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O romancista Marlon James, ganhador do Man Booker Prize 2015. | foto: reprodução internet

A Jamaica é destaque também na literatura

2015 está chegando ao fim e tem sido um ano importante para a Jamaica. Começou com as comemorações do aniversário de 70 anos de Bob Marley, em fevereiro, e passou por conquistas inéditas em esportes nos quais a Jamaica tem pouca ou nenhuma projeção, como o tênis (com Dustin Brown), o futebol (desempenho da seleção na Copa América e na Copa Ouro) e a natação (com Alia Atkinson). No último mês de outubro, foi a vez da Jamaica virar notícia através da literatura.

O escritor e a capa de “Brief History of Seven Killings”  |  fotos: reprodução internet

O escritor e a capa de “Brief History of Seven Killings”

Marlon James, um escritor jamaicano de 45 anos, foi o vencedor do Man Booker Prize, prêmio literário concedido anualmente ao melhor romance publicado em inglês. O Man Booker é o principal prêmio da literatura britânica e um dos mais importantes mundialmente. Desde 2014, a premiação passou a considerar autores de qualquer país, desde que a obra tenha sido escrita originalmente em inglês e publicada no Reino Unido.

O romance “Brief History of Seven Killings” é o terceiro da carreira da Marlon James. Com cerca de 700 páginas, o livro trata de um episódio acontecido na Jamaica, em 1976: uma tentativa de assassinato contra Bob Marley e sua equipe, justamente antes de um show em prol da paz, em Kingston. Política, conflitos sociais e raciais são tratados no livro com certa dose de humor e através de inúmeros personagens.

Curiosamente, a narrativa é feita por 15 desses personagens. A cada capítulo, uma surpresa, pois o leitor nunca sabe quem será o próximo a contar a história. Nenhum deles, no entanto, é Bob Marley. Mesmo estando no centro da trama, seu nome não é sequer mencionado, sendo tratado sempre por “The Singer” (O Cantor).

Jornal destaca o atentado sofrido por Bob Marley.  |  fotos: reprodução internet

Jornal destaca o atentado sofrido por Bob Marley.

A história do próprio autor é também singular. Nascido em Kingston, é filho de mãe detetive e pai advogado, o que, de certa forma, lhe credencia a desenvolver boas histórias policiais. Na prática, porém, apenas neste último trabalho a temática policial entrou em cena. Seus dois romances anteriores (“John Crow’s Devil” e “The Book of Night Women”) eram romances de época, voltados a aspectos históricos da Jamaica.

Comum na trajetória da maioria dos escritores, a persistência foi uma das qualidades fundamentais para o sucesso de James. Seu primeiro romance foi rejeitado exatas 78 vezes antes de ser publicado. Talvez mais uma semelhança entre brasileiros e jamaicanos, pois, pelo visto, eles também não desistem nunca.

Apesar da premiação, que deverá alavancar ainda mais o sucesso do livro, a obra foi criticada – especialmente no Reino Unido – por utilizar gírias jamaicanas e também norte-americanas, do Harlem, além de palavrões. Para dificultar ainda mais a vida dos críticos, há um capítulo inteiro escrito em patois, o dialeto jamaicano. No Brasil, a Editora Intrínseca adquiriu os direitos do livro, mas ainda não há previsão do lançamento em português.

E como Jamaica sempre tem a ver com a música, o jornal britânico The Guardian pediu a James que elaborasse uma playlist relacionada ao livro. São cinco canções que, segundo o autor, abrangem os 15 anos em que a história se passa. Se você não consegue esperar pela edição nacional, leia em inglês, ouvindo abaixo as sugestões de Marlon James:

Arleen, do General Echo: um reggae dos anos 1970, que fala sobre o esquema de segurança domiciliar, comum na ilha naqueles tempos;

Under Me Sleng Teng, de Wayne Smith: espécie de dancehall caseiro, do início dos anos 1980;

The Bridge is Over, de Boogie Down Productions: hip-hop americano com conexão jamaicana, de meados dos anos 1980;

Mr. Loverman, de Shabba Ranks: canção que marca o renascimento do dancehall, no final dos anos 1980;

Ghetto Red Hot (remix), do Super Cat: um impressionante híbrido de hip-hop e dancehall, lançado no início dos anos 1990.

Lady Saw, cantora jamaicana conhecida como a "rainha do dancehall" | foto: reprodução internet

Qual é o lugar da mulher na música jamaicana?

A Jamaica foi colonizada primeiramente por espanhóis, que trouxeram os primeiros escravos africanos e, posteriormente por ingleses. Às culturas latinas e africanas, que têm em comum uma alta dose de machismo, somou-se, no caso da Jamaica, a questão dos princípios seguidos pelos rastafáris, os quais acabam por colocar a mulher em posição secundária, de submissão.

Foto de família jamaicana no início do século XX |  foto: reprodução internet

Foto de família jamaicana no início do século XX

Os reflexos disso na sociedade jamaicana são muitos e bastante cruéis, em alguns casos. As mulheres resistem ao planejamento familiar, especialmente por conhecerem a posição contrária de seus pares. Elas costumam ter muitos filhos, de diferentes parceiros e a razão é, sobretudo, econômica: se um pai não reconhecer suas responsabilidades, quem sabe outro o faça.

Mulheres criando filhos sem a ajuda ou presença do pai são uma instituição na Jamaica. Estima-se que oito em cada dez crianças nasçam fora de um casamento. Esse desajuste familiar tem consequências prejudiciais, tanto para as mulheres quanto para as crianças.

Atualmente, as mulheres representam cerca de 46% da força de trabalho na ilha, a maior taxa per capita do mundo. Submetem-se a todo tipo de trabalho, especialmente àqueles rejeitados pelos homens, em confecções ou como empregadas domésticas. Desempenham funções cujos salários são baixos e recebem menos que homens exercendo a mesma função. A participação das mulheres jamaicanas em posições de alta gerência não chega nem a 10% do total.

"Dancehall party": ritmo envolvente e performances sensuais  |  foto: reprodução internet

“Dancehall party”: ritmo envolvente e performances sensuais

As manifestações culturais de um povo refletem suas características, seu modo de pensar, seus problemas. Assim é na música. Enquanto as letras dos roots reggae eram mais filosóficas e às vezes até messiânicas, o dancehall e o ragga (dancehall digital) são mais explícitos na crítica social, ou quando tratam de violência ou sexo. Nesse sentido, aproximam-se do funk carioca, inclusive nas performances e nas danças extremamente sexualizadas.

De um lado, cantores como Shabba Ranks – que fez grande sucesso nos anos 1990 sendo, inclusive, considerado símbolo sexual –  com letras onde o sexo é quase uma obsessão e a mulher, um mero objeto. Atualmente, na mesma linha, Elephant Man canta pérolas como Whine Up.

Como resposta, há mulheres que resolveram combater o machismo através da música, como Lady Saw. Em Not In Love (ouça a faixa acima) e Rich Girl, por exemplo, ela coloca a mulher no poder, dona de seus sentimentos ou de seu dinheiro. Já Tanya Stephens vai da reclamação pelo tratamento recebido, como em Lying Lips e It’s A Pitty (ouça abaixo), até a dominação através do sexo, como em UnapologeticPon Di Side.

Há quem defenda que a posição da mulheres na Jamaica não é tão crítica, pois segundo esse raciocínio, elas conseguem manipular os homens através da sexualidade, fazendo-os sentir donos da situação. Sinceramente, prefiro acreditar numa outra linha, que demonstra que a escolarização está crescendo junto às mulheres jamaicanas. Como as brasileiras, elas são dedicadas e acabam tendo mais anos de estudo, e isso, a médio prazo, as levará a uma independência social e financeira que lhes permitirá tratar de seus relacionamentos de igual para igual.

Assista o clipe “Unapologetic”, de Tanya Stephens:

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Cidade Negra: reggae brasileiro tipo exportação

Precursores do reggae no país e primeiro grupo brasileiro do gênero a atingir projeção nacional e internacional, o Cidade Negra trouxe inegáveis contribuições no sentido de uma afirmação da cultura reggae no Brasil e em outros países do mundo. Ao longo de 28 anos de carreira, o grupo acumulou hits, conquistou uma legião de fãs e investiu como nenhum outro na interlocução Brasil-Jamaica.

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Cidade Negra em sua formação atual: Bino, Toni Garrido e Lazão.

Baixada Fluminense. Rio de Janeiro. 1986. Subia ao palco, pela primeira vez, a banda Lumiar. O grupo, formado por quatro admiradores do reggae (Bernardo Rangel – Ras Bernardo, Da Gama, Bino Farias e Lazão), logo viria a ter de mudar o nome da banda (em função do nome Lumiar já ter sido registrado, à época, por outra banda). Bino Farias (baixista) recebeu em sonho o nome Cidade Negra, referência ao fato de o Brasil ser a nação com a segunda maior população negra do mundo. O nome foi imediatamente aceito e, no decorrer da segunda metade dos anos 80, a banda já se apresentava como Cidade Negra, a primeira representante do reggae no Brasil que atingiu projeção nacional e internacional.

