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Wickie Wackie Music Festival | foto: reprodução internet | Jamaica Experience

Wickie Wackie Music Festival transformando o mundo

Em sua sexta edição, o Wickie Wackie Music Festival já faz parte do extenso calendário de eventos musicais da Jamaica. Este ano, o festival acontecerá nos dias 5 e 6 de dezembro. O local, é claro, será a praia de Wickie Wackie, em Bull Bay, que fica no sudeste da ilha, a cerca de 16 quilômetros da capital, Kingston.

Kumar Bent, vocalista do RagingFyah, banda que idealizou o WWMF.  |  foto: divulgação | On The Roots Photography

Kumar Bent, vocalista do RagingFyah, banda que idealizou o WWMF.

O WWMF, como é conhecido, foi idealizado por uma banda de roots reggae chamada Raging Fyah. Formada em 2006, a banda traz influências que vão de Bob Marley e Peter Tosh, passando por Inner Circle e Maroon 5. Além de excelentes intérpretes, escrevem suas próprias canções, baseadas em suas experiências, sonhos, objetivos e nas mudanças que pretendem para o mundo. O grupo, de fato, encara a música como uma missão, entendem que estão ligados espiritualmente, com o objetivo de fazerem música juntos e, através dela, mudar o mundo.

Para esta edição, o WWMF contará com toda a experiência e expertise da Touch The Road, agência local de turismo urbano e entretenimento. A ideia é transformar a área num enorme camping para abrigar o público do festival, além de proporcionar aos amantes do reggae opções de passeios por Kingston, St. Andrew e St. Thomas.

O WWMF não é apenas mais um festival musical. É um evento completo: além dos shows ao vivo, sessões de sound systems, instalações artísticas, atividades na praia e até um amanhecer acústico, ao som de tambores. Porém, a música é o elemento fundamental e alguns dos artistas confirmados são feras como Morgan Heritage, Mystic Revealers, Raging Fyah e Jesse Royal. Para as sessões de sound system e dub, nomes locais como Gabre Selassie e Yaadcore e internacionais, como Roots Revival Sound, da Polônia e Damalistik Roots Survival, da França (ouça abaixo).

Como já disse, a ideia do Raging Fyah é mudar o mundo através da música e eles não estão sozinhos. A banda é uma das representantes de um movimento que se iniciou na Jamaica e hoje já tomou proporções mundiais: o Reggae Revival.

O termo surgiu em 2011, pelo autor Dutty Bookman. Na época, ele identificava o início de uma conscientização a respeito do valor de aspectos culturais jamaicanos, tendo a música na linha de frente. De um modo mais simples, Bookman percebeu que estava acontecendo uma espécie de retorno às origens, como se as pessoas tivessem se dado conta de que certas tendências e modismos estavam colocando de lado a verdadeira qualidade artística na música e em outras artes.

O que começou como uma referência para discussão nacional ganhou atenção pelo mundo. Prova disso é a recente e extensa matéria publicada na revista americana Vogue (clique aqui e veja a matéria). O Reggae Revival é uma verdadeira revolução cultural em curso. Além de Raging Fyah, Protoje, Chronixx, Jah9 e Addis Pablo fazem parte desse movimento.

O WWMF está chegando, mas ainda dá tempo de ir. A Touch The Road oferece um pacote de uma semana chamado Wickie Wackie Wanderers, com opção de hospedagem/acampamento e passe para fim de semana a partir de US$949. Os preços dos ingressos são os seguintes: US$18 para uma noite, antecipado, ou US$23, na bilheteria e US$38 para o fim de semana. Uma oportunidade de conhecer a Jamaica e assistir a shows incríveis, que farão parte de um novo capítulo da história da música jamaicana.

Assista à playlist de vídeos com alguns artistas presentes no WWWF 2015:

Jah9, uma das representantes da nova geração do reggae jamaicano. | foto: divulgação Jah9

O lugar da mulher na música jamaicana – parte 2

Atualmente, há na Jamaica uma nova safra de cantores e bandas de reggae lançando um outro olhar sobre o roots reggae. O auge do roots reggae aconteceu nos anos 1970, com grande influência espiritual do movimento rastafári e nomes como Johnny Clarke, Cornell Campbell, Bob Marley, Peter Tosh, Burning Spear e bandas como Black Uhuru, Steel Pulse e Culture.

Respeitar o passado, ter algo a dizer nas letras, tocar ao vivo e trabalhar de forma colaborativa com outros artistas. Essas regras são a base do trabalho da nova geração que, antes de simplesmente reeditar o passado, quer escrever seu presente de forma significativa. Chronixx, Protoje e a banda Raging Fyah são alguns exemplos.

No que se refere à presença feminina, se antes poucas mulheres se destacaram, hoje, Jah9, Etana, Sevana e Xana Romeo são algumas das cantoras que, seguindo essa mesma linha, têm ganho espaço e respeito no contexto do novo roots reggae.

As mulheres que são "a cara" do novo roots reggae jamaicano. | fotos: reprodução internet

As mulheres que são “a cara” do novo roots reggae jamaicano. | fotos: reprodução internet

Jah9 – ou Janine Cunningham – cantava desde criança mas, na universidade, com os amigos rastafári, encontrou lugar para sua poesia e suas ideias. A carreira propriamente dita começou em 2011, quando lançou os singles “Keep Holding On” e “Warning”. Em 2013, após mais alguns singles, lançou o álbum “New Name”. Nele, há canções que falam de temas como a hipocrisia autoritária (Intention e Preacher Man), ou que fazem referência à viagem psicológica provocada pelo uso da “erva sagrada” (Taken Up). A favorita do público, Avocado, é uma canção leve e divertida, sobre uma garota, inspirada em seu dia a dia pelas ideias rastafáris (assista ao clipe abaixo).

Nascida em 1983, assim como Jah9, Etana também gostava de cantar quando menina. Aos nove anos, mudou-se para os EUA com a família e lá chegou a fazer parte de um grupo vocal chamado Gift, no início dos anos 2000. Contudo, ela não se sentia à vontade com as demandas da indústria da música, que incluíam o uso de roupas sexy e letras sem grande profundidade. De volta à Jamaica, em 2005 Etana tornou-se backing vocal do cantor Richie Spice. Seu sucesso era tanto, que foi encorajada a iniciar carreira solo. Primeiro, gravou o single “Wrong Address”, de sua autoria e em 2008, lançou seu álbum de estreia, “The Strong One”. Curiosamente, seu nome verdadeiro é Shauna McKenzie e Etana é um nome em Swahili que significa “the strong one”. Etana lançou, posteriormente, mais três discos: “Free Expressions” (2011), “Better Tomorrow” (2013, gravado no Tuff Gong Studios) e “I Rise” (2014).

Sevana Siren tem 23 anos e é uma das grandes promessas da temporada. Nascida numa zona rural, Sevana diz inspirar-se em todos os lugares, todas as pessoas e todas as coisas. Além de cantar, também compõe e tem um estilo definido como indie-reggae. Ela gravou apenas dois singles, “Chant It” (2013) e “Bit Too Shy” (2014), mas, certamente, vale a pena acompanhar seus próximos passos.

Finalmente, a jovem Xana Romeo, de apenas 21 anos e filha do veterano cantor de reggae Max Romeo. Em 2014, Max lançou um disco chamado “Father & Sons”, juntamente com seus dois filhos adolescentes, Romario e Ronaldo, ou Rominal (grande dupla!). Agora, é a vez da filha, cuja linda voz tem gerado grandes expectativas. Ela já lançou dois singles: em 2014, “No Love” e em 2015, “Righteous Path” (ouça abaixo).

É bom perceber que a nova geração do roots reggae tem mulheres na linha de frente e não apenas nos backing vocals. Melhor ainda, elas têm muito a dizer e a cantar. Essas meninas prometem!

Assista ao clipe “Reggae”, da cantora Etana:

O grupo No-Maddz | foto: reprodução Internet

Great times are coming. Ou: Big Things A Gwaan!

A menção ao famoso slogan publicitário de uma certa marca de cerveja guarda forte semelhança com um termo comumente usado na Jamaica, ambos com a mesma intenção e significado: anunciar um evento excepcional, algo de proporções significativas e que promete causar impacto.

Chronixx é considerado uma das maiores revelações do reggae jamaicano na atualidade | Foto: reprodução Internet

Chronixx é considerado uma das maiores revelações do reggae jamaicano na atualidade

Não sabemos se a tal marca de cerveja entrega ou entregará o que promete, mas temos razões de sobra para acreditar que a Jamaica vai entregar o que vem prometendo nos últimos anos. Já ensinamos aqui que devemos esquecer o termo “terceiro mundo” quando falamos de música jamaicana, já que há motivos de sobra para entender que a ilha deve ser reconhecida como uma das grandes potências mundiais nesta área (leia Música jamaicana: muito além de Bob Marley).

Se é verdade que o reggae viveu sua “golden era” nos anos 70 e 80, também é verdade que o gênero teve o seu merecido “revival” nos anos 90, quando novos artistas surgiram e antigos nomes retornaram à cena. No Brasil, o fenômeno teve papel decisivo e contribuiu para o surgimento de inúmeras bandas, que por sua vez contribuíram não apenas para a formação e renovação do público, mas sobretudo para a consolidação do gênero no país.

Protoje: legítimo representante da nova escola do reggae jamaicano | foto: reprodução Internet

Protoje: legítimo representante da nova escola do reggae jamaicano

Duas décadas depois, um movimento muito parecido àquele já dá sinais de força suficiente para que artistas e produtores jamaicanos afirmem que vem aí um segundo “reggae revival”. É bom deixar claro que a música jamaicana nunca saiu de cena. Basta lembrar dos midiáticos Shabba Ranks, Shaggy, Sean Paul e outros representantes do dancehall, que ganharam lá os seus Grammys, emplacaram seus hits nas rádios pelo mundo e venderam muito disco nas últimas duas décadas.

Mas aqui nos referimos ao reggae mais clássico, aquele que remete mais à fundação do reggae jamaicano, nas letras engajadas e no ritmo hipnotizante que (desculpem) eles sabem fazer como ninguém. O “reggae roots”, como gostamos de dizer por aqui. Que também nunca saiu de cena, mas que viu seu protagonismo na indústria musical jamaicana perder espaço para a nova onda do dancehall, com seus sintetizadores e sua temática em grande parte voltada à violência e sexualidade. Qualquer semelhança com o mundo (e o Brasil) não é mera coincidência.

Curioso notar como o período que compreende as últimas duas décadas coincide com as profundas mudanças por que passou a indústria da música em escala global. O surgimento da Internet, o avanço da pirataria, as disputas jurídicas entre os grandes conglomerados da indústria musical contra gênios prodígios, capazes de criar sistemas e algoritmos que revolucionaram a maneira como acessamos e consumimos informação, inclusive e principalmente música.

Na “era da informação”, foi a vez das grandes gravadoras verem o seu protagonismo e poder de influência cederem espaço às novas e surpreendentes plataformas de distribuição de conteúdo, através das quais artistas poderiam encurtar as distâncias e intensificar o diálogo com seu público. Uma mudança de rumo sem precedentes, que abriu espaço para toda uma geração de novos e talentosos artistas mundo afora – que sabem muito bem usar a Internet a seu favor, obrigado.

Não seria diferente na Jamaica. Chronixx, Protoje, Jah Cure, No-Maddz, Jah-9, Tarrus Riley, Etana, Iba Mahr, Jesse Royal… são muitos os nomes que despontam como os legítimos novos representantes da escola jamaicana de fazer reggae. Não é mais do mesmo. É o “new roots”. Ou “conscious music”, como eles gostam de dizer por lá.

Ouça a playlist acima e assista às playlists exclusivas que montamos em nosso canal no Youtube (abaixo) para conhecer os jovens jamaicanos que estão fazendo a cabeça do público mundo afora. Desta vez, não tem mais volta: a Internet está aí a nosso favor.

Assista à playlist “New Reggae – part 2”, de Jamaica Experience: