Jamaica e a maconha: entenda a relação

Associar a maconha à Jamaica é algo comum. Afinal, lá nasceu o movimento rastafári, que considera o uso da erva sagrado. Além disso, grandes ídolos jamaicanos foram defensores da maconha, sendo o mais famoso deles Bob Marley. Essa associação leva a pensar que a maconha seria legalizada no país, o que não acontece.

A história da maconha na Jamaica vem da época da chegada dos trabalhadores indianos. Com o fim da escravidão, milhares deles foram trazidos pela Grã-Bretanha, pois eram uma opção de mão de obra barata para as lavouras. O hábito de fumar maconha e as primeiras mudas da Cannabis vieram com eles.

Em 1913, na Jamaica, grupos religiosos e a elite branca dominante pressionaram o governo para que a maconha fosse proibida e assim surgiu a chamada Ganja Law (ganja é como a maconha é popularmente conhecida na Jamaica). O efeito foi extremamente nocivo aos negros, que eram o grupo que majoritariamente a consumiam.

Na década de 1930, por um misto de questões econômicas e sociais, a maconha foi proibida nos Estados Unidos. Na sequência, diversos países adotaram a mesma medida. De modo semelhante ao ocorrido na Jamaica, a maconha foi associada a minorias pobres, como latinos (nos EUA), árabes (na Europa), além dos próprios negros (no Brasil, inclusive).

Guia jamaicano em plantação da erva  |  foto: reprodução internet

Guia jamaicano em plantação da erva | foto: reprodução internet

Até os anos 1980, todos os estudos relativos à maconha eram relacionados aos prejuízos causados por ela no uso recreativo ou seus efeitos sobre animais. Foi então, que o Dr. William Notcutt, médico anestesista britânico, especialista em dor, encontrou indícios da eficácia do tetrahidrocanabinol (THC), principal substância química ativa da Cannabis, no combate à dor. Aos seus estudos seguiram-se outros, nos Estados Unidos, por exemplo, relacionados ao uso da maconha no combate aos sintomas da Aids.

Mais recentemente, outro componente da maconha, o canabidiol (CBD), passou a ser estudado. Seu uso no combate a doenças como esclerose múltipla, câncer e esquizofrenia vem sendo testado. Porém, é em pacientes portadores de epilepsias severas que se tem observado resultados mais concretos. Casos nos Estados Unidos, onde em alguns estados (como Colorado e Washington) a maconha é legalizada, e no Brasil, vem sido amplamente divulgados na mídia.

Aqui no Brasil, a  menina Anny Fischer, de 5 anos de idade e que sofre de uma epilepsia rara, começou a ser tratada com óleo de cânhamo (extraído do caule da maconha), importado ilegalmente dos EUA. Segundo a mãe, Katiele, Anny, que chegava a ter convulsões a cada duas horas está há 60 dias sem nenhuma crise. A família obteve liminar na justiça e conseguiu a liberação do medicamento. Este fato deve servir de precedente para outros casos.

Países como Holanda, Canadá, Portugal, Espanha, Israel e, mais recentemente, Uruguai, flexibilizaram as restrições de uso da maconha. Parece ser uma tendência mundial, fundamentada nos benefícios medicinais e também no direito à liberdade individual. No Brasil, o uso do canabidiol está muito próximo de ser liberado pela ANVISA (a decisão deve sair ainda em agosto), mas a descriminalização ou legalização da maconha ainda é polêmica.

E como o assunto aqui é Jamaica, por lá é aguardada para este ano a descriminalização da maconha. Isto não significa legalização, mas deixa-se de considerar como um delito o consumo em pequenas quantidades. Assim, os usuários que forem pegos consumindo ou portando a erva não sofrerão processos penais, atenuando um problema social recorrente na ilha.


fonte: Vice News Brasil (www.vice.com/pt_br)