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Capa de “Lute Para Viver” (1991)

Ainda no final da década de 1980, um documentário da BBC de Londres sobre a cultura local na Baixada Fluminense viria a jogar holofote na arte do quarteto de Belford Roxo e tal destaque resultaria num contrato com uma grande gravadora e no lançamento do primeiro disco (“Lute Para Viver”, 1991). O disco pode e deve ser reconhecido na qualidade de primeiro álbum de uma banda brasileira de reggae – trouxe o primeiro grande hit da banda (Falar a Verdade) e o luxo de uma participação especial do ídolo jamaicano Jimmy Cliff, na faixa Mensagem. “Lute Para Viver” trazia ainda uma versão digna de respeito para o clássico Jah Jah Made Us For A Purpose (Winston Foster – mais conhecido como Yellowman). Na versão do Cidade Negra, a música, cantada pelo baterista Lazão, foi chamada Nada Mudou (ouça abaixo).

Em 1992, a banda lança “Negro no Poder”, um álbum de inegável potência política progressista e de uma sonoridade facilmente comparável à fase de maior prestígio da banda jamaicana Black Uhuru (a título de exemplos, ouça a faixa Conciliação, abaixo, além de Sai-Lário e Na Frente da TV). “Negro no Poder” viria a ser o último disco com Ras Bernardo na posição de vocalista do Cidade.

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“Sobre Todas as Forças” (1994), já com Toni Garrido nos vocais: o disco é considerado uma coletânea de sucessos da banda.

O terceiro álbum, “Sobre Todas As Forças” (1994), situa a entrada de Toni Garrido para a banda, trazendo o tempero soul com o qual o Cidade já flertava desde o início de sua formação. No entanto, esse álbum – que pode ser tomado como uma coletânea de sucessos da banda –, seguiria marcando compromisso com a “música que bate sem machucar”. Querem Meu Sangue, versão de Nando Reis para a clássica The Harder They Come (eternizada por Jimmy Cliff) é uma das faixas que se destacam no disco que ainda presenteia o público (de reggae, mas não só) com Casa (mais um ponto de referência  à banda Black Uhuru), Minha Irmã, Doutor, Mucama, Luta de Classes e os grandes sucessos radiofônicos A Sombra da Maldade, Pensamento (composição do período de Ras Bernardo), Onde Você Mora? (composta por Nando Reis e Marisa Monte) e a emblemática Downtown, que conta com a participação de Shabba Ranks, gigante do dancehall jamaicano. A música é a narrativa das viagens de uma banda de reggae que tem o privilégio de encontrar-se com ídolos do tamanho de Ziggy Marley e Jimmy Cliff. Uma banda credenciada a apresentar-se no Reggae Sunsplash Festival (Montego Bay, Jamaica) na qualidade de primeira representante latino-americana a tocar nesse importantíssimo festival. Downtown alude, portanto, à ambição maior de toda banda de reggae: expor sua música na Jamaica de Shabba Ranks, Burning Spear, Wailing Souls, Big Youth e Cocotea.

A carreira do Cidade Negra se consolida definitivamente com o disco “O Erê” (1996). Nele, os fãs da banda puderam constatar a maturidade do ofício artístico dos cariocas em canções como O Erê [faixa-título que presta homenagem, em yorubá, à criança (em geral) e, particularmente, às crianças que passam a compor as famílias de integrantes da banda]. É um disco, aliás, marcado pelo sentimento de família, como se pode perceber no videoclipe de Firmamento, o grande hit do disco, que é, por sua vez, mais uma versão da banda para uma música de Mr. Yellowman, o rei do dancehall: Wrong Girl To Play With (ouça as duas versões abaixo). Por falar em versão, há mais uma ótima versão neste álbum. Trata-se de Simples Viagem – a original é intitulada Sitting And Watching (canção de Dennis Brown, “príncipe do reggae”). E, por falar em dancehall, ainda há de se destacar Realidade Virtual, mais um grande sucesso que, à época da gravação, contou com a participação da cantora jamaicana Patra e rendeu um belo videoclipe, indicado a diversos prêmios. “O Erê” traria outras pérolas, como Jah Vai Providenciar e a participação de Inner Circle em Free.


A história vitoriosa do Cidade Negra seguiu com “Quanto Mais Curtido Melhor” (1998), disco que explora a MPB sem perder a tônica do reggae (como pode ser facilmente constatado em faixas como Rio Pro Mar, O Vacilão e a versão para Nos Barracos da Cidade, de Gilberto Gil). Grandes acertos como Já Foi, Sábado à Noite, A Estrada e A Cor do Sol também fazem parte da tracklist deste que é um dos trabalhos mais bem produzidos do quarteto. No ano seguinte, os fãs foram surpreendidos (leia-se presenteados) com um álbum duplo. “Hits” é uma compilação de grandes sucessos (com a inclusão de Eu Também Quero Beijar, de Pepeu Gomes) e o álbum de “Dubs”, que merece um parágrafo à parte por se tratar de um dos trabalhos que talvez mais explicitem o potencial e prestígio da banda junto a nomes consagrados do reggae mundial.

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O Cidade Negra foi considerado pela crítica dos anos 90 como sendo uma “fábrica de hits” e passou a arrastar multidões para seus shows.

Reggae em seu estado mais lisérgico e mais psicodélico possível. Eis uma boa definição do dub. Num momento em que, no Brasil, pouco se falava em dub, o Cidade Negra lança um disco com versões dub para catorze músicas de seu repertório e, para tanto, conta com a participação de doutores em reggae e dub, como Augustus Pablo, Steel Pulse, Sly & Robbie, Aswad, Lee Perry e Mad Professor; além de ótimos dubs produzidos por Paul Ralphes, Nelson Meirelles, Liminha e uma faixa trabalhada pela “cozinha” da casa, Lazão e Bino. Um disco obrigatório para qualquer fã de música jamaicana. Ouça abaixo a versão dub para a faixa Realidade Virtual.

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O álbum “Direto” (2006), com participação de Toni Garrido e Da Gama, que sairiam do grupo em seguida.

Marcando a passagem para o novo milênio, “Enquanto O Mundo Gira” (2000) vem com guitarras e destaques como Na Moral, Cidade Partida e A Flecha e o Vulcão (esta última teve videoclipe filmado na Jamaica, em lugares emblemáticos para os amantes do reggae, como o Trenchtown Culture Yard, por exemplo). Em 2002, um álbum “Acústico” com versões desplugadas de grandes clássicos, os lançamentos de Berlim e Girassol, a presença (mais que especial) de Gilberto Gil e mais uma excelente versão – dessa vez, para a canção de Chuck Berry na consagrada leitura de Peter Tosh – Johnny B. Good. Em 2004, “Perto de Deus”, disco mixado na Jamaica, viria a retomar um reggae clássico, recheado de dub, com participação do jamaicano Anthony B na faixa-título e uma versão para Concrete Jungle (Bob Marley & The Wailers), além dos sopros que aludem a Burning Spear na música Dia Livre. Na sequência, dois álbuns Ao Vivo: “Direto” (2006) e “Diversão” (2008), este último com grandes acertos da música brasileira gravados em releitura jamaicana.

foto: reprodução internet

Alexandre Massau, entre Bino Farias (à esquerda) e Lazão, esteve à frente dos vocais para o lançamento do disco “Que Assim Seja” (2010).

Com a saída de Toni Garrido (voz) e Da Gama (guitarra), Bino e Lazão lançam, em 2010, o disco “Que Assim Seja”, com novo vocalista, o mineiro Alexandre Massau. O disco traria a participação do DJ/toaster jamaicano Ranking Joe em Na Onda Do Jornal / Espera Amor (citação da parceria dos bambas Agepê e Canário). Toni Garrido volta ao microfone do Cidade Negra em janeiro de 2011 para uma série de shows e o trio (Toni, Bino e Lazão) encaram, mais uma vez, o estúdio e mais uma ida à Jamaica para a mixagem, entre 2012 e 2013, do mais recente álbum de inéditas da banda. Intitulado “Hei, Afro!” numa alusão à diáspora africana, o disco é um passeio nos mais diversos tipos de reggae: da sonoridade tradicional de Diamantes ao dancehall em Don’t Wait.

Atualmente, o grupo está em turnê pelo país em comemoração aos 20 anos de lançamento do álbum “Sobre Todas as Forças” (1994). Seja pelo disco, seja pela longa e vitoriosa carreira até aqui, há motivos de sobra para comemorar.

Ouça a coletânea “Hits”, com os maiores sucessos do Cidade Negra: