Posts

A banda No Doubt, da vocalista Gwen Stefani: Influências da música jamaicana e discos produzidos na ilha. | Foto: reprodução internet

World a Reggae – No Doubt: reggae music “underneath it all”

A influência da música jamaicana é assunto do qual já tratamos anteriormente (ver “A onda jamaicana que invadiu o Reino Unido“). Isso aconteceu não apenas no Reino Unido, mas também nos EUA, onde um dos bons exemplos é a banda No Doubt, da vocalista Gwen Stefani.

Gwen Stefani fez homenagens à Jamaica e ao reggae ao batizar dois de seus três filhos | foto: reprodução internet

Gwen Stefani fez homenagens à Jamaica e ao reggae ao batizar dois de seus três filhos

Inspirada na banda inglesa Madness – uma das primeiras responsáveis pelo revival do ska nos anos 1970 – a americana No Doubt foi criada em 1987. No início, era uma mistura de  new wave e ska. Começaram a fazer sucesso na Califórnia, onde a banda nasceu, e gravaram seu primeiro disco (“No Doubt”) em 1992. Então, sofreram o impacto da invasão do movimento grunge, também conhecido como som de Seattle (Nirvana, Pearl Jam e companhia). Mantiveram seu estilo e com alguma influência do punk rock, lançaram o segundo álbum (“The Beacon Street Collection”), em 1995.

Ainda em 1995, lançaram um novo álbum (“Tragic Kingdom”) que marcava o fim do relacionamento entre a vocalista Gwen e o baixista Tony Kanal. A temática, aliada à vocação pop de Gwen, sempre presente na mídia, ajudaram a promover o disco, que chegou ao primeiro lugar nas paradas. O álbum seguinte, “Return of Saturn”, saiu apenas em 2000 e teve boa aceitação de crítica e público, com sucessos como Simple Kind of Life e Ex-Girlfriend.

Contudo, a influência jamaicana está mais evidente no quinto álbum, chamado “Rock Steady” (ouça abaixo, na íntegra). Lançado em 2001, o álbum começou a ser gravado em Los Angeles e San Francisco. Posteriormente, a banda seguiu para Londres e Jamaica e trabalhou em conjunto com diversos intérpretes, autores e produtores. Entre eles, os jamaicanos Sly Dunbar & Robbie Shakespeare – que já foram produtores de artistas como Peter Tosh, Bob Dylan e os Rolling Stones – os americanos do The Neptunes (duo de Pharrel Williams) e o inglês William Orbit, produtor de Madonna.

Com tantas estrelas, o resultado só poderia ser excepcional. Dub jamaicano, pop eletrônico e dance são alguns dos estilos que dão forma ao disco, que vendeu cerca de 3 milhões de cópias. Dois destaques são as faixas Hey Baby e Underneath It All. A primeira, com a participação do DJ jamaicano Bounty Killer, gerou o single que rendeu ao No Doubt o quinto lugar na Billboard Hot 100.

Underneath It All,  escrita por Gwen Stefani e Dave Stewart, do Eurythmics, tem suas curiosidades. A banda foi visitar Dave, a quem não conheciam, em seu apartamento. Em quinze minutos, sentados na cozinha, Gwen e Dave tinham a música pronta. Para o álbum, a canção foi gravada com a participação da cantora de reggae jamaicana Lady Saw (assista ao videoclipe acima).

Depois de um hiato de mais de dez anos, nos quais Gwen teve sua carreira solo, além de três filhos, a banda lançou, em 2012, o disco “Push and Shove”, cuja finalização foi feita em um estúdio na Jamaica (ouça abaixo a faixa que dá nome ao disco, com participação especial do jamaicano Busy Signal). A produção, dessa vez, ficou a cargo do DJ americano Diplo, do Major Lazer.

Gwen, aliás, foi bastante criativa ao dar nomes a seus filhos e, em dois deles, expressou sua forte relação com a Jamaica. O mais velho é Kingston James McGregor Rossdale, sim, Kingston, como a capital da Jamaica. O do meio chama-se Zuma Nesta Rock Rossdale, sendo que Nesta é o segundo nome de Robert (ou Bob) Marley. O mais novinho, nascido em fevereiro deste ano, é Apollo Bowie Flynn Rossdale, mas Bowie and Flynn são nomes de solteira da mamãe. Além de extensos, os nomes trazem inúmeras homenagens e referências a pessoas e locais importantes para Gwen e seu marido, Gavin Rossdale. Pelo bem das crianças que estão por vir, esperamos que essa moda não pegue!

