher, que tinha os rude boys como tema central. | foto: reprodução internet

Violentos, porém elegantes, esse grupo ganhou importância na cultura jamaicana, influenciando inclusive a música. Inspirados nos filmes de gângster americanos, vestiam ternos de três botões, gravatas bem finas, suspensórios, chapéu tipo pork pie e óculos de sol, a qualquer hora do dia. Vindos principalmente das favelas de Kingston, andavam armados com facas ou armas de fogo e cometiam pequenos delitos.

Um desses trabalhos temporários era o de “dance crasher”. Os operadores de sound systems, que dariam origem aos DJs, contratavam rude boys para intimidar seus concorrentes, fazendo uso até de violência. As músicas da época, na Jamaica, eram o rock steady e o ska. Alton Ellis, um grande representante do ska, gravou uma música que tem exatamente o nome de Dance Crasher e, obviamente, trata sobre o assunto.

foto: reprodução internet

Bob Marley no início de carreira

Em 1963, muitas mães estavam preocupadas com a má influência dos rude boys sobre seus filhos. Uma delas era Cedella Marley, mãe de um jovem de 18 anos, chamado Bob Marley. Pensando em acalmá-la, Bob compôs Simmer Down. Embora não fosse a primeira canção a tratar do tema, foi emblemática, pois, além de ser o primeiro single dos Wailing Wailers, grupo do qual Bob Marley fazia parte, ficou em primeiro lugar nas paradas jamaicanas por cerca de 3 meses, no início de 1964.

Durante os anos 1960, o Reino Unido recebeu um número significativo de imigrantes jamaicanos. Nesse período, havia por lá uma subcultura denominada mods, composta por jovens de classe média, ligados a estilos musicais e tendências de moda. Os mods e os rude boys se identificaram e passaram a andar juntos. Dessa mistura, surgiram os primeiros skinheads, assim chamados por terem suas cabeças raspadas. Nessa época, ainda não tinham envolvimento com política ou questões raciais, o que veio a ocorrer apenas nos anos 1970.

O grande fluxo de jamaicanos na Inglaterra levou a um revival do ska. The Specials e Madness foram duas bandas britânicas formadas a partir da influência do ska jamaicano e que iniciaram suas carreiras regravando sucessos como Too Hot, de Prince Buster.

Hoje, o termo rude boy está associado apenas ao ska. Na Jamaica, os aficionados, os colecionadores de discos de ska, aqueles que se vestem de modo a demonstrar seu gosto pelo ska, são os rude boys atuais.

Da esquerda para direita, três ícones do ska: Roy Ellis, The Specials e Laurel Aitken. | foto: reprodução internet

Da esquerda para direita, três ícones do ska: Roy Ellis, The Specials e Laurel Aitken. | foto: reprodução internet