Ouça o disco “Rock Steady”, do No Doubt, na íntegra:

Bob Marley, o rei do reggae | foto: reprodução internet

Is this love that I’m feeling? 34 anos sem Bob Marley

Um dos músicos mais importantes do século 20, Bob Marley foi mais que um artista genial. Nascido na Jamaica, filho de um capitão da marinha inglesa com uma negra camponesa, foi o inventor de um estilo e principal responsável por sua popularização em todo o mundo. 34 anos depois de sua morte, ocorrida em 11 de maio de 1981, não há como falar em reggae sem lembrar de Bob Marley.

Robert Nesta Marley, o Bob Marley que todo mundo conhece, foi um artista completo. Da música às atitudes, a imagem que se tem dele é a de um músico talentosíssimo e de um líder extremamente preocupado com o destino da humanidade.

Bob nasceu em St. Ann, um vilarejo de Nine Miles, zona rural jamaicana. Sua mãe, uma negra camponesa chamada Cedella Booker, engravidou de um capitão da marinha inglesa, Norval Sinclair Marley, que desapareceu logo em seguida. Bob passou a maior parte da infância com o avô, Omeriah Malcolm, um feiticeiro-curandeiro jamaicano cujas palavras de sabedoria o acompanharam em toda sua trajetória.

Ainda criança, no ano de 1955, Bob mudou-se para Kingston, capital jamaicana, onde teve de deixar as brincadeiras de criança do campo para enfrentar a dura realidade de um gueto miserável. Podertia ter se transformado em mais um delinquente condenado à morte prematura ou a longas temporadas na cadeia mas, pare ele, a música falou mais alto.

Sob influência do rhythm’n blues Americano – Fats Domino, The Moonglows e Curtis Mayfield eram os grandes nomes do gênero à época – era cada vez maior a admiração do garoto Robert Nesta pela música.

Sua primeira experiência em estúdio aconteceu em 1962, quando Jimmy Cliff – na ocasião um ilustre desconhecido – apresentou-lhe a Leslie Kong, um chinês que topou arcar com as despesas com músicos e aluguel de estúdio. Bob então gravou duas composições: Judge Not e Do You Still Love Me?, apenas mais um fracasso entre tantos cometidos por diversos jovens daquela pequena – e até então desconhecida – ilha do Caribe.

À época, a mãe de Bob estava casada com um tal de Toddy Livingston – cujo filho, Bunny Livingston (hoje conhecido como Bunny Wailer), passou a compor com Bob algumas músicas. Mais tarde, Winston Hubert Macintosh (Peter Tosh) juntou-se à dupla. Estava formado o grupo “Wailing Wailers”.

Em 1964, o trio emplacou a música Simmer Down, o primeiro de tantos outros sucessos que viriam em seguida. O ritmo ainda era o Ska. As letras eram fortes, engajadas e expunham as dificuldades enfrentadas pelos Wailing Wailers no dia a dia dos subúrbios de Kingston, a mesma realidade enfrentada por toda uma geração de jovens daquele lugar, sobre os quais Bob, Bunny e Peter exerciam grande influência.

Foi em meados de 1968 que o reggae começou a tomar a forma e o conteúdo tal qual conhecemos atualmente. O Rock Steady – considerado o avanço do Ska, com o baixo mais forte e a batida mais acelerada – serviu como elo de ligação com o reggae, que agora trazia com ele a fé rastafári. Entre outras tantas coisas, o rastafarianismo pregava a volta dos negros e seus descendentes à África e atribuía poder de cura à maconha. Haile Selassie, ex-imperador da Etiópia, era tido como um novo “Messias”. Seu nome de batismo era Ras Tafari Makonnen, daí a origem do termo Rastafari.

Agora, mais do que letras de protesto, o reggae engajava-se numa causa mais espiritual. A crença rastafári uniu-se aos ideais revolucionários de Bob Marley e seus comparsas e não demorou muito para que os rastas misturassem o som de seus tambores às guitarras e outros instrumentos nos estúdios. A música popular caracterizou-se então com um aspecto “gordo”, muito mais pesado do que antes. Baixo e bateria estavam à frente e as melodias eram, no mínimo, intrigantes.

Em 1966 Bob casou-se com Rita Anderson. No dia seguinte ao casamento, viajou para os EUA, chegando a Delaware, na Filadélfia, para tentar a sorte nas linhas de montagem das fábricas de automóveis. Há quem diga que era uma maneira de Bob tentar trilhar outros caminhos, haja vista a dificuldade que encontrara em se manter como músico na Jamaica. Para outros, era apenas uma forma de conseguir um dinheiro extra para tentar levar sua música mais longe, frequentar os melhores estúdios e, quem sabe, gravar um bom disco. Não deu outra: a música mais uma vez falou mais alto e Bob Marley voltou para a Jamaica, onde sua carreira de cantor e compositor finalmente decolou.

De volta à ilha, Bob reencontrou os amigos Peter Tosh e Bunny Wailer. Juntos, passaram a frequentar os melhores estúdios da Jamaica e em 1969 conheceram o produtor Lee “Scratch” Perry, que os presenteou com or irmãos Carlton (bateria) e Aston Barret (contrabaixo). A partir daí, o grupo passa a se chamar “The Wailers”. Segundo Rita Marley, Lee Perry despertava um lado irreverente e alegre da personalidade de Bob, o que ninguém havia conseguido até então. E isso rendeu bons frutos para ambos. Mas nem tudo foram flores na parceria de Bob Marley & The Wailers com o produtor. Com algumas belas composições inéditas nas mãos, Perry achou que elas lhe pertenciam por direito e as vendeu para a Europa. Isso explica a enorme quantidade de discos “não oficiais” de Bob Marley & The Wailers em todo o mundo, com fotos de capa diferentes para o mesmo conteúdo.

O melhor momento da carreira de Bob Marley & The Wailers, entretanto, viria mais tarde, com a proposta de Chris Blackwell, dono da gravadora Island Records, de lançá-los no mercado internacional. De fato, a música estava redonda, o ritmo jamaicano estava pronto para explorar novos mercados. O reggae já havia dado as suas caras pelo mundo com o lançamento do filme “The Harder They Come” (1971), de Perry Henzel, com Jimmy Cliff no papel principal e através das músicas Ob-La-Di, Ob-La-Da (Beatles, 1968, com acompanhamento de uma banda jamaicana) e I Can See Clearly Now (Johnny Nash, 1972). Porém, nada que chamasse a atenção do mundo para o novo ritmo.

Com o lançamento do álbum “Catch a Fire”, em 1972, não demorou para que a Inglaterra desse ouvidos ao som dos Wailers. O disco era uma produção esmerada, uma mistura do som original dos Wailers gravado na Jamaica com algumas sessões gravadas em Londres – um time competente de técnicos e engenheiros de som especialmente contratados pela Island para este trabalho participou da gravação. Apesar de as vendas iniciais não ultrapassarem as 14.000 cópias, o disco recebeu elogios da crítica e o reggae estava definitivamente inserido no cenário musical internacional. O segundo disco, “Burnin’”, lançado em 1973, acabou por conquistar não só o público, mas também alguns dos grandes nomes do showbizz mundial na época. Eric Clapton regravou I Shot The Sheriff, fato que por si só já dava credibilidade suficiente para Bob Marley e sua trupe seguir em frente com sua música.

Porém, dois dos integrantes originais dos Wailers, Peter Tosh e Bunny Wailer saíram, abrindo espaço para Bob, agora líder da banda. Em 1974 veio o álbum “Natty Dread” (o nome estampado nas capas dos discos agora era Bob Marley & The Wailers). Com uma liberdade maior e mais autonomia sobre a banda, a carreira de Bob Marley decolou de vez. Os Wailers contavam agora com um poderoso trio de backing vocals, as I-Threes. Rita Marley, Marcia Griffiths e Juddy Mowat acompanharam Bob Marley & The Wailers numa curta temporada no Lyceum de Londres, que deu origem ao álbum “Live”, de 1975. Essa foi a formação mais consagrada da banda, aquela que todo mundo já deve ter visto, seja em clipes ou nos inúmeros documentários e fotos sobre Bob Marley, na TV ou na web. É também a mais produtiva, já que deu origem a mais de meia dúzia de discos, todos contendo grandes sucessos na voz de Marley.

Sessão de fotos que deu origem à capa de "Natty Dread", de 1974: a banda agora passaria a se chamar "Bob Marley & The Wailers".  |  foto: reprodução internet

Sessão de fotos que deu origem à capa de “Natty Dread”, de 1974: a banda agora passaria a se chamar “Bob Marley & The Wailers”. | foto: reprodução internet

As coisas mudaram bastante na vida do rei do reggae. Ele ainda passava a maior parte do seu tempo na Jamaica, porém, vivendo numa mansão na área chique de Kingston, onde não só recebia amigos e parentes, como lhes dava toda a assistência necessária. A bondade de Marley o impedia de negar favores às pessoas, o que acabou por fazê-lo perder o controle das coisas. Ele era popular mundialmente, rodava o mundo fazendo shows e seu tempo era cada vez mais escasso. Esteve no Brasil em 1980, onde entre outras coisas, jogou bola no campo de Chico Buarque.

Um ano antes lançou “Survival”, o disco que calou a boca dos críticos que diziam que ele tinha se vendido ao sistema. No disco, que traz na capa bandeiras de países africanos, Bob cantava a volta dos negros à África, um dos principais pilares da cultura rastafári. Na festa de independência do Zimbabwe, Marley experimentou glórias de chefe de estado e foi absurdamente aclamado pelo público, que via em sua figura a de um revolucionário, um libertador.

Ele havia passado por uma experiência parecida em 1976, quando foi convidado a tocar em uma festa apoiada pelo governo jamaicano. Após aceitar o convite, teve sua casa invadida por um grupo de pistoleiros que abriram fogo contra ele, sua esposa, Rita, e seu empresário, Don Taylor. Rita Marley foi atingida na cabeça, Taylor quase morreu e Bob levou um tiro no braço. O atentado não impediu a realização do show, dois dias depois, na Arena Nacional dos Heróis. No estádio, 70 mil pessoas louvavam Marley, cantando em coro suas músicas.

Após machucar o dedo do pé durante uma partida de futebol na França, Bob deveria ser exposto a uma cirurgia de amputação do dedo, o que não aconteceu em virtude do fato contrariar sua crença rastafári, que o impedia de cortar qualquer membro do seu corpo. O câncer manifestou-se primeiro na perna, na forma de uma simples contusão, mas Bob manteve-se fiel àquilo que acreditava até o fim. Após algumas frustradas tentativas de recuperação, Bob sucumbiu à doença no dia 11 de maio de 1981, deixando para trás um legado que só aumenta com o passar dos anos.

Sua herança financeira, estimada em U$ 100 milhões à época de sua morte, foi motivo de inúmeras e incansáveis disputas nos tribunais envolvendo parentes, empresários, amigos e inimigos. Confusões à parte, Marley foi e ainda é o primeiro e único superstar do “terceiro mundo”, e 34 anos depois de sua morte, seu público cresce a cada dia nos quarto cantos do planeta. Sua mensagem, sempre carregada de paz, amor e liberdade, contagiou negros, brancos, ricos e pobres, e levou o ritmo jamaicano ao conhecimento de todos. Graças a ele, o reggae não cabe no rótulo de World Music.

Duas coletâneas lançadas muito tempo depois de sua morte, “Legend” e “Natural Mystic” (também conhecido como Legend 2) são seus discos de maior sucesso. O primeiro figura até hoje na lista dos três discos mais vendidos do mundo em todos os tempos. O álbum “Exodus”, de 1977, foi eleito o melhor disco do século XX pela revista Time, mais um de seus feitos históricos.

Mais que um músico ou artista, Bob Marley foi um revolucionário que fez da sua música a voz dos excluídos, um líder extremamente preocupado com o destino da humanidade. Um poeta negro num país pobre onde só os brancos tinham voz e um religioso que manteve-se fiel àquilo que acreditava até a morte. Tornou-se um mito, figurinha fácil em camisetas, adesivos e bandeiras ao redor do globo. É por essas e outras que Bob Marley faz valer a máxima “Quem foi Rei nunca perde a Majestade”.

Ouça a coletânea “Songs Of Freedom”, de Bob Marley & The Wailers: